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sexta-feira, maio 01, 2026

Chuva à Tarde

Chove nesse final de sexta-feira Dia do Trabalhador. Ou é Dia do Trabalho? Não importa, é feriado e é sexta-feira. Um terço de dois mil e vinte e seis já passou. Logo é Copa do Mundo. Depois, eleições. E o ano terminou. Mais um na conta, e menos um restante. Seguimos.

 

E chove... Uma goteira, fora,

Como alguém que canta de mágoa,

Canta monótona e sonora

A balada do pingo d'água.

(Chovia quando foste embora...)

 

Sempre que chove, e paro para ouvir o som da rua, não consigo não lembrar desse poema, que conheci (li e decorei) em 1987, em uma aula de literatura no segundo ano do ensino médio, na Escola Técnica de Comércio da UFGRS, nos fundos da Faculdade de Economia, Centro Histórico de Porto Alegre, curso de Técnico Operador de Computador Manhã. O professor de português e literatura acabou sendo o paraninfo da turma que se formou em dezembro de 1988 em uma cerimônia no Salão de Atos da UFRGS, e o grupo do ‘Fundinho’, do qual eu fazia parte, decidiu não ficar com todos os formandos no palco, como protesto por não sei o quê, mas eu não participei com eles, fiquei com a maioria em cima do palco como deveria ser. O meu ato de rebeldia foi não ir com o grupo como o esperado. Fazer parte do sistema foi ser alternativo... Qual significado disso? 

 

Absolutamente nenhum.

 

Apenas cheguei aqui em uma série de pensamentos paralelos que começaram com o som da chuva lá fora.


Até. 

segunda-feira, outubro 13, 2025

Fotografia

 Eu sou fã de fotos.

 

Desde muito tempo, e lembro do quão legal era quando nos reuníamos em casa, mãe, pai, o meu irmão e eu para ver as fotos (em forma de slides) do tempo em que meu pai esteve no Suez, com as Forças de Paz da ONU, lá nos anos sessenta. Eram imagens em preto e branco, do Egito, Cairo e pirâmides, de Israel, Jerusalém, Tel Aviv e praias, além de registros da rotina militar. 

 

Assim como olhar álbuns com fotos minhas desde o nascimento, meus avós maternos, meus tios, a casa da praia, imagens minhas no mar, além de outros eventos. Era como revisitar a própria história. Assim como eram momento rituais, tanto o montar o álbum quanto parar para olhar. Até porque as fotos eram especiais, feitas com critério, muito por caras (desde as máquinas, o filme até a revelação).

 

Quando as máquinas digitais surgiram (minha primeira é de 2002) isso mudou. Inicialmente de forma mais lenta, afinal os cartões de memória eram limitados, e depois muito rapidamente com os celulares e suas câmeras cada vez melhores. Com isso, obviamente, o volume de fotos aumentou exponencialmente. Assim como tirar fotos ficou fácil e banal, olhá-las também ficou.

 

O acesso fácil às fotos certamente tirou o caráter meio que ritualístico do revê-las, para o bem e para o mal, como tudo na vida. Eu gosto assim, de ter imagens do passado em minha mão, a um toque de distância, de poder rever a vida através de fotos sempre que quero. É o que faço publicando fotos antigas no Instagram. Entendo que até pode ser exposição exagerada, mas manter a (minha) memória, de certa forma reverenciar fatos e pessoas passados, é uma forma (para mim) de me sentir conectado com a (minha) história.

 

Até.

sexta-feira, setembro 05, 2025

A Parede da Memória

A ideia de a memória ser como uma grande galeria de quadros retratando os fatos vividos/passados me soa muito interessante. A inspiração dessa imagem vem da letra de ‘Como Nossos Pais’ composta por Belchior e eternizada na voz dele mesmo e na da Elis Regina. Diz assim: “Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais...”.

 

A parede da memória, ou a galeria, ou museu, onde estaria exposto tudo o que vivemos, tudo pelo que passamos. Lugares, fatos, pessoas. Momentos de alta e de baixa. Euforia e – digamos – vergonha. Aqueles momentos inesquecíveis, como a fração de segundo que antecipou o primeiro beijo, mas também aquele comentário infeliz que fizemos em alguma situação e que nos deixou constrangidos, com vontade de sumir. E seria uma parede em constante expansão, onde quase que diariamente acrescentaríamos novos quadros, novas obras. 

 

O que ficará para a nossa posteridade pessoal, íntima? Como são definidos os fatos que estarão nessa parede, nesse nosso museu próprio? O quê e quando esqueceremos aquilo que nos era importante (o tema esquecimento é recorrente comigo, sim)? Não tenho essas respostas. Por isso sigo, criando memórias.

 

Também é, de certa forma, a razão pelo qual tenho publicado na Instagram uma foto por dia (a ideia é que seja por um ano), e que use isso para expor quadros (lembranças) de tempos idos e pessoas, idas ou não. Para lembrar e, sim, mostrar o respeito que tenho pela minha (nossa) história.


Até. 

quarta-feira, agosto 20, 2025

Minha Vida Canadense

Uma história de quando morei no Canadá, há vinte anos, e que estará incluída no livro que ainda vou escrever...

 

Sábado, noite.


Pronto para sair para jantar com amigos, tranco a porta de casa e chamo o elevador. Após alguns instantes de espera, a porta se abre e a luz do corredor ilumina o elevador escuro. Dentro dele, em meio à penumbra, uma loira alta, de possível origem europeia (mas não escandinava, italiana mais provavelmente) diz que “não tem luz, mas funciona, pode vir”. Eu vou, claro.

 

Certo, admito que não é a sueca seminua da lenda (que, segundo dizem, moraria comigo, mas não passa disso mesmo, lendafeliz ou infelizmente), mas é uma loira e estamos num elevador que, quando fechar a porta, vai ficar sem luz. Tranquilamente, isso pode virar uma crônica ou uma piada, penso. Ou uma história de terror…

 

Penso na piada. Entram mais dois “passageiros”, um homem e uma morena, cabelos longos e nariz aquilino (detalhe sem relevância para a piada). Os cinco no escuro, e alguém peida. Alto, fedorento. Não fui eu. Silêncio constrangido. Ele diz “como pode alguém peidar na frente da minha mulher?”. Penso, mas não digo, “Puxa, tem fila, então… como são organizados…”. Desisto da piada. Muito fraca.

 

História de terror, pois. Deve funcionar melhor. A porta do elevador fecha, o breu toma conta de tudo. Estamos só nós dois, e alguém peida. Não fui eu. Não, não, não está bom. De novo. O elevador fecha, há um silêncio constrangido, e de repente a loira grita. Um grito de pavor, de desespero. Sinto espirrar em mim um líquido quente. Sangue. A porta do elevador abre, e não é o hall de entrada do prédio. Há uma floresta de árvores altas. Ao fundo, um dinossauro. Ouço atrás de mim o “swisssssswisssssswisss” e sei o que isso significa: slitaks. Estamos no Elo Perdido (referência que apenas os mais velhos vão entender).


Volto à realidade.


Entro no elevador, a porta fecha e ficamos na mais completa escuridão. Dois andares estão marcados: o 18º e o 1º, para onde vou. Paramos no 18º, e pergunto se não é o seu andar. Diz que não, que já estava assim quando ela entrou no elevador. OK, então. A porta fecha mais uma vez, nós dois no escuro, e a luz do botão do 18º acende novamente. A loira diz na mesmo hora: “Você viu isso? Acendeu sozinha!”. Eu tinha visto, sim. Ela: “Deve ter um fantasma aqui com a gente…”. Silêncio. Chegamos no térreo.

 

Quem precisa inventar histórias quando elas estão aí, em qualquer lugar, esperando para serem contadas?


Até. 

sexta-feira, agosto 01, 2025

Um Aluno Médio

Ontem, ao autografar para mim o seu mais recente livro, um colega médico que também foi meu professor na faculdade de medicina lembrou e me contou uma história que eu não conhecia e que, claro, me envolvia indiretamente. Contou ele que – há trinta e cinco anos – quando estive internado na UTI dos hospital onde trabalho até hoje, devido ao acidente de trânsito em que estive envolvido aos dezoito anos de idade, no segundo ano do curso de medicina, um outro professor, colega dele já falecido há alguns anos, comentou com ele que ‘o Tadday estava internado’, no que ele respondeu: ‘Quem, o Marcelo?’, e a tréplica foi ‘pessoas de origem europeu a gente chama pelo sobrenome’. 

 

Apesar de a família Tadday ter vindo, sim, da Alemanha no final do século dezenove (até onde sei, apesar não possuir os registros oficiais), ser considerado de origem europeia, ou chamado assim, me soa estranho, até porque nunca foi algo importante para mim. Mas não é essa a questão. Como, no segundo ano do curso de medicina, eu – um aluno médio, comum até – era conhecido pelos professores? Como sabiam quem eu era? O que traz à tona outras questões. 

 

O que as pessoas pensam de nós?

 

Qual o conceito que elas têm a nosso respeito?

 

Muito mais que uma preocupação, ou necessidade de validação externa, essa questão ainda é motivo de curiosidade para mim. Curiosidade mesmo. Saber se as pessoas te veem como tu te vês. Se as pessoas estão entendendo (não que isso seja necessário, mas é bom compartilhar isso com os outros, aqueles que são importante para ti) o teu caminho. 

 

Isso às vezes nos ajuda a nos manter no caminho desejado. E a corrigir rumos se necessário.

 

É aprendizado constante, esse.


Até. 

sexta-feira, julho 04, 2025

A Casa da Praia

Tenho alguns sonhos recorrentes.

 

Essa noite, depois de um certo tempo, sonhei com a casa da praia, a do Imbé, onde passei os verões de minha infância e adolescência. Fazia tempo que não sonhava com a casa.

 

Era para ser um feriado, e a casa ao lado, à esquerda de quem olha de frente, tinha muitos carros em frente e estava sendo limpa para receber pessoas. Estávamos na casa dos fundos, meio improvisados, e a casa da frente estava fechada. 

 

Em algum momento do sonho decidi abri-la, pois estava fechada provavelmente desde o verão, e teríamos que abrir janelas e limpá-la para ficarmos lá. Só que as luzes não acendiam, e fui ao quadro de disjuntores para verificar. Liguei e desliguei alguns deles até que percebi que o quadro estava em lugar que não era o habitual. Foi quando me dei conta, lembrei.

 

A casa não era mais nossa.

 

Estava (de novo) na nossa casa da praia que já não era nossa, e não deveria estar ali. Lembrei que havíamos vendido a casa em dois mil e quatorze (!). E que sigo sonhando de tempos em tempos com a casa, e sempre tenho percebido durante o sonho que não deveria estar mais ali, pois já não é o nosso lugar.

 

Não têm mais os verões e sábados de manhã de sol em que a música que toca é (de um vinil) ‘Cúmplice’, do Cazuza, que diz:

 

‘Hoje eu acordei querendo encrenca
escrevi teu nome no ar
bati três vezes na madeira
senti você me chamar

 

Na verdade uma carta em braile
me deu uma certeza cega
Você estava de volta ao bairro
em alguma esquina á minha espera’...

 

 

Em alguns dos sonhos, meu pai também aparece, e sei que ele não está mais lá. As pessoas que eram importantes para a casa da praia não estão lá.

 

A casa da praia continua em mim, e sigo, mesmo que não mais frequente a praia de outros tempos. Existem outras praias e outras casas, mas nenhuma como a (minha) casa da praia.

 

É vida.

 

Até.

quarta-feira, junho 25, 2025

As Fotos e Eu

Costumo olhar fotos antigas.

 

Antes do surgimento das fotos digitais e, ainda mais, dos telefones com grande capacidade de armazenamento que tiram fotos cada vez melhores, no tempo das fotos que eram reveladas em laboratórios a partir de filmes de 12, 24 ou 36 poses e de negativos, o volume de fotos tiradas evidentemente era muito menor do que atualmente, em que usamos fotos até para dar uma verificada em nosso visual do dia a dia. Revelar os filmes era caro, então registar algo em foto era algo criterioso. Não era qualquer fato ou situação que justificava um registro fotográfico.

 

Claro que hoje mudou tudo. Perdemos, inclusive, o hábito de ter as fotos fisicamente, montar álbuns de viagens, por exemplo. Imprimimos em casa aquelas muito especiais, que justificam ter sua versão impressa.

 

Para mim, tudo mudou em 2002, quando comprei minha primeira câmera digital, uma Nikon E995, que comprei online diretamente da loja em Nova York, a B&H, e que foi entregue pelo correio em casa, com impostos pagos em um tempo em que o dólar era MUITO menos que hoje. Chegou próximo ao meu aniversário de trinta anos. Tinha cartões de memória de capacidade pequena, e as fotos, apesar de boas, ainda eram de resolução muito menor do que hoje. 

 

Quando viajamos, a Jacque e eu, para a Europa em outubro de 2003, ainda levamos junto a máquina analógica (é assim que chama?). Em Paris, comprei um cartão de memória para a minha Nikon que, um pouco depois, quando estávamos em Heidelberg, Alemanha, estragou. Foi um estresse até conseguir recuperar as fotos e baixar as do outro cartão para liberar espaço. Outros tempos, outra vida.

 

Quando morava no Canadá, e aí já estamos em 2006, alguns meses antes de voltar ao Brasil, e após a minha querida Nikon E995 ter sofrido um pequeno acidente e ter sido danificada irremediavelmente, realizei um desejo antigo e comprei um Nikon D50, uma DSLR com uma lente 18-55 mm (depois comprei também uma lente 55-200 mm). Foi (mais) uma mudança de vida. O nível das fotos mudou muito para melhor. Uns anos depois fiz um upgrade para uma D7000, que tenho até hoje.

 

A evolução (para mim, para mim) seguinte foi o telefone celular, o iPhone e suas fotos de cada vez melhor resolução, e a praticidade de andar com ele no bolso, estar sempre pronto para uma fotografia, sem falar na capacidade de armazenamento. O ano de 2023 foi minha primeira viagem registrada exclusivamente pelo iPhone.

 

Mas eu dizia que gosto de olhar fotos antigas. É verdade. Além dos álbuns de viagem, dos livros de fotos (dos quais nem falei) das fotos que escaneei para ter salvas digitalmente, até os últimos anos, em que o volume de fotos cresceu muito pelas razões que falei. Sempre que posso, e ainda mais agora em que estou publicando uma foto ao dia em meu Instagram, revejo essas fotos. 

 

Lembro de momentos passados, de quem e como eu era e de que quem e como sou hoje em dia. É quase uma auditoria diária de quem tenho sido a partir de quem fui. E quem fez e faz parte dessa trajetória.

 

Tenho gostado do que vejo, devo confessar.


Até. 

sexta-feira, junho 13, 2025

Paris

Descia eu a Boulevard Saint-Michel em direção ao Sena, após passar pelo Jardin du Luxembourg, em um entardecer com chuva de outono, as folhas de cores que iam do amarelo ao vermelho eram pisadas pelos passantes que ia ou voltavam de seu trabalho diário, até a esquina com a Boulevard Saint-Saint Germain. Onde antes eu estaria procurando um café com internet, se ainda estivesse no início dos anos 2000, agora voltava para reencontrar uma parte de minhas memórias.

 

Algumas vezes caminhara por aquelas ruas, seguira até às margens do rio, de onde veria a Notre Dame agora terminada a restauração após o incêndio, parando bem na esquina com a Quai des Grands Augustins de onde – nos últimos momentos do século vinte ligáramos para o Brasil para desejar felicidades às nossas famílias antes de jantarmos e nos juntarmos a uma multidão para entrar no século vinte e um aos pés da torre sob chuva e depois voltar caminhando madrugada adentro, frio e chuva, até o Quartier Latin, onde ficava nosso hotel, passando por pessoas e nos saudando mutuamente com Bon Anné...

 

Lembrei também de quando, anos depois, percorri a Champs Elysées iluminada à noite apenas olhando as luzes pela janela do carro, sentado só, no banco de trás, desde a Place de la Concorde até próximo ao Arc de Triomphe, onde ficava o hotel em que estava a trabalho, e pensava no quão legal era estar ali, naquele momento, mas que Paris era bem mais legal quando junto das pessoas certas. 

 

Ou então de quando ficamos uma manhã inteira esperando para ver se meu irmão ia seguir viagem comigo e com a Jacque, de carro em direção aos Alpes, ou se iria seguir a viagem dele conforme planejada antes de nos encontrarmos ali mesmo, em Paris, após um ano em que ele morara nos Estados Unidos, ainda antes de sua mudança definitiva para lá. Aquela época, ainda ficávamos na Rive Gauche, Rue des Écoles. Foi bem depois que “nos mudamos” para o Marais e para os apartamentos alugados...

 

Foi nesse momento, em que passava pelo Centre Pompidou, que fechei o Google Maps, decidi voltar a 2025 e deixar as lembranças para outra hora.


Até. 

sexta-feira, maio 09, 2025

Nove de Maio

Chove forte em Porto Alegre.

 

Lembranças ruins e memórias que gostaríamos de esquecer nos remetem ao ano passado e, memória coletiva, mil novecentos e quarenta e um. Rua alagadas, semáforos não funcionantes, queda de luz.

 

A enchente.

 

Maio de 1941, parte da memória coletiva, a enchente que não iria se repetir – derrubemos o muro! – e que foi pior em 2025. A devastação, o prejuízo, o patrimônio e – muito mais importante – as vidas perdidas. A lenta recuperação que ainda continua. A rede de solidariedade, as doações, os voluntários, os guris do jet-ski, a falta de água.

 

Aniversário do meu pai. Faria oitenta e quatro anos neste nove de maio. Viveu até quase três anos atrás. É por ele a tatuagem com o símbolo do Superman no meu antebraço esquerdo.

 

Quando a enchente do ano passado atingiu seu ápice, estávamos, a Jacque e eu, nos Estados Unidos. Acompanhamos, angustiados, as notícias. Quando fechou o aeroporto, de longe imaginávamos que seria por dois ou três dias, logo reabriria e que a nossa volta seria tranquila, afinal a água baixaria até a semana seguinte.

 

 Não reabriu. Não foi tranquila.

 

De certo modo, até que foi, sim.

 

Conseguimos trocar o voo para o dia seguinte de nosso voo original, mas para Florianópolis. Reservei o hotel e um carro para retornar por terra ao Rio Grande do Sul. Já em Santa Catarina, enchemos o carro de donativos, e dirigi de volta para casa. O dia seguinte ao da volta, levei mais tempo para ir devolver o carro na cidade vizinha de Gravataí e voltar do que o tempo que levei de Florianópolis até Porto Alegre. Sem a parceria do grande amigo Robert, que me acompanhou em outro carro na ida para voltarmos juntos, teria sido impossível fazer. Agradeço até hoje a força.

 

Nove de maio.

 

Duas enchentes históricas, separadas por oitenta e três anos. Meu pai nasceu na primeira, mas não testemunhou a segunda. É da vida.

 

Até.

domingo, abril 27, 2025

A Sopa

Memória.

 

A primeira música que lembro de ter ouvido do Piazzolla, ainda no final dos anos 80, foi Years of Solitude (Años de Soledad, em espanhol), gravada em Milão em 1974 por ele e pelo saxofonista Gerry Mullingan no disco Summit. Até hoje, essa música, que combina a melancolia portenha do tango do Piazzolla com a emotividade do jazz de Mullingan, está entre minhas preferidas.

 

Ouvi muito ela naquele final de anos oitenta, que coincidiu com o final do ensino médio (segundo grau, na época). Lembro que tinha uma gravação em fita cassete, e que se perdeu ao longo do tempo. “Perdi” o contato com essa música em especial naquele período de início de faculdade de medicina, com novos grupos de convívio com interesses e gostos diferentes. Quase a esqueci por alguns anos, período em que ficou adormecida em meu subconsciente, enquanto eu ouvia outras coisas. 

 

Quando fui retomá-la, no sentido de voltar a ouvir, percebi que não possuía mais a gravação em fita cassete e logo depois nem o rádio toca-fitas, que se perderam na passagem do tempo, no avanço tecnológico e em um carro roubado anos mais tarde. Busquei, então, a gravação em um CD (o vinil havia se tornado obsoleto naquele momento). Em Buenos Aires, comprei dois diferentes com gravações que não aquela que eu procurava. Levou um tempo, mas encontrei, enfim, o ‘Summit’, que tenho até hoje, apesar de não ter mais onde tocar CD em casa enquanto, em um daquelas ironias do mundo, esse pândego, tenho como tocar discos de vinil. 

 

Evidentemente que Bears of Solitude não era a única música dele de que eu era fã, mas foi a primeira e provavelmente a mais marcante. Houve um momento, acho, que ela esteve “meio em moda” no Brasil, não sei se tocou em alguma trilha de filme ou novela, mas ficou bem conhecida. Nessa época, eu estava procurando o ‘Summit’ para comprar e lembro de ir a uma loja atrás do CD (ia dizer que era em uma das lojas da Galeria Chaves, Centro de Porto Alegre, mas eu as frequentava quando só existiam disco em vinil).

 

Enquanto procurava o CD na seção de tangos, um atendente veio falar comigo, oferecer auxílio. Disse que procurava pelos trabalhos do Piazzolla, ao que ele me olhou, me julgou (eu percebi, tenho certeza, não sou paranoico) e perguntou se eu procurava por alguma música em especial (eu sabia que ele estava me considerando um ouvinte de uma única música). Sim, pensei, eu estou atrás DESSA música que está imaginando, mas, não, NÃO sou ouvinte de uma só música dele (e se fosse, qual seria o problema?).

 

Adios Nonino, Libertango, Balada para un Loco, Oblivion...

 

Naquele dia, não encontrei o ‘Summit’, que compraria em algum momento no futuro, pois ainda não havia surgido o streaming, mas comprei outros dois ou três, para provar que eu não era fã de apenas uma música. Claro que o vendedor não estava nem aí para isso, queria apenas vender (o que conseguiu). Eu é que me preocupava mais do que deveria com o que os outros pensavam. Daquela vez, pelo menos, minha discoteca ganhou com isso...

 

Até.

quarta-feira, abril 02, 2025

Zamel

Uma história.


Há pouco mais de vinte anos, quando cheguei no Canadá para o meu pós-doutorado, em um sexta-feira de manhã, do aeroporto fui direto para o alojamento da University of Toronto, onde eu ficaria em minha primeira semana até encontrar um apartamento para alugar, e – após deixar minhas malas lá – fui direto para o Mount Sinai Hospital para encontrar o responsável pela minha ida: Dr. Noé Zamel.

 

Gaúcho de Rio Grande, após se formar em Medicina em Porto Alegre havia ido para os Estados Unidos ainda nos anos setenta e depois se radicado no Canadá, em Toronto, onde foi médico, pesquisador e algo como um Embaixador nosso por lá. Fomos inúmeros médicos gaúchos e de outros estados brasileiros que passamos algum tempo em Toronto por sua intermediação. 

 

Logo na minha chegada, ao encontrá-lo pessoalmente pela primeira vez, me abraçou e disse que “finalmente” eu chegara. Foi reconfortante ser bem recebido, e ele sempre me tratou com afeto e consideração. Isso era agosto de 2004.

 

Em abril de 2005, fizemos uma festa de setenta anos para ele, nós que trabalhávamos no Respiratory Research Lab, do Toronto Western Hospital. Em algum momento ele sugeriu que eu ficasse mais do que os dois anos por lá, mas eu tinha que voltar para casa, para o meu mundo.

 

Muitas histórias dele, que faria hoje, dois de abril de dois mil e vinte e cinco, noventa anos. Ele faleceu em outubro de dois mil e vinte. 

 

Foi um grande cara, e uma honra para mim ter podido conviver com ele.

 

Até.

terça-feira, março 04, 2025

Mais uma de Carnaval

Não sinto falta do carnaval, exceto como feriado...

 
Mas já tive, sim, o meu tempo de “folião”. O último baile (isso mesmo, baile) de carnaval que fomos, a Jacque e eu, e não contando os divertidos bailes de carnaval infantil da SOGIPA, em Porto Alegre, em que levamos a Marina junto com a turma da escola nos tempos do jardim de infância, foi há mais de vinte anos, na SAT (Sociedade de Amigos de Tramandaí), em Tramandaí, litoral do Rio Grande do Sul. Em grupo. Não um bloco, mas uma turma. E foi bem legal, ficamos no baile até as cinco horas da manhã e depois terminamos a noite comendo um xis no Pica-Pau Lanches, local que nem existe mais, assim como não existem mais os bailes de carnaval das sociedades de praia...


Ainda antes participei apenas de um bloco de carnaval nos tempos de folião assíduo. Foi o ‘Perversa’, em Imbé, no carnaval de rua na Av. Rio Grande, que hoje se chama Nilza Godoy.

 

Lá no início dos anos noventa, época em que Imbé era o centro da noite do litoral gaúcho, e a Av. Rio Grande era o centro da agitação com seus bares com música ao vivo, decidiram fazer um carnaval de rua que, na verdade, era em um terreno ao lado de um dos bares. Nós, como bloco, fomos para lá. 


No início, o pessoal ficava restrito ao terreno, enquanto carros passavam na avenida. Com o decorrer da noite, e num daqueles ‘trenzinhos’ característicos, que vai aumentando de tamanho à medida que vai passando e mais pessoas vão se juntando, começamos a atravessar a rua e a entrar em outros bares, chamando mais pessoas. E foi uma bola de neve, até que toda a rua foi invadida e carros não passavam mais. Nas noites seguintes e nos anos seguintes, a polícia antecipadamente bloqueava o espaço aos carros.


O evento aumentou em proporções com o passar dos anos, o que implicou – pelo fato de ser de rua e de livre acesso – na presença de grupos dispostos a “esculhambar” muito mais que brincar. Assaltos e brigas foram o último estágio antes de o Imbé perder o posto de centro da noite no litoral para Atlântida, que desde então tem a principal noite do litoral gaúcho. Mas, nessa última fase, já não passávamos o carnaval lá. Nesta fase, já tínhamos nos mudado para os bailes de carnaval da SAT (a mesma que fomos, o Pedro, a Zeca, Jacque e eu, há mais de vinte anos). 


Como costumo falar, sempre fui fã dos carnavais de antigamente, aqueles que não vivi. Os carnavais das marchinhas. Não essas festas de carnaval em que toca música eletrônica e – horror – funk. Sempre pensei que carnaval tem que ter música de carnaval, para o resto do ano temos as outras músicas, menos o funk, que nunca deveria ser ouvido. 

Falando em música, a música de hoje, novamente do Chico Buarque, é outra obra-prima da música popular brasileira, composta em 1966. 


Quem Te Viu, Quem Te Vê
(Chico Buarque)

Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala
Você era a favorita onde eu era mestre-sala
Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua
Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua

Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer

Quando o samba começava, você era a mais brilhante
E se a gente se cansava, você só seguia adiante
Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado
Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado

Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer

O meu samba se marcava na cadência dos seus passos
O meu sono se embalava no carinho dos seus braços
Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão
Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão

Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer

Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe
De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse
Eu não sei bem com certeza por que foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia

Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer

Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade, por favor não dê na vista
Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista

Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer 

 

Até. 

segunda-feira, fevereiro 24, 2025

Memória

Como é o esquecimento?

 

O ano de dois mil e vinte e cinco representa algumas datas importantes na (minha) história. Claro que, se pensarmos um pouco, todos os anos são assim, da mesma forma que todos os anos são, de uma forma ou outra, desafiadores e difíceis, bons e ruins, dependendo de nosso olhar.

 

Algumas dessas datas marcantes desse (meu) ano marcam até quarenta e cinco anos de alguns eventos, dos quais (ainda) tenho algumas lembranças, mais ou menos nítidas. Daqueles que completam quarenta anos, lembro bem mais, e – obviamente – quanto menos tempo passou desde o acontecimento, melhor lembro.

 

Mas a pergunta que me faço nessa segunda-feira de sol e calor é: o quanto as memórias que tenho desses eventos há muito ocorridos são realmente memórias do que ocorreu e quanto são memórias criadas ao longo do tempo? O quanto já esqueci e o quanto criei (inventei?) para mim? Para me sentir melhor, por exemplo.

 

Para alguns dos fatos, como o acidente de 1990, tenho escritos meus da época, além da história que contei muitas vezes para as pessoas. Mantemos (mantenho) a lembrança viva ao contá-la, ao relembrá-la, agora como fato histórico, bem resolvido. Revivo os fatos ao lembrar, sem julgamento nenhum sobre os acontecimentos.

 

Tenho pensado em escrever novamente, sem consultar o que escrevi anteriormente, sobre alguns dos fatos do meu passado. Por curiosidade mesmo, saber como vejo hoje e, para aqueles que tenho escritos prévios, como os via na época. Para entender um pouco mais quem eu era e como me tornei quem sou.

 

Até.

 

terça-feira, fevereiro 04, 2025

Caminhando na praia

Praia já não é minha praia.

 

Como diz a música do Duca Leindecker (“... Eu volto pra lembrar / Que a gente cresceu / Na beira do mar...”), crescemos na beira do mar no litoral norte do Rio Grande do Sul, em Imbé, com a Turma do Muro, nossa turma de verão cujo ponto de encontro era no muro da casa do Adriano, do outro lado da rua da casa da Stefania. Já falei várias vezes disso, mas – desde que nossa casa da praia foi vendida, há mais de dez anos - não passo mais por aquele local, porque perdeu o sentido, pois as pessoas não estão mais lá.   

 

A rotina de praia naqueles anos de adolescência era de acordar mais ou menos cedo, hábito que mantenho até hoje, e – após o café da manhã – ir caminhar na praia por cerca de uma hora e na volta ir diretamente jogar vôlei com um grupo de idades variadas, em que era dos mais novos, por mais um tempo, antes ainda de encontrar os amigos. Volta para casa, almoço e um pequeno descanso.

 

O final de tarde era reservado para o futebol de pés descalços na grama do campo da casa do Pimenta, ao lado na casa do Adriano, onde passamos a jogar quando atingimos idade para jogar com os mais velhos. A volta para casa era após o pôr do sol, para o banho e jantar, antes de sair para a noite, que – quando éramos mais novos - encerrava quando o meu pai nos chamava com o seu assobio característico. Depois de uns anos, não havia mais a necessidade do assobio, e não havia mais hora para a noite encerrar.

 

Circulávamos, então, pela noite caminhando, algumas vezes pegávamos carona, de um lugar a outro, em grupo, e muitas histórias temos desse tempo, momento de construção de solidificação de amizades que persistem fortes até hoje, mesmo que a distância geográfica e as atribuições da vida tornem os encontros mais espaçados, com frequência menor que gostaríamos, mas é da vida. Uns se perderam pelo caminho, se afastaram, e a conexão de certa forma se perdeu, o que também é da vida.

 

De volta ao presente.


Os dias das curtas férias de verão seguem, e temos caminhado, a Marina e eu, pela praia, aqui em Atlântida. Apostamos entre nós se vamos encontrar alguém conhecido durante a caminhada, o que tem acontecido. O engraçado é que me vejo caminhando pela beira da praia em um lugar que não é onde por anos caminhei, cujas referência geográficas eu conhecia praticamente de olhos fechados, e que – durante um tempo – também reconhecia as pessoas que estavam lá. 

 

Após um tempo, logo antes de nossa casa ser vendida, caminhar pela praia de Imbé tornou-se uma atividade estranha, e era o começo do fim da minha história lá, pois apesar de as referências geográficas serem as mesmas, as pessoas que importavam já não estavam lá.

 

E elas são o mais importante da vida.


Até.   

terça-feira, dezembro 24, 2024

Arqueologia Sentimental

Aproveitando o primeiro dia “útil” do recesso de final de ano, ontem, utilizei o tempo em casa para mergulhar fundo em um armário há muito esquecido, que guardava memórias de tempos já há muito passados. Podemos considerar como parte do ritual de final de ano, do qual venho falando (vivendo) nos últimos dias. E existem mais armários a serem 'desbravados'.

 

Não tinha a menor ideia (não lembrava) o que estava guardado naquele armário, que certamente abrigava objetos há mais de dez anos sem serem mexidos, como - por exemplo – um time de futebol de botão dos meus tempos de guri, e que – não sei por que – não me desfiz quando saí de casa. Encontrei discos de vinil (que eram da Jacque) em perfeito estado de conservação, e que tornaram mais real o plano de voltar a ter em casa um toca-discos para rodá-los, ainda mais depois que adquiri o vinil ‘Ramilonga’, do Vitor Ramil, e o ‘Coisa de Louco II’, da Graforreia (comprado do Alemão, que com ele é mais caro, certo?), mesmo sem ter um...

 

Encontrei exames de imagem meus, ressonâncias de coluna cervical muito tempo antes de ter feito hérnia de disco, e, também, de joelho, da época em que operei os meniscos. Alguns exames muito antigos de pacientes, dos quais devo me desfazer. A cópia do meu prontuário médico de 1990, quando internei por trauma de crânio por um acidente de trânsito e passei trezes dias em coma em uma UTI. Um troféu de um campeonato de vôlei misto de 1988, e uma medalha de campeão de futebol de 1992. Algumas declarações de imposto de renda de mais de vinte anos. Uma série de papeis com músicas cifradas para violão.

 

Como parte desse inventário sentimental, a partir de guardados, revi pastas em que estavam armazenadas memórias de viagens, como recibos, mapas de cidades, folhetos de lugares, restaurantes e hotéis, tickets aéreos do tempo em que ainda vinham dessa forma, como se fossem um carnê. Com calma refiz sentimentalmente essas viagens.

 

Encontrei inclusive, uma ata que fizemos como preparação para a primeira viagem dos Perdidos na Espace, assim como planos de roteiro em uma época em que virtualmente não se utilizava a internet, no máximo enviávamos e-mails. Contatos com hotéis eram feitos por fax! Não resisti. Fotografei a ata e os roteiros e enviei para os integrantes do grupo, mesmo que já não sejamos um grupo, e mesmo que não seja mais possível a reunião de todos, porque a vida seguiu e rumos diferentes foram tomados, e está tudo bem.

 

Como já disse, tenho profundo respeito pela minha memória, pelo que vivi e pelas pessoas que fizeram parte dela, assim como valorizo ainda mais os que ficaram e os que estão por perto, sempre presentes, mesmo que não tenhamos a convivência diária.

 

Eles sabem quem são.

 

Bom Natal a todos nós.

Até.

sábado, dezembro 21, 2024

Sábado (e mais um para nossa memória)

 

(Juntos em mais um show)

           

Araújo Vianna, 19/12/2024.
Porto Alegre/RS.

Reencontro, reunião do T.N.T.

Criando histórias, fazendo memórias.

Bom sábado a todos.

Até. 

domingo, dezembro 08, 2024

A Sopa

Sou médico há 30 anos.

 

Existe um peso embutido nessa afirmação, que dá um certo tipo de credibilidade, do tipo ‘respeite meus cabelos brancos’, no sentido de possuir experiência, de ter vivido muito. Como se fosse uma promoção por tempo de serviço, o que – de certa forma – realmente é. Mais que tudo, são muitas histórias vividas.

 

Essa marca, trinta anos desde que nos formamos, os colegas da Associação da Turma Médica de 1994 da Faculdade (hoje Escola) de Medicina da PUCRS, além da comemoração entre nós, os formandos daquele ano, me faz também olhar para trás e refletir sobre a passagem do tempo. De onde viemos e quem éramos para onde estamos e quem somos.

 

Trinta anos é uma vida inteira, mas parece – olhando retrospectivamente – que passou muito rápido. 

 

O quanto o mundo, e a vida em especial, mudou desde aquele 17 de dezembro de 1994, de calor intenso, cerimônia de mais de três horas em que meu pai me entregou o meu diploma, e ele suava de calor, e o pai de uma colega que era irmã de uma ex-namorada minha me abraçou no palco quando passou por mim e a minha namorada à época que estava na plateia não entendeu, e depois teve a festa lá em casa e depois o baile e o café da manhã em um hotel, e antes de dormir, exausto, ainda discuti com a namorada não lembro por que razão, mas passamos a virada do ano juntos, na praia, e deixei ela em casa no dia primeiro de janeiro já como ex-namorados, e ainda faríamos uma tentativa de volta justamente no carnaval, e na primeira noite sonhei com a Jacque, que era colega de hospital, e pensei que nunca teria chance com ela, mas a tentativa de retorno não deu certo, e no dia seguinte à conversa definitiva em que ela disse que não queria mais tentar eu fiz plantão em uma UTI e, ao sair do plantão, fomos todos, residentes de clínica do Hospital da PUCRS jantar na casa de um dos colegas e lá, sentado ao lado da Jacque, perguntei porque brincava comigo dizendo, quando o meu pai ligava para hospital para falar comigo e ela atendia, que o ‘sogrão’ estava ligando, e ela disse que não era brincadeira, e saímos e ficamos juntos e namoramos por um mês em segredo até revelarmos a todos, e um ano e meio depois casamos, a Marina nasceu depois de doze anos, e estamos juntos, felizes, até hoje. 

 

Como em um piscar de olhos, boa parte da vida passou.

 

Mudei, mudamos.

 

Ainda há muito o que fazer e percorrer. 

 

Desejos e planos, secretos ou não.

 

Seguimos, altivos.

Até. 

quarta-feira, outubro 30, 2024

Sábado de Manhã

Volta e meia eu penso no sábado de manhã.

 

Não falo aqui do primeiro dia do final de semana, aquele de cuja noite todo mundo espera alguma coisa, do dia de ir na feira de orgânicos, de correr ou cainhar no parque, do chimarrão. Não, é de outra coisa que a que me refiro aqui.

 

Falo de um idílico, platônico, sábado de manhã.

 

É da manhã de sábado que é o melhor momento da semana, em que sol brilha alto e a música que toca enquanto ando de pés descalços pela grama é ‘Cúmplice’, do Cazuza. Há um mundo de possibilidades e infinitos mundo possíveis neste sábado de manhã, e poderemos ser quem quisermos quando chegar a hora de decidir. 

 

Lembro que foi em um sábado de manhã (pois, nas férias, todos os dias são sábados de manhã) que peguei emprestado um disco de vinil de uma amiga com a confissão de que nunca iria devolver, e estava tudo bem. Era sábado de manhã quando meu pai estava cuidando do jardim e cortando a grama em que eu andava de pés descalços, e o cheiro de grama cortada está em todo lugar.

 

Foi em um sábado de manhã em que discutimos o futuro, nós, os amigos que o mundo não separaria, mas que foi só chegar a segunda-feira que tudo mudou. Ou todos mudamos.

 

Foi sábado de manhã, há quase trinta anos, em que a Jacque e eu, recém namorados, mas em segredo, saímos no final de um plantão e fomos até a praia ver o mar. Foi em um sábado de manhã, um ano e meio depois, que enviei flores a ela porque era o dia em que iríamos nos casar. Foi sábado de manhã quando viajei com a Marina para Florianópolis ver um Beatle. Foi um sábado de manhã quando fizemos show no Opinião, mesmo que fosse domingo à noite. 

 

Não tenho saudades dos sábados de manhã.

 

Eu continuo vivendo os sábados de manhã.

 

Até.

domingo, agosto 25, 2024

A Sopa

Sobre o Canadá.

Sempre gostei de citar trechos de poesias ou letras de músicas em meus textos, na maioria das vezes entre aspas e em itálico, para deixar clara a referência, mas outras em meio ao texto, de forma mais sutil, para que seja percebida talvez apenas por quem a conhece. É o meu jeito, ou estilo (como autor já publicado, meu dou ao direito de falar “meu” estilo... momento em que colocaria aqui um emoji de risada...).

 

Pois ando tão à flor da pele, mas qualquer beijo de novela não me faz chorar, aliás, nem novela assisto e, mais, nem televisão aberta ou mesmo a cabo, exceto pelos cada vez mais raros jogos de futebol. Também não choro há mais de trinta anos, exceto quando o meu pai morreu, um pouco antes ao antecipar o fim, depois quando realmente aconteceu e, por fim, na despedida, no velório, quando me emocionou a presença de meus amigos, amigos de minha mãe, do meu irmão e – muito – de amigos dele. Já contei sobre isso, foi um turbilhão de emoções que tornou tudo um momento que me senti abraçado e confortado por todos.

 

Como frequente em meus escritos, tergiverso.

 

Dizia eu que ando emocionado, saudosista, o que não é um estado infrequente para alguém que, como eu, definiu para si próprio o ofício de pensar a vida e colocar isso no papel, registrar o que penso e sinto, que é o que tenho procurado fazer por esses dias, de tentativa de escritos diários a partir de fatos cotidianos e, sim, reflexões da vida, da minha vida. Tenho andado distraído, mas não impaciente ou indeciso, mas no sentido de olhar o mundo de forma mais ampla, algumas vezes como observador de fora, como se não fizesse parte do que acontece. É um exercício de humildade, de certa forma.

 

A marca dos vinte anos de minha ida para o Canadá certamente é um dos motivos para esse sentimento de saudosismo de que falei. Lembro (obviamente) claramente das sensações daqueles primeiros dias sozinho lá, o estranhamento justamente por estar – pela primeira vez na vida – absolutamente sozinho. Cheguei em um vinte de agosto, curiosamente exatos quatro anos antes de a Marina nascer, mas só comecei efetivamente o trabalho em 08/09/2004 porque havia questões burocráticas a resolver e – quando resolvidas – estariam todos, exceto eu, claro, viajando para um congresso na Escócia. Então os primeiros vinte dias de Canadá foram para me organizar com as burocracias da minha licença médica e da Universidade, mas também com os trâmites de encontrar um lugar para morar que não fosse um basement (porão, normalmente mais barato), fosse em uma região legal e dentro do meu orçamento, e tivesse acesso fácil ao transporte público.

 

A primeira semana no Canadá foi comigo hospedado em um dormitório da University of Toronto que é alugado como hostel nas férias de verão, que terminava justamente no final dessa semana que eu havia alugado. Teria uma semana para organizar isso. Eu havia chegado em Toronto em uma sexta-feira pela manhã com a intenção de ter o final de semana para procurar lugar para morar, mas a pessoa que iria me auxiliar nessas tarefas estava fora naquele dia, então tive que esperar até a segunda-feira para começar o processo. O primeiro final de semana em Toronto foi apenas passeando, sem conseguir resolver nada.

 

A partir do começo da semana seguinte, após o final de semana “perdido” (em todos os sentidos), as coisas se resolveram, tanto com relação à Universidade, abertura de conta no banco (com cartão de crédito com um bom limite, pelo meu vínculo com a Universidade), aluguel do apartamento de um quarto (próximo ao High Park, no 21º andar de um prédio, mas sem vista para o lago ou para a CN Tower...) porque esperava visitas enquanto estivesse lá, e mudança em etapas para o apartamento. Os primeiros itens comprados para a casa foram um colchão de ar, lençóis, edredom e uma cadeira de camping, para a sala. Logo após, uma ida ao Walmart para comprar mais acessórios para a casa e ao supermercado. Em uma semana de Canadá, estava estabelecido. Tinha onde morar e uma geladeira cheia.

 

Foi quando fui para Nova York.

 

Conto mais outro dia.

 

Até.

quinta-feira, agosto 22, 2024

Duas Décadas

Memória.

O aniversário da Marina, na última terça-feira, ofuscou uma data significativa em minha história pessoal: completaram-se vinte anos de quando cheguei à Toronto para o período de dois anos como Fellow no Toronto Western Hospital, vinculado à University of Toronto. Foi o meu pós-doutorado, e que – sob muitos aspectos e obviamente – foi muito importante para minha vida profissional. Não lembrei no dia porque tinha algo mais importante, o aniversário da minha filha. Isso mostra de maneira clara a ordem das prioridades na vida, e a família está em primeiro lugar, algo de que me orgulho. 

Toronto, então.

 

Tenho vívida em minha memória a sensação de que estava – mesmo que temporariamente – abandonando tudo o que era importante para mim, a Jacque, meus pais, minha família como um todo, meus amigos, minha cidade, para criar uma história em outra cidade de outro país. Emocionalmente, por mais que tenha tentado me preparar, a chegada foi difícil, por estar sozinho, sem conhecer ninguém, sem referências. Precisava criar minha história por mim.

 

É claro que minha situação, nesse caso, era confortável, afinal eu fui para lá com bolsa paga em dólares pela própria Universidade, a partir de projetos de pesquisa que desenvolveria. Poderia me dedicar apenas a estudar e fazer a pesquisa. Seria esse meu trabalho, sem outras preocupações. Sem noites ou finais de semana de plantão, rotina que eu tinha enquanto médico naquela época. Sem viajar para alguns desses plantões ou para trabalhar em Posto de Saúde.

 

Foi desafiador e fácil ao mesmo tempo.

 

E foi a virada de chave do ponto de vista profissional. Sem dúvida nenhuma, a experiência de viver e trabalhar fora do Brasil foi determinante para o rumo que minha carreira médica tomou a partir da volta. Foi uma experiência sensacional, mesmo estando longe das pessoas importantes da minha vida. Cresci como profissional e ainda mais como pessoa. Valeu muito.

 

Há vinte anos.


Até.