A Sopa no Exílio
Crônicas e depoimentos sobre a vida em geral. Antes o exílio; depois, a espera. Agora, o encantamento. A vida, afinal de contas, não é muito mais do que estórias para contar.
sábado, fevereiro 21, 2026
quinta-feira, fevereiro 19, 2026
O Último
Nem sempre, melhor, quase nunca, sabemos quando será a última vez de algo ou alguma coisa que iremos viver. O último encontro, a última refeição, o último abraço. A última vez que brincamos de esconder ou passamos a noite conversando com amigos esperando o sol nascer.
Sempre será a lembrança, a constatação em retrospectiva daquilo que vivemos sem saber que seria uma despedida. Se soubéssemos, talvez não fosse natural, ou talvez tornássemos um ritual, uma cerimônia.
O último carnaval com os amigos da praia. O último churrasco ou xis antes de tomarem um rumo diferente na vida.
Por isso acho sensacional isso de – bem diferente de quando passei por essa fase da vida – celebrarem o último primeiro dia de aula da escola. Quando vai se iniciar o terceiro ano do ensino médio, as turmas do “terceirão” fazem uma festa na noite anterior, em que passam a noite juntos e, na sequência, vão para a escola para marcar o ‘Último Primeiro Dia de Aula’.
Fotos e vídeos. Registros desse momento.
Criar memórias, histórias para contar.
Fico feliz de acompanhar isso, assim, sem interferir, meio de longe, que a Marina está vivendo por esses dias.
Até.
domingo, fevereiro 15, 2026
A Sopa
Eu não gosto de café, descobri recentemente.
Confesso que me senti perdido, algo desorientado, meio que sem chão, até. Porque sempre achei que gostasse de café, aquela bebida que tomo várias vezes ao dia, principalmente em dias de trabalho. Isso há muitos anos, de verdade.
Começou quando passaram a dizer que eu não deveria adoçá-lo, que era uma heresia, praticamente um atentado violento ao pudor colocar algumas gotas de adoçante, ou um pouco de açúcar no meu cafezinho diário. Que eu deveria tomar o café sem adoçá-lo de nenhuma forma, para sentir o verdadeiro gosto do mesmo. Mais ainda, que o café que eu tomava era um café ruim, não era o “verdadeiro” café.
As pessoas passaram a considerar um demonstração de virtude, isso de tomar café sem açúcar ou adoçante. Acabam por considerarem-se superiores por esse fato. Olham para os reles mortais, tomando seus cafés comuns, com desprezo. E ficam por aí, em redes sociais, clamando sua superioridade moral, quase como os veganos fazem com relação a quem – como parte de uma espécie onívora – come carne.
Se faz bem para ti, por mim tudo bem.
Só fica na tua, por favor.
Se consideras que o único café que vale à pena é o Kopi Luwak, usando um exemplo extremo, feito com grãos colhidos das fezes de uma civeta, um pequeno mamífero, e que é o mais caro do mundo, ou o Café do Jacu, ave brasileira, que ingere os melhores frutos e, como o trânsito intestinal é muito rápido, o diferencial é a seleção natural da ave por frutos perfeitos, resultando em um sabor frutado, com notas de amora e morango, se achas que são esses os únicos cafés que valem, que bom para você. Gosto é algo individual. Só não fica enchendo o saco dos outros querendo impor regras quanto a isso.
Se não, é você (junto com quem usa vape) que é um jacu.
Até.
sábado, fevereiro 14, 2026
Sábado (e um rolê aleatório)
Antes de voltar para casa.
quarta-feira, fevereiro 11, 2026
Ainda Sobre Perdas
Ao longo da vida, inevitavelmente nos deparamos com diferentes perdas, que – independente da causa, ou do que perdemos – são dolorosas. E é parte da existência conviver e, na medida do possível, superar. A vida segue seu curso, apesar de tudo.
As perdas por morte daqueles que nos são queridos, por mais dolorosas que sejam, e são, entendemos como parte do jogo, sabemos que vai doer e que em algum momento vamos aprender a conviver com ela, que é e sempre foi assim. Nos recolhemos por um tempo, vivemos nosso luto (que é pessoal, em intensidade e tempo) e – não é cruel dizer – bola para frente. A memória, a lembrança, persistem, dos bons momentos. Não sei se comparável, admito, provavelmente sim, mas existe outro tipo de perda que pode ser tão intensa e dolorida quanto às que já falei.
São as pessoas que saem de nossas vidas ainda em vida, as que nos, por assim dizer, abandonam.
Pessoas que eram próximas e que por qualquer razão deixam de ser, se afastam, a conexão acaba se perdendo, a sintonia acaba. Relacionamentos amorosos, amizades que eram fundamentais e deixam de ser. Parcerias que morrem.
Triste, mas parte da vida. Fazemos luto, sofremos, e – como é de ser – em algum momento seguimos em frente, ‘tocamos o barco’.
Fica a lembrança, ficam os aprendizados.
Até.
terça-feira, fevereiro 10, 2026
Nunca Gostei, Depois me Apaixonei
Gatos.
Eu nunca gostei e muito menos quis gatos em casa, confesso. Sempre fui, como chamam por aí, ‘cachorreiro’. Minha convivência com animais de estimação (‘pets’) era restrita aos cães, em casa e na casa de meus avós.
Bambi, era o nome do cachorro da minha avó materna, em Montenegro, e foi o primeiro cachorro com quem convivi. Depois, quando ganhamos – meu irmão e eu – uma cachorrinha, uma fox paulistinha, a batizamos de Bambina, em homenagem ao cachorro da minha avó. Mais adiante, uma namorada que eu tinha me presenteou com um cocker spaniel dourado, o Calvin, que fugiu de nossa casa na praia e nunca mais o encontramos (sempre imagino que foi adotado por outra família). Por um tempo, fomos tutores do Luke, quando os meus tios Giba e Cíntia se mudaram de Montenegro para São Paulo.
Desde que nos casamos, a Jacque sempre insistiu em que adotássemos um gato, mas eu dizia que não queria, pois não gostava. Tinha até nome, Dartagnan. Eu não abria a porta a essa possibilidade. Até que a Marina nasceu, e à medida que foi crescendo, tinha um enorme e infundado medo de animais.
Em um primeiro de maio, em 2018, o Gabriel, nosso sobrinho e afilhado honorário, e a Júlia encontraram abandonada na praia uma gatinha com cerca de dois meses de vida. Nos ligaram perguntando se não queríamos adotá-la. Pensando na Marina, em ajudá-la a superar o medo, decidimos que, sim, iríamos adotá-la.
Foi quando a Hermione passou a fazer parte da família.
Mudamos.
A Marina deixou de ter medo de animais. Eu descobri que minha oposição a gatos era por não conhecer, por não conviver. Nos encantamos, nos apaixonamos por ela. A vida era muito boa com ela. Dois anos depois, adotamos o segundo, o Bigodinho. Viraram irmãos. Nos tornamos uma grande família. No Natal, cada um de nós tem uma meia com nossas iniciais que fica pendurada à espera do Papai Noel.
Ontem, a Hermi nos deixou.
Ficou doente, foi internada, a visitávamos todos os dias. Uma semana no hospital. O fígado entrou em insuficiência. Não resistiu. Nos despedimos dela ontem no final do dia.
Foi muito amada.
Segue a vida, com ela em nossos corações.
Até.
segunda-feira, fevereiro 09, 2026
Pensamentos Intrusivos
Ideias, imagens ou impulsos involuntários, indesejados e recorrentes que invadem a mente, e podem provocar (provocam) angústia, ansiedade. Todos já passamos por isso, em maior ou menor intensidade. É um saco, de verdade. Porque, na maior parte das situações, eles não refletem uma situação real, um perigo verdadeiro.
Mas incomodam, e a sensação de que há um peso sobre o peito, esmagando o tórax, tornando a respiração difícil, pode ser (é) bem desagradável. Mesmo que racionalmente saibamos que a motivação não está fundada na realidade, ou em fatos concretos, torna-se difícil evitá-los quando ocorrem.
Existem estratégias para lidar com os pensamentos intrusivos quando esses ocorrem, desde técnicas chamadas de “aterramento”, que envolvem respiração diafragmática e atenção plena (mindfulness), terapia, até – sim – tratamentos medicamentosos. Se preciso, procure ajuda médica, evidentemente. Conversar, falar sobre, em muitos casos é um ótimo começo.
Para mim, ao menos, é.
Até.
