terça-feira, outubro 20, 2026

No consultório

O exame físico é parte fundamental da consulta médica, evidentemente. Verificar os sinais vitais, pressão arterial, frequência cardíaca, saturação de oxigênio, auscultar o tórax, coração e pulmões, além do resto do exame, não menos importante, é o que complementa o processo de avaliação do que levou o paciente à consulta. Na rotina dos dias, muitas vezes esquecemos do quão fantástico é o corpo humano em funcionamento, uma máquina quase perfeita.

 

Parece tão banal, isso de parar em silêncio e ouvir o bater cardíaco, sístole e diástole, movimento involuntário e constante. Na verdade, não é, mas nem sempre nos damos conta disso.

 

Estava eu esses dias concentrado em ouvir o ritmo regular, em dois tempos, as bulhas cardíacas normofonéticas, nem muito fortes e nem abafadas, B1 e B2, que não são bananas de pijamas como os personagens infantis do final dos anos noventa, quando – depois de mais de trinta anos fazendo isso, ouvindo pessoas, suas histórias, seus pulmões e corações – como em uma epifania, fiquei encantado em ouvir o bater ritmado do coração de quem eu examinava, fiquei – posso dizer – espantado de novo em ouvir a vida em sua comprovação mais básica, mais raiz. Desde lá, como uma criança descobrindo o mundo, fico admirado ao ouvir o bater do coração e, também, o ar que entra e sai do peito. 

 

Que responsabilidade é manter esse sistema em perfeito funcionamento, e que felicidade saber que posso (podemos) ajudar e melhorar aqueles que precisam.


Até. 

segunda-feira, outubro 19, 2026

Tempo Perdido

É semana de eleição, e, infelizmente, não consigo fugir – por mais que eu queira – do assunto nessa manhã de segunda-feira após o debate de ontem à noite. Como o título desse crônica é autoexplicativo, deveria ter assistido a um filme ou série, ao invés de tentar extrair algo de bom da discussão estéril entre o futuro presidente, seja ele quem for, e o seu adversário da disputa.

 

Ninguém – e afirmo isso com tranquilidade – vai mudar sua intenção de voto a partir do que falaram ontem os candidatos. Ausência de propostas, acusações não respondidas por ambos os lados. Falta de habilidade, não respostas, mudanças convenientes de assunto.

 

Vimos tudo isso, e não vimos nada de produtivo.

 

Metade do Brasil tem a certeza do caos se um deles ganhar, e a outra metade tem a mesma convicção caso o vencedor seja o outro. Todos têm certezas, todos sabem tudo.

 

Eu?

 

Tudo o que sei é que nada sei.

 

Até.

domingo, outubro 18, 2026

A Sopa

Podemos dizer que a primavera ainda não chegou de verdade aqui no sul do mundo, mesmo que o calendário nos afirme o contrário. Mudanças climáticas, Super El Niño, aquecimento global, todas são explicações válidas para esse fenômeno que se abateu sobre nós esse ano. Que, por sinal, está contrariando minha convicção irracional de que anos pares são melhores que anos terminados em número ímpar, o que realmente não é importante, não quer dizer nada.

 

Estamos a uma semana do segundo turno das eleições brasileiras e tenho cada vez mais certeza de que esse clima chato não vai acabar após a decisão de quem será o novo presidente, independente de quem ganhar.  Eu, cá no meu canto, não gosto nem um pouco de nenhum dos dois candidatos, então qualquer que fosse o meu voto, ele seria (será) constrangido, um voto em quem eu acho que pode atrapalhar menos a minha (nossa) vida. 

 

Uma coisa é certa, entretanto.

 

Se algum dos candidatos se comprometesse a trazer de volta o horário de verão, ele teria o meu voto na hora. Além de seu eleitor, seria entusiasta, sairia por aí com sua bandeira, adesivaria o meu carro, entregaria panfletos, gravaria vídeos, até faria dancinhas no TikTok. 

 

O horário de verão é a solução para a polarização do país.

 

Com mais tempo de luz, de dia claro, no final do dia, junto com dias de temperatura mais amena, as pessoas saem mais, vão para as ruas, se reúnem mais, convivem mais, o que significa menos tempo em redes sociais, menos tempo no WhatsApp, menos teorias da conspiração, menos chance de lerem algo e não entenderem e brigarem por isso. Ninguém é tão agressivo pessoalmente quanto o é em comentários do Instagram, por exemplo. Pessoalmente, tudo é mais fácil de resolver, e é muito mais simples de encontrar pontos de concordância, pontos em comum. Até porque, se pensar só um pouco, todos queremos mais ou menos as mesmas coisas.

 

É mais fácil resolver os problemas do mundo em uma mesa de bar, ou em um churrasco, do que em frente à tela do computador ou do celular, influenciados por um algoritmo que "quer ver o circo pegar fogo".


Até. 

sábado, outubro 17, 2026

Sábado (e vai ter Halloween POA)

 




Prepare sua fantasia e venha.
Entrada gratuita.
Vai ser legal!!

Bom final de semana a todos.

Até.

quarta-feira, outubro 14, 2026

Mudar de Fase?

Fiquei sabendo, há alguns dias, que uma amiga da Marina havia dito que não via a hora de terminar o ensino médio e não mais ser obrigada a conviver com muitos do seus colegas de escola. Que estava na hora de mudar de fase, esse o seu desejo, interpretei eu.

 

Calma lá com seus desejos, minha cara, pois eles se tornam realidade e – quando perceberes – o tempo terá passado rápido demais e sentirás saudades desse tempo. É fácil falar, e difícil de sentir e fazer, mas vive cada momento em toda sua intensidade, porque ele é e será único.

 

Essa ansiedade para que o tempo passe e as coisas aconteçam, se realizem, conheço bem. Muito vivi isso, e ainda de tempos em tempos tenho que me policiar para não esquecer de estar presente, de focar no presente. Me repito, eu sei, mas esse tema está com uma razoável frequência retornando em meus pensamentos: tudo o que temos é o agora, nada mais.

 

O tempo, quando olhado em retrospectiva, passa muito rápido. O que parece uma eternidade ao olharmos em frente – a ano quem vem, daqui a cinco anos – passa ‘em um piscar de olhos’ quando pensamos no que passou. É tanto tempo, mas também tão pouco. Parece que foi ontem, parece que foi há uma eternidade. Olha a pandemia da COVID, por exemplo. Loucura, não?

 

Controlar a ansiedade, focar no hoje, no agora, viver cada momento com a intensidade necessária. Estar junto.

 

É a receita.


Até. 

terça-feira, outubro 13, 2026

Difícil não falar

Difícil não falar de política por esses dias.

 

Os ânimos estão acirrados, há a crença de que, dependendo de quem ganhar a eleição, haverá a ruína ou a redenção. Infelizmente, não há clima para um debate civilizado, uma discussão racional. Esse trem já partiu há tempos...

 

Tento, então, abstrair e silenciar sobre o tema por alguns momentos. Quero olhar para a rua e ver a primavera, mas até ela não está com cara de muitos amigos. Há uma neblina, um ar úmido que é um pouco de chuva, e a previsão não é animadora para os próximos dias.

 

Talvez tivesse sido melhor estender o feriado, ficar um pouco mais em casa, ler ‘Grande Sertão: Veredas’, dormir à tarde, tocar alguma música italiana no violão, cozinhar. Continuar o ritmo lento das manhãs de domingo com chuva.

 

Não é assim, contudo.

 

A semana começa na terça-feira, os compromissos estão batendo à porta e a vida não para (acento diferencial aqui). Seguimos, porque não há outra opção.

 

E porque nem tudo é política.


Até. 

segunda-feira, outubro 12, 2026

Direita ou Esquerda?

Sou de direita, porque prezo a liberdade individual, porém sou de esquerda porque defendo os direitos do trabalhador, e volto a ser de direita porque acho que quem trabalha deve ser livre para negociar a forma, a jornada de trabalho, dias de descanso e remuneração. 

 

Sou de direita, porque valorizo a família, mas sou de esquerda porque não tenho absolutamente nada contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, acho que o aborto deve ser de decisão da mulher, e que ‘não é não’.

 

Sou de direita porque defendo a propriedade privada, mas sou de esquerda porque sou favorável ao SUS, mesmo que remunere muito mal quem trabalha nele, o que me torna de direita porque acho que os médicos que trabalham nele deveriam ser mais valorizados e bem melhor remunerados. Sou de direita porque não concordo em ser chamado de trabalhador da saúde, porque somos médicos, enfermeiros, técnicos e outros, todos com funções importantes e fundamentais, mas não todos iguais.

 

Sou de esquerda porque apoio a cultura, mas sou de direita por achar que isso não é pauta exclusiva da esquerda.

 

Sou de direita porque acho que não houve golpe no impeachment da Dilma, mas sou de esquerda porque penso que – sim – houve tentativa de golpe em janeiro de 2022. Sou de esquerda porque acho que os participantes do oito de janeiro deveriam ter sido processados, mas sou de direita porque acho que o STF vem extrapolando seu papel constitucional há um bom tempo. 


Sempre que estou em uma encruzilhada na estrada, e não tenho ideia para onde ir (essa é uma definição pré-GPS) sigo à esquerda, mas a mão que tenho mais habilidade é a direita, mesmo que eu escreva com a esquerda.

 

Não sou de direita e nem de esquerda porque não tenho político de estimação, e porque não tenho saco para discutir política com fanáticos de um lado e de outro. E muito menos em cima do muro, porque sei bem o que quero.

 

Em resumo, meio que sou um extraterrestre, que vai ser taxado de burguês por quem é de esquerda (não vai ser a primeira vez) e de ingênuo por quem é de direita...


Azar.


Até.