Dois mil e vinte e seis começou confuso.
Começou devagar, mais devagar do seria esperado para um verão de um pneumologista no Sul do Mundo, ao menos para mim, claro. As tradicionais férias de verão do começo de fevereiro, nossa rotina de muitos anos, não aconteceu, ao mesmo tempo em que a Hermione, nossa gata, adoeceu, foi internada, foi para UTI, e – tristeza – não resistiu. Foram dias difíceis, confesso.
Houve um momento em que tive crises de ansiedade, com muitos pensamentos intrusivos e a sensação de todo peso do mundo em minhas costas. Foram poucos dias assim, de sono agitado e despertares de madrugada com fantasmas me rondando. Respirava fundo para tentar voltar à superfície, sair do pântano, da areia movediça imaginária em que estava.
Durou uns três dias.
Uma noite, saímos -a Jacque e eu – para jantar e contei a ela o que estava sentindo. Que eu sabia que estava ‘preso’ em uma crise imaginária, que não estava conseguindo sair e que a forma pela qual eu usualmente lidava com isso era conversando, era falando, e ela sabia disso. Sempre fora assim comigo, desde que me conheço, ou desde que fiz terapia, no começo dos anos noventa, depois do meu acidente.
Foi como tirar com a mão.
Jantamos, conversamos, voltamos para casa caminhando. Dormi melhor, acordei tranquilo. A nuvem que pairava sobre minha cabeça se dissipou. Os fantasmas se foram.
Voltei.
Até.