segunda-feira, março 14, 2022

Perdiditos en Uruguay (25)

A Viagem, sétimo dia.

 

Sábado de manhã, o melhor momento da semana.

 

Já falei em alguma Sopa do passado, mas uma das origens dessa certeza, de que o sábado de manhã, de sol, é o melhor momento da semana é uma lembrança minha do final dos anos 80. Uma manhã no litoral norte do Rio Grande do Sul, a claridade produzida pela manhã que avança quase cega, e a música que toca sai de um toca-discos e é Cúmplice, do Cazuza, que diz o seguinte:

 

Hoje eu acordei querendo encrenca
Escrevi teu nome no ar
Bati três vezes na madeira
Senti você me chamar

Na verdade uma carta em braile
Me deu uma certeza cega
Você estava de volta ao bairro
Em alguma esquina á minha espera

Meu amor, meu cúmplice
Eu sempre vou te achar
Nos avisos da lua
Do outro lado da rua

Rodei todas as lanchonetes
Tive idéias perversas
Relembrei tantos golpes espertos
Você cada vez mais perto

Meu amor, meu cúmplice
Meu par na contramão
Você não mudou em nada, nada, nada, nada
Eu também não, que bom

Meu amor, meu cúmplice
Meu par na contramão
Você não mudou em nada
Eu também não, que bom
Eu também não, que bom
Meu par na contramão

 

É daquelas músicas que tem a capacidade de me fazer voltar no tempo, e fechar os olhos e sentir exatamente o que eu sentia naquele exato momento em que aconteceu, mesmo que – nesse caso específico – não exista um acontecimento único, mas a lembrança de um tempo passado, de um outro Marcelo que fui. Outras músicas, outros momentos, outras memórias.

 

Como quando circulávamos pelo interior da Alemanha, pouco antes do final do século vinte, em pleno inverno do hemisfério norte, naquele período entre o Natal e o ano novo, vindos dos Alpes italianos e a caminho de Paris, onde passaríamos a virada de 2000 para 2001. Estávamos de carro, naquele momento, a Jacque, Magno e eu, ele dirigindo, eu de copiloto (dormindo a maior parte do tempo) e a Jacque atrás cuidando da “lojinha”, que era como chamávamos as provisões de lanches para nossos trechos mais longos.

 

O episódio a que me refiro ocorreu exatamente enquando Magno dirigia, eu alternava entre cochilos e orientações inexplicavelmente corretas das estradas que deveríamos seguir, e a Jacque me acordava de tempos em tempos e alimentava. Queríamos chegar em Baden Baden, na região chamada de Baden-Württemberg, próxima à fronteira com a França, não muito longe de Strasbourg. 

 

Seguíamos pela Bundesstraße 500, a Estrada da Floresta Negra, próximo a Seebach, uma estrada sinuosa, que subia e passava pelo Mummelsee. Era o final do dia, aquele momento entre o pôr do sol e a noite, e víamos o que pareceu ser um grande lago (ou até o mar, uma impossibilidade geográfica). A trilha sonora do momento era – nada estranho – Beatles, a compilação com todas as músicas deles que haviam ficado em primeiro lugar nas paradas. Meio sonolento, acordei de súbito com a gritaria dos dois quando se deram conta de que aquele “lago” que avistávamos na verdade eram nuvens, e estávamos acima delas. Tocava Hey Jude, e o que gritávamos era ‘que momento, que momento!”. Chegamos em Baden Baden com muita neblina, e até hoje dizemos que um dia está ‘super Baden Baden’ quando há nevoeiro. Acabamos não ficando ali, mas isso é outra história.


Acima das nuvens, Alemanha, dezembro/2000

Que momento!

Falava eu que era sábado de manhã em Montevideo, e havia previsão de chuva. Acordamos após uma ótima noite de sono (eu sob efeito de relaxante muscular) no Hotel Regency Way Montevideo, de boa localização (estávamos de carro), quartos bem confortáveis, preço justo e ótimo café da manhã, com as já tradicionais medias lunas e dulce de leche, entre outras atrações.

 

Após o café, fomos passear. Sem chuva, felizmente.


                   


Fomos passear na Rambla, tiramos fotos no letreiro ‘Montevideo’, e decidimos visitar o Mercado Agricola, estrutura originalmente inaugurada em 1913 e que reabriu após reforma em 2013. Tem livraria, lojas com produtos uruguaios perecíveis e industrializados, além de restaurantes e cafés. Circulamos, olhando as lojas. A Karina parou em uma farmácia para comprar ibuprofeno, eu junto a ela, mas não comprei. Não comprei. Depois, nunca mais tive coragem de pedir antinflamatório a ela porque quando pude, não comprei... Comemos empanadas, e o Gabriel comeu lulas fritas com batatas também fritas.


                                         

No Mercado Agrícola 


Próxima parada: Livraria e Café Scaramuza, estabelecida num casarão antigo, com bela arquitetura e o café lotado. A Roberta tentou sugerir que voltássemos (ela voltasse, pelo menos) ali na segunda-feira de manhã, antes de deixarmos a cidade, ideia que vetamos prontamente, sem dar chance a ela de retrucar. Após essa passagem pela Scaramuza, decidimos ir em direção à Cuidad Vieja, para visitar o Teatro Solis. 

 

                                         

Scaramuza


Isso iria acontecer pouco antes de as ‘Arinas’ (a Ka e a Ma) decidirem revirar o lixo do Starbucks...


                                                   

           Marina e Karina, as 'Arinas'...



Amanhã, amanhã.

 

Até. 

domingo, março 13, 2022

A Sopa (Los Perdiditos 24)

A Viagem, sexto dia (4).

 

Quieres yerba’?

 

Tenho um dom quando o assunto são idiomas.


Eu não falo muitos deles.

 

O que não quer dizer que seja um grande problema, afinal sempre consegui me comunicar quando no exterior, seja utilizando o inglês, que domino razoável e modestamente, ou fragmentos de outros idiomas que servem para angariar simpatia, boa vontade ou pena nos meus interlocutores. Transito com fragmentos de alemão, alguma mínima noção de italiano adquirida em diversas viagens para lá e até da música italiana dos anos 60 e 70 que a Jacque e eu somos muitos fãs. 

 

E tem o espanhol.

 

Cursamos um semestre de espanhol há alguns bons anos, a Jacque e eu. A escola ficava em frente a nossa casa, totalmente conveniente. Do que mais me lembro dos ensinamentos desse semestre são o “A mi no me gusta”, com sua resposta “A mi tampoco” ... Mas vivemos no Sul da América do Sul, e somos fronteiriços com Argentina e Uruguai, somos gauchos, quase doble chapas, e o espanhol não nos é estranho no dia a dia. 

 

E nem que nos fosse estranho o espanhol, a pergunta “quieres yerba” não seria. Só existem duas possibilidades para essa pergunta: estamos falando de chimarrão, e a erva a que se refere a pergunta é a erva-mate, ou estamos falando de maconha. Quando o cidadão em questão (que não vi) perguntou isso para a Jacque, em plena Plaza de la Constituición, em frente à Catedral de la Inmaculada Concepcion, San Felipe e San Tiago, tínhamos certeza de que ele não falava de chimarrão.


                    Plaza Constitucion                                                                            Plaza Independencia

A maconha está liberada para consumo recreativo no Uruguai. Então sentimos o cheiro de sua fumaça e vemos pessoas em diferentes locais a consumindo, naturalmente, ao ar livre, mesmo em restaurantes (com mesas na rua, claro). Na Cuidad Vieja, passamos por uma ou duas coffees shops, locais em que ocorre a venda. Não sei e não me interessei em saber como fazer para consumir...   


                    

Selfie na Plaza Independencia


Era sexta-feira no final da tarde, e já havia muitas lojas fechadas, e menos movimento na parte antiga da cidade. Andamos até a Plaza Independência, a mais importante de todas as praças de Montevideo, que “separa” a cidade velha da cidade nova, onde está o mausoléu de José Artigas, herói nacional do Uruguai. Ficamos sentados em bancos na praça em frente ao monumento a Artigas, e curtimos um tempo ali. De lá, fomos para a Rambla, esperar o pôr do sol junto com milhares de pessoas que passeavam por lá. Aproveitei para uma caminhada apenas para completar minha meta de exercícios e movimento do dia. Muito agradável, exceto pelos mosquitos que estavam por todo lado.


     
                                                                   Rambla, final de tarde


Voltamos ao hotel para nos preparar para a noite, que foi no Mercado Ferrando, que a Roberta havia sugerido após fazer uma pesquisa de opções para nós. É um complexo com várias opções de restaurantes e bares que compartilham uma área comum onde há mesas coletivas. Lembra um pouco, numa versão menor, o Mercado da Ribeira (Time Out), de Lisboa, ou o próprio Bigote, de Punta del Este.

 

                                          

Pizza


Foi uma noite agradável. Marina e eu comemos pizza, e o Gabriel (sempre preocupado com a quantidade de comida ser pouca) comeu um poke com a avidez de um predreiro, como se fosse a sua última refeição, com sofreguidão e entusiasmo. Lembrou ‘Construção’ do Chico Buarque:


Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

 

Voltamos ao hotel para descansar e torcer para que no dia seguinte não chovesse, porque essa era a previsão.

 

Até.

sábado, março 12, 2022

Sábado (e o Gordo Jorge?)

   

                 Não conheço ele, mas estamos juntos, amigo!

                         Montevideo/URU, fevereiro/2022


                  Bom sábado a todos.

                  Até.

sexta-feira, março 11, 2022

Perdiditos en Uruguay (23)

A Viagem, sexto dia (3).

 

A Teoria do Brinco.

 

Passei no vestibular para medicina na minha primeira tentativa, aos dezesseis anos, após ter feito um ano de curso pré-vestibular em paralelo ao terceiro ano do (à época) segundo grau técnico em informática (à época, operador de computador). Para celebrar, decidi que iria furar minha orelha e colocar um brinco. Assim, iniciaria a nova fase da vida (a universidade) e as pessoas já me conheceriam usando este acessório.

 

O furo na orelha foi feito em uma farmácia próxima à minha casa, na zona sul de Porto Alegre. Furava – pelo que lembro – com o próprio brinco. Tudo certo. Mais ou menos. Na verdade, não.

 

Inflamou. Muito.

 

A ponto de eu ter que tirar o brinco e, quando fui recolocá-lo, não consegui. Por ter retirado ele muito cedo, antes de cicatrizar, o furo fechou. Não usei brinco durante a faculdade de medicina e nunca mais usaria. Como eu costumo dizer, paciência.

 

Avancemos no tempo. Um longo salto, que vai de fevereiro de 1989 até dezembro do ano 2000, onze anos e dez meses, portanto. Os últimos momentos do segundo milênio da era cristã, quase entrando no século vinte e um. Havíamos sobrevivido ao bug do milênio (milênio, que todos sabem, é o filho da Milene com o Ênio), a primeira viagem dos Perdidos já havia acontecido no ano anterior, e nos preparávamos para viajar para a Europa de novo. A Roberta e a Karina (que ainda era casada com o Paulo) não iriam, pois o Gabriel havia recém nascido, em outubro daquele mesmo ano.

 

Iríamos passar o Natal na Neve, no Alpes italianos, e a viagem começaria por Roma. Após uns dias em Roma, faríamos uma volta pela Itália e chegaríamos na véspera de Natal a Rasun di Sopra, para passar a noite de Natal no Hotel Andreas Hoffer, para depois seguir para a França, onde passaríamos a virada do milênio (que, como disse, não é a ‘saída do armário’ do filho da Milene e do Ênio).

 

Dias antes da viagem, não lembro exatamente porque, decidimos, a Jacque e eu, que eu furaria a orelha novamente. Refuraria, digamos assim. Ela refuraria. Em casa. Logo antes da viagem. E assim o fez. Encontrou o antigo “caminho” por dentro da cartilagem e colocou um novo brinco.

 

Inflamou. Muito.

 

Estávamos em Roma, como já contei, e tivemos que procurar uma farmácia para comprar um antisséptivo (Germo zero©) para tratar. Também foi em Roma que comecei com minha longa e profícua história de quedas em (e de) banheiras, mas não é o momento de falar disso...

 

Usar brinco acabou virando uma tradição de férias, principalmente viagens de férias, para mim. A marca de que eu estava off work, em outras palavras. Algumas vezes esquecia de colocar e, na viagem, íamos atrás e comprávamos. Seria um símbolo de liberdade, de ser quem eu realmente sou? Uma bandeira?

 

Não.

 

É apenas um acessário, supercomum, nada demais. Que eu gosto de usar, mas não uso no dia a dia porque (cada vez menos) as pessoas esperam algo mais conservador de um médico, em termos de visual. Ou sou eu quem quer fazer essa separação clara entre o “eu em férias” e o “eu sério”. 

 

Não é importante, no final de contas.

 

Por outro lado, criou-se – durante a viagem – a teoria de que eu era (sou) duas pessoas, com brinco e sem brinco, diferentes entre si. O ‘Marcelo com brinco’ seria o cara mais legal, bem-humorado, de bem com a vida, enquanto o ‘Marcelo sem o brinco’ seria o sóbrio, mais mal-humorado, pouco tolerante e impaciente. Tudo mudaria ao colocar o brinco. O problema de tirar o brinco ao final da viagem seria que eu voltaria a ser o ranzinza de sempre.

 

O Marcelo do brinco e a Jacque


Não estavam (estão) totalmente enganados. Eu, sim, estava “insuportável” antes da viagem, e ao longo dos dias fui relaxando, desestressando, melhorando o humor e me tornando – de certa forma – quem eu era (ou me considerava) há muito tempo, antes das pessoas jurídicas, do mundo corporativo, dos trabalhos mal remunerados, da pandemia, e outras complicações da vida de adulto (que já frequento há um longo tempo, eu sei). Mas vou falar disso mais adiante também.

 

O fato é que, de brinco, e após o incidente do milk-shake, saímos de Piriápolis e rumamos para Montevideo, a Capital do Uruguai, em um trajeto de pouco mais de 100km, aonde chegamos perto das 15h, e – após fazer checkin e deixar nossas coisas no hotel, fomos direto para o Mercado del Puerto, para almoçar – claro – parrilla. O Mercado del Puertofica na Ciudad Vieja, não muito longe do porto, por onde, após o almoço, começaríamos nossa visita à cidade. Logo na entrada, fomos abordados por uma funcionária de uma das parrilas, que mostrou o menu e prometeu um bom preço e uma sobremesa de graça se ficássemos no seu restaurante.

 


Mercado del Puerto


Topamos, com a sensação crescente de que “o golpe está aí, cai quem quer”, que pairou sobre nós durante todo o almoço e mesmo durante a sobremesa, panqueca de doce de leite. E até chegar a conta.

 

Não era golpe, afinal.

 

Foi uma refeição muito boa e com preço justo.

 

Do Mercado, saímos para caminhar na Ciudad Vieja. A Jacque, no caminho, enquanto esperávamos a Karina e a Roberta, foi perguntada e até hoje não respondeu à grande questão do dia:

 

‘Quieres yerba?’.

 

Até. 

quinta-feira, março 10, 2022

Perdiditos en Uruguay (22)

 A Viagem, sexto dia (2).

 

Situada cerca de 40km de Punta del Este e a 97km de Montevideo, Piriápolis deve seu nome ao seu fundador, Dr. Francisco Piria, descendente de italianos, e foi fundada em 1890 com o nome de Balneario del Porvenir. Piria esteve envolvido na construção da orla da cidade no estilo dos balneários europeus, e construiu um dos maiores e mais modernos hotéis da época na América do Sul – Hotel Argentino, na Rambla de los Argentinos que, por sinal, lembra a Promenade des Anglais, em Nice, Côte d’Azur, onde fica o não tão majestoso Hotel Flots D’Azur, que tinha a privada elétrica (ou estou enganado, Karina?)...


Piriápolis


Como havia falado após o café da manhã, carregamos o carro, que estava estacionado logo em frente ao Hotel San Diego, ao lado de uma placa que dizia ‘Proibido Estacionar – Edificio’, mas que não me impediu de estacionar no local, mesmo com o aviso de que não era fácil (‘Edificio’, ‘é difícil’, pegou, pegou, hein, hein? - a Roberta não...). Saímos de Punta del Este e logo chegamos em Piriápolis ainda de manhã.

 

Estacionei o carro numa vaga na rua, apesar e ter um estacionamento pago logo em frente. Saímos caminhando e – claro – fiquei meio paranoico com relação a deixar o carro na rua com nossas bagagens. Tentei não pensar no assunto, mas pensar no assunto garante que não vai acontecer nada, não que eu tenha TOC, claro... Não aconteceu nada, afinal de contas.


Caminhamos pela Rambla de los Argentinos, (eles) olhando as lojinhas de praia e procurando presentes/lembrancinhas para levar ao Brasil. Seguimos até em frente ao Hotel Argentino, construção imponente, mas que – como aquela porção da praia que visitamos – parece parada nos anos 1960. Fomos e voltamos, e paramos para um lanche no MacDonalds local.  Foi nesse momento em que fui vítima do golpe, que está aí, e cai quem quer...


      

Hotel Argentino


Todos pediram algo para “lanchar”, afinal almoçaríamos em Montevideo, então foi, principalmente, sorvete, talvez fritas para o Gabriel. O ‘diferente’ fui eu que pedi um milkshake de Lapataia. Isso. De doce de leite. Potencialmente uma maravilha, queria confirmar.

 

Mas quase não consegui.

 

Porque TODOS os Perdiditos, e se duvidar até o morador de rua que passava no outro lado da rua, experimentaram o meu milkshake antes mim. Por pouco (sem ser exagerado) não sobrou para mim... Mas foi culpa minha, que estava cada vez mais bem-humorado e de bem com a vida. Por que isso?

 

                                               

O Mac do golpe...


A teoria é que tudo era por culpa do brinco.

 

Explico adiante.

 

Até.

quarta-feira, março 09, 2022

Perdiditos en Uruguay (21)

A Viagem, sexto dia.

 

Dia de deixar Punta del Este e ir em direção à capital, Montevideo.

 

Mas, antes, vamos falar música (de novo, eu sei).

 

Como falei anteriormente, a música esteve presente em quase todos os momentos da viagem, fosse no carro, onde não faltava nunca, fosse em outras situações, com um ou outro (e a Marina muito) cantando ou lembrando de músicas. E o Spotify foi um grande amigo em todas as horas, principalmente com as minhas playlists...

 

O repertório era eclético, com música para todos os gostos (nem todos, algumas coisas não tocariam no meu carro por nada, mas não é hora de falar disso).

 

Algumas viraram clássicos entre nós, como a clássica das clássicas, a hino da viagem, praticamente nossa trilha sonora oficial: ‘Roubaram meu frischtrick’ do grupo ‘Os Três Xirus’. Frischtrick, no caso, é frühstück, café da manhã no sentido literal do alemão, mas que pode ser estendido para lanche. É tocada em ritmo das bandinhas alemãs e a letra, cantada com um sotaque alemão diz o seguinte:

 

“Ai ai aii roubaram meu frischtrick

Acabaram estragando o nosso picnic

Ai ai aii roubaram meu frischtrick

Acabaram estragando o nosso picnic

Preparei um pão de milho

Passei manteiga e 'ximia'
Peguei salame e queijo
Cortei tudo em fatia

Fiz dois sanduiche
Pra mim e pro meu guria
Sair a um picnic é o que a gente pretendia

Fui de lambreta buscar a namoradinha
Mas antes passei no bar pra tomar um cervejinha
Quando 'volto' eu quase tive um 'xiliqui'
Não sei quem foi a malandro que roubou o meu frischtick

Ai ai aii roubaram meu frischtrick
Acabaram estragando o nosso picnic

Ai ai aii roubaram meu frischtrick
Acabaram estragando o nosso picnic

Fui comprar outra merenda pra mim e pro meu guria
Mas a grana que eu tinha só dava pro gasolina
Mesmo assim eu fui buscá-la
Nervoso, preocupado
Ela já foi me xingando porque eu estava atrasadoo

Contei pra ela o que tinha acontecido
Me chamou de 'boca aaberta ' e num gesto atrevido
Gritou assim: Não vou mais no picnic
Qual é o meu futuro como um homem sem frischtick?

Ai ai aii roubaram meu frischtrick
Acabaram estragando o nosso picnic
Ai ai aii roubaram meu frischtrick
Acabaram estragando o nosso picnic

 

Cantamos muito essa música, parte de uma playlist chamada ‘Apatifação’...

 

Outras músicas, entre as centenas ouvidas em nossos trechos de carro, nos marcaram por diferentes razões. Como ‘Take me home, Country Roads’ do John Denver, sempre tocada pelos primos Pedro e Mateus nos encontros de família.

 

Almost heaven

West Virginia

Blue Ridge Mountains

Shenandoah River

 

Life is old there

Older than the trees

Younger than the mountains

Growing like a breeze

 

Country roads, take me home

To the place I belong

West Virginia, mountain mama

Take me home, country roads

 

All my memories

Gather 'round her

Miner's lady

Stranger to blue water

 

Dark and dusty

Painted on the sky

Misty taste of moonshine

Teardrop in my eye

 

Country roads, take me home

To the place I belong

West Virginia, mountain mama

Take me home, country roads

 

I hear her voice in the morning hour, she calls me

The radio reminds me of my home far away

Driving down the road, I get a feeling

That I should have been home yesterday

Yesterday

 

Country roads, take me home

To the place I belong

West Virginia, mountain mama

Take me home, country roads

 

Country roads, take me home

To the place I belong

West Virginia, mountain mama

Take me home, country roads

 

Take me home (down), country roads

Take me home (down), country roads

 

Mais uma: dois dias antes, ao sairmos de Punta del Diablo, saímos ouvindo Escape (The Piña Colada Song) do Jack Johnson, e o Gabriel comentou que a música era triste, “que dava vontade de chorar”, ou algo assim, mas que entendemos que ele choraria se ouvisse, a passamos uns bons dias falando “da música que fazia ele chorar” ...

 

You know I love my Lady, been together so long

Like a worn-out recording, of my favorite song

So while she lay there sleeping, I read the paper in bed

And in the personal columns, there was this letter that read

 

If you like Piña Coladas, and getting caught in the rain

If you're not into yoga, if you have half-a-brain

If you like making love at midnight, in the dunes of the cape

I'm the love that you've looked for, write to me, and escape

 

I didn't think about my lady, I know that sounds kind of mean

But me and my old lady

Had fallen into the same old dull routine

So I wrote to the paper, took out a personal ad

And though I'm nobody's poet, I thought it wasn't half-bad

 

Yes, I like Piña Coladas, and getting caught in the rain

I'm not much into health food, but I am into champagne

I've got to meet you by tomorrow

And cut through all this red tape

At a bar called Scrappy Malloy's, we'll plan our escape

 

So I waited with high hopes, then she walked in the place

I knew her smile in an instant, I knew the curve of her face

It was my own lovely lady, and she said: oh, it's you

And we laughed for a moment, and I said: I never knew

 

I never knew you liked Piña Coladas

Or getting caught in the rain and the feel of the ocean

And the taste of champagne

If you like making love at midnight, in the dunes of the cape

You're the lady that I've looked for, come with me and escape

 

Como já disse, foram incontáveis horas no carro sempre ouvindo música, cantando, falando e rindo. Muitas músicas mesmo, muita diversão.

 

Saímos de Punta del Este em direção à Montevideo e nossa primeira parada foi em Piriápolis, um balneário que parece parado nos anos 60, e onde fui vítima do ‘golpe do milkshake’.

 

Amanhã, amanhã.

 

Até.

terça-feira, março 08, 2022

Perdiditos en Uruguay (20)

A Viagem, quinto dia (2).

 

Depois da experiência senegalesca rumo aos ‘Dedos’, havíamos ido ao supermercado e comprado tudo o que era necessário para nosso piquenique, que transportamos em nossa bolsa térmica com gelo, e fomos para a Praia Mansa.

 

Essa é a região próxima ao Conrad, hotel-cassino, de frente para a Ilha Gorriti, na baía, onde é como se estivéssemos em uma lagoa, de tão calma que são as águas. Alguns paradouros de prédios que ficam na avenida em frente praia. Ali, alugamos guarda-sol, cadeiras de praia, e fizemos nosso piquenique. Muito bom, nem conseguimos comer tudo o que havíamos levado, as meninas tomaram espumante, eu (o motorista) tomei coca-cola. Houve banho de mar, muito tempo embaixo do guarda-sol, e até a Roberta, a Marina e o Gabriel interagindo com uns meninos que deveriam ter no máximo 8 anos de idade e estavam recolhendo águas-viva da areia (e até da água!) e as colocando em um grande buraco que haviam cavado. As pegavam com a mão, sem se queimar, e saiam correndo e as largavam neste buraco. Foi uma tarde divertida.

 


Embaixo do guarda-sol


Voltamos para o hotel (metade foi andando, porque não era muito longe) e demos uma boa descansada antes da noite. Seria nossa última noite em Punta del Este. Queríamos ir a um lugar divertido para fazer nossa despedida de Punta, um lugar que fosse mais legal que o La Passiva, onde jantáramos na noite anterior. Acabamos saindo a pé e fomos a um lugar que havíamos visto na noite anterior e que parecia legal.

 

Fomos, então, ao Bigote Bar, que é um lugar tipo food park, com diferentes opções de comidas e bebidas. Escolhe-se o que se vai comer e se vai até o local, compra e leva para a mesa. Assim cada um poderia comer e beber o que quisesse. Marina e eu comemos hambúrguer. Como não estava dirigindo, pude tomar uns chopes, como sempre sem exagerar. 


                              

Bigote Bar

 

Chegamos no local pouco depois das 19h30, hora em que o Bigote abre. Escolhemos a mesa, nos sentamos, e eu fiz o ritual de encontrar posição para que minha cervical não doesse tanto. Comemos, bebemos, conversamos, rimos e jogamos Jenga, aquele jogo em que – a partir de uma torre de peças – vamos tirando um da parte de baixo e colocando na parte de cima da torre. À medida que o jogo avança e a base vai ficando menor, perde que tira a peça que faz a torre cair. Jogamos três vezes, a Jacque perdeu uma e a Roberta perdeu duas.

 

                                  

Jenga


Quando saímos, começava uma chuva bem fina. Andamos até o hotel, mas – ao chegar – percebi que não havia completado minhas metas de exercício e calorias de movimento do dia, como indicado pelo meu relógio. Deixei-os no hotel e dei uma caminhada de uns dez minutos até atingi-la. 

 

Isso reforçou a lenda de que “sou escravo” do meu relógio, que ele manda em mim. Nada mais longe da verdade. O que acontece é que o relógio apenas “me lembra” das metas de exercício que EU determinei. No máximo, ele pode ser considerado um fiscal do que me proponho fazer. Claro que o meu lado TOC fica incomodado quando não consigo atingi-las, quando há “falhas” no registro e tal, mas estou sempre competindo comigo mesmo.

 

Após a caminhada para completar minhas metas diárias, voltei ao hotel.

 

No dia seguinte seguiríamos para Montevideo, a capital.

 

Até.