quarta-feira, abril 02, 2025

Zamel

Uma história.


Há pouco mais de vinte anos, quando cheguei no Canadá para o meu pós-doutorado, em um sexta-feira de manhã, do aeroporto fui direto para o alojamento da University of Toronto, onde eu ficaria em minha primeira semana até encontrar um apartamento para alugar, e – após deixar minhas malas lá – fui direto para o Mount Sinai Hospital para encontrar o responsável pela minha ida: Dr. Noé Zamel.

 

Gaúcho de Rio Grande, após se formar em Medicina em Porto Alegre havia ido para os Estados Unidos ainda nos anos setenta e depois se radicado no Canadá, em Toronto, onde foi médico, pesquisador e algo como um Embaixador nosso por lá. Fomos inúmeros médicos gaúchos e de outros estados brasileiros que passamos algum tempo em Toronto por sua intermediação. 

 

Logo na minha chegada, ao encontrá-lo pessoalmente pela primeira vez, me abraçou e disse que “finalmente” eu chegara. Foi reconfortante ser bem recebido, e ele sempre me tratou com afeto e consideração. Isso era agosto de 2004.

 

Em abril de 2005, fizemos uma festa de setenta anos para ele, nós que trabalhávamos no Respiratory Research Lab, do Toronto Western Hospital. Em algum momento ele sugeriu que eu ficasse mais do que os dois anos por lá, mas eu tinha que voltar para casa, para o meu mundo.

 

Muitas histórias dele, que faria hoje, dois de abril de dois mil e vinte e cinco, noventa anos. Ele faleceu em outubro de dois mil e vinte. 

 

Foi um grande cara, e uma honra para mim ter podido conviver com ele.

 

Até.

terça-feira, abril 01, 2025

Abril

Sobrevivi a mais um mês de março. 

Me obrigo a falar disso, mesmo sabendo que não existe nenhuma base científica ou racional para esse fato que não é um fato, mas um acaso, uma coincidência, não mais que isso. Falo da lenda (que eu mesmo criei) de que o mês de março é perigoso para minha saúde.

 

Sim, é acaso que por três anos seguidos eu passei por situações de saúde significativas, digamos assim, sempre nesse mês. De dois mil e vinte e um – quando tive uma queda à noite com trauma de crânio sem perda de consciência, mas que evoluiu com uma arritmia que me levou a fazer um estudo eletrofisiológico que foi normal e tudo ficou bem – passando por dois mil e vinte e dois – em que fiz uma hérnia de disco cervical constatada após ter passado quinze dias de férias dirigindo com dores violentíssimas, mas que foi de tratamento conservador – chegando a 2023 - hérnia de disco lombar com cirurgia de urgência por compressão nervosa. Sempre março, parecia maldição.

 

Até que quebrei o encanto.

 

E o braço junto, ao cair de bicicleta em outubro do mesmo ano. Nova cirurgia, colocação de placa no punho direito. Duas cirurgias traumatológicas/ortopédicas no mesmo ano. Sem intercorrências.

 

Apesar de não acreditar em bruxas, passei março do ano passado atento para ver se seria repetida a “maldição”. Não foi e, depois dos cinquenta anos de idade, eu não era (não sou) mais ‘um cara que cai’. Mudei o discurso, mudei a narrativa, mudei a realidade. Quase tão simples quanto parece ao falar.

 

O mesmo aconteceu em outras dimensões da vida. Me aprendi alguém disciplinado, que se dedica ao que se propõe, que ‘dá a cara à tapa’, que – agora e finalmente – não apenas sonha ou deseja ou planeja.

 

Sou (me tornei) alguém que faz.

 

Até.