domingo, junho 21, 2026

A Sopa

 Inverno.

 

Nunca tive aquela coisa de ‘não gostar’ do inverno, ou do verão, que seja, como alguns (muitos?) costumam manifestar com ênfase. Minhas preferências, digamos assim, já variaram ao longo do tempo. Mas não gostar de uma estação inteira, um quarto do ano, é muita coisa (para mim, para mim).

 

Eu prefiro, confesso, os dias longos de temperaturas amenas, usar camisetas, bebidas geladas e estar ao ar livre. Prefiro sair do trabalho e ainda ter dia claro pela frente, o que me torna favorável ao saudoso horário de verão. O inverno, contudo, tem suas (muitas) características positivas, que aprecio também. E olha que nem falo do consultório, que claramente prefere o inverno...

 

É a estação da introspecção, dos silêncios, do dormir mais e melhor, mas também dos encontros, das sopas, das comidas quentes, das conversas em torno do fogo. Do vinho, do dividir o pão. Enquanto o verão é o tempo da extroversão, o inverno é o momento de estarmos próximos, reflexivos e aquecidos.

 

Durante muito tempo, procuramos, a Jacque e eu, viajar para o inverno, em busca da neve, dos dias curtos e noites longas. Uma das grandes férias que tivemos, há mais de vinte anos, foi para a montanha, no norte da Itália, e dias olhando a neve lá fora enquanto assistíamos às Olimpíadas de inverno na televisão. Claramente preferíamos o inverno.

 

O que mudou depois que morei no Canadá, onde o inverno – muito mais que frio, que já é muito – é longo, foi que passei a gostar muito mais do verão do que antes, sem desmerecer o inverno, claro. Tudo a seu tempo, curtindo cada momento.

 

E sopas, muitas sopas.

 

Até.

quinta-feira, junho 18, 2026

Não É Preciso

Sempre quis saltar de paraquedas.

 

Desde muito cedo lembro de ser fascinado por isso, pela possibilidade da emoção e da adrenalina envolvidos nessa, digamos, aventura. Sempre fui alguém que tinha por aspiração viver esses momentos intensos, porque sabia que seriam histórias para contar, como não canso de dizer.

 

Quando iniciei o serviço militar na Aeronáutica, como médico, ainda na fase do treinamento militar inicial, depois de duas semanas de confinamento no quartel, surgiu a possibilidade de um grupo entre nós de fazer o curso (acho que era um curso) e, então, o salto. A minha oportunidade havia aparecido!

 

Não fui, não fiz, não saltei.

 

Percebi que não precisava. 

 

Simples assim. Pesando os riscos, por menores que fossem, não valia a pena correr em troca dessa experiência. Tinha muito mais o que (e quem) perder do que seria razoável. Eu tinha para quem voltar, eu precisava voltar. Dessa forma achei melhor não ir. Sem estresse, sem drama.

 

Todas as decisões que tomo na vida desde então, e isso foi amplificado exponencialmente desde que a Marina nasceu, levam em consideração o fato de que tenho por quem voltar para casa, e riscos – podemos dizer – fúteis não são corridos. O que não quer dizer que vivo envolto em plástico bolha, sentado no trono de um apartamento com a boca cheia de dentes esperando a morte chegar. Não mesmo.

 

Apenas evito correr riscos sem sentido, tento não cometer loucuras irresponsáveis (no meu ponto de vista, claro). A minha adrenalina vem de outras fontes, de outras emoções.

 

Até.

 

terça-feira, junho 16, 2026

Você Não Vai Formar Ninguém

Sim, eu sou implicante e frequentemente mal-humorado e – quem sabe – algo antiquado. Admito, aceito, confesso. Por outro lado, também tenho meu lado “moderninho” – para o bem e para o mal – como minha vida digital, em redes sociais. De qualquer forma, sei que posso ser ranzinza muitas vezes, e com orgulho. Azar.

 

Mas as pessoas abusam do meu (nosso) bom humor.

 

Existe, de um tempo para cá, uma mania em redes sociais, Instagram basicamente (que é a rede que frequento, onde vejo), de as pessoas afirmarem, ao anunciarem que estão indo a um casamento ou formatura de alguém, que estariam indo ‘formar’ fulano, ou ‘casar’ tais amigos. Olha só, deixa eu dizer uma coisa.

 

Não.

 

Você não vai casar ninguém, a não ser que você seja padre, pastor, juiz de paz, ou alguém habilitado a oficiar um casamento, ou um dos noivos, que vão se casar (entre eles), você no máximo será testemunha do acontecido. Ação passiva, não ativa. Não tente ser protagonista de um evento em que é coadjuvante.

 

A mesma coisa que ‘formar’ alguém. Se você não é o reitor, ou diretor do curso, que está conferindo o grau, que está graduando, ou você é um curso superior, você não vai formar ninguém. O mérito é que quem está lá, aquele é o momento dele. De novo, você foi convidado a testemunhar o evento, essa é sua participação. Não é sobre você.

 

É simples. Seja personagem principal da tua própria história, não tente protagonizar a vida dos outros. Fica na tua.


E não enche o saco.


Até. 

domingo, junho 14, 2026

A Sopa

Tenho utilizado a IA para auxílio em algumas tarefas do dia a dia, como quase todo mundo. A que mais uso, atualmente, é o Gemini, da Google. Temos, sim, conversado.

 

Chamo ela de ‘Seu Élio’.

 

Volto no tempo, ao já longínquo ano de mil novecentos e noventa e seis, mais ou menos por essa época, ou um pouco antes, quando fazíamos os preparativos para o nosso casamento, a Jacque e eu, que ocorreria em trinta e um de agosto daquele mesmo ano, quase trinta anos agora. Entre os profissionais contratados – poucos, se comparado com os casamentos atuais – estava o fotógrafo.

 

Em um tempo de máquinas analógicas e filmes de trinta e seis fotos, o fotógrafo faria as fotos e depois do casamento escolheríamos quais aquelas de nossa preferência pagaríamos por unidade (havia um mínimo de fotos já pagas, e fotos a mais eram pagas à parte). Outros tempos, outros tempos. As máquinas digitais chegariam alguns anos depois, mas isso é outra história.

 

Não lembro quem nos indicou o profissional que acabamos contratando, justamente o ‘Seu Élio’, um senhor tranquilo e cordial. Extremamente cordial. Muito mesmo. Concordava com tudo o que disséssemos e sempre acrescentava um ‘casal lindo, que maravilha’. Sempre. Todas as vezes. Até hoje não conseguimos não lembrar disso quando nos deparamos com alguma situação ou alguém parecido.

 

Como com a IA, e não importa qual delas.

 

Tudo o que pergunto, sugiro ou peço a ela é respondido com elogios à ideia, ou o plano. Sempre ressalta o grau de inteligência e adequação dos planos feitos dos projetos pensados. Sempre vejo a resposta recebida e lembro do ‘Seu Élio’: boa gente, bem-intencionado, mas querendo agradar demais, às raias de forçar demais a barra. Parece muita bajulação, até mesmo para mim...

 

Até. 

quarta-feira, junho 10, 2026

Uma Dor Que Não Tem Fim

Toda sofrimento é infinito enquanto dura.

 

Lembro de quando sofri o acidente de bicicleta há quase três anos e fraturei o braço direito. Não lembro de como foi a queda em si, e nem suas circunstâncias, e nem de chegar em casa pedalando. E foi esse a preocupação inicial, a amnésia, e dúvida de que fosse um trauma de crânio mais sério. Apenas após fazer tomografia de crânio, passar por avaliação com neurologista e ser liberado, é que fui ver o que tinha acontecido com meu antebraço, que estava fraturado, próximo ao punho. Imobilização com tala gessada, medicação para dor, e seguimos.

 

Vários óbvios inconveniente de estar com um braço imobilizado até acima do cotovelo. Um dos principais era, por óbvio, o banho. Tinha que enrolar um saco plástico para não molhar o gesso e tonar o banho com o braço elevado. Inconveniente e cansativo, podem imaginar. Naquele momento, só pensava que aquilo parecia nunca ia terminar. 

 

Terminou, claro, como sempre termina.

 

Voltemos ao presente.

 

Há pouco mais de dez dias, após não conseguir ir à academia por questões alheias à minha vontade, decidi fazer atividade física em casa, como nos tempos da pandemia. Só que exagerei, forcei demais, e minha coluna cervical sentiu, e reclamou. 

 

E voltei à 2022, quando - em férias de carro pelo Uruguai – passei doze dias com muita dor, fazendo uso de medicamentos diariamente. A minha sorte foi que não tinha dor ao dirigir. Pouco mais de um mês após as férias, perdi força no braço direito, consultei, fiz ressonância e foi documentada uma hérnia de disco cervical, cujo tratamento, conservador, foi o uso de um colar cervical por três semanas, com sucesso.

 

Tive, então, após o exagero na atividade física (certamente com má postura minha durante) a certeza, ou forte impressão, de que era isso novamente. Tentei tratar com medicamentos nos primeiros dias, sem melhora. Passei a usar em casa o colar cervical, “para descanso”, principalmente em frente à tevê. 

 

A noite de domingo para segunda passada foi muito ruim pois, além da dor que sentia ao me virar na cama, o que interrompia o sono, estava também resfriado e com tosse. Passei boa parte da noite tossindo e com dor. Ao amanhecer, estava decidido: ao menos dez dias de colar cervical e, conforme, ressonância e fosse o que fosse. O fato de não estar tomando antinflamatório por estar também tratando uma gastrite descoberta quando fiz endoscopia (não sentia nada antes, passei a sentir depois...), podia estar contribuindo para a não melhora, ou demora em melhorar.

 

Passei a segunda-feira usando o colar cervical, certo de seria assim por um bom tempo. Mudei o travesseiro, tomei todos os cuidados. Quando em uso, não tinha dor nenhuma. Fui dormir. Acordei sem dor. 

 

Nenhuma.

 

Belisquei meu braço só para ter certeza de que não havia morrido. Não, estava bem aqui, vivo. Por precaução, passei o dia com o calor cervical mais uma vez. Fui dormir, mesmas precauções do dia anterior. Acordei hoje. Sem dor. Vivo. Saí de casa sem o colar cervical, mas deixei ele no carro. Ainda ressabiado, hiperfoco na cervical, me observando.

 

Vamos ver. Até domingo, parecia, como sempre parece, que a dor não teria fim. Talvez tenha passado, talvez.


Até.