domingo, maio 28, 2023

A Sopa

Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperto o passo por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez

 

Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver

O mundo anda tão complicado

Que hoje eu quero fazer tudo por você

 

Temos que consertar o despertador

E separar todas as ferramentas

Que a mudança grande chegou

Com o fogão e a geladeira e a televisão

Não precisamos dormir no chão

Até que é bom, mas a cama chegou na terça

E na quinta chegou o som

 

Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo

E até que é fácil acostumar-se com meu jeito

Agora que temos nossa casa

É a chave o que sempre esqueço

 

Vamos chamar nossos amigos

A gente faz uma feijoada

Esquece um pouco do trabalho

E fica de bate-papo

Temos a semana inteira pela frente

Você me conta como foi seu dia

E a gente diz um pro outro

Estou com sono, vamos dormir!

 

Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver

O mundo anda tão complicado

Que hoje eu quero fazer tudo por você

 

Quero ouvir uma canção de amor

Que fale da minha situação

De quem deixou a segurança de seu mundo

Por amor, por amor

  

‘O mundo anda tão complicado’ é o nome de uma música criada e gravada pela Legião Urbana no seu quinto disco, e cada vez mais esse título traz uma verdade irrefutável. Uma verdade não só brasileira, mas mundial: o mundo anda de verdade cada vez mais, digamos, difícil.

 

Quando do lançamento de ‘V’, cinco em números romanos sinalizando o quinto disco da banda, trabalho onde está a música referida, no distante ano de 1991, no milênio passado, a letra da música - que fala de um casal começando uma vida a dois juntos, montando a casa, se mudando, iniciando uma nova vida – era para mim, nos meus dezenove anos, praticamente uma aspiração. Era eu quem queria “deixar a segurança do meu mundo, por amor”.

 

E assim foi, alguns anos depois. Oi, Jacque.

 

Mas falava do mundo, e das complicações que vão além das questões pessoais de vida. Sim, é verdade que a vida é MUITO melhor hoje em dia do que era no passado, e os saudosistas, aqueles que glorificam o passado, vivem o fenômeno da idealização do que já foi. Inconscientemente (e como mecanismo de defesa) preferem lembrar do que era bom em detrimento das agruras de se viver antigamente. Por outro lado, há – sim - uma dificuldade crescente de se viver, mais especificamente de saber como viver, como se portar e como falar. A tirania do politicamente correto está esmagando o bem viver, e indo para um lado perigoso, de estímulo à intolerância, à polarização.

 

É evidente e óbvio que determinados comportamentos que eram aceitos no passado não podem mais ser rotulados como normais e nem adequados. Menos ainda como culturais. E devem ser combatidos, sempre. Como o machismo, o racismo ou qualquer outro tipo de discriminação com relação ao que as pessoas são, como ou com quem vivem. Aliás, as pessoas deveriam (devem) ter o direito de ser e viver da forma que quiserem. 

 

Penso nisso todas as vezes em que vou ao supermercado e – ao comprar pão francês – perguntam se quero o pão “mais branquinho” ou “mais moreninho”...

 

Pão, eu quero um pão que esteja bom.

 

Só isso.

 

Até.

 

 

domingo, maio 21, 2023

A Sopa

Existe uma expressão em inglês, “take for granted”, cuja significado é algo como tomar por certo, por garantido, sem questionar, mas que também significa não valorizar algo ou alguém por uma “super familiaridade”, ou seja, que parece sempre ter estado e que sempre estará ali. Como eu disse, algo que nos parece banal, normal, mas que - se ficarmos sem - nossa vida ficará, ao menos, mais complicada.

 

Pensei nisso enquanto subia no elevador desde a garagem até o sétimo andar do edifício onde vivo pela segunda (ainda haveria uma terceira logo após) vez na mesma manhã de domingo, após ir e voltar do supermercado e estar devolvendo o carrinho que usei para transportar as compras da garagem até o apartamento até o local onde fica guardado. Aliás, já aconteceu de, ao tentar entrar no elevador, me deparar com o mesmo carrinho deixado por um morador que – infringindo o contrato social, civilizatório – deixou-o ali para que alguém fizesse o que ele deveria ter feito, mas isso – definitivamente – vem ao caso.

 

Falava eu daquelas coisas que tomamos como certas, garantidas na vida, que parece que sempre estarão ali e não damos valor. Os “confortos” da vida moderna, como a eletricidade e tudo que depende dela para funcionar, desde a iluminação de nossas casas, elevadores, até as bombas que “puxam’’ as águas dos rios para as estações de tratamento e que serão depois “enviadas” até nossas casas. Sem ela, a eletricidade, a vida seria muito mais difícil. É também por isso que não entendo aqueles que dizem que o mundo está pior, que a vida era melhor no passado.

 

Não era.

 

A mundo, a vida, atualmente, são MUITO melhores do que foram no passado. Essa sensação, essa impressão de que as coisas estão piores é um erro a que somos condicionados tanto pelo mundo exterior (imprensa, por exemplo, que tem a tendência a noticiar o que é ruim) quanto por nós mesmos, a partir de idealizações do passado. É uma tendência muito comum essa, de desvalorizar o momento presente (take for granted) e supervalorizar o passado. Se pensarmos racionalmente, criticamente, essa impressão não se sustenta. 

 

Há menos violência, menos guerras. A expectativa de vida nunca foi tão alta, mesmo levando-se em conta um ligeira diminuição pela pandemia do coronavírus. Em geral, vivemos mais e melhor, mesmo com os problemas que ainda existem. E não é conversa de otimista ou “Poliana”. São informações baseadas em dados. Fatos.

 

Penso nisso tudo também com relação às pessoas, e volto a falar em to take for granted... Tento, em um esforço virtualmente diário, não deixar isso acontecer. Tanto no sentido de valorizar as pessoas com quem convivo, estar com elas, mas também não deixar de – o mais frequente que posso – conviver com aqueles que não fazem parte do meu dia a dia. Encontrar, estar junto, por mais difícil que seja, porque sei que elas não estarão aqui para sempre.

 

Até.

sábado, maio 20, 2023

Sábado (e estamos nos preparando)


              

Shows de maio:

27 - São Paulo/SP
31 - Porto Alegre/RS - Sgt. Peppers Pub


Bom sábado a todos!

Até.

domingo, maio 14, 2023

A Sopa

Terminaram os relatos da viagem de fevereiro.

 

A sensação que fica é a do ninho vazio. Sobre o quê falarei a partir de agora? Seria eu um cronista de viagens? Não, eu sei que não sou “apenas” isso. Aliás, volto àquela definição de muito tempo atrás, de que sou um, mas sou muitos, no sentido de interesses múltiplos, de expansão de conhecimento. Se, em um momento da vida eu achei importante definir quem eu era e me sentir único em todos os diferentes ambientes em que vivia, o momento seguinte é continuar sendo uno (não o jogo, não o jogo) e expandir os horizontes.

 

Timing é tudo na vida.

 

Mudando de assunto, mas – no fundo – mantendo a linha de raciocínio, tinha como objetivo nos últimos anos voltar a ler algo que não fosse relacionado ao trabalho e que fosse longe das telas (celulares, tablets, computadores). Era um objetivo difícil em tempos de redes sociais e algoritmos que te fazem passar um bom tempo preso ao aparelho.

 

Tive, quando no pós-operatório da cirurgia da coluna, duas semanas em casa e repouso, a oportunidade de me desligar do trabalho e me dedicar um pouco e leitura. Consegui retomar, lentamente, esse hábito, mas, ainda assim, o tempo de tela aumentou porque o tempo “ocioso” também resultou em aumento do tempo online, entre celular e streaming, me colocando em dia com séries, documentários e filmes que eu há muito queria assistir e faltava oportunidade. A semente estava plantada, contudo.

 

Após retornar ao trabalho, decidir manter a leitura para reforçar o hábito, afinal a disciplina leva à consistência. E foi muito bom. Tinha atrasada a leitura de uma série de livros que havia ganho de presente dos meus pais há uns dois ou três anos, e parti daí. É a série Millenium, do escritor sueco Stieg Larson, que escreveu os três primeiros livros da série policial e – fatalidade – morreu antes da sua publicação. Esses três primeiros livros foram um tremendo sucesso, e então a editora encomendou a continuação para outro escritor, totalizando seis volumes. Eu havia lido os dois primeiros livros, iniciado o terceiro e – por circunstâncias diversas – havia parado.

 

Com a ideia de retomada da leitura regular, voltei à série de livros. E foi uma, digamos, loucura. Não conseguia parar de ler, o que foi muito legal, como nos velhos tempos. Em qualquer intervalo que eu tinha, eu estava com o livro em mãos. Acabei o terceiro livro e li os outros três (todos com ao menos trezentas páginas) em menos de dez dias. O que me deixou muito feliz. Era hora de seguir adiante, escolher o próximo livro, manter o hábito, ser consistente. Entre os livros ainda não lidos que mantinha na mesa de cabeceira ao lado da cama, escolhi uma biografia do Dante Alighieri, que havia ganho de presente.


Comecei a ler, e estou lendo. É uma leitura mais difícil, porque não é escrito na forma de um romance, digamos assim, mas baseado em documentos, fontes, citações. Mas é bem interessante. E aí entra a questão do timing.

 

Atendi, há alguns dias, um paciente que, em meio à consulta, me disse que, além de sua atividade habitual, era escritora. Sem modéstia, disse que também era. Conversamos um tempo e ela me presenteou com três de seus livros que, em meio essa minha nova fase como leitor, ainda não comecei a ler. Ela retornou à consulta na última sexta-feira e – no final da consulta – perguntou se eu lera os seus livros. Respondi que ainda não tivera a chance porque estava lendo, justamente, a biografia de Dante...

 

Ela deve ter concluído, baseado no que estou lendo agora, que sou um leitor habitual de grandes obras, quando – na verdade – há poucas semanas tudo o que eu lia eram as notícias do dia, Twitter e Instagram, além de passar um enorme tempo olhando vídeos bobos.

 

 Mas estou melhorando, estou melhorando.

 

Até. 

sábado, maio 13, 2023

Sábado (e os Perdidos 2023)

(Karina, Tânia, Roberta, Marcelo, Marina e Jacque)
 

Os viajantes.
Perdidos Mães e Filhos, Itália 2023.

Foi muito bom.
Esperamos a próxima.

Até.

terça-feira, maio 09, 2023

Perdidos Mães e Filhos (Epílogo)

A Viagem (Final). 

Terça-feira, 21 de fevereiro de 2023. Porto Alegre.

 

Termináramos nossa viagem à Itália, intitulada Perdidos Mães e Filhos. O nome veio da constatação de que, mais que tudo, foi uma viagem família. Férias de verão com os pais, para a Marina. Reencontro da mãe com a filha que mora longe, e da filha que foi morar longe com a mãe, para a Karina e a Roberta, e, finalmente, do filho que quis apresentar um pouco da Itália para sua mãe, este que vos escreve. Foi, como podem ver, uma viagem cheia de simbologias.

 

Olhando retrospectivamente, não estive tão relaxado e descontraído como na viagem do ano anterior, para Uruguai, quando – após os anos de pandemia, que não haviam acabado, eu sei – pude realmente descansar. Não tem uma explicação clara para isso, mas – de qualquer forma – de maneira nenhuma isso reduz o quanto foi boa a viagem, mais uma vez. Todos estivemos numa sintonia boa, num astral legal. Visitamos novos lugares e revisitamos locais queridos por nós. Novos pontos de vista, a boa sensação de estar um lugar especial mais uma vez. 

 

Como toda viagem, valeu muito.

 

A chance de – depois de muito tempo – passar muito tempo junto com a minha mãe foi muito especial, depois dos anos pesados (principalmente para ela) em que meu pai (que por sinal estaria de aniversário hoje, 09/05, quando publico esse último capítulo da viagem) esteve doente. Estávamos leves. Conversamos sobre ele, da falta que ele faz, e das boas memórias que temos dele, que é o que fica, no final das contas. Foi muito legal ter a chance estar com ela em lugares tão especiais. E, mais, uma sensação de felicidade que persiste ao lembrar de todos nós na viagem.

 

As atividades de trabalho e escola foram retomadas na Quarta-Feira de Cinzas, e a vida seguiu. A única pendência que havia ficado, sem dúvida, eram os mil e seiscentos e sessenta euros que eu havia pagado no cartão de crédito cujo vencimento era no dia 17/03, quase um mês depois do ocorrido. Apenas após o pagamento é que eu poderia pedir o reembolso do valor, evidentemente. Eu estava tranquilo, mas sempre pairava uma pequena dúvida no ar: será que eles realmente pagariam? Bom, se não pagassem, paciência, eu iria arcar com o prejuízo. Tranquilo. Em nenhum momento passou pela minha cabeça a possibilidade de dividir o prejuízo de uma bobagem minha com o resto do grupo.

 

O dia em que venceu a fatura foi em uma sexta-feira, a mesma em que fiz uma ressonância magnética de coluna lombar cujo resultado levou o meu ortopedista especialista em coluna me mandar uma mensagem que dizia apenas “precisamos conversar”, sinal de que algo não estava bem. Eu tinha uma grande hérnia de disco lombar que estava praticamente ocluindo o forame por onde sai a inervação para o perna esquerda, e essa era a causa das dores que eu vinha sentido, e que havia piorado nos últimos dias após ter ido à São Paulo para assistir ao show do The Black Crowes, quando fiquei mais de oito horas de pé, num noite memorável, que será lembrada como “a noite em que um morador em situação de rua nos deu dinheiro” uma história que contarei um dia desses.

 

O final de semana após o pagamento a fatura foi horroroso por causa da dor devido à hérnia. Na madrugada de sábado para domingo acordei para tomar água, mas no caminho entre o quarto e a cozinha tive MUITA dor, e parei no sofá para ver se aliviava. Piorou. Deitei-me no chão, e não fez diferença, mas aí o problema é que a dor não me deixava levantar. A muito custo, voltei ao sofá e deitei de lado, onde dormi das quatro às seis horas da manhã.

 

Em destaque, a hérnia de disco L4-L5


Foi quando, num esforço extremo, consegui me levantar e caminhar até o quarto, quando caí na cama, com dor e suando frio. As meninas acordaram assustadas. Tomei TODOS os analgésicos e anti-inflamatórios que havia na casa. Dormi um pouco mais e acordei praticamente sem dor. Ao sair da cama, notei que havia perdido a força na perna esquerda, além da sensibilidade no local. Não havia volta: o tratamento teria de ser cirúrgico. Conversei, ainda no domingo, com o ortopedista, que disse para eu ir na clínica dele na segunda-feira à tarde que ele faria um bloqueio para aliviar a dor para eu poder aguardar os trâmites da cirurgia.

 

Cancelei o consultório para a semana seguinte enquanto aguardava as definições. Na manhã de segunda-feira mesmo, logo cedo, ele me mandou uma mensagem avisando que eu seria submetido à cirurgia na noite de terça-feira, de urgência. Na tarde daquele dia, após o bloqueio fiquei sem dor, mas ainda caminhando com dificuldade pela perda de forço. Em casa, já na espera pela cirurgia, acessei o site da seguradora e submeti o pedido de reembolso do valor da franquia, junto com os documentos e relato do caso.


A manhã seguinte, já no dia da cirurgia, foi de ir até o hospital (sem dor, e com cuidado, conseguia dirigir) para fazer um eletrocardiograma apenas por descargo de consciência. Enquanto aguardava pelo exame, feito por um amigo cardiologista, recebi o e-mail da seguradora dizendo que minha solicitação de reembolso havia sido aprovada, e que o pagamento ocorreria em até 24 horas. Surpresa boa!

 

Após o exame, por volta das 11h30, fui almoçar onde tradicionalmente almoço nas terças-feiras, porque a partir do meio-dia deveria entrar em NPO (sem comer ou beber nada) para a cirurgia da noite. Após o almoço fui em casa largar o carro e voltei de Uber para o hospital. Internei via emergência para ser operado. Fui encaminhado para o setor de pré-operatório bem cedo, tipo 16h30, para a cirurgia das 20h. Me deixaram em uma poltrona confortável, com o celular comigo e uma tomada ao lado caso precisasse carregá-lo. Ali fiquei até a hora de ir para a sala de cirurgia. Quando estava na espera, contudo, recebi uma notificação de recebimento de PIX. 

 

Era o pagamento do reembolso pela seguradora!

 

Agora, sim, a viagem havia terminado, e de forma muito boa...

 

A próxima etapa seria operar a coluna e começar a recuperação para pensar na próxima viagem dos Perdidos na Espace.

 

Foi muito bom!

 

Até.

domingo, maio 07, 2023

A Sopa (Perdidos Mães e Filhos 35)

O dia em que perdi minha mãe no aeroporto.

 

Antes, uma correção.

 

Eu havia dito que a franquia do carro em caso de acidentes era de mil seiscentos e sessenta euros, mas me enganei. A franquia era de dois mil euros, “um pouco a mais” ...

 

De qualquer forma, eu estava em parte – em parte – tranquilo, pois, ao alugar o carro com o seguro e a dita franquia, eu havia também feito um seguro a mais, completo, sem franquia, com uma segunda seguradora, o que fui me dar conta mais tarde. Dessa forma, eu tinha cobertura total, não tinha dúvida, mas também sabia que teria que pagar a franquia e depois solicitar reembolso do valor pago. Tudo certo, em princípio, mas sempre existe aquele “pé atrás” e uma certa insegurança do tipo “será mesmo que vão pagar?”. Só saberia depois, quando solicitasse o reembolso.

 

Acordamos, tomamos café da manhã, fizemos o checkout do hotel e fomos até o estacionamento da locadora para entregar o carro. O funcionário que nos esperava recebe a chave e perguntou se havia corrido tudo bem. Eu disse que sim, exceto por um pequeno “problema”, e mostrei o “estrago”. Ao ver o estrago, começou a fazer o registro do incidente, chamou um colega para auxiliá-lo. Tirou fotos, eu descrevi o ocorrido, e – num tablet – registrou tudo e automaticamente registrou o valor a ser pago: mil seiscentos e sessenta euros... Pagos com o cartão de crédito, e teria que pedir reembolso posteriormente.

 

O estrago


Liberados dessa burocracia, fizemos o checkin para o longo voo diurno da LATAM de Milão para Guarulhos. No horário correto, partimos de volta ao Brasil.

 

Agora não haveria mais correria e nem estresse.

 

Ou haveria?

 

O voo transcorreu tranquilo. Ainda havia a obrigatoriedade do uso de máscaras durante todo o voo, o que era – por um lado – chato, mas que foi providencial para a Jacque, que foi num assento ao lado de um italiano que exalava um cheiro de cigarro quase insuportável. Muitos filmes vistos para passar o tempo depois, aterrissamos em Guarulhos. Foi quando começaram os momentos de emoção para fazer a conexão para Porto Alegre. O nosso voo era às 23h, o último do dia para Porto Alegre.

 

Começando a volta, em Milão


Desembarcamos, passamos pela imigração brasileira e fomos esperar nossa bagagem. Que demorou. MUITO. Esperávamos enquanto o tempo passava, e o tempo da conexão ficando cada vez menor. Após um tempo excessivamente longo, chegaram. Passamos pela alfândega sem sermos parados e fomos para a fila do checkin de conexão. E o tempo passando. Longa fila, atendimento demorado, pessoas furando a fila, discussões, vozes alteradas. E nós, quietos, aguardando.

 

Feito o checkin, tivemos que sair correndo do terminal 3 para o terminal 2, onde seria o embarque. Ao chegar na fila para a inspeção, nos separaram, e a Mãe foi para a fila de prioridades, a Marina e a Karina para uma e a Jaque e eu para uma terceira fila. Passamos e, a sair dessa área para irmos para o portão de embarque, não encontramos a Mãe. O nosso portão ficava num extremo do terminal, e concluímos que – pelo tempo escasso – ela já havia ido para o portão. Enquanto caminhávamos rápido, funcionários da LATAM nos apressavam. Chegando no portão, descobrimos que a minha Mãe nunca havia chegado até ali. Além de tudo, ela estava sem o celular funcionando (não havíamos recolocado o chip nele).

 

Eu havia perdido a minha Mãe no aeroporto de Guarulhos.

 

O que fazer?

 

Disse para que eles esperassem que eu iria buscá-la.

 

Saí praticamente correndo em direção de volta ao local da inspeção, procurando por ela e já imaginando que ela e eu iríamos perder o voo e acabar dormindo em São Paulo e só chegando em casa bem mais tarde no outro dia. Cheguei ao ponto de início e ela não estava lá. O que fazer, nesse momento?

 

Foi quando a vi, junto com outra pessoa, vindo da direção contrário de onde era o nosso portão. As duas, passageiras do mesmo voo, haviam sido informadas por engano de que o portão era no extremo oposto de portão correto, e foram até lá. Chegando lá, informadas do erro, estavam fazendo o caminho de volta. Nos reunimos, e fomos caminhando para o portão certo, mesmo com a histérica pressão de funcionários da LATAM para que corrêssemos (ainda havia tempo até a hora de sair o voo).

 

Embarcamos, e ainda esperamos um tempo até o voo realmente sair.

 

Voo, finalmente, tranquilo. 

 

Chegamos em Porto Alegre por volta de 0h40 da terça-feira de carnaval. Despedidas no aeroporto e fomos – em três carros diferentes para regiões diferentes da cidade – para casa. Dormimos por volta das duas horas da manhã, cansados e felizes.

 

Havia sido uma ótima e inesquecível viagem.

 

Até. 

quinta-feira, maio 04, 2023

Perdidos Mães e Filhos (34)

 A Viagem (22).

 

Dia de começar a volta.

 

Estava terminando a viagem. Domingo de carnaval, era hora de descer a montanha e retornar ao ponto de partida italiano de nossa viagem, o aeroporto de Malpensa, onde tínhamos chegado do Brasil e encontráramos a Roberta, que nos esperava lá. Hoje seria o dia em que a deixaríamos lá para sua viagem de volta à Barcelona.

 

Amanhecer nos Alpes italianos


Acordamos no lugar em que pensamos ser Meltina. A noite havia sido uma ótima noite de sono nos Alpes, aconchegante, confortável. Imaginávamos uma grandiosa vista de onde estávamos, porém uma densa neblina impedia qualquer visão além de poucos metros a frente. Paciência. Tomamos um bom café com o que ainda tínhamos de alimentos, nos arrumamos, tiramos algumas fotos do local e nos despedimos da família de proprietários. Era hora de descer a montanha.

 

Iniciando a despedida da Itália


A distância entre onde estávamos até o Terminal do Aeroporto de Malpensa, onde “largaríamos” a Roberta, era de aproximados 340km, entre 3h30 e 4h de viagem, sem contar com as “paradas técnicas”, alguns desvios, e almoço. Saímos pouco depois das dez horas da manhã.

 

O trajeto saindo de Meltina envolveu retornar pelo caminho que fizéramos na noite anterior, via SP11 e depois SS38 até entrar na A22 no sentido sul, em direção à Verona, até o acesso Affi-Largo di Garda Sud, onde trocamos para a SR 450, depois SR 11 e então a E70, e, ainda a A4 (rodovia Milão – Trieste). Passamos bem perto de Peschiera de Garda e fomos até Sirmione, balneário do Lago di Garda em que já estivéramos antes, mas – por ser domingo - estava absolutamente lotada. Não conseguimos lugar para estacionar. Ato contínuo, seguimos viagem.

 

A parada para almoço foi em um desses postos de parada na estrada, meio que lanche (paninis), pata podermos seguir viagem.

 

Foi um trajeto percorrido sem incidentes até o Terminal 1 do Aeroporto de Malpensa, onde largamos a Roberta para que pegasse seu voo de volta para sua casa em Barcelona. Nos despedimos imaginando quando seria nosso próximo encontro presencial, fizemos filminho da despedida e fomos para o nosso hotel, ali próximo. Havíamos reservado no Holiday Inn Aeroporto de Malpensa, perto do aeroporto, com estacionamento e café da manhã. Eram dois quartos contíguos, onde ficaram a Karina e a Mãe em um quarto e a Jacque, a Marina e eu em outro. Nos instalamos e decidimos sair para algumas compras de “final de festa”.


Nos despedindo da Roberta

 

Conversando com o funcionário da recepção, pedimos dicas de algum shopping center próximo, e ele nos recomendou o Gigante, supermercado e centro de compras ali perto. Era o que tinha, e decidimos ir até para conhecer. Era um grande supermercado mesmo, com algumas poucas lojas junto, nada muito diversificado. Ficamos um bom olhando as coisas do supermercado (sempre uma diversão fora do Brasil) e com as meninas fazendo as últimas compras antes de viagem de volta. Até cogitamos procurar algum outro shopping, mas desistimos. Resolvemos voltar para o hotel para depois sair novamente para jantar. Na hora de hora de sair do estacionamento do centro de compras foi quando aconteceu o acidente, que – infelizmente - teve uma vítima quase fatal.

 

O meu orgulho.

 

Ao sair do estacionamento, ao acessar a rampa para descer do segundo andar, ao fazer uma curva, já relaxado por ter passado por lugares muito mais estreitos, errei e raspei a lateral do carro em um corrimão de metal, fazendo um “rasgo”. Parei para avaliar o estrago apenas no estacionamento do hotel, e achei bem feio (e culpado e um péssimo motorista, sensação que eu sabia que iria “macular” minha impressão da viagem por alguns dias). 


Fazer o quê? 


Paciência.

 

“Abalado” pela barbeiragem, ainda saímos com o carro para jantar, e foi uma lenda encontrar um lugar que tivesse estacionamento em que eu me sentisse “confortável” em estacionar, traumatizado que eu estava. A dica de pizzaria que o meu irmão havia nos dado foi impossível por estar lotada. Acabamos num restaurante de motivação texana (?), o Old Wild West, comendo hamburgers. Voltamos para o hotel e dormimos bem, mesmo eu com meu orgulho ferido, e na manhã seguinte teria que entregar o carro e explicar o ocorrido. 

 

Segunda-feira, 20 de fevereiro, seria o dia de nossa volta ao Brasil.

 

Antes, porém havia uma franquia de $1660,00 (MIL, SEISCENTOS E SESSENTA EUROS) a ser paga.

 

Pois é...


Até.

terça-feira, maio 02, 2023

Perdidos Mães e Filhos (33)

 A Viagem (21).

 

Relembrando...

 

Já era aproximadamente 16h quando começamos a realmente subir a montanha, em direção ao Passo Sella, o ponto alto, em termos de altitude, do dia e da viagem, até onde iríamos para depois descermos e irmos para Meltina, como eu já disse, meio que no meio do nada.

 

Ortisei está situada a 1230m de altitude, e o Passo Sella a 2218m, e a distância que os separa é de pouco menos de dezessete quilômetros. Subiríamos, então, praticamente um mil metros numa distância relativamente curta, o que significa, estradas estreitas e várias tornantes.

 

tornante, curva também chamada de torniquete ou curva de retorno, é a seção curvilínea de uma via rodoviária ou ferroviária, cuja projeção horizontal tem um ângulo central próximo a 180 °, com uma média similar a uma semicircunferência. Ela se faz necessária em caminhos que se juntam a lugares com uma grande diferença de altitude, para juntar duas linhas retas sem aumentar excessivamente a inclinação longitudinal. Também chamada de hairpin (e lembro da Fórmula 1) deriva do fato de que as duas curvas juntas por este tipo de curva possuem um padrão aproximadamente paralelo e, consequentemente, aqueles que seguem o padrão estão em cada retângulo na direção oposta à anterior, com a impressão de retornar ao ponto de partida....


No alto da montanha

 

De qualquer forma, independente disso, ou apesar disso, sempre que foi possível, e aconteceu algumas vezes, circulamos por esses caminhos e subimos a montanha. Foi o que fizemos essa vez, com um trânsito intenso e muita gente chegando e saindo das pistas de esqui. Subimos, com todo o cuidado até o Passo Sella.

 

No alto da montanha (2) 


Passo Sella, passagem de montanha a 2218m de altitude, forma, junto com os Passos Pordoi, Gardena e Campolongo, um quadrângulo em volta do Grupo Sella, maciço montanhoso nos Dolomitas, no Südtirol. Ele conecta o Val Gardena (de onde vínhamos) com Canazei. É uma região lindíssima (mas sou suspeito, pelo meu fascínio pela montanha).

 

Chegamos lá pouco depois das 16h30 (a volta seria bem mais lenta).


Perdidos Mães e FIlhos
 

Uma infinidade de fotografias, individuais, em duplas, em grupo, apenas da paisagem, do final de tarde, afinal era inverno e a noite caia mais cedo. Estava frio, algo como 6ºC, e o vento baixava a sensação térmica. Ficamos um tempo na rua e decidimos, então, entrar para um café. O local escolhido, e único, foi o Hotel Maria Flora, situado exatamente ali, e é uma das possibilidades de estadia na região, e que serve de base para quem quer esquiar ou fazer trilhas (no verão). Tomamos chocolate quente, antes de começarmos o retorno montanha abaixo em direção à Ortisei e depois Bolzano, porque nosso destino para a noite era Meltina, cerca de meia hora de distância de Bolzano.  

 

O retorno foi bem mais demorado do que o esperado porque, além de nós, todos os turistas que haviam subido para as estações e/ou pistas de esqui da região retornavam para suas “bases” à medida que o final do dia se aproximava. Levamos um longo tempo para cruzar Ortisei, presos no trânsito. Quando conseguimos, já era noite.

 

Havia avisado por mensagem os proprietários da casa em que ficaríamos a provável hora em que chegaríamos, por volta das 20h, segundo nos informava o Waze, e eles disseram que tudo bem, mas que não estariam em casa (iam à missa, aparentemente). O percurso entre Passo Sella e Meltina tem cerca de 94km de distância, e acabamos levando duas horas, descendo a montanha e retornando à autoestrada A22 (Verona-Bennero) no sentido à Verona, praticamente entrando em Bolzano para então cruzar para o outro lado da rodovia e acessar a SS38 e depois a SP11 e novamente subir uma montanha, com as já conhecidas tornantes. À noite, sem grande iluminação e sem muitas habitações por esse caminho.

 

Por quê Meltina, você pode se perguntar.

 

Hospedagens alternativas, respondo eu. Mas, na verdade, quando começamos a procurar opções naquela região, entre Ortisei, Santa Cristina de Val Gardena e Selva di Val Gardena, todas as opções de hotéis estavam extremamente caras, afinal era um sábado em plena estação de esqui. Locais em que já ficáramos por preços razoáveis agora cobravam fortunas por uma noite de estadia. Durante minhas pesquisas, então, encontrei essa casa em tese mais ou menos isolada na montanha, mas não próxima às estações de esqui. Preço bom, uma casa inteira para nós. Poderíamos cozinhar e aproveitar o tempo lá. Só que, sim, não sabíamos absolutamente nada da cidade onde deveríamos ficar.

 

Só que estávamos chegando lá à noite, e o plano de parar em um supermercado no caminho para comprar o necessário para – se preciso – fazer um jantar e, também, para o café da manhã foi deixado de lado em virtude horário. O Gasserhof Chalets, situado na Via Meltina, 82, ficava na localidade de Vallesina, município de Meltina, na beira da estrada.

 

Entramos com o carro na propriedade e havia, em primeiro plano, uma casa principal e, ao fundo, dois chalés com vista para o que imaginei ser o vale, onde ficaríamos. Estava escuro. Desci do carro, e caminhei em direção à casa principal, que tinha uma luz acesa. Quase ao mesmo tempo saiu da casa um senhor que certamente tinha mais de setenta anos, e que certamente não falava inglês, apenas italiano e alemão. Por alguma razão que não sei explicar, lembrei do Helmut, o caseiro do sítio que o eu sogro possuía, vendida há muito tempo.

 

De alguma forma, como o meu italiano muito meia boca, conseguimos nos entender e ele explicou que a chave estava na porta do chalé em que estaria um bilhete com o meu nome. E me mostrou onde deixar o carro. Deu certo. Entramos chalé, que era bem confortável, tudo novo e de boa qualidade. Sobre a mesa, um espumante de boas-vindas. Havíamos chegado! Era hora de providenciarmos a janta.

 

O caminho até ali, pela estrada, não havia sido pródigo locais que parecessem movimentados. Aliás, tudo parecia deserto. Decidimos, naquele momento, após instalados, que a Jacque e eu iríamos procurar um local para jantarmos. Com a ajuda do aplicativo TripAdvisor, encontramos três locais com potencial de ser o escolhido para a janta. Dos três, dois estavam fechados. O terceiro, em uma rua paralela à estrada, estava aberto. Estacionamos o carro, descemos e entramos no lugar.

 

Logo na entrada, uma funcionária veio e perguntei se estava aberto. A menina disse que sim, mas quando eu falei para a Jacque que havíamos achado o lugar para jantar, a menina disse que, na verdade, eles iriam fechar, e a cozinha já estava fechada... Perguntei, então, se eu poderia comprar uma garrafa de vinho e duas de água. Sim, e compramos. Havia, além de dois ou três funcionários, uns dois clientes que bebiam sentados junto ao balcão, e pareciam se divertir – por alguma razão que não sei explicar – com a nossa situação.

 

Saímos dali e decidimos seguir até a verdadeira cidade de Meltina, alguns poucos quilômetros adiante de onde estávamos. Ali, certamente encontraríamos algum lugar para jantar num sábado à noite, afinal todo mundo (e nós, em especial, naquele momento) espera alguma coisa de um sábado à noite.

 

Nada, absolutamente nada.

 

Demos uma volta por toda cidade de Meltina, ou o que imaginamos ser essa cidade à noite e não encontramos nada nem ninguém, não havia nenhum estabelecimento aberto e nenhuma pessoa pelas ruas. Parei em frente a um posto policial, manobrei o carro e retornamos, entre incrédulos e derrotados de volta para o Gasserhof Chalets, onde os outros Perdidos nos esperavam. A noite seria de acampamento, improvisaríamos o jantar com o que tínhamos disponível entre o que havíamos trazido de nossa estada em Peschiera del Garda, uma garrafa de espumante, uma de vinho tinto e duas águas minerais, um com e outra sem gás.

 

Quando pensamos em comida improvisada de acampamento, ou mesmo dos tempos de ir de turma para a praia no inverno, pensamos em massa com sardinha, ou salsicha, ou mesmo massa na manteiga (tenho trauma dessa última). Mas tínhamos entre nós a Chef Jacqueline, e ela salvaria a noite. Aproveitando o que havíamos trazido do dia anterior, mais o que havíamos comprado em Ortisei, ela elaborou o menu do nosso jantar.

 

Risoto di funghi porcini com speck temperado com sal de trufas e regado com espumante.

 

Comida de acampamento 


Ficou ótimo. 

 

Comemos, tomamos o vinho, e rimos muito antes de ir dormir.

 

Amanhã seria o último dia de viagem, dia de retornar para Milão, pois a Roberta tinha seu voo de retorno para Barcelona no final da tarde, e nosso retorno seria na segunda-feira de manhã. Seria um dia de estrada, basicamente, e ficaríamos num hotel perto do aeroporto de Malpensa. Seria um dia meio sem graça, já terminando a viagem.

 

Mas foi o dia do acidente.

 

Até.