Daquela noite em diante.
Quando olhamos para trás, em busca de entender a forma pela qual chegamos aonde estamos e como nos tornamos quem somos, nem sempre é possível identificar um momento único que resultou em uma grande mudança na vida, uma grande mudança em nós. Principalmente porque essas mudanças que ocorrem usualmente ocorrem de forma gradual, de início pequenas e – como juros compostos ou mesmo uma avalanche – resultarão com o passar do tempo em grandes alterações.
Eventualmente, claro, conseguimos identificar um ponto de virada ou outro, mesmo que não tenhamos como quantificar o tamanho do impacto do que está acontecendo em tempo real, à medida vivemos esse momento. Quase sempre será em retrospectiva, e encaixaremos os eventos na narrativa que vamos contar, na estória que interessa.
Já falei disso, como quando ler um jornal em uma manhã do ano de 1985 me levou a ir fazer minha primeira carteira de identidade para a inscrição do teste de seleção da Escola Técnica de Comércio da UFRGS, curso Operador de Computador, ainda antes da Internet no Brasil, o que me fez conhecer pessoas e que moldou minha forma de ver o mundo. Ou quando sonhei com a Jacque justamente na noite em que havia reatado um outro relacionamento e tínhamos ido para a praia para o carnaval, e acordei no meio da noite e pensei que nunca teria uma chance com ela, a Jacque, com quem nunca tivera nada, e o relacionamento que eu havia retomado acabou no dia seguinte, não porque eu tenha feito algo, mas porque não era para ser e ela (com quem eu tinha reatado) sabia disso, e o caminho ficou livre para eu perguntar para a Jacque, há trinta e um anos, porque ela brincava comigo e ela responder que não era brincadeira, e tudo é história desde então.
Como eu disse, o tempo, quando olhado em retrospectiva, passa rápido e se encaixa em nossa narrativa.
Em fevereiro de 2022, em meio à pandemia, já tendo passado sua pior fase, tiramos férias e fomos para o Uruguai em família. Seis em um carro, Karina, Gabriel, Roberta, Marina, Jacque e eu. Eu dirigindo e definindo a trilha sonora, afinal ‘meu carro, minhas regras’.
Comecei a viagem no modo grumpy, como de costume.
Pandemia, tempo sem férias, a saúde do meu pai que não era das melhores naquele momento (morreria em julho daquele ano, infelizmente) eram alguns do fatores que contribuíam para isso. Acontece que as coisas mudaram durante a viagem. Relaxei, me soltei, aproveitei a viagem como poucas vezes fizera na vida, admito. Leve, sorridente, em paz.
Foi assim que voltei, e foi assim que fui para ver a Marina fazer show na praia naquele sábado à noite. Litoral norte gaúcho. Chegamos na praia no meio da tarde, e estivemos acompanhando desde a montagem do equipamento até a passagem de som. Um violão passou por minhas mãos, brinquei com ele um pouco.
Assistimos (a Jacque e eu) ao show, que foi bem legal. Um clima familiar, de comunidade e mais importante de tudo, de pertencimento. Me senti em casa e acolhido. Em determinado momento, olhei para a Jacque e disse que aquilo era o que eu queria para mim. Era o ambiente onde eu queria estar.
Não tinha ideia da magnitude da mudança que viria a partir dali, do quanto eu mudaria a vida a partir daquele momento. Lugares, pessoas, relações. A música como uma constante nos meus dias.
Como em toda decisão que tomamos, temos de viver com suas consequências. Perdemos aqui e ali, enquanto ‘ganhamos’ em alguns aspectos. Pessoas chegam e pessoas saem, tudo normal.
A conta final, a ‘fatura do cartão’, essa virá em algum momento, e sempre esperamos que seja positiva para nós. Faremos, com certeza, que ela seja, ou ao menos pareça, coerente como a narrativa que escrevemos de nossa vida. É assim, sempre foi assim.
Está sendo assim.
Mesmo que eu não soubesse o tamanho do que aconteceria, os caminhos que eu percorreria a partir dali, eu sabia que tudo seria diferente daquela noite na praia em diante, quando eu percebi que era aquilo que eu queria para mim.
Até.
