segunda-feira, abril 13, 2026

O Luto Nosso de Cada Dia

Eu não desço mais escada com as mãos nos bolsos.

Nunca foi algo prudente de se fazer, eu sei. Da mesma forma, procuro sempre que possível – ao descer ou ao subir – fazer uso do corrimão. Experiência, podemos dizer. Também, em ocorrência aparentemente sem relação, parei de jogar futebol.

 

Tudo isso faz parte dos lutos diários que vivemos à medida que o tempo passa. Acontece com todos. De uma forma ou outra, vamos vivendo limitações que a vida nos impõe conforme a ela avança. Nossa missão é aceitar e nos adaptar a elas. Quanto mais rápido aceitarmos essas limitações, melhor será. Ao menos o sofrimento será menor.

 

É o que chamo de lutos diários.

 

Conversava sobre isso ontem com o meu o sogro, Alfredo, do alto dos seus 87 anos, que me falava sobre isso, de algumas atividades que ainda pensava em fazer, mas que sentia que era cada vez mais difícil. Disse que entendia, e que era nossa ‘missão’ aceitar e nos adaptar a elas. Em menor proporção, claro, pela nossa diferença de idade, disse que também vivia isso. 

 

Foi quando me veio essa ideia, que não é nova e nem inédita, de que vamos vivendo diferentes lutos todos os dias, que estamos sempre nos despedindo de algo ou alguém, pessoas, bens materiais, relacionamentos, e que viver é estar sempre reajustando a vida após uma perda.

 

E que o belo da vida é que sempre há algo novo a ser vivido.

 

Até.

domingo, abril 12, 2026

A Sopa

O sábado, ontem, foi como os sábados deveriam ser, pelo menos para mim. Sei que cada um tem seu próprio ideal de final semana, sua própria versão de como as coisas deveriam ser, e que existe o final de semana possível, pois nem sempre (quase nunca?) será como gostaríamos. Trabalho e outros tipos de compromisso comumente se impõem sobre nosso desejo, e seguimos.

 

Uma das escolhas que fiz para mim foi que os finais de semana seriam meus, sempre. Salvo exceções – que sempre podem acontecer – sábados e domingos seriam dias em que não teria compromissos que não fossem de caráter pessoal. Família, amigos, tempo para mim. 

 

E assim tem sido.

 

Como todas as escolhas que se faz na vida, há ganhos e perdas, ônus e bônus, obviamente. Perco dinheiro por não trabalhar mais (como médico) aos finais de semana, e estou confortável com essa ideia. 

 

Falando de ontem, a manhã começou com atividade física, bicicleta pelo tempo estar bom. Trinta quilômetros pedalados, e ainda sentindo que estou retomando o ritmo desde que voltei a pedalar depois do braço quebrado e cirurgia (há mais de dois anos). Depois, supermercado para a semana e volta para casa para fazer o almoço. À tarde, depois de um bom tempo, dormi após o almoço enquanto a Jacque foi dar uma aula em um evento médico.

 

Ao anoitecer, fomos – Marina, Jacque e eu – caminhando até o Parque da Redenção para um Festival de Vinhos que ocorria, mas que, ao chegarmos, já não tinha mais taças e acabamos só passeando e voltando para casa.

 

Foi tranquilo, e bom.

 

Até. 

quinta-feira, abril 09, 2026

Comfort Zone Songs

De tudo o que eu ouvi até hoje, em termos de música, desde que me reconheço como alguém que realmente gosta de música, daquilo que eu ouvia em casa na infância, o que amigos me indicaram, o que descobri por conta própria, de tudo o que passou por mim até hoje, é natural que tenha algumas preferências. Da mesma forma que determinados sons (bandas, músicas) não me causam interesse ou, em um extremo, até me desagradem.

 

Não quero falar de nenhum desses. Ao menos não agora.

 

Venho há dias com uma música, parte de um álbum, tocando em minha mente quase que o tempo todo, e obviamente está relacionada à viagem que fizemos na segunda quinzena de março, para os Estados Unidos, terminando em Nova York. Não é nova, evidentemente, e há anos está presente em meu imaginário, surgindo e ressurgindo de tempos em tempos, em diferentes situações.

 

Posso dizer que o disco em questão é um dos três ou quatro de que eu mais gosto na vida. Estou em uma fase desse tipo de afirmações definitivas, peremptórias. Mesmo que ainda aberto a aprender e (realmente) aprendendo todos os dias, existem – sim – algumas determinações definitivas.

 

‘The Concert in Central Park’, da dupla Simon and Garfunkel, com o registro do show beneficente realizado em setembro de 1981, em Nova York, e lançado em 1982, em que estiveram presentes mais de quinhentos mil pessoas, é esse disco. Escuto esse disco desde o final dos anos 80, quando pegava ele emprestado na discoteca do Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano, onde fazia aulas de inglês.

 

Pensando bem sobre o assunto, posso dizer que esse disco se enquadra em uma categoria de músicas que estou criando e chamando de a ‘trilha sonora da minha zona de conforto’, ou músicas que me proporcionam paz, que me deixam feliz. Aliás, essa é uma categoria que existe no Spotify, aprendi, mas acho essa uma definição mais pessoal. Entram – pensei agora – nas ‘músicas de sábado de manhã’, um categoria (minha) já antiga.

 

Não importa.

 

Esse é um dos meus discos favoritos da vida.

 

E você, qual a(s) músicas da sua vida? Me conta.


Até. 

terça-feira, abril 07, 2026

Cruzei a Linha

Já passei, eu sei.

 

Por mais otimista que eu possa, ou pudesse, ser, em virtualmente todas as formas de olhar para vida eu sei que já percorri mais da metade do tempo que tenho. Não vou viver mais cinquenta e quatro anos. Até poderia, como uma exceção à expectativa que se tem hoje, mas estou tranquilo que não vou.

 

Pensando sob esse prisma, de que já percorri (bem?) mais da metade de minha trajetória de existência, e que sinceramente não sei se há algo após a morte, tenho noção de que já tenho muitas histórias vividas e, portanto, para contar. 

 

Abre parênteses.

 

Sempre que alguém, por uma alguma razão qualquer, queixa-se de que “é ruim ficar velho”, eu respondo que quero ficar velho, afinal até hoje ninguém me convenceu que a outra opção é melhor, ninguém voltou para contar...

 

Fecha parênteses.

 

Dizia eu, então, que já vivi mais da metade da vida e que vivi e tenho histórias para contar. E é aí que entra uma questão com a qual tenho me deparado. Existe a tentação de ficar lembrando histórias vividas, revendo caminhos percorridos, lembrando como me tornei quem sou, sendo nostálgico. E o risco associado de parar de viver, de criar novas histórias, de ficar em uma rotina mecânica, sentado no trono de um apartamento esperando a morte chegar...

 

No fundo (ou nem tão no fundo assim), não existe esse risco, por mais que eu goste MUITO de relembrar histórias, rever pessoas que tiveram significado em minha vida. Continuo vivendo e criando histórias. Criando conexões e, como eu costumo dizer, aumentando minha bolha, tornando maior minha zona de conforto.


E não mexam com minha zona de conforto, por favor. 

 

Até.

 

segunda-feira, abril 06, 2026

A Sopa

Cinquenta e quatro anos.

 

Completados ontem, junto com a Páscoa de dois mil e vinte e seis. A última vez que as duas datas – Páscoa e meu aniversário – haviam coincidido foi há onze anos, em dois mil e quinze, quando fomos para Punta del Este para um casamento no dia quatro, e brindamos após a meia noite com Möet & Chandon, em meio à festa do casamento. Foi a única vez que brindei meu aniversário com champanhe...

 

Vivo, quase chegando na metade da década dos cinquenta anos, um certo dilema existencial. Por mais que me afaste a cada minuto que passa do que as pessoas consideram juventude, continuo me sentindo ainda muito jovem, com muito tempo (sei que tenho) pela frente. Mais do que isso, em boa parte das situações – profissionais ou não – sigo me sentindo um aprendiz. Ainda valorizo muito ouvir sobre a experiência dos outros, aprender com os outros.

 

Ao mesmo tempo, em virtude de já ter percorrido muitos caminhos ao longo desses cinquenta e quatro anos, sei que tenho histórias para contar. Vivi boas (e outras nem tão boas assim) histórias, convivi com muita gente, aprendi algumas coisas, já sei aquilo de que não gosto e que não é para mim. Aprendi a dizer não (continuo aprendendo). 

 

Sei, também, de quem quero estar próximo e de quem quero distância, pois não preciso de energia negativa, de pessoas que drenem minha energia. Não quero conviver com gente chata, na medida do possível.

 

Os amigos. 

 

Esses eu quero por perto, pois aí está o sentido da vida.

 

Até.

sábado, abril 04, 2026

Sábado (de manhã)

Brooklyn Bridge


O melhor momento da semana, ainda mais em Nova York...
Semana passada.

Bom sábado a todos.

Até.

sexta-feira, abril 03, 2026

Não Vou Morrer

Depois da chuva. Como um domingo. Não vou morrer*.

 

A morte é um assunto que me é comum, devo dizer.

 

Sim, por ser médico e lidar com pessoas (pacientes) muitas vezes em seu limite, em seus momentos finais, ou – por outro lado – afastando esse risco, ou possibilidade, ao menos temporariamente, do horizonte de quem me procura em busca de ajuda. De qualquer forma ela está sempre ali, pela volta, rondando e fazendo de tudo para não ser esquecida.

 

Também porque é parte da vida convivermos com o seu fim. Familiares, conhecidos mais ou menos próximos. Pessoas que admiramos. Todos vamos ter nossa experiência com a morte.

 

Eu tive algumas, ao longo do tempo.

 

Quase morte, hospital, vi - pela janela que não existia - um campo verde em um dia de sol intenso, que tudo iluminava, mas não tive vontade de caminhar para essa luz. Não era minha hora, ou era apenas um sonho de uma longa noite de sábado que durou treze dias e que me fez acordar com muita fome há mais de trinta e cinco anos? Não sei, não penso nisso e nem importa mesmo.

 

Lembrei disso agora porque estava lendo em algum lugar sobre o que as pessoas que estavam para morrer mais se arrependiam, e eram os encontros não realizados, as palavras não ditas, os – licença poética minha – churrascos não feitos. Não eram os bens materiais, mas as experiências não vividas, os momentos não compartilhados, as histórias não contadas.

 

Tenho procurado viver para não ter esse tipo de arrependimento. 

 

Memento Mori.


Até. 


* Bebeto Alves, 'Depois da Chuva'