terça-feira, maio 05, 2026

Miojo

O mundo está (muito) melhor.

 

A vida é, objetivamente, muito melhor hoje em dia do que no passado. Menos fome, menos guerras, menor mortalidade infantil, maior conforto, independente do critério que utilizarmos, a conclusão objetiva deve ser essa, mesmo que exista essa sensação geral de que seria o contrário, de que o mundo estaria pior.

 

Existem diversas razões para essa impressão, mas hoje quero focar em um lado dessa questão: a romantização do passado. Temos a tendência de registrar, de memorizar, principalmente o que foi bom ou, melhor, criamos uma narrativa pessoal que torna a maioria de nossas memórias positivas, e que atenua as que não. É humano isso, tudo certo. Lembrar dos ‘Anos Dourados’, como se a vida fosse mais fácil naquela época. 

 

Não era.

 

Como em qualquer situação, havia o que era bom e o que não era, o que era difícil. E não sabíamos viver de outra forma, porque não havia outra forma de viver. Era completamente diferente, assim como a forma que a vida será em cinquenta anos será bem diferente da vida hoje em dia. 

 

Porém...

 

Falávamos disso ontem à noite, em uma conversa que começou com videocassetes que ainda funcionam, avançou para as antigas locadoras de vídeo em que havia alguém que servia de curador, de orientador, que sugeria filmes baseado em nossas preferências, de quando íamos na sexta-feira à tarde retirar filmes que seriam devolvidos na segunda-feira com as fitas rebobinadas. As grandes locadoras e as de bairro, onde éramos conhecidos pelo nome. E comparamos com os dias atuais, que temos um mundo de opções em streaming e muitas vezes acabamos perdendo muito tempo pesquisando filmes, muitas vezes sem escolher nenhum. 

 

Era ritual, isso de assistir filmes em casa, assim como é ritual fazer um churrasco.

 

Todos sabem que churrasco não é apenas uma carne assada no fogo. É, justamente, um ritual, uma liturgia, uma reunião de pessoas que envolve muito mais que apenas uma simples refeição. E respeitamos muito esse ritual.

 

Insisto que a vida não era melhor no passado, porque não era, e esse exemplo das locadoras de vídeo e o ritual provavelmente seja – também – romantização do passado, mas, pensando bem, acho não conseguiremos no futuro romantizar tanto o atual presente, em que não há quase rituais, em que tudo é transitório, tudo é instantâneo.

 

Vivemos em um mundo miojo...


Até. 

domingo, maio 03, 2026

A Sopa

Já há algum tempo, e como muitos por aí, assisto muito mais ao streaming do que à televisão convencional, digamos assim. Sou do tempo em que existia apenas a tevê aberta, com seus poucos canais disponíveis, a RBS TV (subsidiária da Globo), a Bandeirantes, a TVE, o SBT, a Manchete (depois Rede TV) e a TV Guaíba, que hoje em dia é Record. Era isso, e nos verões no litoral norte do RS ficávamos praticamente restritos à programação da Globo.

 

Com o tempo, a TV a cabo foi substituindo a tevê aberta (para mim). Eram muito mais canais que – com o tempo – foram aumentando em termos de disponibilidade. Séries, sitcons, filmes variados, um mundo se abriu. Quando surgiu a possibilidade de deixar gravado os programas, ficou ainda melhor, já não éramos tão “presos” aos horários de transmissão. Warner Channel e Sony estavam entre os favoritos.

 

Mas a Internet, e as Smarts TVs, mudaram tudo, e o streaming colocou ainda mais opções na mão. Além disso, agora podemos acessar o You Tube na televisão. É muito bom (confissão de velho...)!

 

Então dizia que já quase não assisto televisão.

 

You Tube é minha primeira opção quando me sento em frente à tela. Mais especificamente, e isso já vem por um bom tempo, vídeos de casas antigas sendo reformadas pelos próprios donos. Desde casas muito baratas na Sicília ou uma ‘ruína’ sendo transformada em lugar habitável na Costa Amalfitana, até uma propriedade de mais de quarenta anos comprada com tudo dentro em Idaho, nos Estados Unidos. Reafirma minha vontade de comprar uma casa velha e reformá-la eu mesmo, mas – como todos já deveriam saber – eu sou um guri de apartamento, não seria capaz... Ou talvez não tenha surgido a oportunidade e o momento para isso, sei lá.

 

Além desses vídeos, desde o final de março, quando voltamos da viagem que passou por Nova York, ando fixado em vídeos de apartamentos em Manhatan. Principalmente pelas vistas da cidade que esses locais apresentam. São apartamentos de quatro ou cinco milhões de dólares que evidentemente nunca vou comprar, mas que seriam lugares muito legais de morar. Acima desses valores, não olho, como – por exemplo – o apartamento mais caro do mundo, que custa duzentos e cinquenta milhões de dólares. Por uma questão de princípios.  

 

É muito dinheiro, jamais pagaria isso por um apartamento...


Até. 

sábado, maio 02, 2026

sexta-feira, maio 01, 2026

Chuva à Tarde

Chove nesse final de sexta-feira Dia do Trabalhador. Ou é Dia do Trabalho? Não importa, é feriado e é sexta-feira. Um terço de dois mil e vinte e seis já passou. Logo é Copa do Mundo. Depois, eleições. E o ano terminou. Mais um na conta, e menos um restante. Seguimos.

 

E chove... Uma goteira, fora,

Como alguém que canta de mágoa,

Canta monótona e sonora

A balada do pingo d'água.

(Chovia quando foste embora...)

 

Sempre que chove, e paro para ouvir o som da rua, não consigo não lembrar desse poema, que conheci (li e decorei) em 1987, em uma aula de literatura no segundo ano do ensino médio, na Escola Técnica de Comércio da UFGRS, nos fundos da Faculdade de Economia, Centro Histórico de Porto Alegre, curso de Técnico Operador de Computador Manhã. O professor de português e literatura acabou sendo o paraninfo da turma que se formou em dezembro de 1988 em uma cerimônia no Salão de Atos da UFRGS, e o grupo do ‘Fundinho’, do qual eu fazia parte, decidiu não ficar com todos os formandos no palco, como protesto por não sei o quê, mas eu não participei com eles, fiquei com a maioria em cima do palco como deveria ser. O meu ato de rebeldia foi não ir com o grupo como o esperado. Fazer parte do sistema foi ser alternativo... Qual significado disso? 

 

Absolutamente nenhum.

 

Apenas cheguei aqui em uma série de pensamentos paralelos que começaram com o som da chuva lá fora.


Até. 

quinta-feira, abril 30, 2026

A Melhor Fase da Vida

Há algum tempo, enquanto atendia a um paciente de cerca de cinquenta anos no consultório, ele comentou durante nossa conversa que vivia a melhor fase de sua vida, e elencou as circunstâncias e razões para esse pensamento, que eram basicamente as mesmas que eu, que tinha a mais ou menos a menos idade dele. Essa conclusão era a mesma para nós dois. Os cinquenta anos eram, para nós, a melhor fase da vida.

 

E ela seguiu. A vida, no caso.

 

Há poucos dias, uma semana ou duas atrás, atendi um paciente em primeira consulta, sessenta anos passados, em boa forma física e que comentou que comemorara o seu sexagésimo aniversário pedalando na Suíça, mais especificamente nos Alpes Suíços. Concluiu que estava ‘na melhor fase de sua vida’. Era alguém bem resolvido em termos de família, trabalho, relações pessoais. Não só isso.

 

Contou que, enquanto pedalava em trecho de subida ainda na Suíça, em determinado momento – em um pausa para descanso – passou por ele um ciclista claramente mais velho, subindo em um ritmo bom, constante. Ficou sabendo depois que o tal ciclista tinha oitenta anos, ou quase isso, e que vivia ‘o melhor momento de sua vida’.

 

Na hora não falei nada, apenas sorri cá com meus botões. A verdade (aquela...) estava na minha (nossa) frente o tempo todo, clara, cristalina, impávida que nem Muhammad Ali, apaixonadamente como Peri, tranquila e infalível como Bruce Lee*. Para não deixar dúvidas, peremptória.

 

A melhor fase da vida é agora.

 

Até.

* 'Um Indio', Caetano Veloso

quarta-feira, abril 29, 2026

A Verdade

Há muito tempo, provavelmente bem no início dos anos dois mil, eu costumava dizer que ‘enquanto as pessoas podem ter suas opiniões, meu compromisso era com a verdade’. Em algum momento até acho que foi o slogan de algum jornal, mas não vem ao caso. Era brincadeira, claro, mas até ali. Eu tinha o objetivo pessoal de falar a verdade.

 

A minha verdade.

 

E podemos entrar em uma discussão filosófica sobre o que é a verdade, ou A Verdade, aquela em escrita com letra maiúscula, única, definitiva, peremptória. Ela existe, realmente? Como a encontramos? Precisamos, queremos encontrá-la? 

 

Aliás, alguém pensa nisso, em encontrar A Verdade?

 

Já pensei, não penso mais.

 

Sigo o fluxo da vida, vivendo as minhas verdades e procurando ser tolerante com e respeitar as verdades dos outros. Se cada um vivesse a sua vida, a sua verdade, sem querer interferir, sem “se atravessar” nas verdades e nas vidas dos outros, tudo seria mais fácil. O mesmo com a liberdade. A tua acaba quando começa a minha.

 

Respeitar os limites do outros.

 

Não é difícil.

 

Até.

segunda-feira, abril 27, 2026

Sobre Certezas

Talvez seja cíclico, não sei ao certo, mas durante um tempo eu tinha certezas sobre a vida e o mundo, até o momento em que deixar de ter. Assim, de repente, humildemente. Viver sem certezas absolutas foi viver em um mundo novo, de aprendizados diários e uma ânsia de conhecer.

 

Contudo, tudo tem seu tempo, e chegou a hora de reestabelecer alguma segurança, alguma estabilidade na vida. De caminhar tranquilo por aí sabendo que certos fatos não mudam, que podemos sempre confiar. Fiquei feliz ao voltar conviver com algumas verdades inabaláveis (para mim, para mim). Como o caso dos vegetais comestíveis excluindo-se as frutas. Tenho a minha escolha.

 

A cebola.

 

Sou fã inconteste da cebola. Em molhos, saladas, qualquer que seja seu uso ao cozinhar, sempre é bom.

 

Era isso o que eu precisava dizer.


Até.