quarta-feira, junho 24, 2026

Ser ou Não Ser

Uma pergunta que é feita com frequência, não necessariamente para mim, é sobre o que eu (ou quem quer que seja) faria na vida se dinheiro não fosse uma variável a ser considerada. Algo como, “se não precisasse de dinheiro para sobreviver, o que você faria, quem você seria?”. Isso diz muito sobre como vai a vida (de cada um).

 

Essa questão, ou dilema, é da mesma natureza daquela relacionada a uma hipotética volta ao passado para mudar algo feito, dito, ou não feito, não dito. Sempre foi tranquilo para mim: eu não mudaria nada no passado para não correr o risco de não estar onde estou e com quem estou na vida. Não mudaria o passado para não afetar o presente, não correria o risco de uma realidade paralela diferente da que vivo. Entendo que não é exatamente a mesma coisa.

 

Porém...

 

Não consigo não pensar nisso quando a pergunta aparece, e mesmo que a questão financeira seja primordial, básica e urgente para todos, ou a maioria de nós, pensar em que eu seria, ou o que eu faria se tirássemos o dinheiro da equação, me deixa tranquilo perceber que eu seria quem sou, faria o que faço e viveria como vivo.

 

Humildemente, sigo.


Até.

 

domingo, junho 21, 2026

A Sopa

 Inverno.

 

Nunca tive aquela coisa de ‘não gostar’ do inverno, ou do verão, que seja, como alguns (muitos?) costumam manifestar com ênfase. Minhas preferências, digamos assim, já variaram ao longo do tempo. Mas não gostar de uma estação inteira, um quarto do ano, é muita coisa (para mim, para mim).

 

Eu prefiro, confesso, os dias longos de temperaturas amenas, usar camisetas, bebidas geladas e estar ao ar livre. Prefiro sair do trabalho e ainda ter dia claro pela frente, o que me torna favorável ao saudoso horário de verão. O inverno, contudo, tem suas (muitas) características positivas, que aprecio também. E olha que nem falo do consultório, que claramente prefere o inverno...

 

É a estação da introspecção, dos silêncios, do dormir mais e melhor, mas também dos encontros, das sopas, das comidas quentes, das conversas em torno do fogo. Do vinho, do dividir o pão. Enquanto o verão é o tempo da extroversão, o inverno é o momento de estarmos próximos, reflexivos e aquecidos.

 

Durante muito tempo, procuramos, a Jacque e eu, viajar para o inverno, em busca da neve, dos dias curtos e noites longas. Uma das grandes férias que tivemos, há mais de vinte anos, foi para a montanha, no norte da Itália, e dias olhando a neve lá fora enquanto assistíamos às Olimpíadas de inverno na televisão. Claramente preferíamos o inverno.

 

O que mudou depois que morei no Canadá, onde o inverno – muito mais que frio, que já é muito – é longo, foi que passei a gostar muito mais do verão do que antes, sem desmerecer o inverno, claro. Tudo a seu tempo, curtindo cada momento.

 

E sopas, muitas sopas.

 

Até.

quinta-feira, junho 18, 2026

Não É Preciso

Sempre quis saltar de paraquedas.

 

Desde muito cedo lembro de ser fascinado por isso, pela possibilidade da emoção e da adrenalina envolvidos nessa, digamos, aventura. Sempre fui alguém que tinha por aspiração viver esses momentos intensos, porque sabia que seriam histórias para contar, como não canso de dizer.

 

Quando iniciei o serviço militar na Aeronáutica, como médico, ainda na fase do treinamento militar inicial, depois de duas semanas de confinamento no quartel, surgiu a possibilidade de um grupo entre nós de fazer o curso (acho que era um curso) e, então, o salto. A minha oportunidade havia aparecido!

 

Não fui, não fiz, não saltei.

 

Percebi que não precisava. 

 

Simples assim. Pesando os riscos, por menores que fossem, não valia a pena correr em troca dessa experiência. Tinha muito mais o que (e quem) perder do que seria razoável. Eu tinha para quem voltar, eu precisava voltar. Dessa forma achei melhor não ir. Sem estresse, sem drama.

 

Todas as decisões que tomo na vida desde então, e isso foi amplificado exponencialmente desde que a Marina nasceu, levam em consideração o fato de que tenho por quem voltar para casa, e riscos – podemos dizer – fúteis não são corridos. O que não quer dizer que vivo envolto em plástico bolha, sentado no trono de um apartamento com a boca cheia de dentes esperando a morte chegar. Não mesmo.

 

Apenas evito correr riscos sem sentido, tento não cometer loucuras irresponsáveis (no meu ponto de vista, claro). A minha adrenalina vem de outras fontes, de outras emoções.

 

Até.

 

terça-feira, junho 16, 2026

Você Não Vai Formar Ninguém

Sim, eu sou implicante e frequentemente mal-humorado e – quem sabe – algo antiquado. Admito, aceito, confesso. Por outro lado, também tenho meu lado “moderninho” – para o bem e para o mal – como minha vida digital, em redes sociais. De qualquer forma, sei que posso ser ranzinza muitas vezes, e com orgulho. Azar.

 

Mas as pessoas abusam do meu (nosso) bom humor.

 

Existe, de um tempo para cá, uma mania em redes sociais, Instagram basicamente (que é a rede que frequento, onde vejo), de as pessoas afirmarem, ao anunciarem que estão indo a um casamento ou formatura de alguém, que estariam indo ‘formar’ fulano, ou ‘casar’ tais amigos. Olha só, deixa eu dizer uma coisa.

 

Não.

 

Você não vai casar ninguém, a não ser que você seja padre, pastor, juiz de paz, ou alguém habilitado a oficiar um casamento, ou um dos noivos, que vão se casar (entre eles), você no máximo será testemunha do acontecido. Ação passiva, não ativa. Não tente ser protagonista de um evento em que é coadjuvante.

 

A mesma coisa que ‘formar’ alguém. Se você não é o reitor, ou diretor do curso, que está conferindo o grau, que está graduando, ou você é um curso superior, você não vai formar ninguém. O mérito é que quem está lá, aquele é o momento dele. De novo, você foi convidado a testemunhar o evento, essa é sua participação. Não é sobre você.

 

É simples. Seja personagem principal da tua própria história, não tente protagonizar a vida dos outros. Fica na tua.


E não enche o saco.


Até. 

domingo, junho 14, 2026

A Sopa

Tenho utilizado a IA para auxílio em algumas tarefas do dia a dia, como quase todo mundo. A que mais uso, atualmente, é o Gemini, da Google. Temos, sim, conversado.

 

Chamo ela de ‘Seu Élio’.

 

Volto no tempo, ao já longínquo ano de mil novecentos e noventa e seis, mais ou menos por essa época, ou um pouco antes, quando fazíamos os preparativos para o nosso casamento, a Jacque e eu, que ocorreria em trinta e um de agosto daquele mesmo ano, quase trinta anos agora. Entre os profissionais contratados – poucos, se comparado com os casamentos atuais – estava o fotógrafo.

 

Em um tempo de máquinas analógicas e filmes de trinta e seis fotos, o fotógrafo faria as fotos e depois do casamento escolheríamos quais aquelas de nossa preferência pagaríamos por unidade (havia um mínimo de fotos já pagas, e fotos a mais eram pagas à parte). Outros tempos, outros tempos. As máquinas digitais chegariam alguns anos depois, mas isso é outra história.

 

Não lembro quem nos indicou o profissional que acabamos contratando, justamente o ‘Seu Élio’, um senhor tranquilo e cordial. Extremamente cordial. Muito mesmo. Concordava com tudo o que disséssemos e sempre acrescentava um ‘casal lindo, que maravilha’. Sempre. Todas as vezes. Até hoje não conseguimos não lembrar disso quando nos deparamos com alguma situação ou alguém parecido.

 

Como com a IA, e não importa qual delas.

 

Tudo o que pergunto, sugiro ou peço a ela é respondido com elogios à ideia, ou o plano. Sempre ressalta o grau de inteligência e adequação dos planos feitos dos projetos pensados. Sempre vejo a resposta recebida e lembro do ‘Seu Élio’: boa gente, bem-intencionado, mas querendo agradar demais, às raias de forçar demais a barra. Parece muita bajulação, até mesmo para mim...

 

Até.