quarta-feira, abril 22, 2026

Não Vamos Saber de Tudo

Conversava esses dias com minha mãe, e lembrávamos do meu tempo de adolescente, quando – durante os verões na praia – saía quase todas as noites, e eles - meus pais - não tinham a menor ideia de onde meu irmão e eu andávamos. Por outro lado, em Porto Alegre, saía pouco até entrar na faculdade. Por isso, diferente de mim, não lembro do meu pai ter me levado ou buscado de festas ou shows. Era outro tempo, claro.

 

Lembro do show do Sting no Estádio Olímpico, em 1987, quando eu tinha quinze anos. Até acho que já contei essa história por aqui, mas vamos lá... Fui ao show com amigos, e foi muito legal. Quando terminou, saindo do estádio, todos moravam na zona norte e apenas eu na zona sul. Fiquei sozinho, quase meia-noite, pensando em como voltar para casa. Teria que caminhar, ou pegar um ônibus, até o centro de Porto Alegre e daí para a zona sul. Era o que eu tinha de fazer, e ia fazer de forma mais ou menos tranquila. Era o final dos anos oitenta, eu tinha quinze anos, tudo ia dar certo. Eu imaginava, ou torcia para que fosse assim.

 

Saí do estádio, segui pela Av. Carlos Barbosa até a Av. Azenha, onde em frente a uma agência de um banco que existia ali, quase ao lado de onde fora (ou era, não lembro) a Ferragem Toledo, de que meu pai de um dos donos, bem ali, esperando suas filhas, estava um grande amigo do meu pai. Ao vê-lo, não tive dúvidas: fui falar com ele e acabei arranjando uma carona para casa. Sorte, acaso.

 

Comentei com ela essa história, que não lembrava (ou não sabia). Assim como várias histórias que vivi que nunca chegaram ao conhecimento deles, para o seu próprio bem... Lembrando que eram tempos diferentes, e que a relação entre pais e filhos era diferente. Que nós, pais de hoje em dia, sabemos bem mais da vida de nossos filhos que nossos pais sabiam da nossa. 

 

É evidente que existem acontecimentos e histórias que acontecem com a Marina que eu não fico sabendo, e está tudo bem, deve ser mesmo assim. O importante é que ela sabe que estaremos sempre presentes quando ela precisar. Que confiamos nela e que ela pode contar conosco.


Até. 

terça-feira, abril 21, 2026

E choveu

Feriado.

 

Uma chuva fina caía sobre esse meu canto de Porto Alegre quando acordei, mais tarde que o habitual, mas ainda antes das oito horas da manhã. Tomei o café da manhã com calma lendo o jornal entregue na porta de casa, como faziam os antigos Maias e Aztecas. Agora preparo o chimarrão.

 

Ontem, segunda-feira, entre os atendimentos do consultório e uma reunião no final da manhã, parei na Associação dos Médicos do Hospital da PUCRS, local obrigatório (para mim, para mim) de parada diária, para tomar café, mas, principalmente, para encontrar amigos, colegas, eternos professores e mestres que viraram amigos. Parei para um rápido café antes da reunião e encontrei um deles, professor que virou amigo e que costuma me enviar dicas de música e sons frequentemente.

 

Ele não fizera feriadão, assim como eu.

 

Comentamos um pouco sobre isso, sobre o fato justamente de “termos” de trabalhar enquanto muitos outros descansavam, e que sabíamos que – por outro lado – tínhamos outros benefícios que compensavam trabalhar feriados e muitos finais de semana (o que, confesso, já não faço de forma regular há algum tempo, isso de violar a sacralidade do meu final de semana, mesmo que tenha aberto mão de oportunidades e renda, mas isso é outra discussão). As coisas são como são, e está tudo bem, concluímos.

 

A fase em que me encontro é – como podem notar – de reflexão. Enquanto preparo novos projetos, começo a pôr em prática algumas ideias, reviso os caminhos que percorri, e aqueles que percorro agora. Procuro coerência, mas não para explicar ou justificar para quem quer que seja minhas decisões, mas para me certificar de que continuo no caminho que – mesmo sem em algum momento me desviei - um dia concluí que era o certo para mim. Para o bem e para o mal, quero viver as consequências de minhas escolhas, não de minhas omissões.


Até. 

segunda-feira, abril 20, 2026

Hoje Não é Vinte de Julho

Tenho pensado nos meus amigos.

 

Não que alguma vez eu tenha deixado de pensar neles, assim, de uma forma geral, e em como participam da vida em maior ou menor intensidade e ou frequência. Como todos, tenho amigos com quem convivo mais e outros (não menos importantes) com quem convivo menos.

 

E tenho pensado em ambas as situações de amizades, tanto os novos quanto os antigos, com quem tenho uma longa estrada em comum. Um fato que ainda me impressiona é que não imaginava que ainda seria possível fazer novos amigos na fase atual de vida em que estou, não haveria mais disposição e energia mental para criar vínculos fortes e verdadeiros depois da adolescência.

 

Me enganei.

 

Tem acontecido, com a música como fator catalisador disso, o que confirma ainda mais o acerto que tive ao me (re) aproximar da música nos últimos anos. Novas e fortes conexões foram criadas, e outras continuam sendo reafirmadas. 

 

Quanto às conexões que persistiram ao longo dos anos, e chegaram até aqui, sabem que são especiais e que as valorizo. Preciso, quero, e vou fazer movimentos para encontros, conversas, momentos juntos e novas histórias.

 

Até.

 

domingo, abril 19, 2026

A Sopa

Sem querer, eu desci para o play. 

Existe um dito popular que diz que “se não sabe brincar, não desce pro play”. Significa que se não estás preparado para ser contradito, nem começa uma discussão, ou se não queres ser vítima de brincadeiras, então é melhor não fazer.

 

Pois bem.

 

Antes, contudo, e para contextualizar o assunto, quero falar da minha relação com o mundo digital e redes sociais, em especial. Sou da geração que cresceu em um mundo analógico e viu o mundo se transformar em digital, para o bem e para o mal. Aprendemos a usar as tecnologias enquanto surgiam, basicamente fomos cobaias delas. 

 

Escrevi cartas que enviei pelo correios, datilografei crônicas em uma máquina de escrever, viajei com máquina fotográfica e voltei como rolos de filme a serem revelados. Usávamos orelhão para ligações quando não estávamos em casa. Era impossível para os nossos pais saberem por onde andávamos quando saímos de casa. Agora temos mensagens instantâneas, aplicativos de geolocalização, acesso à música de forma muito mais fácil, as redes sociais, que nos conectam e permitem que acompanhemos a vida de nossos amigos facilidade. 

 

A tecnologia melhorou muito a vida, e o mundo está muito melhor que no passado, por mais que as pessoas possam pensar o contrário. Problemas sempre existirão, evidentemente, mas não é essa a discussão agora.

 

Todos temos nossa própria forma de encarar e lidar com as redes sociais. Eu, por exemplo, uso muito como um mural de memórias. Um grande álbum de coisas que vivi, pessoas com quem dividi momentos. Nunca, de forma alguma, faço manifestações políticas ou declarações de princípios. É meu jeito, pessoal, de homenagear a vida e quem está ou esteve comigo.

 

Só isso.

 

Dias atrás, postei uma foto de quando eu estava no último no último ano da Faculdade de Medicina, o ano da formatura, 1994, alguns colegas e eu, felizes, na boa. Como legenda, escrevi “Doutorandos: alunos do 6º ano de Medicina, 1994”. Só isso, publicado no meu Instagram pessoal, que publica automaticamente também no Threads, o ‘Twitter’ do Instagram, digamos assim. Doutorando, forma de chamar os alunos de sexto ano de medicina, quase médicos, desde sempre. Uma homenagem aos meus colegas, um lembrança do meu passado.

 

Uns dois dias depois, por acaso, descobri que havia uma ‘polêmica’ por causa do uso do termo doutorando na legenda. Muitos comentários, a maioria negativa, nos chamando até de mediciners, um termo que nunca tinha ouvido falar. Muito rancor, muito desconhecimento, muita mágoa e despeito. Tempo desperdiçado destilando raiva e desprezo.

 

Tudo por uma foto de trinta e dois anos atrás.

 

Claro que eu não respondi a nenhuma potencial ofensa, porque desconhecimento e rancor não me ofendem, e diz muito mais de quem está “atacando” do que de mim.


Estou no play, e essa "brincadeira" é nos meus termos...

 

Até.

sábado, abril 18, 2026

Sábado (e um dia de trabalho)

Trabalhando...


Uma manhã de quarta-feira qualquer de trabalho.
Gestando uma ideia, um projeto.

Bom sábado a todos.

Até.

quarta-feira, abril 15, 2026

E o Passado?

Houve, em algum momento - como sempre há de ser - inesperada, súbita, quase como um susto, uma epifania, a compreensão repentina de algo que estava à vista, na cara, e não havia notado. Do nada, aparentemente, notei essa verdade.

 

Eu havia mudado.

 

Eu estava diferente, mesmo que quem eu visse no espelho fosse a mesma pessoa de semanas, quem sabe meses, atrás. Estava me vendo, e vendo o mundo sob outra ótica, com um perspectiva diferente. 

 

Talvez as pessoas tenham notado antes de mim, não sei ao certo, mas claramente eu não era a mesma pessoa ali, me olhando no espelho. E aqui não há nenhum julgamento moral: não quero dizer que quem eu via era melhor do que a versão anterior ou não, não é o caso, apesar de entender que – sim – a essa nova versão é melhor que a anterior. Como a próxima será melhor que a atual, pois é da vida. Older than I once was, younger than I’ll be...

 

Ao notar esse que já não era tão estranho assim no espelho, sabia que próximo passo era partir para a ação, resultado natural do incômodo causado por uma roupa que já não nos serve mais...

 

E assim foi. Está sendo.

 

Até. 

segunda-feira, abril 13, 2026

O Luto Nosso de Cada Dia

Eu não desço mais escada com as mãos nos bolsos.

Nunca foi algo prudente de se fazer, eu sei. Da mesma forma, procuro sempre que possível – ao descer ou ao subir – fazer uso do corrimão. Experiência, podemos dizer. Também, em ocorrência aparentemente sem relação, parei de jogar futebol.

 

Tudo isso faz parte dos lutos diários que vivemos à medida que o tempo passa. Acontece com todos. De uma forma ou outra, vamos vivendo limitações que a vida nos impõe conforme a ela avança. Nossa missão é aceitar e nos adaptar a elas. Quanto mais rápido aceitarmos essas limitações, melhor será. Ao menos o sofrimento será menor.

 

É o que chamo de lutos diários.

 

Conversava sobre isso ontem com o meu o sogro, Alfredo, do alto dos seus 87 anos, que me falava sobre isso, de algumas atividades que ainda pensava em fazer, mas que sentia que era cada vez mais difícil. Disse que entendia, e que era nossa ‘missão’ aceitar e nos adaptar a elas. Em menor proporção, claro, pela nossa diferença de idade, disse que também vivia isso. 

 

Foi quando me veio essa ideia, que não é nova e nem inédita, de que vamos vivendo diferentes lutos todos os dias, que estamos sempre nos despedindo de algo ou alguém, pessoas, bens materiais, relacionamentos, e que viver é estar sempre reajustando a vida após uma perda.

 

E que o belo da vida é que sempre há algo novo a ser vivido.

 

Até.