domingo, dezembro 14, 2025

A Sopa

Ontem, mais uma vez, levei a Jacque e outras bailarinas até a cidade de Osório, litoral norte do RS, onde se apresentariam à noite. Saímos de Porto Alegre por volta das três da tarde, e uma hora depois as larguei no local da apresentação, que começaria às 18h. Assim que as deixei no local, segui em direção ao mar.

 

Cerca de trinta minutos separam Osório de Tramandaí e, cruzando a ponte, Imbé, praia de minha infância e adolescência. Desde que meus pais venderam a casa, há mais de dez anos, de tempos em tempos, ao passar por lá, me sentia compelido a passar lentamente por aquele trecho da Av. Rio Grande onde nós – a Turma do Muro – vivemos grande parte de nossas histórias, como se estivesse visitando um templo à memória do (meu, nosso) passado.

 

Isso até há dois anos.

 

Da mesmo forma que ontem, havia levado as bailarinas até Osório e seguido para Imbé, para o ritual da passagem por lá. Estacionei o carro, andei um pouco observando as casas, ou o que havia restado delas comparando com minha memória. O que não estava abandonado ou malcuidado, estava diferente do que era. Senti, naquele momento, que algo terminara, algo morrera em mim. Aquele lugar não era mais o Imbé de minhas memórias.

 

Porque as pessoas não estavam lá.

 

Meus pais, o Neni, o Titico, o Vitor, a Stefania, o Adriano, o Beto, o Fernando, o Julinho. O Rafa, a Tati, a Carla, a Milene, a Florence. Ninguém mais estava lá. Eu não estava lá. A vida seguira seu fluxo habitual, e o que era o nosso país, a nossa Terra do Nunca, agora era um cemitério de minhas memórias.

 

Percebi que havia acabado, e não fazia mais sentido voltar.

 

Ontem, então, voltei ao litoral, até passei em frente à nossa antiga casa, mas não mais me diz nada. Fui até a praia, estacionei o carro e, pés descalços, fui caminhar com o pés na água. Sol, céu azul. 

 

Pensei em 1985, quando terminei o ensino fundamental (primeiro grau), em 1995 quando já era médico residente, em 2005 quando morava em Toronto, em 2015 quando estava terminando meu segundo mandato como Presidente da Sociedade de Pneumologia do RS e em 2025, quando estou onde deveria estar e sou quem eu sempre achei que deveria ser.


Até.   

sábado, dezembro 13, 2025

Sábado (e um material de estudo)

No quadro

Tônica, terça menor, quinta justa.
Tônica, terça maior, quinta justa.
Tônica, terça menor, quinta justa, sétima menor.
Duas vezes.

E assim vai.

Bom sábado a todos.

Até.


 

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Sentido

Sobre o que nos acontece.

 

Diz-se que aquilo que nos acontece na vida não é exatamente aquilo que nos acontece na vida. É, em verdade vos digo, ou nos dizem, a forma como reagimos àquilo que (nos) acontece. É como reagimos aos fatos, é como os entendemos.

 

Da mesma forma, quase nada, nunca, é pessoal. Ou sobre nós. Não existe uma grande conspiração mundial maquinando dificuldades e obstáculos a nenhum de nós. Não ficam o tempo todo (nos) observando em busca de falhas ou deslizes para apontarem, julgadoras.

 

As pessoas estão preocupadas com suas próprias vidas, seus problemas, suas angústias e aflições. Não somos o alvo de constante escrutínio e avaliação. As pessoas estão apenas olhando para si, absortas em suas vidas.

 

Por essa razão, não há necessidade de esperar aceitação e entendimento, ou mesmo ter de explicar as decisões que tomamos sobre nossas próprias vidas. Em sua maior parte, as pessoas não querem, e não precisam, compreendê-las. E está tudo bem, é assim mesmo.

 

A receita é sermos coerentes com nossos princípios e seguirmos da forma que faça mais sentido a nós mesmos. 

 

Até. 

quinta-feira, dezembro 11, 2025

A Ilha, de novo

Deixa de ser besta e para com essa bobagem’.

 

Essa é uma frase que digo a mim mesmo de tempos em tempos. É uma espécie de chamado de volta à realidade, uma lembrança para colocar novamente os pés no chão e parar com sentimentos de inadequação, ou quando a sensação de ilha bate mais forte. Você sabe, quando nos sentimos sós em meio a uma multidão.

 

São cada vez mais raros, mas ainda acontecem vez que outra. O que fazer nesses momentos? Se não é possível evitar, ao menos tenho tentado (e, sim, conseguido) torná-los cada vez mais breves.

 

Essa eventual, possível, sensação de não fazer parte, ou – extremo – de ser excluído, é o fantasma rondou (ronda?) em minha volta ao longo da vida e, mesmo velha conhecida, ainda algumas vezes consegue me incomodar. Reconheço imediatamente sua ocorrência e prontamente começo o trabalho de neutralizar seus efeitos. Quase como uma nuvem escura que baixa sobre a vida. E não consigo não lembrar...

 

Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence

 

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence

 

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
No one dared
Disturb the sound of silence

 

"Fools" said I, "You do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach you"
But my words like silent raindrops fell
And echoed in the wells of silence

 

And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warning
In the words that it was forming

And the sign said, "The words of the prophets
Are written on the subway walls
And tenement halls
And whispered in the sounds of silence" * 

 

Mas, como eu disse, dura pouco essa sensação.

 

Tudo o que preciso, nesses momentos, é olhar para o todo, ter uma visão de perspectiva, para saber que, sim, as coisas estão como deveriam ser, e que não estou só.

 

Até.


Simon and Garfunkel, 1964.

 

quarta-feira, dezembro 10, 2025

Nem Sempre É Assim

Hoje foi difícil.

 

Acordar, quero dizer.

 

Não é o habitual, pois o que é comum é eu me vangloriar pela minha característica, ou habilidade, ou hábito, que seja, de acordar cedo. Independente da hora que vou dormir, o despertar – pronto para começar o dia, bem-humorado – é mais ou menos na mesma hora. E isso há anos.

 

A rotina das quartas pela manhã é de atividade física ainda antes das oito horas, seguida de atividades administrativas e reuniões como empreendedor na School of Rock Benjamin. O dia segue com reunião clínica na Santa Casa e depois de volta à escola. O estar logo cedo já com a atividade física realizada, aumenta a animação e produtividade. A satisfação do dever (pessoal, autoimposto) cumprido e da meta alcançada é uma ótima sensação.

 

Houve um tempo em que era ainda mais cedo. Quatro vezes por semana, de segunda a quinta-feira, eu saia de casa ainda antes das sete horas da manhã para caminhar até a academia e fazer o treino. E aos finais de semana, também cedo, ia pedalar. Depois, por diversas razões, tive que reduzir e rearranjar meus horários de atividade física, mas ainda acordando cedo, sem despertador.

 

Em resumo, acordar cedo é parte de quem sou, do que me define. E gosto disso.

 

Hoje, contudo, não.  É dezembro, ontem teve churrasco (o primeiro de uma sequência até o final do ano) e acordei sentindo o peso do mundo, a gravidade em maior intensidade, sono. Chovia forte. Não fui para a academia. Ao invés de acordar às seis e quinze, saí da cama às sete e meia. Café e banho rápidos, começou o dia.

 

Quem sabe amanhã, quem sabe amanhã.

 

Até.

terça-feira, dezembro 09, 2025

Abstraindo o Mundo

Um pensamento rápido.


A tentação de passar o mês de dezembro absorto em retrospectivas, balanços, revisões e reflexões é grande.  Tenho a impressão de que avançamos pelo mês apenas no embalo, após pedalar (remar, se quiserem) durante os meses anteriores. Depois de muito fazer força, mentalmente já estou descomprimindo. Mesmo que o mundo ainda corra, ansioso, já não estou nessa mesma sintonia.

 

Da mesma forma, as expectativas para o ano seguinte surgem, planos começam a ser delineados, objetivos traçados. 

 

É o momento em que abstraio o mundo lá fora, com suas tensões, ansiedades, guerras e loucuras, e foco no que realmente interessa, em como reajo ao que me acontece, em como vou contar a história do meu ano, o que termina e o que vai começar.

 

Foco na narrativa, na minha narrativa. 

 

Em quem sou, em quem devo ser.


Até. 

segunda-feira, dezembro 08, 2025

Não É Segunda

Esse não é um espaço em que falo de futebol.

 

Aliás, não falo de futebol. Não brinco, não faço piadas, não toco flauta em ninguém. Tento mudar de assunto quando ele surge. Não compactuo com “disputas” entre torcedores de um e outro time. Não incomodo ninguém, porque não quero ser incomodado.

 

Já afirmei mais de uma vez: sou O Pior Torcedor.

 

Nem gosto de futebol, para ser sincero. Torço para o meu time. Quieto, só, em silêncio, se possível em um quarto escuro em uma noite chuvosa longe da humanidade. Eu e meus botões. Eu e minhas convicções e idiossincrasias. Eu, eu, eu. Não me interessa compartilhar isso com ninguém.

 

Como a vida, na maior parte das vezes o que realmente importa é a jornada, não necessariamente o destino, o final da jornada. Um ano é um longo período, apesar de não ser um século (referência musical para poucos), e tudo o que passamos durante a caminhada importa, tanto quanto o resultado último, mesmo que o que vai na estatística seja a última impressão, seja o destino. 

 

Dito isso, posso dizer que começo a semana aliviado. Agora é – literalmente – bola ao centro e ano que vem tem mais.

 

Para o bem e para o mal.


Até. 

domingo, dezembro 07, 2025

A Sopa

Não tenho escrito ficção nos últimos tempos. Ou quase não tenho. Aqui e ali, pode ser que aconteça, mas não é o usual por esses dias. O plano de escrever um (longo) livro de ficção, por exemplo, está, a meu ver, distante, ou à distância de uma preparação, um estudo, um pouco maiores. Vou chegar lá.

 

Tenho escrito sobre o mundo, mas – acima de tudo – sobre mim. E isso não é uma volta a textos egocêntricos e megalomaníacos meus, como em um passado já distante, mesmo que fossem em grande parte ficcionais. Atualmente, tem sido diferente.

 

Acho que escrevo para preservar a (minha) memória.

 

Tive, algumas vezes, a sensação, ou impressão, de que havia fatos, ou memórias, de outros tempos que começavam a se perder, a desaparecer para sempre, que estavam lentamente se dissipando e que nunca mais teria acesso a elas, as perderia permanentemente. Isso me assustou, porque somos nossas memórias, somos o resultado do que vivemos.

 

Então, escrever sobre mim, sobre essas memórias que ainda resistem, seria uma forma de preservá-las, mantê-las. Me preservar, continuar me entendendo. Deixar um registro (para mim, que seja) do que vivi, do que senti, e com quem vivi as histórias. Tudo isso enquanto crio (vivo) histórias que serão contadas e escritas, para não serem esquecidas.

 

Serve também para fotografias. 

 

Fotografias contam histórias, mesmo que desfocadas, mesmo que estejamos ‘esquisitos’. Mesmo, e ainda mais, se foram tiradas sem preparo, ‘de susto’.

 

Histórias e estórias.


Até. 

sábado, dezembro 06, 2025

Sábado (e é dia de...)

Komka
 

Churrasco, polenta frita e salada de rúcula com cebola e bacon.

Bom final de semana a todos.


Até.

sexta-feira, dezembro 05, 2025

Respeito (Quase) Todo Mundo

Julgamos os outros o tempo todo.

 

Por mais que digamos o contrário, estamos constantemente julgando as pessoas com as quais interagimos em todas as situações. Não há como evitar. 

 

A impressão que nos causam, o tipo do relação ou interação que temos, nossas ações e reações perante elas, tudo isso é dependente, ou está relacionado ao julgamento que fazemos em tempo real, antes, durante e depois dessas potenciais interações. Para o bem e para o mal, eu digo.

 

O que devemos fazer é saber como lidar, como proceder a partir desse julgamento que fazemos, assim como o que é relevante ou não para nós. Quais os parâmetros que usamos nas diferentes situações e que peso damos a esses parâmetros. Quais são os mais importantes, os que podem mudar tudo? Que podem mudar a forma como a pessoa em questão é vista, e que podem fazer com que queiramos estar mais próximos ou não daquela pessoa.

 

Julgamos, então, para saber quem deve estar em nossa bolha? Mais ou menos. Em alguns casos, sim. 

 

Mas existem outros casos, entretanto, em que mesmo com diferenças grandes, mantemos a proximidade apesar de determinadas características, gostos ou posições políticas, que podemos achar – vamos dizer – estranhas, ou equivocadas. Relevamos em prol de um bem maior.

 

Respeitamos (quase) todos, desde que nos respeitem em nossos gostos e opções.

 

Ia falar dos veganos, e todos aqueles contra os churrascos.

 

Não vou.

 

É sexta-feira e é dezembro.


Até. 

quinta-feira, dezembro 04, 2025

Quatro de Dezembro

 A proximidade do final do ano, aquele simbólico momento de zerar o cronômetro e começar tudo de novo, se aproxima a passos largos entre promessas de encontros, confraternizações e outros eventos sociais. Agenda cheia, pouco tempo.

 

Inevitavelmente, chegamos à fase de avaliações, rescaldo, balanço de quem fomos e daquilo que fizemos no ano que se aproxima do fim. Se os planos – alguns deles, ao menos – forma executados como pensados.

 

O que realizamos, o que mudou.

 

O tempo passa rápido quando olhado em retrospectiva. Ontem era Páscoa e amanhã tenho cinquenta e muitos anos. A passagem do tempo deve (ou deveria) nos fazer aceitar mais serenamente o resultado de nossas escolhas e ações. Aceitar a colheita, por resultado do que plantamos. Algumas vezes, contudo, entender que a colheita pode demorar mais do que gostaríamos, que precisamos de maior cuidado e maior dedicação até o resultado vir.

 

E mesmo sem o final do ciclo, preparar o próximo, aquele que virá a seguir. Preparar o terreno, arar a terra.

 

Até.

quarta-feira, dezembro 03, 2025

Não É Inteligente

Eu comecei a escrever, como forma de pensar a vida, há muitos anos, inicialmente escrevendo à mão em cadernos que – alguns deles – ainda guardo como recordação. A fase seguinte foi registrar meus pensamentos datilografando em uma máquina de escrever, que era onde alguns trabalhos de escola de depois faculdade eram feitos, ainda antes dos computadores com editores de texto.

 

Sou, dessa forma, de uma geração que nasceu analógica e evoluiu para o digital. Das apresentações em Powerpoint das quais saíam slides que eram projetados por projetores que tinham carrosséis em que inseríamos os slides físicos, e cuja lâmpada queimava com certa frequência, até as atuais que deixamos na nuvem, ou nos enviamos por e-mail. Passei (passamos) por tudo isso.

 

O mesmo com as fotografias, antes reveladas a partir de filmes de 24 ou 36 poses, que carregávamos em viagem e revelá-las depois era como viajar de novo, até os celulares cujas fotos são tiradas ad nauseum, de comidas até infinitas selfies em frente ao espelho. Tudo bem, tudo certo. Redes sociais, desde o finado Orkut até o Instagram, passei por todas.

 

O meu limite, estabeleci há algum tempo, foi o Tik Tok.

 

Foi quando vi que envelheci. Não é para mim.

 

Agora, as IAs, os chatbots.

 

São potencialmente fantásticos, se usados adequadamente, como tudo na vida. Funções de auxílio em projetos, coisa e tal. Muito legal. Nunca, contudo, como conselheiro sentimental, ou outro tipo de utilidade que não prática, que exima o usuário do contato e das relações humanas.

 

Esse limite é bem mais simples de estabelecer.

 

Para mim, para mim.


Até. 

terça-feira, dezembro 02, 2025

Dois

De dezembro.

 

Estamos quase lá, ainda faltam vinte dias para iniciar o (meu) recesso de final de ano, e parece mais longe do que nunca. As urgências de dezembro, aquele mix de rotina de trabalho, confraternizações, amigos secretos, planos de férias de verão e necessidade de descanso fazem a rotação da vida estar mais alta do que o normal, quando o prudente (desejável) já seria um desacelerar.

 

Não me queixo.

 

Há um astral diferente (em mim, em mim), uma certa descompressão mental e dias mais leves, como se agora fosse apenas questão de levar o carro até o final, ‘na ponta dos dedos’, indicando que conseguimos, sobrevivemos. Um alternar entre viver o presente, recordar o passado e antecipar o futuro, imediato e de longo prazo. Como ocorre com certa frequência, gostaria (acho que preciso) de um tempo para ficar em casa apenas para organizar minhas coisas. Desapegar, eliminar o que está em excesso e o que não serve mais. Quase nunca consigo, ou apenas faço em pequenas partes.

 

Encontrar pessoas, ser leve.

 

Quase lá, quase lá.


Até. 

segunda-feira, dezembro 01, 2025

Terra de Gigantes

Em 1987, aos quinze anos, eu estava no segundo ano do hoje chamado Ensino Médio, no curso técnico de ‘Operador de Computador’ (que depois se chamaria Processamento de Dados) da Escola Técnica de Comércio da UFRGS, Campus Centro, logo atrás da Faculdade de Economia. Diariamente saía de ônibus da Zona Sul para ter aula no hoje chamado Centro Histórico.

 

Era dos mais novos da turma, como sempre calhou de ser por ter entrado na primeira série do primário logo antes de completar seis anos de idade. Havia iniciado o segundo grau com treze, quase quatorze anos. Recém adolescente, começando a crescer, podemos dizer.

 

Tudo o que eu queria ter – à época – era uma guitarra elétrica, e tinha uns amigos que tocariam comigo. E eu já sabia que, por mais que a gente crescesse, sempre haveria alguma coisa que a gente não conseguiria entender. Mas seguia (seguimos) em frente.

 

Isso há quase quarenta anos.

 

Ontem, enquanto levava a Marina para fazer o segundo dia de provas do vestibular da UFRGS, que está fazendo como teste para o ano que vem, já que terminou o segundo ano do Ensino Médio, ouvíamos música no carro. Quando estávamos quase chegando no Campus do Vale, onde ela faria a prova, colocou para ouvirmos justamente ‘Terra de Gigantes’, dos Engenheiros do Hawaii, e disse que gostaria que tocasse na cerimônia de formatura da escola, no ano que vem, justamente por seu significado.

 

Sorri. Por várias razões.

 

Porque deu tudo certo. Porque ela está traçando o caminho dela passo a passo, por estarmos, a Jacque e eu, aqui para apoiá-la incondicionalmente, porque tenho ensinado a ela o que acho importante, inclusive em termos de música. 

 

Porque a vida é bela.


Até. 

domingo, novembro 30, 2025

A Sopa

Inevitavelmente, estamos sós.

 

Em meio à multidão, entre estranhos, conhecidos, amigos ou familiares, onde quer que estejamos, invariavelmente estamos sós. Como ilhas, mundos isolados em meio ao ruído do universo. Ontem, agora.

 

Essa estranheza, que toma conta enquanto o som das vozes aumenta, as risadas, as pequenas conversas para preencher o silêncio que pode ser desconfortável. Sentar no fundo e olhar de fora, a vida acontecendo em nossa frente como um filme familiar que assistimos pela milésima vez.

 

Por isso a importância das conexões, do encontro com aqueles que fazem o mundo ter sentido, que fazem valer à pena. Por isso que pessoas são importantes agora, e não em um improvável futuro em que haverá tempo e sentaremos na varanda da cabana no alto da montanha de onde veremos a planície, os homens pequeninos e a aldeia de longe, longe, longe, longe, longe*, e principalmente não esqueceremos Rosinha (que jogava futebol nos verões do Imbé... ops, nada a ver, momento déficit de atenção).    

 

O que temos é o agora, o hoje, que é onde a vida acontece.

 

Criar e cultivar conexões, a chave de uma boa vida.

 

E churrascos, sempre churrascos.

 

Até.

 

* referência à música Paisagem Campestre, Nei Lisboa 

sábado, novembro 29, 2025

Sábado (e às vezes é selvagem)

 

De uma sexta-feira à noite


Um desafio em que falhei miseravelmente.
Bem feliz, aliás, pois virou em duas refeições.

Bom sábado a todos.

Até.

sexta-feira, novembro 28, 2025

Quase dezembro

O silêncio antecede o fim.

 

Ouvi essa frase hoje cedo, e entendi rapidamente como verdadeira. Não só como antecipação de desfecho, expectativa, ansiedade, mas muito como afastamento, indiferença, o não se importar. Pode ser em relacionamentos amorosos, no trabalho, com amizades.

 

E quando penso em distanciamento (não mais relacionado com diferentes vírus e pandemias), não é a isso que me refiro. Esse distanciamento físico, essa impossibilidade do convívio diário não são, ou não têm, esse silêncio precedendo algum tipo de final.

 

Muitas vezes me penitencio por não conseguir estar fisicamente junto a todos aqueles de quem gostaria com a frequência que gostaria. Mas entendo que é assim mesmo, é parte da vida, todos passamos por isso e todos compartilhamos essa mesma sensação. Não temos como estar sempre presentes.

 

O que podemos, sim, é valorizar e aproveitar ao máximo todas essas oportunidades de estar juntos, de celebrar, de criar memórias e histórias.

 

Está chegando dezembro, temporada de encontros e churrascos. 

 

Oba.


Até. 

quinta-feira, novembro 27, 2025

De Como Muda a Vida

O que mudou, efetivamente?

 

Eu defendi minha tese de doutorado em Pneumologia na UFRGS há quase vinte e um anos, em dezembro de 2004. Eu estava há quatro meses morando em Toronto e vim ao Brasil para a defesa e para as festas de final de ano em Porto Alegre e no litoral norte do RS naquele ano. Defendi a tese dez anos após ter me formado médico.

 

Eu estava desde agosto de 2004 morando sozinho em Toronto, já nas atividades de pós-doutorado enquanto terminava de escrever a tese. Morar sozinho em uma cidade diferente e – por opção – não ter televisão em casa (naquele tempo a Netflix era um serviço de assinatura de entrega de DVDs em casa) ajudou em manter o foco e terminar de escrever.

 

Foi uma grande experiência, com histórias que devem estar em parte em um próximo livro que pretendo publicar, mas sempre me perguntava o que tudo representaria para mim em termos, além da experiência de vida que é o mais importante, profissionais? Sabia que só o tempo diria, precisava de uma visão de perspectiva, do distanciamento histórico.

 

A primeira mudança, imediata e relativamente fácil de perceber, foi o modo que as pessoas me viam como profissional. Por mais bobo que possa parecer, e eu brincava com isso, só o fato de eu ter ido passar um tempo fora do Brasil já mudou essa percepção das pessoas sobre mim. Eu dizia que poderia ter sido jardineiro, ou garçom, ou qualquer outra atividade no exterior, que as pessoas passariam a me ver como um médico melhor. E talvez – independente do que eu fizesse enquanto fora – eu realmente me tornasse um médico melhor, por ter tido mais experiência de vida, conhecido mais pessoas, e mais pessoas diferentes.

 

Não vem ao caso.

 

O doutorado e o pós-doutorado foram as chaves que abriram portas ao longo do tempo, desde como professor universitário que, por circunstâncias diversas, já não sou mais, além de várias outras.

 

Mudou muito a vida, na verdade, respondendo ao meu próprio questionamento inicial. Mudei também, como esperado.

 

Sempre vale à pena, sempre.

 

Até.

quarta-feira, novembro 26, 2025

Eu Não

Recebi ontem a visita de uma representante da indústria farmacêutica no consultório. Faz parte do trabalho deles, trazer amostras de medicamentos e mostrar alguns estudos sobre os produtos que estão anunciando. Convidou-me para um evento médico em um restaurante japonês amanhã, quinta-feira. Achei ótima a ideia, até que falou que amanhã é dia 27.

 

Percebi, então, que amanhã é dia de ir ao Opinião para o show da Graforréia Xilarmônica, evento que está em minha agenda há vários meses. Não poderia ir, pena. Perguntei, por acaso, quem seria a pessoa que daria a aula, e ela respondeu que seria uma aula online, com um colega de São Paulo. Por sorte, já tinha dito que tinha outro compromisso e não poderia ir, porque – caso contrário – teria que dizer a ela que ABOMINO eventos online patrocinados pela indústria farmacêutica. 

 

Nada contra a empresa, nada contra o palestrante.

 

Tudo contra sair de casa em uma quinta-feira à noite, depois de um dia longo de trabalho, para assistir uma aula online. Não que eu nunca vá, mas quando vou é para encontrar amigos e jantar, nunca pela aula. Quando há um palestrante presencial é um pouco diferente, mas ainda assim vou pelos amigos.

 

Lembrei, então, que há um tempo fiz um ranking de qualidade para esse tipo de evento, e até comentei com algum representante da indústria, e talvez seja por isso que não sou mais convidado para esses eventos como era no passado...

 

O melhor evento sempre é o presencial, em um restaurante, no meio da semana, em que o palestrante e a audiência são de amigos. Assiste-se à aula, sempre se aprende algo, e ainda jantamos com os amigos. O meio da semana sempre é melhor que o final de semana.

 

O pior de todos (minha opinião, minha opinião) é o evento online em um sábado de manhã para assistir de casa. É praticamente ofensivo querer minha atenção. É o momento mais sagrado, mais caro da minha semana. Em segundo, são os eventos presenciais em sábados de manhã, a não ser que sejam fora de Porto Alegre, em que se viaja na sexta, jantamos e assistimos ao evento no sábado de manhã antes de voltar correndo para casa no voo mais cedo possível. No ranking, ainda estão os eventos online para assistir em casa em uma noite de semana, após um dia de trabalho. Pensando bem, depois da pandemia, esqueçam os eventos online, por favor.

 

Relações pessoais e presenciais, relações pessoais e presenciais.


Até. 

terça-feira, novembro 25, 2025

Procrastino

Em um mês, Natal.

 

Acabou o ano, basicamente. Entramos naquela fase em que começam as celebrações, encontros, confraternizações, apresentações, amigos secretos, etc. Começa a fase em que fazemos o balanço do ano que termina. Eu, ao menos, faço isso, e as próximas semanas serão – provavelmente – de alguns textos refletindo sobre os plano e projetos realizados ou não, minhas atitudes e omissões. O que fiz, o que deveria ter feito e o que não deveria. Onde acertei e onde errei. Mas uma coisa não vou fazer nessas últimas semanas do ano.

 

Exames médicos.

 

Falo de mim, como sempre. 

 

Não é o momento de fazer aqueles exames que ainda não fiz esse ano por diferentes razões, a maior delas a falta de organização. Tem alguns exames que precisam de preparo e honestamente não consigo encaixar na minha agenda. Desorganização pura.

 

Minha culpa, minha máxima culpa.

 

Vou deixar, então, esses exames que faltaram para o começo de janeiro, passadas ‘as festas’. Paciência. Como são exames preventivos, e estou bem, um mês não vai fazer diferença. Espero. Tomara.

 

Da mesma forma, não recomendo NUNCA fazer exames médicos logo antes de uma viagem de férias. A pergunta é: para quê? Não tem razão. Se der algum problema, só vai atrapalhar a viagem. É melhor deixar para depois, sempre.

 

Não é fugir, não é evitar, não é nada disso.

 

Tudo é uma questão de timing.

 

E organização.


Até. 

segunda-feira, novembro 24, 2025

Point of No Return

Nada é para sempre.

 

Exceto, talvez, a estupidez humana, mas não é disso que quero falar. A vida, como a conhecemos, muda constantemente. Minuto a minuto, decisão após decisão, acaso após acaso. Aspirar a uma vida que não mude ou, pior, lutar contra as inevitáveis mudanças, é uma insanidade, é de uma estultice gigante.

 

Muitas vezes levamos tempo até aceitá-las, essas inevitabilidades da vida, e está tudo bem. O que não podemos fazer é ficar ‘lutando contra’ quando não há mais o que fazer, não há mais volta.

 

Já fiz muito isso no passado, admito.

 

Querer reviver situações ou relações que ficaram para trás parece, em teoria, algo bom. Na prática, contudo, é o contrário. Aceitar isso e seguir em frente é o certo e o mais saudável. 

 

Viver é seguir em frente.

 

Respeitar o que passou, por ser minha história, e deixar lá onde deve ficar, na prateleira do que foi vivido. E passou, não volta.


Até. 

domingo, novembro 23, 2025

A Sopa

O silêncio. 

Em meio aos sons do dia a dia, os ruídos da cidade, as buzinas, os gritos indistintos, as construções à volta, e a música que é parte importante de nossas vidas, em meio a tudo isso, de tempos em tempos o silêncio das manhãs de domingo é como um momento de paz absoluta, quase meditação. Ele vai acabar em breve, com o despertar das pessoas ou quando a chaleira chiar, avisando que não pode ferver para o chimarrão.

 

Entramos nos últimos dias de novembro, sua última semana. Dezembro é meio mês, porque envolvidos estaremos nas já tradicionais celebrações de final de ano, os encontros, churrascos, presentes trocados, brindes e planos. Promessas, para o dois mil e vinte e seis, de reuniões que nunca saem, de reencontros que mais um vez serão remarcados para um futuro que talvez nunca chegue, ou que talvez chegue tarde demais.

 

Esses dias, ao entrar em um cemitério para dar um abraço em um amigo de muitos anos, pensei nisso, que tenho frequentado despedidas bem mais do que gostaria, mas talvez não mais que o esperado. E lembrei daqueles que gostaria de (ou preciso) encontrar mais, o que não acontece porque muitas vezes o esforço necessário para desencadear, para catalisar esses encontros deve ser feito por alguém, e aí o ruido da urgências cotidianas não permite que seja eu, ou algum outro de nós, aquele que vai iniciar o processo, sabe como é, botar pilha.

 

Volto, então, ao processo lento e gradual de selecionar aquilo e aqueles que merecem maior atenção. Melhor dizendo: o processo é de descartar aquilo e aqueles que não fazem mais sentido. Aqueles cujo discurso não se traduz em prática, ou a prática é diferente do discurso. Procurar manter por perto quem vibra na mesma sintonia, aqueles que caminham na mesma cadência e na mesma direção, e cujo cuidado entre nós seja mútuo. Eliminar pessoas que nos atrasam, que nos tiram a energia. 

 

Procurar andar mais leve.

 

Em dois mil e vinte e seis e além.


Até.

sábado, novembro 22, 2025

Sábado (e as manhãs voltaram a ser como antes)

 

Orla do Guaiba, Porto Alegre


A minha hora mais cara da semana...

Bom sábado a todos.

Até.

sexta-feira, novembro 21, 2025

Reconhecer enquanto há tempo

Ninguém, eu digo, ninguém mesmo, chega a lugar algum sem algum tipo de auxílio, guia ou orientação, qualquer que seja, pois não somos seres isolados no mundo. E reconhecer isso sempre me pareceu fundamental.

 

Eu faço questão de, sempre que posso, reconhecer quem me ajudou e me orientou ao longo da vida, pois sou (somos) o resultado de todas as influências e das portas que foram abertas para nós durante nossa jornada, pessoal e profissional. Ter consciência disso é parte importante até do caráter das pessoas.


Não reconhecer, por outro lado, para dizer o mínimo, é feio.

 

Como disse, acho importante reconhecer, mas também demonstrar isso, no meu caso na forma de agradecimento. Já tive, e volta e meia tenho, a oportunidade agradecer às pessoas que foram importantes na minha vida pela sua participação. Faz bem para todos, a mim que agradeço e a quem recebe.

 

Não vale, então, por inútil, homenagens póstumas.

 

Temos que homenagear as pessoas importantes enquanto podemos, enquanto estão entre nós. Temos de aproveitar suas presenças, suas histórias e experiências. 

 

Criar novas histórias, contar novas histórias.

 

Disso é feita a vida.

 

Até. 

quinta-feira, novembro 20, 2025

Feriado

A música que toca agora em casa, e que tocará frequentemente no próximo mês, é Santa Claus is Coming to Town. Antes havia tocado White Chrismtas. De todas as versões já gravadas, a que eu acho a melhor, mais clássica, é a do Bing Crosby, do álbum Christmas Greetings, de 1949. É um álbum toca repetidamente aqui em casa na temporada de Natal que, sim, começou.

 

Hoje foi dia de montar a árvore de Natal e arrumar a decoração natalina. É uma tradição nossa, da Jacque e minha, que passamos nosso gosto pelo Natal para a Marina. Sempre quis criar com ela memórias dessa época do ano, assim como tenho as minhas, dos natais da minha infância. Acho que consegui.

 

O dia começou devagar, mais tarde que o (meu) normal. Mesmo assim, sai para pedalar. Como as quintas-feiras não são normalmente dia de atividade física, decidi que seria mais curto e mais leve, só para não ficar parado. Acabei me empolgando, e foi uma hora inteira e mais de vinte quilômetros, em um ritmo normal de treinamento. Foi bom.

 

O resto do dia, será em casa, agora em ritmo de Natal.

 

Sol e calor, mas... 

 

Let it snow, Let it snow, Let it snow...


Até. 

quarta-feira, novembro 19, 2025

Edição

No início era o Photoshop.

 

Lançado em 1990 em sua primeira versão, quando ainda era chamado de software, não de aplicativo, esse talvez seja o programa de edição de fotos mais famoso do mundo. Foi protagonista de uma revolução no mercado gráfico e de design. Hoje em dia, não sei qual sua relevância no mercado, pois agora existe uma grande variedade de aplicativos que fazem isso de maneira simples e fácil em smartphones. Talvez ele também faça, confesso que não sei.

 

Uma das funções desse e de outros aplicativos de edição é a simples junção de duas fotos em uma, colagem (não sei se esse é o termo). Para fazer fotos do tipo ‘antes e depois’. Como um entusiasta de fotografias (as que contam a minha história, principalmente), essa possibilidade me encanta.

 

E digo que costumo fazer isso com certa frequência.

 

Edito fotos de vinte, trinta anos atrás e junto com fotos atuais, para ver o resultado, para ver a história que me contam. Comparar quem eu era fisicamente há vinte anos com quem sou hoje, diz muito mais que as alterações físicas óbvias, a barba, menos (ou quase nenhum) cabelo, rugas e marcas do tempo: são o testemunho do que vivi, do que passei para chegar até aqui. 

 

Vou continuar fazendo isso enquanto o resultado me agradar, enquanto a história que estiver contada nessas montagens fizer sentido para mim, for coerente e mostrar o mais importante de tudo.

 

Que eu sobrevivi.


Até. 

terça-feira, novembro 18, 2025

De Quando Eu Não Dormia

Eu dormia mal.

 

Lembro que quando trabalhei em multinacional do setor farmacêutico. Foi uma experiência boa, convivi com ótimas pessoas, outras nem tanto, viajei pelo Brasil dando aulas, participei de congressos internacionais, fiz parte de um grupo seleto de profissionais da minha área altamente qualificados. Era uma rotina maluca, junto a todas as atividades em que estava envolvido, como consultório e universidade, pois na época eu também era professor, e isso cobrava um preço, evidentemente.

 

Já falei disso, mas no auge de tudo eu estava estressado, sedentário e bem acima do peso. E dormia mal, o que piorava tudo. Dormir bem, o que sempre havia sido uma característica minha, virou uma raridade. Quando viajava, pior ainda, pois os horários eram anárquicos, tinha muito trabalho, jantava-se tarde e ia dormir tarde. Ficava difícil pegar no sono e o despertar tinha que ser muito cedo. O recurso dos indutores do sono era usado com uma frequência maior que a desejada por mim.

 

Isso mudou desde que não estou mais no mundo corporativo. Teve uma pandemia no meio desse caminho, outras ansiedades e expectativas surgiram ao longo desses últimos anos, mas consegui, finalmente, estabelecer uma rotina que me permite dormir bem. E isso se reflete em todos os aspectos da vida. Olhando um retrato de onde eu estava sete anos atrás em comparação com onde e como estou hoje, a comparação entre esses dois momentos é clara, sem deixar dúvidas.

 

Durmo muito melhor porque a vida está muito melhor.

 

Até.

segunda-feira, novembro 17, 2025

Quem Te Viu, Quem Te Vê

Há alguns anos, fui a um show do Chico Buarque.

 

Uma das lembranças mais antigas que tenho de música brasileira, de MPB, é dos domingos de manhã em que tocava no toca-discos de casa, colocados pelos meus pais, discos de música brasileira e, mais especificamente, Chico Buarque. Não lembro que idade tinha, mas é a origem da admiração que tenho por ele como artista, poeta e cantor.

 

Seus clássicos tocavam direto lá em casa. Desde ‘A Banda’, ‘A Rita’, ‘Roda Viva’, ‘Cálice’ (que muitos anos mais tarde a Marina cantaria belissimamente), até ‘Noites dos Mascarados’, que é a música que me faz ter saudades dos carnavais que não vivi. Fui alimentado por música brasileira, por poesia, pela beleza da língua portuguesa, outra de minhas paixões.

 

Mas falava de um show do Chico Buarque que assisti.

 

Foi mágico, e já era casado na época, ouvir ao vivo as músicas que ouvira desde a infância. Guardadas as devidas proporções, foi uma sensação do tipo que senti quando assisti ao meu primeiro show do Paul McCartney, em 2010, e no ano passado, quando – de novo – estivemos em um show dele, dessa vez com a Marina junto. Não parecia real.

 

O ponto alto, para mim, daquele show do Chico Buarque, e não lembro o ano em que isso ocorreu, provavelmente final dos anos noventa de século passado, foi – para mim, para mim – quando ele cantou ‘Quem Te Viu, Quem Te Vê’.

 

Poesia pura.

 

Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade, por favor não dê na vista
Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista

 

Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer

 

Poesia pura.


Até.