Tenho pensado na fragilidade da vida.
O ano de agosto de mil novecentos e noventa ficou marcado, em minha história pessoal, por um acidente automobilístico que me deixou em coma em uma UTI por doze dias seguidos por mais dias internado antes de voltar para casa. Estava no segundo ano da faculdade de medicina e já circulava pelo mesmo hospital em que fiquei internado e onde até hoje trabalho.
Eu tinha dezoito anos.
Após a recuperação física, o que realmente pegou foi o momento em que me dei conta que estive muito próximo da morte, e que minha vida teria acabado ali, assim, estupidamente, porque pegamos no sono, o motorista e eu, e o carro em que estávamos voltando para casa após uma noite de festa bateu (batemos) em um outro que estava estacionado, bem do meu lado, e bati a cabeça e acabei ‘dormindo’ por doze dias, como falei. O fato de ainda não ter feito muito do que eu imaginava na vida e a possibilidade de ter tudo acabado realmente me perturbou.
Foi um período confuso, para mim, e fui auxiliado na terapia, que me fez pensar ainda mais em tudo, um ainda ‘guri’ de dezoito, dezenove anos que lia Sartre, e olhar a vida sob uma perspectiva diferente. Nem sempre consegui, mas a ideia de que ‘o que são pequenos problemas do cotidiano frente ao grande plano da existência?’ esteve presente em momentos da vida. Como eu disse, nem sempre consegui ter essa visão de perspectiva, mas sigo tentando até hoje ter isso em mente.
Porque tudo pode mudar em uma fração de segundos. O que estava bem e parecia certo e imutável não é mais no momento seguinte. E temos que lidar com isso o tempo todo. Muito da ansiedade tem a ver com isso, a antecipação do desastre que não aconteceu (e, na maioria das vezes, não acontecerá).
Viver o agora, aproveitar o hoje. Encarar um dia após o outro.
Não vos inquieteis, pois, com o dia de amanhã. O amanhã cuidará de si mesmo. Basta, a cada dia, o seu mal.
(Uma citação bíblica para terminar).
Até.



