sexta-feira, novembro 30, 2018

Histórias de Aeroporto (3)

Ninguém é infalível.

Mesmo os Viajantes Frequentes experientes são passíveis de erros relacionados às suas viagens. Eu, que começo a ser considerado um Viajante Frequente, previsivelmente sou ainda mais propenso a cometê-los.

Quinta-feira, ontem.

Após ter viajado para Belo Horizonte, onde daria uma aula na quarta à noite, acordei às 4h30 da manhã de quinta-feira porque meu voo para São Paulo, onde daria outra aula, ao meio-dia, sairia às 7h10 e o aeroporto de Confins, como o nome já antecipa, fica nos confins do mundo. Longe. Cerca de uma hora ou mais do centro de BH, me avisaram. 

Tudo tranquilo, estava eu no aeroporto tomando café às 6h10.

Após, dirigi-me para as proximidades do portão de embarque, onde cheguei ainda meio cedo – ao meu ver – para fazer fila para o embarque que começaria às 6h30. Sentei, então, na área de um sushi que fica ao lado do portão e que – obviamente – estava fechada aquela hora. Abri o notebook para aproveitar os poucos minutos que tinha, mas estava sem bateria. Fiquei conferindo o celular, quando aconteceu.

Um viajante frequente.

Rapidamente, antes de eu sequer fazer menção de me movimentar, um cidadão iniciou a fila de embarque das prioridades premium. No mesmo instante, levantei e parti em direção à fila. Mas não fui ágil o suficiente: quando cheguei, já era algo como o oitavo ou nono da fila. Vacilei, pensei, mas o voo das 7h10 de Belo Horizonte para São Paulo é um voo de viajantes frequentes. Mais experientes e/ou ágeis que eu. 

Tudo bem, foi um voo tranquilo.

Desde cedo em São Paulo, fiquei esperando no aeroporto para encontrar a colega com que eu iria dar a aula ao meio-dia. Ela chegaria vinda do Rio de Janeiro cerca de uma hora após a minha chegada. Aproveitei para carregar a bateria do notebook e escrever o relatório sobre a aula da noite anterior.

Chegou e decidimos pegar um Uber e sair, ao invés de ficar no aeroporto fazendo tempo antes de ir para o local da aula conjunta que daríamos. Boa ideia, pois o trânsito de São Paulo estava pior que o normal, e levamos cerca uma hora para chegar no local. Ainda tínhamos cerca de uma hora até o horário marcado. Aproveitamos para alinhar nossa apresentação e fazer um lanche.

Pouco antes do meio-dia, chegamos onde seria a aula, momento em que descobrimos que o horário real era 12h30. Com o “tempo de tolerância”, iniciei a aula às 12h40. Ambos falamos, houve um momento de discussão e perguntas e respostas, e terminamos às 13h40. Tudo bem, fomos direto para o Uber para voltarmos ao aeroporto. Assim que entramos no carro, voltamos a falar – havíamos comentado na ida – em antecipar nossos voos. O dela, das 18h para às 16h, e o meu, veja bem, das 16h para às 14h55.

Foi nesse momento que a história tomou ares de drama.

A previsão de chegada no aeroporto pelo aplicativo era 14h15, momento em que começaria – em tese – o embarque. Como estava sem bagagem despachada, era só chegar e embarcar. Chegaria em cima da hora no aeroporto, mas chegaria em casa uma hora antes do previsto (o que vale ouro para quem passa tempo viajando).

Valia correr o risco.

O carro tentava avançar pelo trânsito de São Paulo, e decidi tentar antecipar o voo pelo aplicativo da companhia aérea. Testei, apareceu a opção do voo que queria como disponível, confirmei a troca, passei para a escolha do assento, havia apenas um assento disponível, pagando por ser conforto. Aceitei, fui marcar... e disse que já havia sido escolhido. E não havia mais nenhum disponível! Nenhum mesmo!

Não conseguia fazer o checkin por não haver assentos disponíveis e não estava mais no meu voo original! Tentei ligar para a companhia aérea e a mensagem era de que devia ir ao balcão no aeroporto.

Sabia que – como chegaria em cima da hora – ir ao balcão da companhia significava não pegar o voo das 14h55, mas aquela altura só queria garantir o voo original. Tensão. Ao mesmo tempo, o trânsito não fluía, e o motorista do Uber, solidário, dava força e tentava chegar logo. O que me restava, nesse momento?

Culpar alguém, claro...

Olhei para a Gabriela, colega com quem dividia o Uber, e disse:

- A culpa é tua!

- Minha? Eu não fiz nada!

- Claro que fez, quem começou com a ideia de antecipar voos?

- Mas era o meu voo, das 18h para às 16h!

- Não importa, alguém tem que ser culpado caso eu perca o meu voo...

Nisso o motorista do Uber explodiu rindo.

Todos rimos... rir é o melhor nesses momentos...
Ao nos aproximar de Congonhas, combinamos que eu desceria e não a esperaria para poder correr até o balcão e tentar salvar o meu voo original. Assim foi. Saí do Uber e saí em desabalada carreira pelo aeroporto até a loja da Gol. Fila enorme.

Cheguei no balcão, me desculpei com quem estava sendo atendido, e pedi informação de como proceder. Tinha que ir até o checkin, para tentar – veja bem – tentar me recolocar no voo original. Fui até o checkin, mesmo procedimento, envergonhado por atrapalhar o atendimento em ocorrência, e expliquei o caso. Disse que voo estava fechado. Estou sem bagagem, argumentei com cara de cachorro carente.

Perguntou para o supervisor.

Que disse sim!

Me deu o cartão de embarque, saída de emergência meio, e disse para eu correr, porque era embarque imediato. Nova corrida, inspeção de segurança, painel de voos dizendo “Embarque próximo”. Havia conseguido!

Caminhei até o portão – o mais distante da entrada do embarque – e ainda não havia iniciado. Fila das prioridades, penúltimo lugar da fila, mas – muito mais importante que isso – chegando em casa mais cedo. Embarcado, até o último momento com o assento do corredor vago.

Estavam quase fechando as portas quando entrou o último passageiro que, ao chegar olhou para mim e disse “estava pensando que ia ficar vago, não? Lamento, mas vai alguém ao teu lado ”.

Olhei para ele e disse que se ele soubesse da minha história, saberia que eu iria sentado no chão, no fundo, de tão feliz por estar indo à aquela hora. E contei a minha história. E éramos os três, na mesma fila, janela, meio e corredor, passageiros que haviam antecipado seu voo e quase não conseguido embarcar.

Ainda antes de colocar o celular no modo avião ainda tive tempo de enviar uma mensagem para a Gabriela, só para agradecer pela ideia de antecipar o voo...

Somos gratos, também, nós os viajantes frequentes.

Até.  

terça-feira, novembro 27, 2018

Histórias de Aeroporto (2)

Os viajantes frequentes são como uma tribo.

Uma irmandade.

Estou ainda aprendendo, mas já reconheço algumas características que indicam que a pessoa que está a sua frente ou atrás de você na fila de embarque é um(a) viajante frequente. 

Antes de mais nada, a fila em que a pessoa está.

O viajante frequente está normalmente na fila da prioridade. Caso seja menor de 60 anos (o que dá direito a ser “prioridade por lei”), estará na fila de prioridade premium (por status no programa de milhagem da companhia aérea ou porque adquiriu o chamado assento conforto, mais à frente e com – em tese – mais espaço para as pernas, e que dá direito ao embarque prioritário). Sabe, principalmente, que – nos dias de hoje – em tempos de bagagem despachada paga e maior peso permitido para a bagagem de mão, embarcar primeiro é importantíssimo. Só dessa forma garante que a sua mala será acomodada no compartimento sobre o seu assento.

Quem – por qualquer razão – deixa para embarcar na última hora, quase que invariavelmente terá que despachar sua bagagem de mão ou colocá-la “onde encontrar espaço”, o que muitas vezes significa estar sentado no assento 3, por exemplo, e deixar a mala no 18. Ao final da viagem, terá que se deslocar contra a corrente para o fundo da aeronave para “resgatar” sua mala. Inconveniente.

Isso porque o viajante frequente quer desembarcar o mais rápido possível assim que o avião chega ao seu destino. Mal a aeronave para, já está em pé, pronto para desembarcar. Até porque muito em breve estará embarcado novamente a caminho de um novo destino.

Outra característica aparente dos viajantes frequentes é que apenas interagem entre si quando há algo errado com o voo. Atraso, por exemplo. Sempre é motivo para contar sua(s) história(s).

Quinta-feira passada, a caminho de Salvador – onde daria aula na sexta-feira pela manhã antes de iniciar a volta que atrasaria e tudo o mais que contei sobre voos turbulentos e arremetidas - estava na fila de embarque quando percebi que o voo ia atrasar. Bem à minha frente, uma viajante frequente (iniciou a fila das prioridades antes de mim) ou uma viajante paranóica, o que – em termos práticos – dá no mesmo...

A notícia do atraso do voo a deixa inquieta, percebo. Estou calmo porque meu tempo de conexão é suficiente para suportar um atraso não muito longo. Ela diz que está preocupada porque o tempo de conexão dela é curto. Inicio uma conversa:

- Vai para onde?

- Recife, para voltar amanhã – diz ela.

- Estou indo para Salvador, também para voltar amanhã – comento – e te entendo, há duas semanas fui até Belém/PA para uma aula e fiquei lá apenas 9h, pegando um voo de volta às 2h da manhã...

- Já eu – diz ela – fui para a Austrália no início do mês...

Respiro fundo. Penso na vida.

Passam-se segundos nesse ínterim.

- Ganhou, admito derrota.

Não dá para competir com um viajante frequente.

Até. 

segunda-feira, novembro 26, 2018

Histórias de Aeroporto

Pensamento mágico.

Nunca tive medo de andar de avião.

Nunca mesmo.

Sério.

Não tive medo quando, há quase vinte anos, voltávamos de viagem à Europa, a primeira dos Perdidos na Espace, quando fizemos um voo Paris - Frankfurt que atrasou pelo mau tempo e, quando partiu, nós sentados nas últimas fileiras, sacudiu tanto que houve ansiedade e choro, mas talvez porque alguém precisasse ficar calmo, apenas segurei a mão de Jacque e a tranquilizei, dizendo que tudo ficaria bem. Ficou. Também não fiquei nervoso quando saindo de Porto Alegre, em meio a uma tempestade de verão, sacudiu tanto que fiquei tonto e nauseado. "Mareado", mas ainda assim sem medo.

O que não quer dizer que nunca tenha criado minhas superstições quando voo.

A mais famosa delas (para mim, para mim) é a que diz que o avião não vai cair e tiver alguém conhecido a bordo. Seja lá quem for. Por exemplo, estava indo uma dia para o Rio de Janeiro e embarcou o Dr. José Camargo, cirurgião torácico e escritor. Pronto, na hora pensei, esse avião não cai de jeito nenhum. Superstição, pensamento mágico, eu sei, mas divertido.

Como nos últimos dois anos passei a viajar com certa frequência, o que me faz cliente frequente de companhia aérea e também desenvolver certas manias e rotinas ao chegar em aeroportos. O embarque prioritário, o assento que prefiro, etc. E também uma tranquilidade absoluta ao voar. Leituras, música, jogos no tablet, tudo para passar o tempo. E histórias de aeroporto e voos, evidentemente.

Ano passado, uma sequencia de atrasos, conexões perdidas, estadas em hotéis por isso, tornaram-me conhecido por pé frio. Nada demais, eu apenas conto as histórias, e o fato de morar no extremo sul do país, com mais conexões, tornam a probabilidade de problemas maiores. Como quando voltava de São Paulo numa noite de agosto de 2017.

Vinha lendo um livro interessante, fones de ouvido com cancelamento de ruído, sentado (contra minha vontade) no assento da janela. Observei Porto Alegre chegando, voltei à leitura e - quando percebi - estávamos alto de novo e o piloto informou que havíamos arremetido e estávamos a caminho de Florianópolis de onde tentaríamos voltar mais tarde. Eu não havia visto nada.

Sexta-feira da semana passada.

Após dar uma aula pela manhã, em Salvador, fui para o aeroporto para o voo que sairia às 13h50 e chegaria em Porto Alegre às 19h55, com conexão em Congonhas. No horário previsto para o embarque, era o primeiro da fila da prioridade (assentos premium). Passou o tempo. Nada. Mudou o portão.

Nada.

Por questões logísticas (seja lá o que isso seja), o voo atrasou DUAS horas para sair de Salvador. Saí de lá sabendo que havia perdido minha conexão, mas com a informação de que no voo seguinte, duas horas mais tarde, havia assentos disponíveis. Voo relativamente tranquilo. Chegamos em Congonhas, desembarque remoto, ônibus. Balcão de atendimento de conexões. Vários na fila na minha frente.

A fila avança rápido e, ao falar com a atendente, e olhando monitor com ela, vejo que fui realocado para um voo de sábado de manhã. Iria dormir em São Paulo, paciência... Chegam outros passageiros, ela pergunta se somos todos do mesmo voo (éramos) e orienta que desembarquemos e nos dirijamos ao balcão de checkin para sermos direcionados. Todos vão em direção a saída. Eu não, fico para trás.

Quando todos saem, volto a conversar com a atendente. Explico que preciso muito chegar em casa ainda na sexta-feira, pergunto se ela não pode me ajudar, e tal. Pergunta se eu não estava com o grupo. Digo que estávamos no mesmo voo, mas não juntos.

Consegue me colocar no voo que sairia em meia hora para Porto Alegre. Sucesso!

Corro até o portão de embarque, todos na fila para embarcar. Tudo corre bem.

O voo, contudo, atrasa para sair (trafego aéreo, etc).

Alguma turbulência, leio e ouço música.

Ao nos aproximar de Porto Alegre, o tempo não é bom. Relâmpagos iluminam o céu escuro. Chove forte.

Vejo Porto Alegre se aproximando na janela (estou no assento do corredor), fecho o olhos cansados do longo dia, e de repente escuto a força do motor aumentar muito. "Arremeteu, vamos para Florianópolis", penso já resignado. Mas não, circulamos em meio à chuva, reparo na tensão de outros passageiros.

Lembro que não era para eu estar nesse voo, e em histórias de pessoas que não conseguiram embarcar e depois o avião caiu. Não posso deixar de sorrir pensando na ironia caso aconteça algo, mas apenas por um fração de segundo.

Lembro que no voo, comigo, está o amigo e colega pneumologista-pediátrico Paulo Pitrez.

Fecho os olhos novamente, tudo está em paz.

Pousamos em segurança.

Até.

quarta-feira, abril 04, 2018

Ciclos

Tenho a tendência a ser conservador.

Explico.

Confesso que - em princípio - sou avesso a mudanças na vida. Costumo gostar das coisas como estão, os arranjos do mundo no que se refere a mim. Isso, estou falando - para variar - de mim. Estou, sim, olhando para o meu umbigo (já falei dele anteriormente, não me repetirei..).

Relações pessoais, de trabalho, amigos com quem convivo de perto, pessoas que fazem parte da vida. As coisas como são ou, melhor, como estão. Se a vida está bem, tenho a tendência a não querer que mudem. Imagino que todo mundo seja mais ou menos assim, mas - como disse - falo de mim.

De tempos em tempos, ocorrem mudanças grandes (e penso nos vírus, influenza, por exemplo, que anualmente tem pequenas mutações que nos fazem precisar nos vacinar sempre, mas que - de tempos em tempos - tem uma mutação maior, o que leva a epidemias e quiçá pandemias).

Essas mudança ocorrem inicialmente contra a minha vontade, claro. Só que quando começa a soprar o que chamarei aqui (para eu me lembrar das minhas origens náuticas) de "o vento da mudança", após um período inicial de angústia e ansiedade, tomo as decisões necessárias rapidamente e volto à tranquilidade da expectativa do que vai ocorrer.

E então quero que ocorra a mudança "para ontem", e volto a ficar ansioso para que tudo se defina rápido, o que nem sempre acontece. E começa o exercício da paciência. E uma vez tomada a decisão, já era. Vai acontecer. Ponto.

Estou em vias de (mais) uma (grande) mudança profissional.

Talvez seja hora de deixar para trás algumas roupas que talvez não sirvam mais.

Em breve, em breve.

Até.

domingo, abril 01, 2018

Primeiro de Abril

Páscoa.

Foi dia de reunir a família para o já tradicional almoço de Páscoa aqui de casa, assim como o é a ceia de Natal, e esse ano também a noite de Ano Novo. A nossa casa como centro de encontros, de reuniões familiares. Ponto de encontro.

Gosto disso.

Pensando em muito anos atrás, ainda à época em que era estudante de medicina, lembro da turma que tínhamos. Éramos colegas, alguns o são até hoje, e outros eram além, éramos amigos (alguns ainda são, mais ou menos distantes geograficamente). E tínhamos diferentes funções, ou papeis, no grupo. Um era o organizado, outro era o líder natural, entre os vários persongens. Eu? Eu era o "botador de piha".

Botador de pilha.

Aquele que "botava pilha", o que incentivava, o que reunia e empurrava para frente.

Encarnei e acreditei nessa minha função por um longo tempo, mesmo depois de conhecer a Jacque e ficarmos juntos. Ela entrava no clima e ia junto. Sempre estivemos na mesma sintonia nesse sentido. Éramos o casal que botava pilha.

A Sopa de Ervilhas Anual do Marcelo foi o ápice da trajetória de reunir, congregar, confraternizar com amigos. O trabalho todo compensava. Tinha o meu nome, mas o evento sempre foi nosso, porque éramos uma dupla muito afinada em todos os sentidos.

E ainda somos.

Mas não tem mais Sopa (o evento). Agora tornamos nossa casa o ponto de reunião da família. É sempre legal receber, fazer jantares, sentar e conversar em torno da mesa.

A vida tem sido corrida, como não poderia deixar de ser, mas esses momentos em meio aos afazeres de todos os dias são essenciais para - podemos dizer - a sanidade mental...

Até.