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domingo, agosto 02, 2026

A Sopa

Assim como os astecas e os maias, ou uma forma de se perceber a mudança do mundo em um sábado à noite. Do sofá de casa, em família.

 

Por um rara conjunção de astros, estávamos, a Marina, a Jacque e eu em casa em uma noite de sábado. Sem programas, sem festas, sem compromissos. Apenas jantamos e então paramos em frente à televisão. 

 

Depois de muito tempo, decidimos “zapear” pelos canais da tevê a cabo ao invés de buscar algo no streaming. Olhando sem muito interesse em nada do que estava passando, acabamos nos deparando com uma maratona de filmes do Harry Potter. Paramos para assistir.

 

Temos história com os filmes e livros do Harry Potter. Apresentamos à Marina quando ela tinha sete anos de idade, nós com receio de que – pela idade – se assustasse (o primeiro que vimos foi o segundo filme, “Harry Potter e a Câmara Secreta”). Nem um pouco. Aliás, virou, à época, meio que uma obsessão. Assistimos juntos a todos os filmes diversas vezes, virou um lance nosso. Temos em casa todos os DVDs e todos os livros, e de tempos em tempos. Teve até um aniversário temático, além de algumas idas aos parques da Universal em Orlando (e até Los Angeles, em março passado).

 

Com o tempo, claro, isso ficou para trás.

 

Quando, ao assistir televisão em um sábado à noite, nos deparamos com uma maratona de filmes do Harry Potter, decidimos assistir. Já estava no sexto filme, já mais da metade, e ainda faltariam dois filmes na sequência. Cogitamos a possibilidade de ir até o fim, mas algo aconteceu.

 

Os comerciais.

 

O filme era interrompido de tempos em tempos por intervalos comerciais, que eram sempre os mesmos, panelas ‘Red alguma coisa’, entre outros (Red Silver, pesquisamos). Malditas panelas que cortavam o filme. Malditos comerciais.

 

Lembrei então de como era a vida quando não havia outra opção além da televisão aberta e os poucos canais disponíveis, o dois, o quatro, o cinco, o dez e o doze. Dirão os saudosistas que era outros tempos, melhores, e associarão isso a doces memórias de tempos vividos.

 

Não eram.

 

A vida, o mundo, são muito melhores agora.

 

Até.

domingo, julho 26, 2026

A Sopa

Assim, aparentemente do nada, houve dois momentos nos últimos dias em que o tema de conversas em que participei esteve relacionado à aposentadoria e a vida após. É possível que pensem que isso tem relação com a minha idade e a faixa etária das pessoas com as quais convivo. 

 

Sim e não.

 

É uma discussão um pouco mais ampla, na verdade. Tenho amigos que já se aposentaram e outros que estão se aproximando disso, mas não é essa a razão do assunto ser esse. A primeira foi a partir de um caso de um paciente de um colega que tinha um emprego bom e estável, bem remunerado, e se programou financeiramente para ‘aproveitar a vida’ quando da aposentadoria.

 

Tudo certo, exceto pelo fato que adoeceu, e ficou cego antes disso...

 

A segunda conversa foi mais próxima, com um amigo de mais de quarenta anos, e discutimos isso, o problema de quem ‘espera’ para viver, ou aproveitar – independente do que isso signifique para cada um, entre desejos e possibilidades - a vida. Em resumo, o que – ou como – vivemos nossas vidas.

 

Tenho por objetivo próprio, pessoal, ser e fazer exatamente isso: não esperar um possível futuro, que não existe, e viver intensamente dentro das minhas verdades, do que considere o importante e o melhor para mim. Experiências muito mais do que bens materiais. É um processo, um caminho, esse que percorro.

 

Tento me desapegar para apenas ser.


Até. 

domingo, julho 19, 2026

A Sopa

Não costumo falar de futebol.

 

Principalmente porque – como costumo dizer - não gosto de futebol, eu torço para o Inter, o que são coisas diferentes. O que significa que não costumo parar para olhar jogos de futebol em geral, e até os do Inter não tenho assistido muito (assisto enquanto está bem, se não está não vejo).

 

Desenvolvi um atitude de não sofrimento com relação ao tema. Se meu time ganha, ótimo, consumo conteúdos relacionados (jornal, rádio, You Tube, etc). Se não está bem, apenas não estou nem aí. Ou entro em negação, se preferirem. O resultado é que não sofro, como acontecia no passado, quando eu era mais novo e mais ingênuo.

 

Passei a valorizar, também, a jornada. Se meu time faz bons jogos, mas – no final – não é campeão, puxa, que merda, queria ser campeão, mas me diverti enquanto estava legal de assistir. Tem um quê de racionalidade nisso, por isso me intitulei há alguns anos como ‘O Pior Torcedor”.

 

Em Copas do Mundo, por outro lado, estou bem mais sujeito a assistir a jogos nos quais não tenho interesse direto, curtir o ‘espetáculo’. O fato de, ao longo do tempo, a seleção brasileira ter se desconectado com o torcedor, não impede que eu a assista e até torça, mas outros jogos também são (até mais) legais de assistir.

 

Chegamos ao final da Copa do Mundo, jogarão Argentina e Espanha, e todos estão se posicionando quanto a quem torcer e – mais importante – quem secar. E é aí que é interessante observar de fora isso tudo, e pensar a respeito. A pender para o lado da rivalidade com nossos vizinhos ou pesaria mais a proximidade, principalmente aqui no Sul do Mundo?

 

Eu não sei.

 

Tenho argumentos para as duas posições, e são esportivos e humanos. Não querer que mais um adversário seja quatro vezes campeão do mundo, o que seria mais uma seleção perto do ‘penta’, valorizar o bom futebol jogado pela Espanha, ou ainda focar no Messi, um dos maiores da história? Bons argumentos, bons argumentos para ambos os lado. O que não existe – para mim, para mim – é essa coisa de não gostar da Argentina por ser Argentina. Não sou eu, não sou assim.

 

Aliás, eu curto a Argentina. Gostei muito e fui bem recebido em todas as vezes que estive lá. Mesmo em Buenos Aires, mesmo com os portenhos. Apenas boas lembranças. A proximidade geográfica, o clima parecido, somos todos gauchos.

 

Pensei que essa rivalidade fosse algo criado ao longo do tempo pela imprensa do centro do país, mas estava errado. Vem bem de antes, antes ainda do futebol. 

 

Começou com os colonizadores, Portugal e Espanha, e a disputa pela região do Rio da Prata. A Colônia de Sacramento, enclave português em frente à Buenos Aires, levou – depois de Brasil e Argentina tornarem-se independentes - à Guerra da Cisplatina, cujo resultado foi que nenhum dos dois ficou com ela, com a criação do Uruguai.

 

No período da ditaduras de Brasil e Argentina, houve algo como uma “Guerra Fria”, com os dois países paranoicos com uma possível invasão militar um do outro. Com o tempo, e o surgimento do Mercosul, essa rivalidade migrou para o futebol, e dura – de certa forma – ainda hoje. Estilos diferentes, modos de ver o jogo.

 

Aqui no Sul do Mundo, somos mais próximos e parecidos com os argentinos (geográfica e animicamente) do que com o resto do Brasil. Aqui faz frio, e até neva.

 

Quanto ao jogo de hoje, eu não sei para quem vou torcer.

 

E você?

 

Até. 

domingo, julho 12, 2026

A Sopa

Sou das manhãs dessa cidade, na meia estação... cantou Nei Lisboa em ‘Pronta-Entrega’, do álbum Cena Beatnik, lançado no ano de 2000. Fala de Porto Alegre, da Redenção e do pôr-do-sol. Também em maré vermelha a festejar, que pode ser o Inter ou a esquerda, mas não vem ao caso. O tema central aqui – para mim, para mim - são as manhãs. 

 

Sou das manhãs.

 

Desde os meus dezoitos anos, ao menos, independente da hora que vou dormir, sempre acordo e me levanto cedo. Sem sofrimento. Ao contrário, com prazer. Eu realmente gosto de acordar cedo, de aproveitar a manhã. Se for sábado, e tiver sol, então, vocês já devem saber: é o melhor momento da semana.

 

Esses dias – mentira, hoje – acordei um pouco mais tarde do que o meu horário habitual de domingo, no inverno, algo como oito e meia da manhã. Tomei café da manhã como sempre faço, afinal sou um homem de hábitos, e quando me dei conta – ao me sentar para escrever essa Sopa – a manhã já se aproximava do final. Por uma hora a mais de sono, a sensação de uma manhã perdida...

 

O som que toca enquanto escrevo e tomamos chimarrão, a Jacque e eu, tentando evitar que D’Artagnan, nosso gato, consiga derrubar a cuia e derramar a erva pensando que é brinquedo, é um vinil do Neil Young, Comes a Time, e sei que não é, ou foi, uma manhã perdida. Uma manhã de domingo lenta antes da correria e trabalho que começa pouco depois do meio-dia e vai até tarde, porque seremos os últimos a subir no palco, por volta das 23h, no GREZZ, para tocar Beatles encerrando mais um show de temporada da School of Rock Benjamin.


E amanhã, 13/07, Dia do Rock, acordo cedo, médico.

 

Como sempre.


Até. 

segunda-feira, julho 06, 2026

A Sopa

Julho de 2012.

 

Estou no Aeroporto de Carrasco, em Montevideo, aguardando o voo da GOL que me levaria direto para Porto Alegre após o Congresso da ALAT, Associação Latino-Americana de Tórax. Naqueles dias, a PLUNA, companhia aérea uruguaia havia decretado falência (ou algo assim) e muitos colegas que tinha ido para o congresso por essa companhia estavam tendo dificuldades em coordenar sua volta. Eu, não, afinal estava – como falei - voando GOL. 

 

Após realizar o checkin, estava aguardando o momento de embarcar quando vi, comprando um lanche, eu acho, em sua cadeira de rodas, músico Herbert Viana, guitarrista e vocalista dos Paralamas do Sucesso, uma das bandas que escreveu a trilha sonora de minha vida. Ali, muito próximo de onde eu estava. Lembrei que havia lido que eles haviam feito um show em Punta del Este, e certamente esse era o momento da volta.

 

Queria dar um alô, quem sabe tirar uma foto, mas – confesso – fiquei constrangido em parecer muito fã (o que eu realmente era). Então cheguei ao lado, e perguntei para ele, como se fosse um velho conhecido, “Como foi o show em Punta?”, no que ele respondeu que havia sido bom, e acabou ali a conversa. Saí frustrado comigo mesmo, pelo que eu considerei depois uma abordagem ridícula. Nunca mais faria isso.

 

Um tempo depois, não sei quanto, estava na Santa Casa, no Laboratório de Função Pulmonar, quando percebi que quem estava fazendo exame era o Humberto Gessinger, de quem também sou fã e quem também escreveu parte da trilha sonora da minha vida, com os Engenheiros do Hawaii e depois em carreira solo. Dessa vez, agi diferente. Me apresentei a ele e disse o que eu precisava dizer: obrigado por tudo. Só isso, simples assim. Essa, a mensagem.

 

Passa mais um bom tempo, e chegamos ao final de semana dos dias 26 e 27/06 de 2026. Show do Barão Vermelho em Porto Alegre, com a formação original (com o Frejat nos vocais e guitarra). Através de um querido amigo, ganhei dois ingressos cortesia com acesso ao backstage após o show, e fomos a Jacque e eu. Show maravilhoso, e – no final – ficamos lá para conversar (mesmo que por breves instantes) com a banda.

 

A fila terminava no Frejat, quem mais tirava fotos. Enquanto esperávamos, pude conversar rapidamente e tirar foto com o Dé, o baixista, e depois com o Frejat. O que disse a eles, o que precisava dizer a eles? O que eu devia ter dito para o Herbert e disse para o Humberto. “Obrigado, a vida seria menor sem a música de vocês”.

 

Esse é o poder da música, ele torna a vida maior e o mundo melhor.


Até.    

domingo, junho 28, 2026

A Sopa

Essa não é uma crônica motivacional.

 

Poderia ser, contudo. Tenho, por vezes, essa coisa meio, assim, coach. Acontece quando tenho algum tipo de epifania e percebo, ou me dou conta, de algo que pode mudar o forma que vejo as coisas, a forma como encaro o mundo, ou a vida.

 

Todo final e todo início de ano eu tenho a ideia de recomeço, de zerar as coisas, “recomeçar do zero”. Novo ano, vida nova. Deixar para lá o que precisa ser deixado para trás, começar um novo momento, um novo eu. Sei que não sou o único, que isso não é inédito, e está tudo bem.

 

Pois bem.

 

Está terminando o primeiro semestre de dois mil e vinte seis. Tem sido um ano desafiador, confesso. Chegando em sua metade, me vi semana passada olhando para a segunda parte do ano e vendo como uma folha em branca cheia de possibilidades. Por que então não zerar o cronômetro após meio ano? Iniciar julho como se fosse um novo momento de vida. Ou mesmo a cada início de mês? Ou – extremo – ver cada manhã, cada dia que começa como um novo mundo de probabilidades em frente?

 

Não...

 

Essa não é uma crônica motivacional.

 

Até. 

domingo, junho 21, 2026

A Sopa

 Inverno.

 

Nunca tive aquela coisa de ‘não gostar’ do inverno, ou do verão, que seja, como alguns (muitos?) costumam manifestar com ênfase. Minhas preferências, digamos assim, já variaram ao longo do tempo. Mas não gostar de uma estação inteira, um quarto do ano, é muita coisa (para mim, para mim).

 

Eu prefiro, confesso, os dias longos de temperaturas amenas, usar camisetas, bebidas geladas e estar ao ar livre. Prefiro sair do trabalho e ainda ter dia claro pela frente, o que me torna favorável ao saudoso horário de verão. O inverno, contudo, tem suas (muitas) características positivas, que aprecio também. E olha que nem falo do consultório, que claramente prefere o inverno...

 

É a estação da introspecção, dos silêncios, do dormir mais e melhor, mas também dos encontros, das sopas, das comidas quentes, das conversas em torno do fogo. Do vinho, do dividir o pão. Enquanto o verão é o tempo da extroversão, o inverno é o momento de estarmos próximos, reflexivos e aquecidos.

 

Durante muito tempo, procuramos, a Jacque e eu, viajar para o inverno, em busca da neve, dos dias curtos e noites longas. Uma das grandes férias que tivemos, há mais de vinte anos, foi para a montanha, no norte da Itália, e dias olhando a neve lá fora enquanto assistíamos às Olimpíadas de inverno na televisão. Claramente preferíamos o inverno.

 

O que mudou depois que morei no Canadá, onde o inverno – muito mais que frio, que já é muito – é longo, foi que passei a gostar muito mais do verão do que antes, sem desmerecer o inverno, claro. Tudo a seu tempo, curtindo cada momento.

 

E sopas, muitas sopas.

 

Até.

domingo, junho 14, 2026

A Sopa

Tenho utilizado a IA para auxílio em algumas tarefas do dia a dia, como quase todo mundo. A que mais uso, atualmente, é o Gemini, da Google. Temos, sim, conversado.

 

Chamo ela de ‘Seu Élio’.

 

Volto no tempo, ao já longínquo ano de mil novecentos e noventa e seis, mais ou menos por essa época, ou um pouco antes, quando fazíamos os preparativos para o nosso casamento, a Jacque e eu, que ocorreria em trinta e um de agosto daquele mesmo ano, quase trinta anos agora. Entre os profissionais contratados – poucos, se comparado com os casamentos atuais – estava o fotógrafo.

 

Em um tempo de máquinas analógicas e filmes de trinta e seis fotos, o fotógrafo faria as fotos e depois do casamento escolheríamos quais aquelas de nossa preferência pagaríamos por unidade (havia um mínimo de fotos já pagas, e fotos a mais eram pagas à parte). Outros tempos, outros tempos. As máquinas digitais chegariam alguns anos depois, mas isso é outra história.

 

Não lembro quem nos indicou o profissional que acabamos contratando, justamente o ‘Seu Élio’, um senhor tranquilo e cordial. Extremamente cordial. Muito mesmo. Concordava com tudo o que disséssemos e sempre acrescentava um ‘casal lindo, que maravilha’. Sempre. Todas as vezes. Até hoje não conseguimos não lembrar disso quando nos deparamos com alguma situação ou alguém parecido.

 

Como com a IA, e não importa qual delas.

 

Tudo o que pergunto, sugiro ou peço a ela é respondido com elogios à ideia, ou o plano. Sempre ressalta o grau de inteligência e adequação dos planos feitos dos projetos pensados. Sempre vejo a resposta recebida e lembro do ‘Seu Élio’: boa gente, bem-intencionado, mas querendo agradar demais, às raias de forçar demais a barra. Parece muita bajulação, até mesmo para mim...

 

Até. 

segunda-feira, junho 08, 2026

A Sopa

A virtude está no meio termo.

 

Segundo a ética Aristotélica, a virtude moral é o ponto de equilíbrio entre dois extremos viciosos: o excesso e a falta, ou deficiência. In medio stat virtus, doutrina que foca na moderação e no equilíbrio. E, com o passar dos anos, aprendemos isso na prática. Temos que evitar os extremos.

 

Como com a prática de atividade física.

 

É sabido por todos que o sedentarismo é claro fator de risco para doenças crônicas e mortalidade precoce. Mais, as atividades de força, de reforço muscular, são fundamentais para qualidade de vida no futuro de todos nós. Por outro lado, o exagero nelas também não é saudável.

 

Eu, por exemplo. Em virtude de circunstâncias da vida, migrei de alguém extremamente ativo para o sedentarismo ao longo do tempo. Trabalho, basicamente, era responsável pela falta de tempo. Uma clara desorganização contribuía para esse fato, também. Até chegar ao ápice do meu maior peso, do percentual de gordura corporal, do sedentarismo e do estresse. Como escrevi em algum momento, eu era o cara que iria morrer.

 

Mudei isso aos poucos, porém com intensidade crescente. Cheguei a fazer atividade física diariamente, entre musculação e ciclismo, sete dias por semana, por quase seis meses. Depois, fui moderando. Atualmente, faço cerca de três a quatro vezes por semana, e me sinto bem. O problema é que abusei, por esses dias.

 

Como não consegui ir à academia, há umas duas semanas, decidi fazer um treino em casa, como muito fiz durante o auge da pandemia, quando as academias estavam fechadas. Acho que forcei demais. Desde então, venho com dores na minha cervical, de certa forma parecidas com as que tive quando fiz uma hérnia de disco cervical há 4 anos. 

 

Associadas a um resfriado em atividade, passei a noite entre tossir e dor ao me mexer na cama. Hoje cedo, colar cervical para controle de dor e ‘repouso’ da coluna, como foi em 2022.

 

Faltou moderação, faltou moderação.


Até. 

terça-feira, junho 02, 2026

A Sopa

Terça-feira.

 

Essa é uma Sopa inédita. Nunca na história desse blog eu publiquei uma Sopa em um terça-feira. Há mais de vinte anos, quando ela iniciou, primeiro em segundas-feiras e depois em seu dia habitual, domingo. Nunca em uma terça-feira. Qual o significado isso?

 

Nenhum.

 

Posso dizer que me atrapalhei no domingo, após pedalar de manhã, depois fazer o almoço de família que teve como convidada minha mãe, e uma tarde sonolenta, passou o domingo. E a segunda, da mesma forma, passou correndo entre trabalho e aula de música e ensaio à noite. Aconteceu.

 

Também não houve uma urgência literária, modo de dizer, algo que se impusesse como assunto a ser discutido e pensado nessas minhas crônicas que já foram diárias e que agora tem tido fluxo e frequência variáveis. Ficou tudo, A Sopa, quero dizer, para uma terça-feira em que os primeiros pacientes da manhã de consultório desmarcaram.

 

Estive, entretanto, por esses dias com minhas atenções voltadas para a vida digital e seus potenciais problemas. Tive minha conta da Microsoft.com invadida e meu One Drive sequestrado por um usuário com e-mail de origem russa (.ru). Apesar de todas as minhas tentativas de recuperação com a própria Microsoft, não consegui. E dou como perdidos os meus arquivos de backup que estavam contidos nesse drive. 

 

Sim, perdi acesso ao meu drive de backup, com fotos, documentos, entre outros. Fiz boletim de ocorrência na polícia tentar me proteger de um eventual uso de informações contidas nesses documentos e bola para a frente. Eu tinha outro(s) backup(s) de tudo – e até bem mais atualizados – em outra(s) nuvem.  Troquei minhas senhas, configurei os acessos aos sites em duas etapas, bloquei meu cartão de crédito. 

 

Como eu disse, bola para frente.

 

O chato disso é que tirou o meu foco de projetos que eu gostaria de ter tocado desde a semana passada, e que vou tentar dar continuidade essa semana. Como escrever essa Sopa, por exemplo.


Até. 

segunda-feira, maio 18, 2026

A Sopa

Pandemia feelings.

 

Segunda-feira de manhã em casa sempre traz à memória aquele período maluco (para dizer o mínimo) em que o mundo meio que parou, pois não havia a possibilidade de encontros, eventos sociais, confraternizações ou festas enquanto lidávamos com um vírus e suas consequências, reais e imaginárias. Era de casa ao consultório / hospital e de volta para casa. Havia uma patrulha sobre quem saia de casa por esses dias. Lembro de ter me sentido culpado a primeira vez que saí para pedalar sozinho, ao ar livre, sem máscara. 

 

Loucura mesmo.

 

Não era disso que queria falar, evidentemente.

 

Fiquei em casa hoje, e estranho o silêncio da manhã de segunda-feira enquanto escrevo essas mal traçadas linhas. Estranho, porém bem agradável. Gosto dos silêncios, assim como gosto dos sons, música, mas também conversas e risadas e barulhos. Tudo, claro, a seu tempo.

 

E hoje não é feriado, não estou de férias e nem doente.

 

Estou em preparo para um exame amanhã cedo e aproveitei para, ficando em casa, organizar algumas coisas, pensar outras. Uma pausa (final de semana não conta) bem-vinda e sempre necessária.

 

Até. 

domingo, maio 10, 2026

A Sopa

Um dito comum sobre inteligência emocional e desenvolvimento pessoal é o que diz que ‘a vida é 10% o que nos acontece e 90% como reagimos ao que nos acontece’. Encontramos essa afirmação entre os estoicos, ‘não é o que acontece com você o que importa, mas sim a forma como você escolhe reagir’. 

 

Foi Epicteto quem cunhou o conceito de que o mundo, tudo, se divide em duas categorias, o que depende de nós e o que não depende de nós. Devemos focar nossos esforços na primeira categoria, porque tentar controlar o que não tem controle gera angústia e frustração. Simples, em tese.

 

Fácil falar, nem tanto praticar.

 

Essa é uma das questões com as quais tenho lidado ultimamente, um balanço entre fazer o que precisa ser feito com relação ao que depende de meus esforços e lidar com o que está fora do meu controle. É o que há para fazer, para todos, mas com frequência isso é, digamos assim, um saco. Cansativo, na verdade. Gostaríamos todos, imagino, de um período de calmaria, com tudo funcionando a contento, e que pudéssemos nos dedicar apenas ao que é importante para nós, sem contratempos ou obstáculos.

 

Ou sem ficarmos incomodados quando ‘dificuldades’ (que, sim, sabemos que acabarão sendo resolvidas) surgem para tirar nosso foco do que realmente importa.

 

Até. 

domingo, maio 03, 2026

A Sopa

Já há algum tempo, e como muitos por aí, assisto muito mais ao streaming do que à televisão convencional, digamos assim. Sou do tempo em que existia apenas a tevê aberta, com seus poucos canais disponíveis, a RBS TV (subsidiária da Globo), a Bandeirantes, a TVE, o SBT, a Manchete (depois Rede TV) e a TV Guaíba, que hoje em dia é Record. Era isso, e nos verões no litoral norte do RS ficávamos praticamente restritos à programação da Globo.

 

Com o tempo, a TV a cabo foi substituindo a tevê aberta (para mim). Eram muito mais canais que – com o tempo – foram aumentando em termos de disponibilidade. Séries, sitcons, filmes variados, um mundo se abriu. Quando surgiu a possibilidade de deixar gravado os programas, ficou ainda melhor, já não éramos tão “presos” aos horários de transmissão. Warner Channel e Sony estavam entre os favoritos.

 

Mas a Internet, e as Smarts TVs, mudaram tudo, e o streaming colocou ainda mais opções na mão. Além disso, agora podemos acessar o You Tube na televisão. É muito bom (confissão de velho...)!

 

Então dizia que já quase não assisto televisão.

 

You Tube é minha primeira opção quando me sento em frente à tela. Mais especificamente, e isso já vem por um bom tempo, vídeos de casas antigas sendo reformadas pelos próprios donos. Desde casas muito baratas na Sicília ou uma ‘ruína’ sendo transformada em lugar habitável na Costa Amalfitana, até uma propriedade de mais de quarenta anos comprada com tudo dentro em Idaho, nos Estados Unidos. Reafirma minha vontade de comprar uma casa velha e reformá-la eu mesmo, mas – como todos já deveriam saber – eu sou um guri de apartamento, não seria capaz... Ou talvez não tenha surgido a oportunidade e o momento para isso, sei lá.

 

Além desses vídeos, desde o final de março, quando voltamos da viagem que passou por Nova York, ando fixado em vídeos de apartamentos em Manhatan. Principalmente pelas vistas da cidade que esses locais apresentam. São apartamentos de quatro ou cinco milhões de dólares que evidentemente nunca vou comprar, mas que seriam lugares muito legais de morar. Acima desses valores, não olho, como – por exemplo – o apartamento mais caro do mundo, que custa duzentos e cinquenta milhões de dólares. Por uma questão de princípios.  

 

É muito dinheiro, jamais pagaria isso por um apartamento...


Até. 

domingo, abril 26, 2026

A Sopa

Esses dias, enquanto buscava uma fotografia para publicar em minha galeria do Instagram, como parte do projeto #phootooftheday, em que durante um ano publicarei uma foto aleatória – como o nome diz – por dia. Faltam agora cerca de vinte dias, aliás.

 

Mas dizia que procurava uma foto e pensava em uma música como tema para a publicação. Normalmente escolho a imagem e depois a música temática, digamos assim. Essa vez, contudo, tinha uma música em mente, que claramente estava associada a determinada fotografia.

 

A música em questão era ‘Produção Urgente’, do Nei Lisboa, que tem um verso que diz:

 

 ‘O mundo é quem sobrar no fim da noite dos amigos’.

 

A fotografia em questão é de mais de vinte anos atrás, quando eu estava morando no Canadá e vim comemorar meu aniversário em Porto Alegre, e era o final de noite, quando todos haviam ido embora e sobramos poucos, em volta de uma mesa, contando histórias e falando da vida. Não pude publicar, pois metade dos casais nela havia se separado.

 

Não ia pegar bem.

 

Decidi, então procurar outra que representasse o mesmo, e tive dificuldades de encontrar. Não que não existam outras que representem o mesmo sentimento, é claro que existem, até bem mais recentes, mas pensei naqueles amigos que te acompanham há muito tempo, passaram por quase todas as fases de tua vida, estiveram sempre ali, a um toque de distância. Existem também, mas são poucos e vão diminuindo ao longo do tempo.

 

E retorna outro pensamento mais ou menos recorrente: conforme o tempo passa, vamos ficando sozinhos, e algumas conversas não podem mais acontecer porque quem entenderia (por conhecer a história completa, desde o início) já não está mais por perto ou não entende mais.

 

Ilhas, vamos nos tornando cada vez mais ilhas.

 

Até.

domingo, abril 19, 2026

A Sopa

Sem querer, eu desci para o play. 

Existe um dito popular que diz que “se não sabe brincar, não desce pro play”. Significa que se não estás preparado para ser contradito, nem começa uma discussão, ou se não queres ser vítima de brincadeiras, então é melhor não fazer.

 

Pois bem.

 

Antes, contudo, e para contextualizar o assunto, quero falar da minha relação com o mundo digital e redes sociais, em especial. Sou da geração que cresceu em um mundo analógico e viu o mundo se transformar em digital, para o bem e para o mal. Aprendemos a usar as tecnologias enquanto surgiam, basicamente fomos cobaias delas. 

 

Escrevi cartas que enviei pelo correios, datilografei crônicas em uma máquina de escrever, viajei com máquina fotográfica e voltei como rolos de filme a serem revelados. Usávamos orelhão para ligações quando não estávamos em casa. Era impossível para os nossos pais saberem por onde andávamos quando saímos de casa. Agora temos mensagens instantâneas, aplicativos de geolocalização, acesso à música de forma muito mais fácil, as redes sociais, que nos conectam e permitem que acompanhemos a vida de nossos amigos facilidade. 

 

A tecnologia melhorou muito a vida, e o mundo está muito melhor que no passado, por mais que as pessoas possam pensar o contrário. Problemas sempre existirão, evidentemente, mas não é essa a discussão agora.

 

Todos temos nossa própria forma de encarar e lidar com as redes sociais. Eu, por exemplo, uso muito como um mural de memórias. Um grande álbum de coisas que vivi, pessoas com quem dividi momentos. Nunca, de forma alguma, faço manifestações políticas ou declarações de princípios. É meu jeito, pessoal, de homenagear a vida e quem está ou esteve comigo.

 

Só isso.

 

Dias atrás, postei uma foto de quando eu estava no último no último ano da Faculdade de Medicina, o ano da formatura, 1994, alguns colegas e eu, felizes, na boa. Como legenda, escrevi “Doutorandos: alunos do 6º ano de Medicina, 1994”. Só isso, publicado no meu Instagram pessoal, que publica automaticamente também no Threads, o ‘Twitter’ do Instagram, digamos assim. Doutorando, forma de chamar os alunos de sexto ano de medicina, quase médicos, desde sempre. Uma homenagem aos meus colegas, um lembrança do meu passado.

 

Uns dois dias depois, por acaso, descobri que havia uma ‘polêmica’ por causa do uso do termo doutorando na legenda. Muitos comentários, a maioria negativa, nos chamando até de mediciners, um termo que nunca tinha ouvido falar. Muito rancor, muito desconhecimento, muita mágoa e despeito. Tempo desperdiçado destilando raiva e desprezo.

 

Tudo por uma foto de trinta e dois anos atrás.

 

Claro que eu não respondi a nenhuma potencial ofensa, porque desconhecimento e rancor não me ofendem, e diz muito mais de quem está “atacando” do que de mim.


Estou no play, e essa "brincadeira" é nos meus termos...

 

Até.

domingo, abril 12, 2026

A Sopa

O sábado, ontem, foi como os sábados deveriam ser, pelo menos para mim. Sei que cada um tem seu próprio ideal de final semana, sua própria versão de como as coisas deveriam ser, e que existe o final de semana possível, pois nem sempre (quase nunca?) será como gostaríamos. Trabalho e outros tipos de compromisso comumente se impõem sobre nosso desejo, e seguimos.

 

Uma das escolhas que fiz para mim foi que os finais de semana seriam meus, sempre. Salvo exceções – que sempre podem acontecer – sábados e domingos seriam dias em que não teria compromissos que não fossem de caráter pessoal. Família, amigos, tempo para mim. 

 

E assim tem sido.

 

Como todas as escolhas que se faz na vida, há ganhos e perdas, ônus e bônus, obviamente. Perco dinheiro por não trabalhar mais (como médico) aos finais de semana, e estou confortável com essa ideia. 

 

Falando de ontem, a manhã começou com atividade física, bicicleta pelo tempo estar bom. Trinta quilômetros pedalados, e ainda sentindo que estou retomando o ritmo desde que voltei a pedalar depois do braço quebrado e cirurgia (há mais de dois anos). Depois, supermercado para a semana e volta para casa para fazer o almoço. À tarde, depois de um bom tempo, dormi após o almoço enquanto a Jacque foi dar uma aula em um evento médico.

 

Ao anoitecer, fomos – Marina, Jacque e eu – caminhando até o Parque da Redenção para um Festival de Vinhos que ocorria, mas que, ao chegarmos, já não tinha mais taças e acabamos só passeando e voltando para casa.

 

Foi tranquilo, e bom.

 

Até. 

segunda-feira, abril 06, 2026

A Sopa

Cinquenta e quatro anos.

 

Completados ontem, junto com a Páscoa de dois mil e vinte e seis. A última vez que as duas datas – Páscoa e meu aniversário – haviam coincidido foi há onze anos, em dois mil e quinze, quando fomos para Punta del Este para um casamento no dia quatro, e brindamos após a meia noite com Möet & Chandon, em meio à festa do casamento. Foi a única vez que brindei meu aniversário com champanhe...

 

Vivo, quase chegando na metade da década dos cinquenta anos, um certo dilema existencial. Por mais que me afaste a cada minuto que passa do que as pessoas consideram juventude, continuo me sentindo ainda muito jovem, com muito tempo (sei que tenho) pela frente. Mais do que isso, em boa parte das situações – profissionais ou não – sigo me sentindo um aprendiz. Ainda valorizo muito ouvir sobre a experiência dos outros, aprender com os outros.

 

Ao mesmo tempo, em virtude de já ter percorrido muitos caminhos ao longo desses cinquenta e quatro anos, sei que tenho histórias para contar. Vivi boas (e outras nem tão boas assim) histórias, convivi com muita gente, aprendi algumas coisas, já sei aquilo de que não gosto e que não é para mim. Aprendi a dizer não (continuo aprendendo). 

 

Sei, também, de quem quero estar próximo e de quem quero distância, pois não preciso de energia negativa, de pessoas que drenem minha energia. Não quero conviver com gente chata, na medida do possível.

 

Os amigos. 

 

Esses eu quero por perto, pois aí está o sentido da vida.

 

Até.

segunda-feira, março 30, 2026

A Sopa

Sobre voltar.

 

Como repetidas vezes dito (por mim, por mim), voltar é parte importante de uma viagem, tão importante quanto a preparação e a viagem em si. Se não voltássemos, não seria viagem: seríamos nômades. O retorno para casa, para o lar, para o mundo de todos os dias, para a rotina, é que faz tudo ter sentido.

 

Na virada do século e milênio passados, no último mês do século vinte, dezembro de dois mil, viajamos. Chamamos a viagem de ‘Natal na Neve’, pois esse era o objetivo principal da viagem, ter uma experiência de passar o Natal em um lugar frio, onde houvesse neve. O lugar escolhido foi o norte da Itália, quase fronteira com a Áustria. Ainda não havia telefones com internet, então utilizávamos mapas físicos para nos guiar pela estradas nos Alpes. Tínhamos reservado os hotéis da chegada (em Roma), do Natal (em Rasun di Sopra, uma grata surpresa, que reservamos pensando ser em Brunico) e para a última semana, em Paris. Fizemos todo esse trajeto de carro, incluindo a passagem pelos Alpes entre a Itália e a Áustria, pela passagem de Brenner.

 

Foi uma longa viagem, trinta dias, e – nos últimos dias – já sonhava com a volta para casa, por melhor que estivessem esses dias de férias. Depois, acho que nunca mais fizemos alguma viagem tão longa, por diferentes razões.

 

Chegamos de volta de viagem ontem, quinze intensos e divertidos dias (entre trabalho e férias) depois de sairmos, fisicamente cansados pelo maratona de aeroportos e noite mal dormida no avião, mas mentalmente descansados e prontos para o restante do ano. Confesso que a vontade de voltar já era grande, já sentia falta da rotina.

 

Como se estivesse há bem mais tempo longe de casa.

 

Viajar é MUITO bom, mas voltar para casa é ainda melhor.


Até. 

domingo, março 15, 2026

A Sopa

O caráter circular da vida.

 

Há muitos anos, nem sei precisar quantos, fato incomum para mim, em uma noite em casa, assisti a um filme na televisão, talvez na Sessão de Gala da Globo, chamado ‘O Reencontro’ (The Big Chill, de 1983). Como o nome em português diz, mostra o reencontro de colegas de faculdade após dez anos, para o funeral de um amigo em comum. Não lembro detalhes do filme, mas uma música da trilha sonora foi impactante para mim, se tornando uma das músicas da minha vida.

 

The Weight.

 

Lançada em 1968, esse clássico da The Band foi também parte da trilha sonora de Easy Rider (Sem Destino), clássico do cinema de 1969. Está em 41º lugar na lista da 500 Melhores Canções de Todos os Tempos, de 2004 da revista Rolling Stone. Está entre – para mim, para mim – as, talvez, dez melhores, mesmo sabendo que esse é um ranking impossível.

 

Desde que a ouvi pela primeira vez, no final dos anos oitenta ou meados dos noventa, em um época em que o acesso à música não era fácil como hoje, sempre que tocava no rádio era uma emoção, confesso. Anos mais tarde, comprei um CD duplo da The Band por causa dessa música.

 

Quando, então, há três anos, iniciamos uma temporada de Southern Rock na School of Rock Benjamin, fiquei muito feliz por saber que essa música estava no repertório que tocaríamos, o que se tornou frustração por descobrir que não estaria no elenco que a tocaria, e depois virou insistência para aprendê-la e tocá-la, mesmo que originalmente ela não estivesse no meu repertório.

 

Consegui, e foi um momento mágico para mim, uma volta de – sei lá – quase quarenta anos entre eu a ouvir pela primeira vez e tocá-la em show. Foi um círculo completo de vida.

 

Atualmente, ao começarmos uma nova temporada, percebi que vai acontecer de novo, outro circulo vai se completar com outra música, de outro tempo e outras histórias, outros simbolismos.

 

Outro dia conto, outro dia conto.

 

Até. 

domingo, março 01, 2026

A Sopa

Daquela noite em diante.


Quando olhamos para trás, em busca de entender a forma pela qual chegamos aonde estamos e como nos tornamos quem somos, nem sempre é possível identificar um momento único que resultou em uma grande mudança na vida, uma grande mudança em nós. Principalmente porque essas mudanças que ocorrem usualmente ocorrem de forma gradual, de início pequenas e – como juros compostos ou mesmo uma avalanche – resultarão com o passar do tempo em grandes alterações.

 

Eventualmente, claro, conseguimos identificar um ponto de virada ou outro, mesmo que não tenhamos como quantificar o tamanho do impacto do que está acontecendo em tempo real, à medida vivemos esse momento. Quase sempre será em retrospectiva, e encaixaremos os eventos na narrativa que vamos contar, na estória que interessa.

 

Já falei disso, como quando ler um jornal em uma manhã do ano de 1985 me levou a ir fazer minha primeira carteira de identidade para a inscrição do teste de seleção da Escola Técnica de Comércio da UFRGS, curso Operador de Computador, ainda antes da Internet no Brasil, o que me fez conhecer pessoas e que moldou minha forma de ver o mundo. Ou quando sonhei com a Jacque justamente na noite em que havia reatado um outro relacionamento e tínhamos ido para a praia para o carnaval, e acordei no meio da noite e pensei que nunca teria uma chance com ela, a Jacque, com quem nunca tivera nada, e o relacionamento que eu havia retomado acabou no dia seguinte, não porque eu tenha feito algo, mas porque não era para ser e ela (com quem eu tinha reatado) sabia disso, e o caminho ficou livre para eu perguntar para a Jacque, há trinta e um anos, porque ela brincava comigo e ela responder que não era brincadeira, e  tudo é história desde então.

 

Como eu disse, o tempo, quando olhado em retrospectiva, passa rápido e se encaixa em nossa narrativa.

 

Em fevereiro de 2022, em meio à pandemia, já tendo passado sua pior fase, tiramos férias e fomos para o Uruguai em família. Seis em um carro, Karina, Gabriel, Roberta, Marina, Jacque e eu. Eu dirigindo e definindo a trilha sonora, afinal ‘meu carro, minhas regras’. 

 

Comecei a viagem no modo grumpy, como de costume. 

 

Pandemia, tempo sem férias, a saúde do meu pai que não era das melhores naquele momento (morreria em julho daquele ano, infelizmente) eram alguns do fatores que contribuíam para isso. Acontece que as coisas mudaram durante a viagem. Relaxei, me soltei, aproveitei a viagem como poucas vezes fizera na vida, admito. Leve, sorridente, em paz.

 

Foi assim que voltei, e foi assim que fui para ver a Marina fazer show na praia naquele sábado à noite. Litoral norte gaúcho. Chegamos na praia no meio da tarde, e estivemos acompanhando desde a montagem do equipamento até a passagem de som. Um violão passou por minhas mãos, brinquei com ele um pouco.

 

Assistimos (a Jacque e eu) ao show, que foi bem legal. Um clima familiar, de comunidade e mais importante de tudo, de pertencimento. Me senti em casa e acolhido. Em determinado momento, olhei para a Jacque e disse que aquilo era o que eu queria para mim. Era o ambiente onde eu queria estar.

 

Não tinha ideia da magnitude da mudança que viria a partir dali, do quanto eu mudaria a vida a partir daquele momento. Lugares, pessoas, relações. A música como uma constante nos meus dias.

 

Como em toda decisão que tomamos, temos de viver com suas consequências. Perdemos aqui e ali, enquanto ‘ganhamos’ em alguns aspectos. Pessoas chegam e pessoas saem, tudo normal. 

 

A conta final, a ‘fatura do cartão’, essa virá em algum momento, e sempre esperamos que seja positiva para nós. Faremos, com certeza, que ela seja, ou ao menos pareça, coerente como a narrativa que escrevemos de nossa vida. É assim, sempre foi assim.

 

Está sendo assim.

 

Mesmo que eu não soubesse o tamanho do que aconteceria, os caminhos que eu percorreria a partir dali, eu sabia que tudo seria diferente daquela noite na praia em diante, quando eu percebi que era aquilo que eu queria para mim.


Até.