quarta-feira, dezembro 07, 2005

Atitude

Muito mais do que ser, hoje em dia é importante parecer ser. São tempos de uma grande influência da televisão, mas que parece estar diminuindo (ou será que são as pessoas com quem convivo?). De qualquer forma, não podemos deixar a tirania das aparências dominar nossas vidas. Devemos marcar posição, é isso.

As pessoas precisam saber claramente quem somos e quais são nossas opiniões nos mais variados assuntos do mundo que nos cerca. À direita, à esquerda, em frente ou para baixo, temos que ter uma clara opção. Isso vai tornar tudo mais seguro e claro, voltaremos a saber em que chão estamos pisando. E temos que ter atitude perante o mundo. Posição e atitude, as chaves para o sucesso no novo milênio. Parênteses. Milênio é aquele garoto que nasceu no primeiro minuto de 2001, filho da Milene e do Ênio. Fecho parênteses e paro de escrever bobagens.

Eu, por exemplo, parei para refletir há um tempo atrás e estabeleci minhas posições ideológicas, que devem ficar claras para todos. São as bases nas quais estão assentados todos os meus atos. Dessa forma, as pessoas vão sempre saber como reagirei frente à determinada situação. Porque sou coerente, normalmente. Após esse concílio, que não foi em Trento, tracei algumas diretrizes que regem a minha conduta perante a vida.

A melhor sobremesa. Foi uma das escolhas mais difíceis, frente a uma gama enorme de opções fantásticas, mas cheguei lá: a melhor sobremesa do mundo é o sagu. E ponto final. Mais bonita canção em língua portuguesa: Oceano, do Djavan. Sim, eu sei que existem bilhões de canções maravilhosas, que deveria ser uma das do Chico Buarque e etc, mas é essa, lamento. Tinha que definir uma, e assim o fiz.

Arroz de leite: não existe. É um erro que tem se perpetuado ao longo de gerações, desde que um débil mental misturou arroz e leite e disse que era bom. É o típico caso de mentira dita mil vezes que vira verdade, segundo a cartilha de Goebbels, oficial nazista da informação. Não sei se tão grave quanto o arroz de leite é o caso do leite de soja. Por favor! Leite de soja não existe. Acordem! Imaginem o fazendeiro, de manhã cedo, ordenhando uma plantinha e coletando o leite numa vasilha. Convenhamos...

É o que digo, posições perante os fatos. O que fazer numa encruzilhada, quando não se sabe qual caminho seguir? Vá à esquerda. Funciona sempre? Não, mas o importante é ter posição e atitude. Pena de morte? Contra. Pirâmides e correntes: distância. O que fazer com pedófilos e estupradores? Olho por olho, dente por dente. Simples. Feijão? Preto, os outros são apenas vagens.

Nada disso significa simplificação ou evitar a reflexão ou o debate filosófico. Pelo contrário, tendo resolvido estes pequenos dilemas diários que normalmente tomam tempo das pessoas, sobra mais chance de captar no ar a filosofia que está por aí, etérea, e trazê-la para o mundo dos vivos.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Amores incompletos e o serviço consular

Vinha eu, na manhã fria de Toronto, em pleno bonde, ouvindo meu iPod. Parênteses. Eu gosto muito de chamar bonde – sei que já disse isso – porque dá um tom de passado ao que escrevo, e agrada mais ainda juntar na mesma sentença a contradição de estar usando um aparelho eletrônico moderno: de iPod no bonde. Legal, não? Fecha parênteses.

Como estava dizendo, estava ouvindo músicas tocadas de ordem aleatória e, quando – já na rua, caminhando em direção ao hospital – tocou ‘Vento no Litoral’ da Legião Urbana. É uma música triste, pesada, fala de um final de relacionamento e diz “… dos nossos planos é que tenho mais saudade / Quando olhávamos juntos, na mesma direção, aonde está você agora além de aqui dentro de mim… agimos certo sem querer/ foi só o tempo que errou / vai ser difícil sem você / porque você está comigo o tempo todo e quando vejo o mar, existe algo que diz, que a vida continua e se entregar é uma bobagem…”. E tive um insight.

Amores completos são os que acabam.

Claro que falo em completo em termos de tempo, trajetória, e não em intensidade. Os amores incompletos são os que ainda não terminaram, continuam.

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Já na volta para casa, esperando o bonde, com o vento frio cortando, temperatura de –7ºC com sensação de –15ºC, os pés quase congelados, tive nova visão. Se fosse eu quem analisasse os pedidos de visto das pessoas que querem vir estudar no Canadá, rejeitaria todos aqueles que quisessem vir para cá ficar de dezembro a março. Por uma simples razão: ninguém, em sã consciência, larga o verão para passar três meses dentro de um freezer…

Até.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Monday, Monday

Hoje é segunda-feira, o dia em que falo de esportes. Caso você, estimado leitor, não tenha interesse no tópico, pode pular essa parte…

Futebol

Premissa número um: eu não tenho nada contra o Corinthians (certo, Edgard?).

A partir dessa premissa, é que vou basear o que direi a seguir: o Corinthians não é o campeão brasileiro. E nem o Inter. O campeão brasileiro só será conhecido quando a justiça decidir. Chato? Sim, claro, o melhor era ter terminado tudo ontem.

Mas como o Corinthians foi beneficiado por uma aberração inventada pelo presidente do supremo tribunal de justiça desportiva, o Inter – que foi prejudicado – tem mais é que pleitear na justiça a reparação do dano sofrido. Fato: a CBF, não podia ter declarado nenhum campeão porque estava impedida pela justiça. Ao fazer, cometeu crime.

Não há muito mais a ser dito sobre o assunto. O Corinthians fez mais pontos que o Inter? Fez, mas porque teve a chance de jogar de novo duas partidas que havia perdido, e – já disse isso – que não existem provas de que tenham sido manipuladas. Justo? Não, claro, e por isso o Inter tem que ir atrás da justiça, seja ela desportiva, até a Fifa, ou mesmo comum.

Ainda futebol

É interessante como é conveniente manipular a visão que tem-se realidade para que ela se pareça mais agradável, mais tolerável.

Vejam o caso dos torcedores do Grêmio que – com justiça – comemoram a sua volta à primeira divisão do futebol brasileira ou, como eu disse a um amigo, o direito de sentar na mesa dos adultos. Recebi alguns emails de gremistas dizendo que o ano acabava como sempre: o grêmio campeão e o Inter sem nada. É uma visão interessante, mesmo que deturpada.

O ano do grêmio foi melhor e termina melhor do que o Inter?

Pior cego é aquele que não quer ver.

Skype

Uso o Skype para falar com algumas pessoas do Brasil. É um daqueles softwares que facilitam minha vida de “exilado”.

O interessante é que – às vezes – alguém vê o meu profile e, ao saber que moro no Canadá, resolve me ligar para perguntar sobre a vida aqui. Na maioria das vezes, não tenho como esclarecer as dúvidas, porque não sou imigrante e vim para cá numa condição bem específica. De qualquer forma sempre respondo.

O que é diferente de alguém querer me incluir como seu contato sem ao menos se apresentar. Assim, do nada, recebo um aviso de que alguém me incluiu como contato. E não tenho nem idéia de quem seja! Não aceito, claro, e nem permito que a pessoa saiba quando estou online.

Esses tempo, contudo, não me dei conta e permiti que uma pessoa soubesse quando eu estava online. Conversamos, via chat, umas duas vezes. Depois disso, cada vez que eu entrava online, a pessoa me mandava mensagens tipo msn, puxando conversa. Parei de ficar online, principalmente quando estava fazendo outras coisas.

Até que recebi uma mensagem dizendo que essa pessoa estava me cortando da sua lista de contatos (não fazia parte da minha) porque nunca havíamos conversado.

Sim, mas eoqueco?

Até.

domingo, dezembro 04, 2005

A Sopa 05/20

O ano de 2005 (1).

Chegamos ao primeiro domingo de 2005 e o meu penúltimo em Toronto este ano. E, ao contrário do ano passado, em que não tive tempo de me sentar e escrever a minha retrospectiva pessoal do ano, vou tentar fazer nos próximos domingos, ainda aqui de Toronto e depois de casa, em Porto Alegre.

Bom, o ano que ora se aproxima do seu final foi o ano em que efetivamente morei fora do país. Porque 2004 foi o ano em que ultimei os preparativos para a vinda e vim, e 2006 vai ser o ano em que vou me preparar para a volta e voltar. Simbolicamente, os dois anos pares têm significados distintos (mas não opostos) e são igualmente importantes, como é fácil imaginar. E 2005, então, qual sua importância?

Tergiverso um pouco antes de responder à pergunta que faço a mim mesmo. E começo falando um pouco sobre a vida, o que, no fundo, é o assunto de todos os escritos.

Pensei que também podemos definir a vida como uma série interminável de ciclos de construção/desconstrução. Alguns mais intensos que outros, claro. Tomemos o exemplo de quando iniciamos numa escola diferente, ou na universidade, ou mesmo nos mudamos de cidade. Nestes momentos, saímos de situações de conforto, de segurança, e somos obrigados a iniciar do nada novas relações com o mundo. Há, por isso, uma desconstrução de quem éramos e uma reconstrução que – inevitavelmente – vai nos fazer um pouco diferente do que éramos. E assim sucessivamente, por toda vida: a cada desconstrução, nos reconstruimos um pouco diferentes.

Retornando à 2005, e respondendo à pergunta sobre sua importância, digo que este ano foi o ano da reconstrução. Depois de chegar aqui em agosto de 2004, e experienciar com intensidade a desconstrução, esse ano foi o de construir pontes, criar laços.

Foi muito intensa essa experiência porque, estando casado há quase dez anos, vim para cá sozinho. O choque inicial foi maior também por isso, e – apesar da longa preparação antes de viajar – chegar aqui sem referências não foi fácil. Mas, como sempre disse meu irmão, tinha era que ver a big picture, olhar em perspectiva. Ruim no início, depois melhoraria. Eu sabia que seria assim, e foi.

Criei laços e construí pontes, com certeza. Sem diminuir em nada as ligações que tenho com o lar (pessoas, cidade, estado e país), que – por sinal – parecem mais fortes que nunca. Tornei-me um cidadão de Toronto, um local. Tenho bons amigos aqui.

Só isso já teria valido a vinda para cá, mas tem muito mais.

Até.

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O Meu Confronto com o Imortal

by Lucia Stenzel

Outro dia um amigo me perguntou por que eu nunca mais tinha escrito minhas histórias. Entre falta de tempo (que não é desculpa), falta de idéias criativas e falta de dinheiro (vocês já vão entender como a falta de dinheiro bloqueia os neurônios); eis que surge a mais nova confirmação da minha insignificância: conheci pessoalmente o Imortal. E pior, convivo diariamente com eles: com o Imortal e com a minha insignificância.

O Imortal

Ele parece homem comum. Usa camisa e sapatos, as vezes vai ao banheiro, usa o computador, escreve e-mails, usa as chaves para entrar e sair da sala; como todos nós, míseros mortais que circulamos no mesmo espaço que Ele. Quando me disseram que Ele seria meu chefe tive um misto de orgulho e medo. O que vou dizer quando estiver frente a frente com um Imortal? Treinei alguns dias diante do espelho, mas nada parecia adequado para o primeiro confronto. Seria no elevador, na biblioteca, ou na cafeteria? O que importa. Alguma coisa que preste teria que sair desta cachola. No fundo, sabia que o dia chegaria quando eu menos esperasse. Esse dia foi hoje.

O confronto

Tínhamos uma reunião onde então eu seria apresentada a Ele e aos outros professores mais antigos da faculdade. A reunião seria na sala do departamento, onde um grupo de quize professores divide o mesmo computador. O encontro era as cinco da tarde, mas a incorrigível adiantadinha chegou cedo, cheia de ansiedade. Sala vazia e o computador ali, dando sopa. Nunca consigo ler meus e-mails na faculdade, hoje era a grande chance. De repente um barulhinho de chave na porta e eis que surge Ele: o Imortal.

E agora? Fiquei entre um singelo “olá” e um pedido de autógrafo. Acabou que fiquei muda e ele iniciou o diálogo. “Boa tarde, tudo bem?”. Ãh, cuma? Comigo? “Sim, tudo bem Professor”. E virei rapidinho para a tela do computador. Imagina incomodá-lo com qualquer outra pergunta ou comentário. Até mesmo um olhar era muito perigoso naquele momento. Outro dia li em uma dessas revistas de fofoca uma entrevista de um artista famoso onde ele dizia que, a melhor reação de um fã é quando ele finge que não viu o seu ídolo. Será que li isto mesmo? Já nem coordeno mais as idéias. Se não li inventei agora e serve: finge que não viu, que está tudo normal, tri normal, super-hiper normal.

Fiquei observando Ele através do reflexo da tela. Isso mesmo, não te mexe, fica aí vendo teus e-mails e não olha para trás, pensei eu. O prédio pode explodir, o alarme de incêndio tocar, dor de barriga, enchente, temporal; nada é motivo para tu te levantares desta cadeira. Tu vais ficar aí bem quietinha, muda, calada, e deixa o Imortal à vontade na sala três por quatro. E se ele falar comigo? Responde o essencial, só o essencial.

Ele andou de um lado para o outro, sentou na cadeira, levantou, serviu-se de água, voltou a sentar, levantou novamente. Eu ali, dura, firme, suor escorrendo na face... Mais uma vez Ele levanta, parece inquieto e me olha. Eu estava de costas é claro. Mas vi tudo pela tela do computador. E agora? Fingi que não vi, como mandava a revista. Nada de histeria, sorrisinho, gente famosa odeia essas puxa-saquices. Fiquei ali grudada no computador. Nada me tira daqui! Nada, nem terremoto.

O tempo passava e nada do Imortal sair da sala. E nada dos mortais para a tal reunião. Ele continuava no tal senta e levanta e eu ali parecendo estátua. Olhei no relógio e já se passavam quinze minutos daquela encenação ridícula. Até que o “tico e o teco” resolveram voltar a funcionar. Levantei vagarosamente da cadeira, tímida, com um sorriso contido, segurando a saia, olhei para Ele e perguntei: “O senhor deseja alguma coisa Professor Scliar? Ainda faltam uns minutinhos para a nossa reunião, o senhor quer um cafezinho, uma água?”. Ele, muito simpático respondeu: “Não querida, eu só queria ver meus e-mails. Já terminaste aí com o computador?”.

sábado, dezembro 03, 2005

Canção do Amor Imprevisto

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Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E minha poesia é um vicio triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,
Com teu passo leve,
Com esses teus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...
A súbita alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!

(Mário Quintana)

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Outros Tempos

Esta é uma crônica repetida. Não que eu já a tenha publicado anteriormente, mas é um assunto do qual muitos – melhor, quase todos – cronistas já trataram. Por isso não é original. É que é um assunto universal, e muitos outros já trataram dele com mais brilhantismo do que farei, mas não estou nem aí (esse é o momento em que faço expressão de desdém e boto a língua para o monitor). Espero que aquele papo de que a Microsoft monitora nossas vidas o tempo todo seja só paranóia. Vou falar de saudosismo e da passagem do tempo.

Há algum tempo, um grande amigo meu portador de uma mente brilhante, Otávio Costa dos Santos – o Radica - em meio a uma conversa nossa, disse que um sinal de que se está ficando velho é quando começamos a dizer ‘eu sou do tempo...’. E completou: “Eu sou do tempo do Eskibon de caixinha”. Eu também sou.

Pode parecer que não é importante se o Eskibon vem na caixinha ou naquele papel-plástico sei lá de que é feito, mas é. Há quanto tempo atrás vinha uma caixinha ao invés de um papel? A pergunta é ‘quem éramos nós quando o Eskibon vinha numa caixinha’? Quais eram os nossos sonhos, nossas aspirações mais profundas? Será que se perderam junto com a caixinha desse sorvete que pode ser considerado uns ícones de uma geração?

O Eskibon de caixinha é de um tempo bem posterior aquele em que se amarrava cachorro com lingüiça. Também é bem mais recente que o ‘tempo do Epa'. É de um tempo em que se algo era inaceitável, era ‘o fim da várzea’. Mas o fim da várzea era apenas o começo da picada, que – se chegássemos ao seu o fim – aí não restavam mais alternativas mesmo. Acho que era um tempo em que jogávamos bola na calçada sem medo de ter a mesma roubada ou ser seqüestrado. E brincávamos de esconder na rua de noite, e não nos escondíamos em casa após o toque de recolher informal, assustados.

Que saudades do Eskibon de caixinha.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Primeiro de Dezembro

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Dia Mundial 2005 - Aids e Racismo. O Brasil tem que viver sem preconceito.


O Dia Mundial de Luta Contra a Aids deste ano tem como tema no Brasil a aids e o racismo. Este tema foi escolhido partindo da perspectiva de que a população negra nunca foi alvo de campanhas de prevenção e ela representa 47,3% da população brasileira, segundo o IBGE. Essa representatividade aumenta quando verificamos que ela representa aproximadamente 65% da população de baixa renda.

No Brasil, apesar da tendência a estabilização da epidemia, os casos de aids vêm aumentando entre a população mais pobre, onde a população negra encontra-se em maior proporção. Daí a importância desta população como protagonista do Dia Mundial de Luta Contra a Aids de 2005.

O 1° de dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a Aids, é o momento político que irá colocar o tema racismo, e suas conseqüências para os portadores de HIV e para a população negra, na agenda da sociedade.


Pensemos a respeito.

Mais sobre o assunto aqui.


PASSAGEM DO TEMPO: SETE.

Até.