sábado, abril 11, 2020

quarta-feira, abril 08, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Vigésimo Quarto Dia

Tem muito especialista por aí.

As redes sociais nos deram a oportunidade de ter acesso a milhões de especialistas sempre prontos a nos dar a palavra final sobre o assunto que está mais em destaque no momento. Atualmente, claro que é o coronavírus.

Mas há poucas semanas era o Trump. Ou o Bolsonaro. Ou o Brexit.

Não importa, sempre os especialistas estão à disposição. E são sempre os mesmos. Não importa o assunto, eles são sumidades, eles entendem tudo sobre o assunto da semana. Só eles conhecem, como diriam os Titãs, ‘a melhor banda de todos os tempos da última semana’.

São uns chatos.

Eles gritam, fazem barulho, atacam quem não pensa como eles, agridem.

Continuo com a ideia que não tenho como saber tudo sobre todos os assuntos. Humildemente, procuro saber muito sobre alguns assuntos, e ter uma razoável ideia sobre diversos outros. Sempre lembro de ter assistido uma entrevista do Nelson Motta, numa Feira do Livro de Porto Alegre há muitos anos, em que disse justamente isso, que seu objetivo era ser um generalista, saber um pouco sobre muitos assuntos. Ou algo assim, mas essa foi a ideia que me marcou.

O que incomoda, atualmente, é que todos tem suas fortes opiniões sobre tudo no mundo, o que é um direito de cada um, só que acham que sabem tudo sobre todo tudo e ainda fazem questão de gritar a plenos pulmões nas redes sociais. 

 Que tem as tornado muito, mas muito desagradáveis.

Saco.
  
Até.

segunda-feira, abril 06, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Vigésimo Segundo Dia

Ao abrir os olhos, hoje cedo, ao acordar após uma noite de sonhos estranhos, vários, entre eles um sobre uma discussão entre colegas de trabalho sobre casos de coronavírus, e também um café numa improvável Porto Alegre em que cafés são escondidos em segundos andares de velhos casebres, um pensamento foi inevitável.

É domingo. De novo.

Como foi ontem e como será amanhã.

Pausa para um suspiro de resignação, afinal nesse momento não há nada que se possa fazer quanto a isso, a não ser viver num recorrente domingo. Dizem que as coisas na vida se dividem em dois tipos: as que podemos mudar e as que não podemos mudar. Para as primeiras, todo nosso esforço. Para as outras, paciência. Resignação. 

É justamente o que vivemos agora, e temos que ter resiliência, sabemos todos. E vamos levando.

Não tenho ido ao consultório todos os dias. Mas a minha agenda permanece aberta para quem quiser marcar consultas. Quando preciso, estou lá. Acontece que boa parcela dos pacientes está apreensiva em sair de casa e ir consultar. Em hospital, nem pensar. É um efeito colateral do momento, mas sabemos que outras doenças continuam ocorrendo, e que precisam de cuidado. Por isso, muitos atendimentos online, que posso fazer de casa. Orientações, renovação de receitas. 

Seguimos. Isolados, distantes, a postos.

E torcendo que a tempestade não seja tão violenta...

Até.

domingo, abril 05, 2020

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia – Vigésimo Primeiro Dia)

O Ano da Peste.

Quando se fala em “Um Diário do Ano da Peste”, a referência que se tem é o livro de Daniel Defoe, que reconstitui o verão de 1665 em Londres, quando a cidade assolada pela peste bubônica. Num momento de liberdade poética, talvez num timing não muito adequado, dois mil e vinte – para mim – será lembrado como o Ano da Peste.

Pois é.

O meu aniversário no Ano da Peste. Vou lembrar, certamente.

Volto ao início do ano de 2002, quando ia fazer trinta anos. Escrevi uma Sopa (que ainda não era blog, mas enviada por e-mail aos assinantes) em que dizia que seria um ano inteiro de comemorações, em que as pessoas deveriam celebrar, e – onde houvesse duas pessoas celebrando algo por qualquer motivo – eu estaria em espírito junto a elas.

Exagero, claro.

Mas reflete o espírito de um tempo, quem eu era naquela época. Era o tempo da Sopa de Ervilhas Anual do Marcelo, que naquele ano foi na véspera da final da Copa do Mundo em que o Brasil ganhou o pentacampeonato, e época também da Banda da Sopa. Dezoito anos atrás.

O tempo passou, o mundo mudou.

Eu mudei.

Ao longo do tempo, tornei-me mais introspectivo, menos expansivo. A Sopa de Ervilhas deixou de acontecer (parecia ter perdido o sentido, não sei), e perdi a vontade de grandes comemorações de aniversário, por exemplo. Continuei gostando de estar junto às pessoas, não deixei de valorizar as relações. Nunca perdi a noção de que o sentido da vida são as relações que temos, as pessoas cujas vidas tocamos. Apenas fiquei um pouco mais quieto, no meu canto.

Já falei muito das voltas que a vida deu nos últimos anos, em termos profissionais. Aceitei tarefas, trabalhos e responsabilidades que deram uma grande satisfação profissional, em termos de reconhecimento e retorno financeiro. Foi muito bom, mas – disse e redisse isso diversas vezes já – cobrou um preço.

Com o movimento de retorno, digamos assim, que fiz no ano passado, em parte planejado e em parte levado pelas circunstâncias, passei a refazer alguns caminhos que tinha deixado de trilhar, e rever algumas paisagens que havia deixado de olhar. Passei a correr menos, para poder olhar por onde ando.

A quarentena imposta pela pandemia de coronavírus, que hoje entra na terceira semana, colocou a vida em suspenso. Tudo parou, prazos se estenderam, passamos a viver um dia após o outro. Não há planos imediatos, não sabemos quando vai terminar. A incerteza dos prazos causa angústia. Mas não temos muito o que fazer, além de tomar os cuidados recomendados pelas autoridades de saúde, distanciamento social, lavagem de mãos e – agora – uso de máscaras para todos.

Cinco de abril.

E chegamos ao meu aniversário, em plena quarentena, em meio ao ano da peste versão século vinte e um. Passamos em casa, a Marina, a Jacque e eu. Ligações de vídeo, mensagens de WhatsApp, mensagens nas redes sociais. Não ficamos sozinhos, nós os três. Mas seria muito melhor se estivéssemos com o resto da família, e com os amigos. A vida é sempre melhor com a família e os amigos.

Quando o vento baixar, quando a tempestade passar.

Planos, sempre fazer planos.

Até.

sábado, abril 04, 2020

Sábado (e um lugar)

                      Big Tignish Lighthouse, Tignish
                      Prince Edward Island, Canada
                      Outubro/2019


                      Stay safe, stay home!

sexta-feira, abril 03, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Décimo Nono Dia

Cuidado.

Um alerta que sempre faço a mim mesmo (e, ainda assim, algumas vezes me passo): temos que ter cuidado com o que dizemos e/ou escrevemos. Sempre, é óbvio, mas em especial em tempos extraordinários como esse que vivemos, de nossa vida estar em suspenso e não sabermos até quando. E ainda mais em tempos de redes sociais.

Estamos praticando o distanciamento social, de quarentena.

Uma orientação médica, técnica, determinada por estudo de evidências científicas, não baseadas em “achismo” ou medo. Que seguimos porque é o certo. E seguiremos até que essa orientação mude, o que ocorrerá caso do surgimento de novas evidências científicas que porventura mudem isso.

Assim é a ciência. As verdades são verdades até que surjam provas em contrário. A Terra não é plana, não é o Sol que gira em torno da Terra, todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele, a mudança de movimento é proporcional à força motora imprimida e é produzida na direção de linha reta na qual aquela força é aplicada, a toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos. 

Durante muito tempo, eu brincava que as pessoas podiam ter opiniões, mas eu não: meu compromisso era com a verdade... Brincadeira, claro, e poderíamos aqui entrar em uma longa discussão sobre dogmatismo e relativismo moral, mas não é esse o meu foco. Quero voltar ao cuidado com o que dizemos e/ou falamos e esse momento de apreensão que vivemos.

Estamos num mundo onde todos se acham na obrigação de emitir opiniões, de “gritar” ao mundo o que pensam. As redes sociais são um prato cheio disso e, mais, como Umberto Eco disse no já longínquo ano de 2015, as redes sociais deram voz a uma “legião de imbecis”. O que reforça o cuidado que procuro ter com o que digo. Aqui mesmo, neste espaço, há alguns anos, já tive problemas por escrever um texto não politicamente correto – uma piada interna entre amigos – e ser “censurado” por pessoas que não me conheciam. Acontece, e passei a ter mais cuidado com o que escrevo.

Todo esse longo preâmbulo para dizer que, por esses dias, quando um médico – seja qual for a especialidade – vai às redes sociais dar sua opinião sobre a atual pandemia, seja ela qual for, existe uma potencialmente grande audiência que está ansiosa para ter sua opinião pessoal “validada” por um especialista. Se o que esse especialista diz vai contra o que mundo científico pensa a respeito, que é baseado nas evidências disponíveis, ele pode estar incorrendo no erro de estimular as pessoas que esperavam por alguém que validasse suas falsas crenças a desrespeitarem as recomendações vigentes, e não só se colocar em risco, mas colocar outros em grande risco.

O que estamos vivendo não é brincadeira.

Temos que ter cuidado com o que dizemos.

Até.

quarta-feira, abril 01, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Décimo Sétimo Dia

Ontem não escrevi.

Estava cansado.

Não de trabalhar, imagino, apesar de ter sido dia de consultório. 

Saí de casa pouco depois do meio-dia, algum movimento de carros, mas pouquíssimas pessoas nas ruas. Parecemos num eterno domingo, vivendo todos os dias o mesmo dia. As mesmas notícias, o mesmo bater de panelas às 20h30. Por que batem as panelas? É sempre contra o governo?

Groundhog Day.

O clássico filme de 1993 com o Bill Murray e a Andy MacDowell, no Brasil chamado Feitiço do Tempo. Ele é um repórter do tempo que fica preso revivendo o mesmo dia repetidas vezes, no Dia da Marmota. Já assisti incontáveis vezes.

Mas dizia que parece que estamos vivendo o mesmo domingo todos os dias. Ao chegar no hospital, poucos carros no estacionamento dos médicos. O caminho até o consultório é solitário, sem encontrar nenhum rosto conhecido, a Associação dos Médicos, ponto do cafezinho diário e do encontro com colegas e amigos, está fechada por razões óbvias. O restaurante, com a mesa reservada dos médicos e pescadores, está fechado.

A primeira paciente da tarde é uma colega de faculdade, que testou negativo para o COVID-19, mas que não está bem, ambos, ela e eu, de máscara. Não parece ser, mas encaminho para uma tomografia para termos certeza que não é nada demais. Foi normal, para alívio de todos nós. Nenhuma suspeita durante a tarde, mas entre um paciente e outro recebo a mensagem de um ex-aluno cuja mãe está sendo avaliada para possível internação em outro hospital aqui em Porto Alegre. E ele não está na cidade.

Demoro um pouco, mas consigo contato com o colega que está na linha de frente e que avaliou a paciente: não precisou internar, para nos deixar mais calmos.

Os dias passam assim, quando não estou no consultório estou em casa. E, em casa, muitas mensagens, muitas ligações de pacientes. Além de orientar, tento tranquilizar, até onde é possível fazer isso.

Faz parte da missão.

Até.