Posso me perguntar por que escrevo, com uma razoável frequência, sobre o passado, mas tenho, no mesmo momento, uma resposta a essa pergunta: escrevo para lembrar, escrevo para não esquecer. É minha forma de registrar a vida, de registrar quem fui e quem sou.
Tem assuntos que surgem, sobre os quais eu gostaria de escrever, e que têm que entrar “na fila”, dependendo da prioridade definida por mim, evidentemente. E a ordem das prioridades depende do que está acontecendo comigo, de como estou no momento em que vou escrever. Mais reflexivo, menos reflexivo, isso é claramente variável. Depende até se estou escrevendo com tempo, em um domingo lento sem sol ou em uma manhã de segunda-feira antes de começar a atender o consultório. Além de tudo, quanto mais tempo e mais memórias crio, mais tenho sobre o que escrever.
Às vezes, então, preciso voltar no tempo para lembrar / não esquecer de eventos de muitos anos. Nem tudo publico, pelos menos não imediatamente.
Volto a um onze de outubro, 1996, há trinta anos, sexta-feira. Eu era médico-residente de primeiro ano em pneumologia no Hospital da PUCRS, havia casado há menos de dois meses. Era o dia seguinte ao aniversário da Jacque (o segundo que passamos juntos).
Claramente lembro de, em alguns momentos daquela manhã, de entrar em locais do hospital em que tinha música ambiente, como a agência do Banrisul, e estar tocando músicas da Legião Urbana, o que chamou minha atenção. Um pouco depois, talvez no almoço, fiquei sabendo da morte do Renato Russo.
Dentro aqueles que ‘escreveram’ a trilha sonora da minha vida, cuja obra musical esteve em sintonia com o que eu sentia e/ou vivia naquela época, Cazuza e Renato Russo estiveram entre os mais importantes. Fui adolescente cantando e me identificando com a poesia e música que eles faziam. Se na música Ideologia, do Cazuza, ele diz que ‘meus heróis morreram de overdose’, eu posso dizer que os meus, ao menos esses dois, morreram de AIDS, em um tempo em que a doença ainda era uma sentença de morte. Aliás, foi justamente em 1996 que os tratamentos antiretrovirais começaram a ser utilizados.
Muito mudou nesses trinta anos.
O mundo mudou, eu mudei.
É a vida.
Até.
