terça-feira, junho 02, 2026

A Sopa

Terça-feira.

 

Essa é uma Sopa inédita. Nunca na história desse blog eu publiquei uma Sopa em um terça-feira. Há mais de vinte anos, quando ela iniciou, primeiro em segundas-feiras e depois em seu dia habitual, domingo. Nunca em uma terça-feira. Qual o significado isso?

 

Nenhum.

 

Posso dizer que me atrapalhei no domingo, após pedalar de manhã, depois fazer o almoço de família que teve como convidada minha mãe, e uma tarde sonolenta, passou o domingo. E a segunda, da mesma forma, passou correndo entre trabalho e aula de música e ensaio à noite. Aconteceu.

 

Também não houve uma urgência literária, modo de dizer, algo que se impusesse como assunto a ser discutido e pensado nessas minhas crônicas que já foram diárias e que agora tem tido fluxo e frequência variáveis. Ficou tudo, A Sopa, quero dizer, para uma terça-feira em que os primeiros pacientes da manhã de consultório desmarcaram.

 

Estive, entretanto, por esses dias com minhas atenções voltadas para a vida digital e seus potenciais problemas. Tive minha conta da Microsoft.com invadida e meu One Drive sequestrado por um usuário com e-mail de origem russa (.ru). Apesar de todas as minhas tentativas de recuperação com a própria Microsoft, não consegui. E dou como perdidos os meus arquivos de backup que estavam contidos nesse drive. 

 

Sim, perdi acesso ao meu drive de backup, com fotos, documentos, entre outros. Fiz boletim de ocorrência na polícia tentar me proteger de um eventual uso de informações contidas nesses documentos e bola para a frente. Eu tinha outro(s) backup(s) de tudo – e até bem mais atualizados – em outra(s) nuvem.  Troquei minhas senhas, configurei os acessos aos sites em duas etapas, bloquei meu cartão de crédito. 

 

Como eu disse, bola para frente.

 

O chato disso é que tirou o meu foco de projetos que eu gostaria de ter tocado desde a semana passada, e que vou tentar dar continuidade essa semana. Como escrever essa Sopa, por exemplo.


Até. 

sábado, maio 30, 2026

Sábado (e trabalhei)

 

Em São Paulo


Depois de muito tempo, um sábado de manhã de trabalho (como médico).
Foi legal.

Até.

segunda-feira, maio 25, 2026

A Sopa

Última semana de maio e estou com todas as pendências que potencialmente me tiravam o sono resolvidas. Imposto de renda, recadastramento em convênio e colonoscopia feitos e entregues. Agora é só esperar pelo Natal.

 

Brinco, claro.

 

Mas, sim, essas pendências tinham o poder de (eu permitia isso) me incomodar, mesmo sendo rotineiras e parte de vida, e me tirar o foco daquilo que é realmente importante. Sei que não deveria ser assim, mas esse ano não consegui evitar. Independente de tudo, seguimos.

 

Após resolver as questões mundanas referidas previamente, pude (posso) voltar minha atenção ao que acho que preciso, que é pensar (fugindo do que chamam de overthinking) a vida como um todo. Refletir, analisar, ponderar quem tenho sido, se estou sendo quem eu deveria ou gostaria de ser.  Mais do que isso, mais do que pensar, planejar a vida, o foco é estar presente, viver o momento.

 

Conversava com um grande amigo esses dias, e uma verdade que rondava nossa conversa era de que – seja lá o que estejas fazendo, ou passando, ou vestindo – não importa nada disso, pois as pessoas não estão nem aí para nós, no sentido de que cada um está focado em sua vida e em seus problemas. Nada do que parece tão grave e importante na verdade o é, e nos preocupamos muito mais com o que poderia acontecer do que com o que realmente acontece.

 

A mensagem que sempre vem para mim é ‘Fica na tua’.

 

Não importa nada disso.

 

Fica na tua.

 

Até.

sábado, maio 23, 2026

Sábado (e eu, multimídia...)

 

Podcast da AMHSL


Está no ar o primeiro episódio do Podcast da AMHSL, Associação dos Médicos do Hospital São Lucas da PUCRS, que tenho a honra de apresentar / moderar. Vamos conversar com professores, colegas e amigos que fizeram e fazem a história da Associação, do São Lucas, da Escola de Medicina, da PUC e, também, da medicina gaúcha e brasileira.

Está bem legal.

Confere aqui.

Bom sábado a todos.



quarta-feira, maio 20, 2026

A Culpa

Sentimo-nos culpado. Sempre.

 

A culpa faz parte das história da religião judaico-cristã, e está lá, viva e forte, desde o início, no Gênesis, desde a perda da inocência de Adão e Eva, desde o pecado original. Desde que criamos consciência, convivemos com a culpa, em maior ou menor grau. Que fique claro: se existe consciência, existe a culpa.

 

Quando falamos de sociedades primitivas, falamos do medo e da culpa coletiva pela violação de regras sagradas e o despertar da ira divina. Sacrifícios, como o do bode expiatório, serviam justamente para limpar a culpa e restabelecer a ordem das coisas. As tragédias gregas falam de culpa, mesmo involuntária. Durante a idade média, a igreja centralizou a culpa na figura do pecado, e como uma forma de manter a ordem social. Mais modernamente, a culpa está ainda entranhada na vida das pessoas.

 

Digo que, na minha, ao menos, está.

 

Uma culpa que carreguei por muito tempo era com relação à minha saúde. Venho superando ao longo tempo. Um exemplo disso é que desde 2019 venho praticando atividade física regularmente, e superei a culpa por ser sedentário, que carreguei por um bom tempo. Os checkups que envolviam exames de sangue e imagem nunca foram uma dificuldade. O meu maior problema e culpa estavam relacionados à minha dificuldade em me organizar para a preparação e realização da colonoscopia e endoscopia digestiva.

 

Sempre havia alguma coisa, algum compromisso que impedia. Ou era trabalho ou eram atividades sociais. Sempre um obstáculo. Não conseguia organizar. E o tempo passando e a culpa crescendo, dizendo que quando fizesse seria tarde demais. Até que decidi romper o ciclo.

 

Eu mesmo solicitei o exame e falei com o colega que faria. Nem consultar consultei. Direto para o exame. Endoscopia e colonoscopia no mesmo dia. Fiz o preparo em casa, e ontem pela manhã, finalmente fiz.

 

Me livrei da culpa, dessa culpa.

 

Vamos para a próxima.

 

Até. 

segunda-feira, maio 18, 2026

A Sopa

Pandemia feelings.

 

Segunda-feira de manhã em casa sempre traz à memória aquele período maluco (para dizer o mínimo) em que o mundo meio que parou, pois não havia a possibilidade de encontros, eventos sociais, confraternizações ou festas enquanto lidávamos com um vírus e suas consequências, reais e imaginárias. Era de casa ao consultório / hospital e de volta para casa. Havia uma patrulha sobre quem saia de casa por esses dias. Lembro de ter me sentido culpado a primeira vez que saí para pedalar sozinho, ao ar livre, sem máscara. 

 

Loucura mesmo.

 

Não era disso que queria falar, evidentemente.

 

Fiquei em casa hoje, e estranho o silêncio da manhã de segunda-feira enquanto escrevo essas mal traçadas linhas. Estranho, porém bem agradável. Gosto dos silêncios, assim como gosto dos sons, música, mas também conversas e risadas e barulhos. Tudo, claro, a seu tempo.

 

E hoje não é feriado, não estou de férias e nem doente.

 

Estou em preparo para um exame amanhã cedo e aproveitei para, ficando em casa, organizar algumas coisas, pensar outras. Uma pausa (final de semana não conta) bem-vinda e sempre necessária.

 

Até. 

sábado, maio 16, 2026

Sábado (e um dia de trabalho)

Projeto em gestação


De uma manhã de quarta-feira...

Bom sábado a todos.

Até.

 

quarta-feira, maio 13, 2026

As Pequenas Pedras no Caminho

Meu atual esforço está claramente relacionado a aumentar minha resiliência ou, talvez uma forma mais precisa de dizer, tornar-me mais resistente (ou tolerante?) ao meu inimigo imaginário. Que sou eu mesmo. Volto, de tempos em tempos, a ficar encurralado no corner em um ringue de boxe em uma luta em que não há mais ninguém, além de mim.

 

Em passado mais ou menos distante, isso era Síndrome do Impostor, que eu chamava Síndrome da Luta de Boxe Imaginária antes de conhecer o nome pelo qual essa sensação, a de ser uma fraude, é conhecida. Não é mais isso, não é mais esse o problema.

 

É outro, são outros?

 

Identifico, por vezes, pequenos contratempos dos dias que acabam perturbando, tirando – mesmo que temporariamente – a paz interior. Não são os grandes desafios que assustam, mas sim as pequenas pedras que surgem no sapato e que muitas vezes nem estão realmente ali. Não deixar que essas pequenas incomodações afetem o todo, esse o objetivo.

 

Um passo depois do outro, degrau por degrau.

 

Vou tentando, vou tentando.


Até.

segunda-feira, maio 11, 2026

É Outono

Manhã fria de sol em Porto Alegre.

Sensação térmica abaixo de dez graus. 

Desço caminhando uma avenida a caminho do hospital, depois de ter deixado o carro no mecânico (de muita confiança). Amortecedor quebrado, o motivo do barulho que surgiu do nada no sábado à tarde. 

 

A rotina da semana começa alterada.

 

Paciência.

 

Como eu dizia, o que realmente importa é como reagimos ao que nos acontece, e não os acontecimentos em si. E isso não tem nada a ver com um carro que precisa de uma troca de peças.

 

Até.

domingo, maio 10, 2026

A Sopa

Um dito comum sobre inteligência emocional e desenvolvimento pessoal é o que diz que ‘a vida é 10% o que nos acontece e 90% como reagimos ao que nos acontece’. Encontramos essa afirmação entre os estoicos, ‘não é o que acontece com você o que importa, mas sim a forma como você escolhe reagir’. 

 

Foi Epicteto quem cunhou o conceito de que o mundo, tudo, se divide em duas categorias, o que depende de nós e o que não depende de nós. Devemos focar nossos esforços na primeira categoria, porque tentar controlar o que não tem controle gera angústia e frustração. Simples, em tese.

 

Fácil falar, nem tanto praticar.

 

Essa é uma das questões com as quais tenho lidado ultimamente, um balanço entre fazer o que precisa ser feito com relação ao que depende de meus esforços e lidar com o que está fora do meu controle. É o que há para fazer, para todos, mas com frequência isso é, digamos assim, um saco. Cansativo, na verdade. Gostaríamos todos, imagino, de um período de calmaria, com tudo funcionando a contento, e que pudéssemos nos dedicar apenas ao que é importante para nós, sem contratempos ou obstáculos.

 

Ou sem ficarmos incomodados quando ‘dificuldades’ (que, sim, sabemos que acabarão sendo resolvidas) surgem para tirar nosso foco do que realmente importa.

 

Até. 

sábado, maio 09, 2026

quarta-feira, maio 06, 2026

Intromissão

Pensamentos intrusivos vão e vem, me acordando mais cedo do que o habitual de tempos em tempos. Nem tão frequentes que preocupem ou justifiquem o uso de medicamentos, nem tão raros que me deixem esquecer. Entendo que são parte da vida, aprendi (sigo aprendendo) a lidar com isso.

 

Isso talvez seja fruto também de um possível excesso de ideias, planos e projetos que circulam pelos dias. Outro aprendizado em que venho trabalhando é o de priorizar, colocar em diferentes gavetas os diferentes projetos, conforme relevância e timing de execução, e saber que essas definições são fluidas, vão mudando conforme o tempo passa e as prioridades se alteram.

 

Quando ocorrem esses episódios de pensamentos intrusivos, uma forma de lidar é procurar olhar o todo, ter uma visão de perspectiva. A trajetória. De onde vim (viemos), o caminho percorrido, o que foi alcançado e o que está em andamento. Esse é o meu jeito de lidar com as incertezas, e inseguranças.

 

E seguir, como sempre.


Até.

terça-feira, maio 05, 2026

Miojo

O mundo está (muito) melhor.

 

A vida é, objetivamente, muito melhor hoje em dia do que no passado. Menos fome, menos guerras, menor mortalidade infantil, maior conforto, independente do critério que utilizarmos, a conclusão objetiva deve ser essa, mesmo que exista essa sensação geral de que seria o contrário, de que o mundo estaria pior.

 

Existem diversas razões para essa impressão, mas hoje quero focar em um lado dessa questão: a romantização do passado. Temos a tendência de registrar, de memorizar, principalmente o que foi bom ou, melhor, criamos uma narrativa pessoal que torna a maioria de nossas memórias positivas, e que atenua as que não. É humano isso, tudo certo. Lembrar dos ‘Anos Dourados’, como se a vida fosse mais fácil naquela época. 

 

Não era.

 

Como em qualquer situação, havia o que era bom e o que não era, o que era difícil. E não sabíamos viver de outra forma, porque não havia outra forma de viver. Era completamente diferente, assim como a forma que a vida será em cinquenta anos será bem diferente da vida hoje em dia. 

 

Porém...

 

Falávamos disso ontem à noite, em uma conversa que começou com videocassetes que ainda funcionam, avançou para as antigas locadoras de vídeo em que havia alguém que servia de curador, de orientador, que sugeria filmes baseado em nossas preferências, de quando íamos na sexta-feira à tarde retirar filmes que seriam devolvidos na segunda-feira com as fitas rebobinadas. As grandes locadoras e as de bairro, onde éramos conhecidos pelo nome. E comparamos com os dias atuais, que temos um mundo de opções em streaming e muitas vezes acabamos perdendo muito tempo pesquisando filmes, muitas vezes sem escolher nenhum. 

 

Era ritual, isso de assistir filmes em casa, assim como é ritual fazer um churrasco.

 

Todos sabem que churrasco não é apenas uma carne assada no fogo. É, justamente, um ritual, uma liturgia, uma reunião de pessoas que envolve muito mais que apenas uma simples refeição. E respeitamos muito esse ritual.

 

Insisto que a vida não era melhor no passado, porque não era, e esse exemplo das locadoras de vídeo e o ritual provavelmente seja – também – romantização do passado, mas, pensando bem, acho não conseguiremos no futuro romantizar tanto o atual presente, em que não há quase rituais, em que tudo é transitório, tudo é instantâneo.

 

Vivemos em um mundo miojo...


Até. 

domingo, maio 03, 2026

A Sopa

Já há algum tempo, e como muitos por aí, assisto muito mais ao streaming do que à televisão convencional, digamos assim. Sou do tempo em que existia apenas a tevê aberta, com seus poucos canais disponíveis, a RBS TV (subsidiária da Globo), a Bandeirantes, a TVE, o SBT, a Manchete (depois Rede TV) e a TV Guaíba, que hoje em dia é Record. Era isso, e nos verões no litoral norte do RS ficávamos praticamente restritos à programação da Globo.

 

Com o tempo, a TV a cabo foi substituindo a tevê aberta (para mim). Eram muito mais canais que – com o tempo – foram aumentando em termos de disponibilidade. Séries, sitcons, filmes variados, um mundo se abriu. Quando surgiu a possibilidade de deixar gravado os programas, ficou ainda melhor, já não éramos tão “presos” aos horários de transmissão. Warner Channel e Sony estavam entre os favoritos.

 

Mas a Internet, e as Smarts TVs, mudaram tudo, e o streaming colocou ainda mais opções na mão. Além disso, agora podemos acessar o You Tube na televisão. É muito bom (confissão de velho...)!

 

Então dizia que já quase não assisto televisão.

 

You Tube é minha primeira opção quando me sento em frente à tela. Mais especificamente, e isso já vem por um bom tempo, vídeos de casas antigas sendo reformadas pelos próprios donos. Desde casas muito baratas na Sicília ou uma ‘ruína’ sendo transformada em lugar habitável na Costa Amalfitana, até uma propriedade de mais de quarenta anos comprada com tudo dentro em Idaho, nos Estados Unidos. Reafirma minha vontade de comprar uma casa velha e reformá-la eu mesmo, mas – como todos já deveriam saber – eu sou um guri de apartamento, não seria capaz... Ou talvez não tenha surgido a oportunidade e o momento para isso, sei lá.

 

Além desses vídeos, desde o final de março, quando voltamos da viagem que passou por Nova York, ando fixado em vídeos de apartamentos em Manhatan. Principalmente pelas vistas da cidade que esses locais apresentam. São apartamentos de quatro ou cinco milhões de dólares que evidentemente nunca vou comprar, mas que seriam lugares muito legais de morar. Acima desses valores, não olho, como – por exemplo – o apartamento mais caro do mundo, que custa duzentos e cinquenta milhões de dólares. Por uma questão de princípios.  

 

É muito dinheiro, jamais pagaria isso por um apartamento...


Até. 

sábado, maio 02, 2026

sexta-feira, maio 01, 2026

Chuva à Tarde

Chove nesse final de sexta-feira Dia do Trabalhador. Ou é Dia do Trabalho? Não importa, é feriado e é sexta-feira. Um terço de dois mil e vinte e seis já passou. Logo é Copa do Mundo. Depois, eleições. E o ano terminou. Mais um na conta, e menos um restante. Seguimos.

 

E chove... Uma goteira, fora,

Como alguém que canta de mágoa,

Canta monótona e sonora

A balada do pingo d'água.

(Chovia quando foste embora...)

 

Sempre que chove, e paro para ouvir o som da rua, não consigo não lembrar desse poema, que conheci (li e decorei) em 1987, em uma aula de literatura no segundo ano do ensino médio, na Escola Técnica de Comércio da UFGRS, nos fundos da Faculdade de Economia, Centro Histórico de Porto Alegre, curso de Técnico Operador de Computador Manhã. O professor de português e literatura acabou sendo o paraninfo da turma que se formou em dezembro de 1988 em uma cerimônia no Salão de Atos da UFRGS, e o grupo do ‘Fundinho’, do qual eu fazia parte, decidiu não ficar com todos os formandos no palco, como protesto por não sei o quê, mas eu não participei com eles, fiquei com a maioria em cima do palco como deveria ser. O meu ato de rebeldia foi não ir com o grupo como o esperado. Fazer parte do sistema foi ser alternativo... Qual significado disso? 

 

Absolutamente nenhum.

 

Apenas cheguei aqui em uma série de pensamentos paralelos que começaram com o som da chuva lá fora.


Até. 

quinta-feira, abril 30, 2026

A Melhor Fase da Vida

Há algum tempo, enquanto atendia a um paciente de cerca de cinquenta anos no consultório, ele comentou durante nossa conversa que vivia a melhor fase de sua vida, e elencou as circunstâncias e razões para esse pensamento, que eram basicamente as mesmas que eu, que tinha a mais ou menos a menos idade dele. Essa conclusão era a mesma para nós dois. Os cinquenta anos eram, para nós, a melhor fase da vida.

 

E ela seguiu. A vida, no caso.

 

Há poucos dias, uma semana ou duas atrás, atendi um paciente em primeira consulta, sessenta anos passados, em boa forma física e que comentou que comemorara o seu sexagésimo aniversário pedalando na Suíça, mais especificamente nos Alpes Suíços. Concluiu que estava ‘na melhor fase de sua vida’. Era alguém bem resolvido em termos de família, trabalho, relações pessoais. Não só isso.

 

Contou que, enquanto pedalava em trecho de subida ainda na Suíça, em determinado momento – em um pausa para descanso – passou por ele um ciclista claramente mais velho, subindo em um ritmo bom, constante. Ficou sabendo depois que o tal ciclista tinha oitenta anos, ou quase isso, e que vivia ‘o melhor momento de sua vida’.

 

Na hora não falei nada, apenas sorri cá com meus botões. A verdade (aquela...) estava na minha (nossa) frente o tempo todo, clara, cristalina, impávida que nem Muhammad Ali, apaixonadamente como Peri, tranquila e infalível como Bruce Lee*. Para não deixar dúvidas, peremptória.

 

A melhor fase da vida é agora.

 

Até.

* 'Um Indio', Caetano Veloso

quarta-feira, abril 29, 2026

A Verdade

Há muito tempo, provavelmente bem no início dos anos dois mil, eu costumava dizer que ‘enquanto as pessoas podem ter suas opiniões, meu compromisso era com a verdade’. Em algum momento até acho que foi o slogan de algum jornal, mas não vem ao caso. Era brincadeira, claro, mas até ali. Eu tinha o objetivo pessoal de falar a verdade.

 

A minha verdade.

 

E podemos entrar em uma discussão filosófica sobre o que é a verdade, ou A Verdade, aquela em escrita com letra maiúscula, única, definitiva, peremptória. Ela existe, realmente? Como a encontramos? Precisamos, queremos encontrá-la? 

 

Aliás, alguém pensa nisso, em encontrar A Verdade?

 

Já pensei, não penso mais.

 

Sigo o fluxo da vida, vivendo as minhas verdades e procurando ser tolerante com e respeitar as verdades dos outros. Se cada um vivesse a sua vida, a sua verdade, sem querer interferir, sem “se atravessar” nas verdades e nas vidas dos outros, tudo seria mais fácil. O mesmo com a liberdade. A tua acaba quando começa a minha.

 

Respeitar os limites do outros.

 

Não é difícil.

 

Até.

segunda-feira, abril 27, 2026

Sobre Certezas

Talvez seja cíclico, não sei ao certo, mas durante um tempo eu tinha certezas sobre a vida e o mundo, até o momento em que deixar de ter. Assim, de repente, humildemente. Viver sem certezas absolutas foi viver em um mundo novo, de aprendizados diários e uma ânsia de conhecer.

 

Contudo, tudo tem seu tempo, e chegou a hora de reestabelecer alguma segurança, alguma estabilidade na vida. De caminhar tranquilo por aí sabendo que certos fatos não mudam, que podemos sempre confiar. Fiquei feliz ao voltar conviver com algumas verdades inabaláveis (para mim, para mim). Como o caso dos vegetais comestíveis excluindo-se as frutas. Tenho a minha escolha.

 

A cebola.

 

Sou fã inconteste da cebola. Em molhos, saladas, qualquer que seja seu uso ao cozinhar, sempre é bom.

 

Era isso o que eu precisava dizer.


Até. 

domingo, abril 26, 2026

A Sopa

Esses dias, enquanto buscava uma fotografia para publicar em minha galeria do Instagram, como parte do projeto #phootooftheday, em que durante um ano publicarei uma foto aleatória – como o nome diz – por dia. Faltam agora cerca de vinte dias, aliás.

 

Mas dizia que procurava uma foto e pensava em uma música como tema para a publicação. Normalmente escolho a imagem e depois a música temática, digamos assim. Essa vez, contudo, tinha uma música em mente, que claramente estava associada a determinada fotografia.

 

A música em questão era ‘Produção Urgente’, do Nei Lisboa, que tem um verso que diz:

 

 ‘O mundo é quem sobrar no fim da noite dos amigos’.

 

A fotografia em questão é de mais de vinte anos atrás, quando eu estava morando no Canadá e vim comemorar meu aniversário em Porto Alegre, e era o final de noite, quando todos haviam ido embora e sobramos poucos, em volta de uma mesa, contando histórias e falando da vida. Não pude publicar, pois metade dos casais nela havia se separado.

 

Não ia pegar bem.

 

Decidi, então procurar outra que representasse o mesmo, e tive dificuldades de encontrar. Não que não existam outras que representem o mesmo sentimento, é claro que existem, até bem mais recentes, mas pensei naqueles amigos que te acompanham há muito tempo, passaram por quase todas as fases de tua vida, estiveram sempre ali, a um toque de distância. Existem também, mas são poucos e vão diminuindo ao longo do tempo.

 

E retorna outro pensamento mais ou menos recorrente: conforme o tempo passa, vamos ficando sozinhos, e algumas conversas não podem mais acontecer porque quem entenderia (por conhecer a história completa, desde o início) já não está mais por perto ou não entende mais.

 

Ilhas, vamos nos tornando cada vez mais ilhas.

 

Até.

sábado, abril 25, 2026

Sábado (e eu acho que vi um gatinho...)

O novo membro da família...


Dartagnan (ou Dart, de onde derivo Darth Vader, mas esse sou eu, O Estranho).

MUITO pequeno ainda, mas muito fofinho...

Bom sábado a todos.

Até.

 

quarta-feira, abril 22, 2026

Não Vamos Saber de Tudo

Conversava esses dias com minha mãe, e lembrávamos do meu tempo de adolescente, quando – durante os verões na praia – saía quase todas as noites, e eles - meus pais - não tinham a menor ideia de onde meu irmão e eu andávamos. Por outro lado, em Porto Alegre, saía pouco até entrar na faculdade. Por isso, diferente de mim, não lembro do meu pai ter me levado ou buscado de festas ou shows. Era outro tempo, claro.

 

Lembro do show do Sting no Estádio Olímpico, em 1987, quando eu tinha quinze anos. Até acho que já contei essa história por aqui, mas vamos lá... Fui ao show com amigos, e foi muito legal. Quando terminou, saindo do estádio, todos moravam na zona norte e apenas eu na zona sul. Fiquei sozinho, quase meia-noite, pensando em como voltar para casa. Teria que caminhar, ou pegar um ônibus, até o centro de Porto Alegre e daí para a zona sul. Era o que eu tinha de fazer, e ia fazer de forma mais ou menos tranquila. Era o final dos anos oitenta, eu tinha quinze anos, tudo ia dar certo. Eu imaginava, ou torcia para que fosse assim.

 

Saí do estádio, segui pela Av. Carlos Barbosa até a Av. Azenha, onde em frente a uma agência de um banco que existia ali, quase ao lado de onde fora (ou era, não lembro) a Ferragem Toledo, de que meu pai de um dos donos, bem ali, esperando suas filhas, estava um grande amigo do meu pai. Ao vê-lo, não tive dúvidas: fui falar com ele e acabei arranjando uma carona para casa. Sorte, acaso.

 

Comentei com ela essa história, que não lembrava (ou não sabia). Assim como várias histórias que vivi que nunca chegaram ao conhecimento deles, para o seu próprio bem... Lembrando que eram tempos diferentes, e que a relação entre pais e filhos era diferente. Que nós, pais de hoje em dia, sabemos bem mais da vida de nossos filhos que nossos pais sabiam da nossa. 

 

É evidente que existem acontecimentos e histórias que acontecem com a Marina que eu não fico sabendo, e está tudo bem, deve ser mesmo assim. O importante é que ela sabe que estaremos sempre presentes quando ela precisar. Que confiamos nela e que ela pode contar conosco.


Até. 

terça-feira, abril 21, 2026

E choveu

Feriado.

 

Uma chuva fina caía sobre esse meu canto de Porto Alegre quando acordei, mais tarde que o habitual, mas ainda antes das oito horas da manhã. Tomei o café da manhã com calma lendo o jornal entregue na porta de casa, como faziam os antigos Maias e Aztecas. Agora preparo o chimarrão.

 

Ontem, segunda-feira, entre os atendimentos do consultório e uma reunião no final da manhã, parei na Associação dos Médicos do Hospital da PUCRS, local obrigatório (para mim, para mim) de parada diária, para tomar café, mas, principalmente, para encontrar amigos, colegas, eternos professores e mestres que viraram amigos. Parei para um rápido café antes da reunião e encontrei um deles, professor que virou amigo e que costuma me enviar dicas de música e sons frequentemente.

 

Ele não fizera feriadão, assim como eu.

 

Comentamos um pouco sobre isso, sobre o fato justamente de “termos” de trabalhar enquanto muitos outros descansavam, e que sabíamos que – por outro lado – tínhamos outros benefícios que compensavam trabalhar feriados e muitos finais de semana (o que, confesso, já não faço de forma regular há algum tempo, isso de violar a sacralidade do meu final de semana, mesmo que tenha aberto mão de oportunidades e renda, mas isso é outra discussão). As coisas são como são, e está tudo bem, concluímos.

 

A fase em que me encontro é – como podem notar – de reflexão. Enquanto preparo novos projetos, começo a pôr em prática algumas ideias, reviso os caminhos que percorri, e aqueles que percorro agora. Procuro coerência, mas não para explicar ou justificar para quem quer que seja minhas decisões, mas para me certificar de que continuo no caminho que – mesmo sem em algum momento me desviei - um dia concluí que era o certo para mim. Para o bem e para o mal, quero viver as consequências de minhas escolhas, não de minhas omissões.


Até. 

segunda-feira, abril 20, 2026

Hoje Não é Vinte de Julho

Tenho pensado nos meus amigos.

 

Não que alguma vez eu tenha deixado de pensar neles, assim, de uma forma geral, e em como participam da vida em maior ou menor intensidade e ou frequência. Como todos, tenho amigos com quem convivo mais e outros (não menos importantes) com quem convivo menos.

 

E tenho pensado em ambas as situações de amizades, tanto os novos quanto os antigos, com quem tenho uma longa estrada em comum. Um fato que ainda me impressiona é que não imaginava que ainda seria possível fazer novos amigos na fase atual de vida em que estou, não haveria mais disposição e energia mental para criar vínculos fortes e verdadeiros depois da adolescência.

 

Me enganei.

 

Tem acontecido, com a música como fator catalisador disso, o que confirma ainda mais o acerto que tive ao me (re) aproximar da música nos últimos anos. Novas e fortes conexões foram criadas, e outras continuam sendo reafirmadas. 

 

Quanto às conexões que persistiram ao longo dos anos, e chegaram até aqui, sabem que são especiais e que as valorizo. Preciso, quero, e vou fazer movimentos para encontros, conversas, momentos juntos e novas histórias.

 

Até.

 

domingo, abril 19, 2026

A Sopa

Sem querer, eu desci para o play. 

Existe um dito popular que diz que “se não sabe brincar, não desce pro play”. Significa que se não estás preparado para ser contradito, nem começa uma discussão, ou se não queres ser vítima de brincadeiras, então é melhor não fazer.

 

Pois bem.

 

Antes, contudo, e para contextualizar o assunto, quero falar da minha relação com o mundo digital e redes sociais, em especial. Sou da geração que cresceu em um mundo analógico e viu o mundo se transformar em digital, para o bem e para o mal. Aprendemos a usar as tecnologias enquanto surgiam, basicamente fomos cobaias delas. 

 

Escrevi cartas que enviei pelo correios, datilografei crônicas em uma máquina de escrever, viajei com máquina fotográfica e voltei como rolos de filme a serem revelados. Usávamos orelhão para ligações quando não estávamos em casa. Era impossível para os nossos pais saberem por onde andávamos quando saímos de casa. Agora temos mensagens instantâneas, aplicativos de geolocalização, acesso à música de forma muito mais fácil, as redes sociais, que nos conectam e permitem que acompanhemos a vida de nossos amigos facilidade. 

 

A tecnologia melhorou muito a vida, e o mundo está muito melhor que no passado, por mais que as pessoas possam pensar o contrário. Problemas sempre existirão, evidentemente, mas não é essa a discussão agora.

 

Todos temos nossa própria forma de encarar e lidar com as redes sociais. Eu, por exemplo, uso muito como um mural de memórias. Um grande álbum de coisas que vivi, pessoas com quem dividi momentos. Nunca, de forma alguma, faço manifestações políticas ou declarações de princípios. É meu jeito, pessoal, de homenagear a vida e quem está ou esteve comigo.

 

Só isso.

 

Dias atrás, postei uma foto de quando eu estava no último no último ano da Faculdade de Medicina, o ano da formatura, 1994, alguns colegas e eu, felizes, na boa. Como legenda, escrevi “Doutorandos: alunos do 6º ano de Medicina, 1994”. Só isso, publicado no meu Instagram pessoal, que publica automaticamente também no Threads, o ‘Twitter’ do Instagram, digamos assim. Doutorando, forma de chamar os alunos de sexto ano de medicina, quase médicos, desde sempre. Uma homenagem aos meus colegas, um lembrança do meu passado.

 

Uns dois dias depois, por acaso, descobri que havia uma ‘polêmica’ por causa do uso do termo doutorando na legenda. Muitos comentários, a maioria negativa, nos chamando até de mediciners, um termo que nunca tinha ouvido falar. Muito rancor, muito desconhecimento, muita mágoa e despeito. Tempo desperdiçado destilando raiva e desprezo.

 

Tudo por uma foto de trinta e dois anos atrás.

 

Claro que eu não respondi a nenhuma potencial ofensa, porque desconhecimento e rancor não me ofendem, e diz muito mais de quem está “atacando” do que de mim.


Estou no play, e essa "brincadeira" é nos meus termos...

 

Até.

sábado, abril 18, 2026

Sábado (e um dia de trabalho)

Trabalhando...


Uma manhã de quarta-feira qualquer de trabalho.
Gestando uma ideia, um projeto.

Bom sábado a todos.

Até.

quarta-feira, abril 15, 2026

E o Passado?

Houve, em algum momento - como sempre há de ser - inesperada, súbita, quase como um susto, uma epifania, a compreensão repentina de algo que estava à vista, na cara, e não havia notado. Do nada, aparentemente, notei essa verdade.

 

Eu havia mudado.

 

Eu estava diferente, mesmo que quem eu visse no espelho fosse a mesma pessoa de semanas, quem sabe meses, atrás. Estava me vendo, e vendo o mundo sob outra ótica, com um perspectiva diferente. 

 

Talvez as pessoas tenham notado antes de mim, não sei ao certo, mas claramente eu não era a mesma pessoa ali, me olhando no espelho. E aqui não há nenhum julgamento moral: não quero dizer que quem eu via era melhor do que a versão anterior ou não, não é o caso, apesar de entender que – sim – a essa nova versão é melhor que a anterior. Como a próxima será melhor que a atual, pois é da vida. Older than I once was, younger than I’ll be...

 

Ao notar esse que já não era tão estranho assim no espelho, sabia que próximo passo era partir para a ação, resultado natural do incômodo causado por uma roupa que já não nos serve mais...

 

E assim foi. Está sendo.

 

Até. 

segunda-feira, abril 13, 2026

O Luto Nosso de Cada Dia

Eu não desço mais escada com as mãos nos bolsos.

Nunca foi algo prudente de se fazer, eu sei. Da mesma forma, procuro sempre que possível – ao descer ou ao subir – fazer uso do corrimão. Experiência, podemos dizer. Também, em ocorrência aparentemente sem relação, parei de jogar futebol.

 

Tudo isso faz parte dos lutos diários que vivemos à medida que o tempo passa. Acontece com todos. De uma forma ou outra, vamos vivendo limitações que a vida nos impõe conforme a ela avança. Nossa missão é aceitar e nos adaptar a elas. Quanto mais rápido aceitarmos essas limitações, melhor será. Ao menos o sofrimento será menor.

 

É o que chamo de lutos diários.

 

Conversava sobre isso ontem com o meu o sogro, Alfredo, do alto dos seus 87 anos, que me falava sobre isso, de algumas atividades que ainda pensava em fazer, mas que sentia que era cada vez mais difícil. Disse que entendia, e que era nossa ‘missão’ aceitar e nos adaptar a elas. Em menor proporção, claro, pela nossa diferença de idade, disse que também vivia isso. 

 

Foi quando me veio essa ideia, que não é nova e nem inédita, de que vamos vivendo diferentes lutos todos os dias, que estamos sempre nos despedindo de algo ou alguém, pessoas, bens materiais, relacionamentos, e que viver é estar sempre reajustando a vida após uma perda.

 

E que o belo da vida é que sempre há algo novo a ser vivido.

 

Até.

domingo, abril 12, 2026

A Sopa

O sábado, ontem, foi como os sábados deveriam ser, pelo menos para mim. Sei que cada um tem seu próprio ideal de final semana, sua própria versão de como as coisas deveriam ser, e que existe o final de semana possível, pois nem sempre (quase nunca?) será como gostaríamos. Trabalho e outros tipos de compromisso comumente se impõem sobre nosso desejo, e seguimos.

 

Uma das escolhas que fiz para mim foi que os finais de semana seriam meus, sempre. Salvo exceções – que sempre podem acontecer – sábados e domingos seriam dias em que não teria compromissos que não fossem de caráter pessoal. Família, amigos, tempo para mim. 

 

E assim tem sido.

 

Como todas as escolhas que se faz na vida, há ganhos e perdas, ônus e bônus, obviamente. Perco dinheiro por não trabalhar mais (como médico) aos finais de semana, e estou confortável com essa ideia. 

 

Falando de ontem, a manhã começou com atividade física, bicicleta pelo tempo estar bom. Trinta quilômetros pedalados, e ainda sentindo que estou retomando o ritmo desde que voltei a pedalar depois do braço quebrado e cirurgia (há mais de dois anos). Depois, supermercado para a semana e volta para casa para fazer o almoço. À tarde, depois de um bom tempo, dormi após o almoço enquanto a Jacque foi dar uma aula em um evento médico.

 

Ao anoitecer, fomos – Marina, Jacque e eu – caminhando até o Parque da Redenção para um Festival de Vinhos que ocorria, mas que, ao chegarmos, já não tinha mais taças e acabamos só passeando e voltando para casa.

 

Foi tranquilo, e bom.

 

Até. 

quinta-feira, abril 09, 2026

Comfort Zone Songs

De tudo o que eu ouvi até hoje, em termos de música, desde que me reconheço como alguém que realmente gosta de música, daquilo que eu ouvia em casa na infância, o que amigos me indicaram, o que descobri por conta própria, de tudo o que passou por mim até hoje, é natural que tenha algumas preferências. Da mesma forma que determinados sons (bandas, músicas) não me causam interesse ou, em um extremo, até me desagradem.

 

Não quero falar de nenhum desses. Ao menos não agora.

 

Venho há dias com uma música, parte de um álbum, tocando em minha mente quase que o tempo todo, e obviamente está relacionada à viagem que fizemos na segunda quinzena de março, para os Estados Unidos, terminando em Nova York. Não é nova, evidentemente, e há anos está presente em meu imaginário, surgindo e ressurgindo de tempos em tempos, em diferentes situações.

 

Posso dizer que o disco em questão é um dos três ou quatro de que eu mais gosto na vida. Estou em uma fase desse tipo de afirmações definitivas, peremptórias. Mesmo que ainda aberto a aprender e (realmente) aprendendo todos os dias, existem – sim – algumas determinações definitivas.

 

‘The Concert in Central Park’, da dupla Simon and Garfunkel, com o registro do show beneficente realizado em setembro de 1981, em Nova York, e lançado em 1982, em que estiveram presentes mais de quinhentos mil pessoas, é esse disco. Escuto esse disco desde o final dos anos 80, quando pegava ele emprestado na discoteca do Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano, onde fazia aulas de inglês.

 

Pensando bem sobre o assunto, posso dizer que esse disco se enquadra em uma categoria de músicas que estou criando e chamando de a ‘trilha sonora da minha zona de conforto’, ou músicas que me proporcionam paz, que me deixam feliz. Aliás, essa é uma categoria que existe no Spotify, aprendi, mas acho essa uma definição mais pessoal. Entram – pensei agora – nas ‘músicas de sábado de manhã’, um categoria (minha) já antiga.

 

Não importa.

 

Esse é um dos meus discos favoritos da vida.

 

E você, qual a(s) músicas da sua vida? Me conta.


Até. 

terça-feira, abril 07, 2026

Cruzei a Linha

Já passei, eu sei.

 

Por mais otimista que eu possa, ou pudesse, ser, em virtualmente todas as formas de olhar para vida eu sei que já percorri mais da metade do tempo que tenho. Não vou viver mais cinquenta e quatro anos. Até poderia, como uma exceção à expectativa que se tem hoje, mas estou tranquilo que não vou.

 

Pensando sob esse prisma, de que já percorri (bem?) mais da metade de minha trajetória de existência, e que sinceramente não sei se há algo após a morte, tenho noção de que já tenho muitas histórias vividas e, portanto, para contar. 

 

Abre parênteses.

 

Sempre que alguém, por uma alguma razão qualquer, queixa-se de que “é ruim ficar velho”, eu respondo que quero ficar velho, afinal até hoje ninguém me convenceu que a outra opção é melhor, ninguém voltou para contar...

 

Fecha parênteses.

 

Dizia eu, então, que já vivi mais da metade da vida e que vivi e tenho histórias para contar. E é aí que entra uma questão com a qual tenho me deparado. Existe a tentação de ficar lembrando histórias vividas, revendo caminhos percorridos, lembrando como me tornei quem sou, sendo nostálgico. E o risco associado de parar de viver, de criar novas histórias, de ficar em uma rotina mecânica, sentado no trono de um apartamento esperando a morte chegar...

 

No fundo (ou nem tão no fundo assim), não existe esse risco, por mais que eu goste MUITO de relembrar histórias, rever pessoas que tiveram significado em minha vida. Continuo vivendo e criando histórias. Criando conexões e, como eu costumo dizer, aumentando minha bolha, tornando maior minha zona de conforto.


E não mexam com minha zona de conforto, por favor. 

 

Até.