sexta-feira, abril 03, 2026

Não Vou Morrer

Depois da chuva. Como um domingo. Não vou morrer*.

 

A morte é um assunto que me é comum, devo dizer.

 

Sim, por ser médico e lidar com pessoas (pacientes) muitas vezes em seu limite, em seus momentos finais, ou – por outro lado – afastando esse risco, ou possibilidade, ao menos temporariamente, do horizonte de quem me procura em busca de ajuda. De qualquer forma ela está sempre ali, pela volta, rondando e fazendo de tudo para não ser esquecida.

 

Também porque é parte da vida convivermos com o seu fim. Familiares, conhecidos mais ou menos próximos. Pessoas que admiramos. Todos vamos ter nossa experiência com a morte.

 

Eu tive algumas, ao longo do tempo.

 

Quase morte, hospital, vi - pela janela que não existia - um campo verde em um dia de sol intenso, que tudo iluminava, mas não tive vontade de caminhar para essa luz. Não era minha hora, ou era apenas um sonho de uma longa noite de sábado que durou treze dias e que me fez acordar com muita fome há mais de trinta e cinco anos? Não sei, não penso nisso e nem importa mesmo.

 

Lembrei disso agora porque estava lendo em algum lugar sobre o que as pessoas que estavam para morrer mais se arrependiam, e eram os encontros não realizados, as palavras não ditas, os – licença poética minha – churrascos não feitos. Não eram os bens materiais, mas as experiências não vividas, os momentos não compartilhados, as histórias não contadas.

 

Tenho procurado viver para não ter esse tipo de arrependimento. 

 

Memento Mori.


Até. 


* Bebeto Alves, 'Depois da Chuva'