É impressionante que, um apartamento pequeno, de um quarto, tenha tantos relógio espalhados. Só na cozinha, são dois. Ontem fiz o teste: todos marcam horas diferentes. Nem estão nem perto de estarem sincronizados. Lembrei do dito que diz que quem tem um relógio sabe a hora certa. Quem tem dois, não.
Se nunca sei a hora exata, por outro lado tenho essa lembrança constante de que tudo é relativo. E que nada é permanente. Conceito zen, esse, o da impermanência das coisas, das pessoas. Não estamos aqui para sempre, por mais que tentemos esquecer o fato ou não pensar nele, ao menos. Mas volta e meia ele nos bate de frente.
Por contigência profissional, nós, médicos, nos defrontamos mais frequentemente com essa constatação: a morte é inevitável. E aquilo que aos outros pode parecer insensibilidade, muitas vezes é apenas uma forma de defesa com relação a essa sensação de impotência que muitas vezes se abate sobre nós, que temos por “obrigação” salvar vidas. Ao menos é o que a maioria pensa, que somos obrigados, a todo o custo, manter as pessoas vivas, independente do que for. Não é bem assim.
Claro, muitos colegas colaboram para essa impressão geral de que nos sentimos deuses, onipontentes. Mas a maioria tem plena noção de sua limitação, a de que nem sempre o paciente vai sobreviver. Que às vezes é hora de parar e deixar a natureza (Deus, para os mais religiosos) seguir seu curso.
Diz um adágio conhecido que nossa missão é “Curar algumas vezes, aliviar na maior parte das vezes, confortar sempre”. Às vezes, temos que saber que o caminho mais digno para a pessoa é a morte. Muitas vezes já vi darem alta ao paciente para ele ir para casa ficar com seus familiares nos seus últimos momentos de vida, ao invés de ficar num hospital sozinho, até o fim.
Triste, eu sei, mas não podemos fugir disso.
#
Ocorreu o que todos sabíamos que mais cedo ou mais tarde ia acontecer. Ela já estava bem doente e, “fora do ar”, mal reconhecia as pessoas. Mesmo assim, sempre é uma coisa que entristece a todos. Nunca nos agrada receber uma notícia dessas. Minha tia, irmã do meu pai, morreu ontem. Por isso ontem preferi ficar em silêncio e não dizer nada sobre nada.
#
Aos leitores que possuem blogs aos quais eu visito, peço desculpas por – ao ler um texto ou comentário relacionado à medicina – eu não me contenha e comente, às vezes de forma longa e prolixa. Peço desculpas mas afirmo que vou continuar fazendo, pois hoje me dei conta que essa pode ser outra das funções de um blog (ou, no meu caso, de um médico que tem um blog): esclarecer sobre assuntos relacionado a área. Informar, até porque – em casos polêmicos, como o da norte-americana Terry Schiavo – muitas vezes as notícias que chegam pela imprensa são inexatas.
#
Minha dívida aumenta: além de um texto sobre como vejo o Canadá, já que não sou imigrante, e um sobre o High Park, a região onde moro. Eles virão, tenham paciência.
#
Eu nunca me lembro de conferir no supermercado. Alguém sabe me dizer se aqui em Toronto encontramos ervilhas secas?
Crônicas e depoimentos sobre a vida em geral. Antes o exílio; depois, a espera. Agora, o encantamento. A vida, afinal de contas, não é muito mais do que estórias para contar.
quinta-feira, março 31, 2005
quarta-feira, março 30, 2005
Nada a dizer
A Sopa se recolhe em silêncio respeitoso e retorna amanhã.
“Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida)”
“Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida)”
terça-feira, março 29, 2005
Não sou amigo o suficiente
Vou parecer antipático hoje.
Há muito anos amigos, existe entre nós, Márcio, Radica e eu, assim como acontece com qualquer grupo de amigos de muito tempo, algumas expressões, piadas e bricandeiras que são características nossas. Não exclusivas nem únicas, apenas típicas do nosso convívio. Normalmente são bem infantis, pois é justamente com os amigos que podemos ser muito infantis.
Como lá se vão vinte anos que convivemos, é natural que tenhamos muitas dessas expressões e brincadeiras e piadas. Algumas tornaram-se obsoletas e perderam a graça, outras continuam vivas e fortes. Uma delas tem relação com título deste texto, e é usada como forma de chantagem emocional ou apenas para incomodarmos um ao outro. Por exemplo, foi esta pergunta, “Será que és amigo o suficiente?” que usei como forma de chantagem para convencer o Márcio que a banda podia tocar sábado, dia que eu chego em Porto Alegre, sem ensaios, apenas com a passagem de som. E foi a mesma frase que ele usou para referir-se ao Radica (que mora hoje em dia em São Paulo) e a mim (que estou temporariamente aqui em Toronto), que não ficamos em Porto Alegre, onde mora. “Não fomos amigos o suficiente”.
Pois bem, de um forma geral, acho que não sou amigo o suficiente.
Por quê?
Porque eu não gosto e não respondo àqueles emails que mandam com um arquivo do Powerpoint com uma apresentação que pode ter música (e em geral tem) fotos de paisagens e uma mensagem que varia do ‘tenha um bom dia’ ao ‘já abraçou sua família hoje?’, passando por frases retiradas de livrinho de auto-ajuda atribuídas ao Dalai Lama. E que invarialvemente terminam com a mensagem “mande essa mensagem a todos os seus amigos, se você recebeu é porque alguém acha você especial”.
Pois bem, eu não me sinto especial por receber uma mensagem que alguém mandou para todo o seu catálogo de endereços, por melhor que tenha sido sua intenção. Nem o meu dia se ilumina quando recebo um email com fotos de criança e flores.
Aliás, na maioria da vezes, eu nem abro os anexos, deleto-os direto. Se alguém espera alguma resposta minha, ou que reencaminhe esse tipo de email, pode desistir, dificilmente vou fazer isso. Não digo que nunca vá fazer, até pode acontecer um dia, mas é muito difícil. Por quê?
Simplesmente porque sou extremamente pessoal. Ou seja, quando eu quero dizer o que sinto ou desejo ou penso de ou para alguém, eu faço isso ao vivo, cara a cara. Claro que às vezes, como agora, em que a geografia não favorece e, estando em hemisfério diferente, acabo utilizando o email (pessoal, para quem recebe) ou até o telefone.
Se, ao contrário de uma mensagem impessoal que mais cem pessoas vão receber também, mandasse apenas um email dizendo “Marcelo, tudo bem? Como estão as coisas? Por aqui…”, talvez aí realmente faria eu me sentir especial. E acho que não sou o único.
(essa mensagem não é endereçada a ninguém, pode ser considerada uma declaração de princípios)
Há muito anos amigos, existe entre nós, Márcio, Radica e eu, assim como acontece com qualquer grupo de amigos de muito tempo, algumas expressões, piadas e bricandeiras que são características nossas. Não exclusivas nem únicas, apenas típicas do nosso convívio. Normalmente são bem infantis, pois é justamente com os amigos que podemos ser muito infantis.
Como lá se vão vinte anos que convivemos, é natural que tenhamos muitas dessas expressões e brincadeiras e piadas. Algumas tornaram-se obsoletas e perderam a graça, outras continuam vivas e fortes. Uma delas tem relação com título deste texto, e é usada como forma de chantagem emocional ou apenas para incomodarmos um ao outro. Por exemplo, foi esta pergunta, “Será que és amigo o suficiente?” que usei como forma de chantagem para convencer o Márcio que a banda podia tocar sábado, dia que eu chego em Porto Alegre, sem ensaios, apenas com a passagem de som. E foi a mesma frase que ele usou para referir-se ao Radica (que mora hoje em dia em São Paulo) e a mim (que estou temporariamente aqui em Toronto), que não ficamos em Porto Alegre, onde mora. “Não fomos amigos o suficiente”.
Pois bem, de um forma geral, acho que não sou amigo o suficiente.
Por quê?
Porque eu não gosto e não respondo àqueles emails que mandam com um arquivo do Powerpoint com uma apresentação que pode ter música (e em geral tem) fotos de paisagens e uma mensagem que varia do ‘tenha um bom dia’ ao ‘já abraçou sua família hoje?’, passando por frases retiradas de livrinho de auto-ajuda atribuídas ao Dalai Lama. E que invarialvemente terminam com a mensagem “mande essa mensagem a todos os seus amigos, se você recebeu é porque alguém acha você especial”.
Pois bem, eu não me sinto especial por receber uma mensagem que alguém mandou para todo o seu catálogo de endereços, por melhor que tenha sido sua intenção. Nem o meu dia se ilumina quando recebo um email com fotos de criança e flores.
Aliás, na maioria da vezes, eu nem abro os anexos, deleto-os direto. Se alguém espera alguma resposta minha, ou que reencaminhe esse tipo de email, pode desistir, dificilmente vou fazer isso. Não digo que nunca vá fazer, até pode acontecer um dia, mas é muito difícil. Por quê?
Simplesmente porque sou extremamente pessoal. Ou seja, quando eu quero dizer o que sinto ou desejo ou penso de ou para alguém, eu faço isso ao vivo, cara a cara. Claro que às vezes, como agora, em que a geografia não favorece e, estando em hemisfério diferente, acabo utilizando o email (pessoal, para quem recebe) ou até o telefone.
Se, ao contrário de uma mensagem impessoal que mais cem pessoas vão receber também, mandasse apenas um email dizendo “Marcelo, tudo bem? Como estão as coisas? Por aqui…”, talvez aí realmente faria eu me sentir especial. E acho que não sou o único.
(essa mensagem não é endereçada a ninguém, pode ser considerada uma declaração de princípios)
segunda-feira, março 28, 2005
Sopa de Ervilhas Anual do Marcelo
(ou The First Canadian Marcelo's Annual Pea Soup)
Confirmada a data:
07 de maio de 2005
Toronto, ON, Canada
Todos convidados.
Confirmada a data:
07 de maio de 2005
Toronto, ON, Canada
Todos convidados.
domingo, março 27, 2005
A Sopa 04/36
Justiça?
Imagine comigo, caro leitor.
Suponha que você está doente e os médicos dizem que a única saída seja um transplante. De coração. Ou pulmão, não importa. O fundamental, neste momento, é saber que você está doente e precisa de um transplante para sobreviver. Tudo começa aí, com você entrando para a ‘lista de espera’ de doadores.
Como funciona essa ‘lista de espera’?
Existe uma Central de Tranplantes em cada estado (se não me engano, no Rio Grande do Sul tem). Após a constatação da necessidade do transplante e da avaliação do seu estado clínico, você entra na lista de espera. Que é organizada basicamente por tipo de transplante, gravidade do doente, e ordem de chegada.
Outra característica da lista é que ela é democrática. Todos são iguais. Não existe a possibilidade de alguém “comprar” um rim ou um coração para transplantes. Quando surge um doador, ele é avaliado como potencial doador e procura-se na lista o primeiro na ordem e que é compatível com as características do doador. Uma decisão técnica, enfim.
Voltemos a falar do seu caso, que está na lista esperando por um transplante. Imagine agora que você é um dos próximos a ser chamado, depois de – sei lá – dois anos aguardando ansiosamente, e que surge um doador compatível com você. Felicidade, expectativa! Mas, do nada, surge um advogado e apresenta um mandado de segurança obrigando a equipe médica a fazer o transplante em outro paciente, que não é mais grave que você e nem estava na lista de transplantes. Como você se sentiria? Pois é, é mais ou menos isso que tem ocorrido em Porto Alegre, com casos de cirurgia da obesidade.
A cirurgia bariátrica (ou da obesidade) é uma forma de tratamento da obesidade mórbida que se mostrou efetiva, desde que feita com critério e com acompanhamento prévio e posterior à cirurgia realizado por equipe multidisciplinar. Além dos cirurgiões, a equipe deve ser composta de endocrinologista, clínicos intensivistas, nutricionistas, psiquiatras e psicólogos. E o acompanhamento deve ser a longo prazo, porque a cirurgia é de grande porte e modifica muito do organismo do operado, que pode ter sérias deficiências nutricionais se não acompanhado “de perto”. Isso sem falar nos distúrbios “emocionais” envolvidos (aliás, nesta terça-feira, 29, a minha afilhada Lúcia defende sua tese de doutorado exatamente sobre o assunto, na PUCRS em Porto Alegre).
Com tudo o que falei, vocês devem imaginar que é um tratamento caro, pois envolve uma equipe grande de profissionais e que demanda tempo de avaliação e acompanhamento, e estão certos. Contudo, esse tratamento é também feito pelo SUS, e o Hospital da PUCRS, através do COM (Centro de Obesidade Mórbida), foi o primeiro centro gaúcho a ser credenciado para fazer esta cirurgia pelo SUS. Que como vocês sabem, paga pouco e com muito atraso. Em virtude disso, a capacidade do COM é operar dois a quatro pacientes por mês através do SUS.
Isso porque os paciente só são operados após extensa avaliação feita por toda a equipe, muitas discussões sobre prós e contras em cada caso específico. Como a demanda é grande e a disponibilidade é pouca, surgiu uma lista de espera para a cirurgia. E essa espera, pelo SUS, é de cerca de dois anos (em São Paulo, até dez). É ruim, é muito tempo, mas o porquê disso é outra história.
O que tem acontecido, nos últimos tempo, é que tem surgido pacientes que não estavam na lista, não foram avaliados, mas tem um advogado que se apresenta com os mesmos com um mandado de segurança expedido por algum juiz determinando que o paciente seja internado e operado.
Fazer o quê, neste caso? Respeitar a decisão judicial, não há opção. Mas eu pergunto: e os outros pacientes? Que estão fazendo tudo pela via correta, sendo avaliados adequadamente e esperando pacientemente e esperançosos a sua cirurgia que, agora, pode ser adiada por decisão de um juiz que “ordena” que outro paciente seja posto na “frente da fila”.
Insisto, não me refiro a pacientes graves, que estão correndo risco iminente de morrerem por sua doença, porque esses – dentro de critérios de urgência – acabam sendo operados antes. Não, esses pacientes são tão doentes quanto todos os outros que esperam a cirurgia. Por que têm o privilégio de passar na frente? Por que pagam um advogado? Pagam um advogado para se operarem pelo SUS?
Não sei vocês, mas eu não consigo achar isso certo. E, levando-se em conta que a mortalidade por obesidade mórbida é de 4% ao ano, sabemos que morrerão pacientes à espera e que tiveram sua cirurgia adiada por uma ordem judicial. E aí? Como determinar que uma pessoa deve ter prioridade sobre outra se as duas são iguais?
Algum juiz vai chamar alguém da equipe médica para dar seu parecer técnico? Porque, até agora, as decisões tem se dado a partir de um lado da história. Isso é justiça?
Mais: um paciente com uma ordem de permanecer internado até que seja operado, pode ficar semanas, até meses, internado, enquanto é preparado para a cirurgia, ocupando um leito, como se estivesse num spa, enquanto as emergências estão lotadas, e pessoas morrem. Quem se responsabiliza por isso? São os médicos que tem que fazer isso, resolver os problemas estruturais do sistema de saúde? E é uma ordem judicial que vai fazê-lo?
Lembro de uma colega, há um tempo atrás, que estava de plantão numa emergência lotada, todos pacientes graves, todos sob monitorização cardíaca, e apareceu um mandado judicial exigindo que internasse um paciente que necessitava de monitorização cardíaca também. Como todos estavam ocupados, ela resolveu ligar para o juiz e pedir para que ele determinasse quem deveria morrer para que a ordem dele fosse cumprida. Não conseguiu falar, era domingo e ele estava fora de casa. Havia assinado a ordem no seu plantão e saído, enquanto ela, na linha de frente, tinha que atender a todos sem ter meios para isso. Eu também já passei por situação parecida, só para constar.
Voltando ao caso que eu contava – e sei disso em detalhes porque a Jacque trabalha no COM –, pensei que uma solução para isso, se o problema persistir ou aumentar, é suspender as cirurgias pelo SUS até que seja esclarecida a situação. Que a justiça saiba o que acontece, que ouça os dois lados da questão. Caso contrário, perdem todos.
(e você, o que acha disso? Se fosse você quem estivesse esperando pela cirurgia e alguém passasse na sua frente sem ter indicação médica para isso?)
Imagine comigo, caro leitor.
Suponha que você está doente e os médicos dizem que a única saída seja um transplante. De coração. Ou pulmão, não importa. O fundamental, neste momento, é saber que você está doente e precisa de um transplante para sobreviver. Tudo começa aí, com você entrando para a ‘lista de espera’ de doadores.
Como funciona essa ‘lista de espera’?
Existe uma Central de Tranplantes em cada estado (se não me engano, no Rio Grande do Sul tem). Após a constatação da necessidade do transplante e da avaliação do seu estado clínico, você entra na lista de espera. Que é organizada basicamente por tipo de transplante, gravidade do doente, e ordem de chegada.
Outra característica da lista é que ela é democrática. Todos são iguais. Não existe a possibilidade de alguém “comprar” um rim ou um coração para transplantes. Quando surge um doador, ele é avaliado como potencial doador e procura-se na lista o primeiro na ordem e que é compatível com as características do doador. Uma decisão técnica, enfim.
Voltemos a falar do seu caso, que está na lista esperando por um transplante. Imagine agora que você é um dos próximos a ser chamado, depois de – sei lá – dois anos aguardando ansiosamente, e que surge um doador compatível com você. Felicidade, expectativa! Mas, do nada, surge um advogado e apresenta um mandado de segurança obrigando a equipe médica a fazer o transplante em outro paciente, que não é mais grave que você e nem estava na lista de transplantes. Como você se sentiria? Pois é, é mais ou menos isso que tem ocorrido em Porto Alegre, com casos de cirurgia da obesidade.
A cirurgia bariátrica (ou da obesidade) é uma forma de tratamento da obesidade mórbida que se mostrou efetiva, desde que feita com critério e com acompanhamento prévio e posterior à cirurgia realizado por equipe multidisciplinar. Além dos cirurgiões, a equipe deve ser composta de endocrinologista, clínicos intensivistas, nutricionistas, psiquiatras e psicólogos. E o acompanhamento deve ser a longo prazo, porque a cirurgia é de grande porte e modifica muito do organismo do operado, que pode ter sérias deficiências nutricionais se não acompanhado “de perto”. Isso sem falar nos distúrbios “emocionais” envolvidos (aliás, nesta terça-feira, 29, a minha afilhada Lúcia defende sua tese de doutorado exatamente sobre o assunto, na PUCRS em Porto Alegre).
Com tudo o que falei, vocês devem imaginar que é um tratamento caro, pois envolve uma equipe grande de profissionais e que demanda tempo de avaliação e acompanhamento, e estão certos. Contudo, esse tratamento é também feito pelo SUS, e o Hospital da PUCRS, através do COM (Centro de Obesidade Mórbida), foi o primeiro centro gaúcho a ser credenciado para fazer esta cirurgia pelo SUS. Que como vocês sabem, paga pouco e com muito atraso. Em virtude disso, a capacidade do COM é operar dois a quatro pacientes por mês através do SUS.
Isso porque os paciente só são operados após extensa avaliação feita por toda a equipe, muitas discussões sobre prós e contras em cada caso específico. Como a demanda é grande e a disponibilidade é pouca, surgiu uma lista de espera para a cirurgia. E essa espera, pelo SUS, é de cerca de dois anos (em São Paulo, até dez). É ruim, é muito tempo, mas o porquê disso é outra história.
O que tem acontecido, nos últimos tempo, é que tem surgido pacientes que não estavam na lista, não foram avaliados, mas tem um advogado que se apresenta com os mesmos com um mandado de segurança expedido por algum juiz determinando que o paciente seja internado e operado.
Fazer o quê, neste caso? Respeitar a decisão judicial, não há opção. Mas eu pergunto: e os outros pacientes? Que estão fazendo tudo pela via correta, sendo avaliados adequadamente e esperando pacientemente e esperançosos a sua cirurgia que, agora, pode ser adiada por decisão de um juiz que “ordena” que outro paciente seja posto na “frente da fila”.
Insisto, não me refiro a pacientes graves, que estão correndo risco iminente de morrerem por sua doença, porque esses – dentro de critérios de urgência – acabam sendo operados antes. Não, esses pacientes são tão doentes quanto todos os outros que esperam a cirurgia. Por que têm o privilégio de passar na frente? Por que pagam um advogado? Pagam um advogado para se operarem pelo SUS?
Não sei vocês, mas eu não consigo achar isso certo. E, levando-se em conta que a mortalidade por obesidade mórbida é de 4% ao ano, sabemos que morrerão pacientes à espera e que tiveram sua cirurgia adiada por uma ordem judicial. E aí? Como determinar que uma pessoa deve ter prioridade sobre outra se as duas são iguais?
Algum juiz vai chamar alguém da equipe médica para dar seu parecer técnico? Porque, até agora, as decisões tem se dado a partir de um lado da história. Isso é justiça?
Mais: um paciente com uma ordem de permanecer internado até que seja operado, pode ficar semanas, até meses, internado, enquanto é preparado para a cirurgia, ocupando um leito, como se estivesse num spa, enquanto as emergências estão lotadas, e pessoas morrem. Quem se responsabiliza por isso? São os médicos que tem que fazer isso, resolver os problemas estruturais do sistema de saúde? E é uma ordem judicial que vai fazê-lo?
Lembro de uma colega, há um tempo atrás, que estava de plantão numa emergência lotada, todos pacientes graves, todos sob monitorização cardíaca, e apareceu um mandado judicial exigindo que internasse um paciente que necessitava de monitorização cardíaca também. Como todos estavam ocupados, ela resolveu ligar para o juiz e pedir para que ele determinasse quem deveria morrer para que a ordem dele fosse cumprida. Não conseguiu falar, era domingo e ele estava fora de casa. Havia assinado a ordem no seu plantão e saído, enquanto ela, na linha de frente, tinha que atender a todos sem ter meios para isso. Eu também já passei por situação parecida, só para constar.
Voltando ao caso que eu contava – e sei disso em detalhes porque a Jacque trabalha no COM –, pensei que uma solução para isso, se o problema persistir ou aumentar, é suspender as cirurgias pelo SUS até que seja esclarecida a situação. Que a justiça saiba o que acontece, que ouça os dois lados da questão. Caso contrário, perdem todos.
(e você, o que acha disso? Se fosse você quem estivesse esperando pela cirurgia e alguém passasse na sua frente sem ter indicação médica para isso?)
sábado, março 26, 2005
Sábado, vinte e seis de março
Porto Alegre é demais, já diz a música.
A minha mãe é demais.
Ambas estão de aniversário hoje.
(comemoraremos juntos domingo da semana que vem)
Pensei em homenagear as duas citando uma música que fale da minha cidade natal e uma que fale de mãe. Primeiro, para Porto Alegre.
Deu Pra Ti
(Kleiton Ramil e Kledir Ramil)
Deu pra ti
Baixo astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Quando eu ando assim meio down
Vou pra Porto e... bah!, tri legal
Coisas de magia, sei lá
Paralelo 30
Alô tchurma do Bonfim
As guria tão tri afim
Garopaba ou Bar João
Beladona e chimarrão
Que saudade da Redenção
Do Fogaça e do Falcão
Cobertor de orelha pro frio
E a galera no Beira Rio.
Para a Mãe (sei que não é bem adequada, mas é – ao menos – engraçada):
Coração Materno
(Vicente Celestino)
Dizia o campônio a sua amada
Minha idolatrada diga o que queres?
Por ti vou matar, vou roubar
Embora a tristezas me causes mulher
Provar quero eu que te quero
Venero os teus olhos, teu porte, teu ser
Mais diga tua ordem espero
Por ti não importa matar ou morrer
E ela disse ao compônio a brincar
Se é verdade tua louca paixão
Partes já e pra mim vá buscar
De tua mãe inteiro o coração
E a correr o campônio partiu
Como um raio na estrada sumiu
E sua amada quão ficou
A chorar na estrada tombou
Chega na choupana o campônio
Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar
Rasga-lhe o peito o demônio
Tombando a velhinha aos pés do altar
Tira do peito sagrando da velha mãezinha
O pobre coração e volta a correr proclamando
Vitória, vitória tem minha paixão
Mais em meio da estrada caiu
E na queda uma perna partiu
E a distância saltou da mão
Sobre a terra o pobre coração
Nesse instante uma voz ecoou
Magoou-se pobre filho meu
Vem buscar-me filho, aqui estou
Vem buscar-me que ainda sou teu!
FELIZ ANIVERSÁRIO PRA MAMA e BOA PÁSCOA A TODOS!!
A minha mãe é demais.
Ambas estão de aniversário hoje.
(comemoraremos juntos domingo da semana que vem)
Pensei em homenagear as duas citando uma música que fale da minha cidade natal e uma que fale de mãe. Primeiro, para Porto Alegre.
Deu Pra Ti
(Kleiton Ramil e Kledir Ramil)
Deu pra ti
Baixo astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Quando eu ando assim meio down
Vou pra Porto e... bah!, tri legal
Coisas de magia, sei lá
Paralelo 30
Alô tchurma do Bonfim
As guria tão tri afim
Garopaba ou Bar João
Beladona e chimarrão
Que saudade da Redenção
Do Fogaça e do Falcão
Cobertor de orelha pro frio
E a galera no Beira Rio.
Para a Mãe (sei que não é bem adequada, mas é – ao menos – engraçada):
Coração Materno
(Vicente Celestino)
Dizia o campônio a sua amada
Minha idolatrada diga o que queres?
Por ti vou matar, vou roubar
Embora a tristezas me causes mulher
Provar quero eu que te quero
Venero os teus olhos, teu porte, teu ser
Mais diga tua ordem espero
Por ti não importa matar ou morrer
E ela disse ao compônio a brincar
Se é verdade tua louca paixão
Partes já e pra mim vá buscar
De tua mãe inteiro o coração
E a correr o campônio partiu
Como um raio na estrada sumiu
E sua amada quão ficou
A chorar na estrada tombou
Chega na choupana o campônio
Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar
Rasga-lhe o peito o demônio
Tombando a velhinha aos pés do altar
Tira do peito sagrando da velha mãezinha
O pobre coração e volta a correr proclamando
Vitória, vitória tem minha paixão
Mais em meio da estrada caiu
E na queda uma perna partiu
E a distância saltou da mão
Sobre a terra o pobre coração
Nesse instante uma voz ecoou
Magoou-se pobre filho meu
Vem buscar-me filho, aqui estou
Vem buscar-me que ainda sou teu!
FELIZ ANIVERSÁRIO PRA MAMA e BOA PÁSCOA A TODOS!!
sexta-feira, março 25, 2005
Só Não Há Perdão para o Chato
Estava ouvindo ontem as notícias na tevê e me dei conta de um fato: os chatos não morrem. Ou pelo menos não se noticia isso.
Já repararam? Sempre que se noticia a morte de alguém, por acidente, doença ou qualquer que seja a causa, e entrevistam um familiar ou mesmo um conhecido sobre a pessoa que se foi, a descrição é sempre à mesma: era uma pessoa cheia de vida, tinha um futuro brilhante pela frente, etc.
E isso me preocupa: quem morre são sempre os bons, aqueles com as melhores chances de um futuro brilhante. Os chatos, os de vida medíocre, os pequenos, esses continuam. Esses são imunes às mortes prematuras, às vida interrompidas. Nunca se verá alguém dizendo sobre um morto: “Não, ele não tinha grandes ambições, queria apenas ser um burocrata, pagar seus impostos em dia, e não chamar muita atenção sobre si”.
Tudo porque a morte redime a todos.
Aquele que morreu, por não estar mais aqui para provar em contrário, poderia vir a ser qualquer coisa: astronauta, presidente da república, prêmio nobel da paz. E ele se torna aquilo que desejamos que ele tivesse sido.
(claro que isso acontece mais freqüentemente quando quem morre é jovem, mas não só)
Eu não.
Eu quero ser em vida alguém que, quando as pessoas lembrem de mim, digam ‘O Marcelo, como ele é cheio de vida, cheio de planos’. Que seja uma referência quando o assunto for animação, vibração capacidade de congregar, reunir. Que eu não me torne alguém assim apenas depois da vida.
Porque o que me interessa é o agora, o hoje.
Talvez esteja aí a gênese de todas as minhas invenções e eventos. A Sopa de Ervilhas Anual do Marcelo, as Quarta-feiras Filosóficas, esse blog. Sem falar nas criadas num passado um pouco mais distante. Todas formas de reunir as pessoas, de estar junto, de festejar.
Porque ser lembrado como alguém cheio de vida quando não se tem mais uma não me interessa.
Já repararam? Sempre que se noticia a morte de alguém, por acidente, doença ou qualquer que seja a causa, e entrevistam um familiar ou mesmo um conhecido sobre a pessoa que se foi, a descrição é sempre à mesma: era uma pessoa cheia de vida, tinha um futuro brilhante pela frente, etc.
E isso me preocupa: quem morre são sempre os bons, aqueles com as melhores chances de um futuro brilhante. Os chatos, os de vida medíocre, os pequenos, esses continuam. Esses são imunes às mortes prematuras, às vida interrompidas. Nunca se verá alguém dizendo sobre um morto: “Não, ele não tinha grandes ambições, queria apenas ser um burocrata, pagar seus impostos em dia, e não chamar muita atenção sobre si”.
Tudo porque a morte redime a todos.
Aquele que morreu, por não estar mais aqui para provar em contrário, poderia vir a ser qualquer coisa: astronauta, presidente da república, prêmio nobel da paz. E ele se torna aquilo que desejamos que ele tivesse sido.
(claro que isso acontece mais freqüentemente quando quem morre é jovem, mas não só)
Eu não.
Eu quero ser em vida alguém que, quando as pessoas lembrem de mim, digam ‘O Marcelo, como ele é cheio de vida, cheio de planos’. Que seja uma referência quando o assunto for animação, vibração capacidade de congregar, reunir. Que eu não me torne alguém assim apenas depois da vida.
Porque o que me interessa é o agora, o hoje.
Talvez esteja aí a gênese de todas as minhas invenções e eventos. A Sopa de Ervilhas Anual do Marcelo, as Quarta-feiras Filosóficas, esse blog. Sem falar nas criadas num passado um pouco mais distante. Todas formas de reunir as pessoas, de estar junto, de festejar.
Porque ser lembrado como alguém cheio de vida quando não se tem mais uma não me interessa.
Assinar:
Postagens (Atom)