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terça-feira, setembro 16, 2025

Cancelar Alguém

Cancelamento.

 

Ato ou efeito de cancelar. Boicotar ou retirar o apoio a uma organização, pessoa, etc., especialmente em posição poder e influência, por meio de manifestações nas redes sociais, por causa de opiniões, atitudes ou comportamentos considerados inaceitáveis.  É uma das palavras e ações da moda, em tempos de polarização, intolerância e posições políticas extremadas.

 

Pessoas que se acham portadoras no monopólio da virtude sentem-se no direito de julgar e executar punições a outros por opiniões dadas, por ideias que consideram erradas, ou ruins. Como todos notamos, as redes sociais se tornaram um tribunal acusatório, onde todos apontam para os defeitos dos outros talvez para mascararem os seus próprios.

 

Isso me incomoda.

 

Quem é que outorgou a você, cancelador, o direito e a prerrogativa de determinar quem é que pode ou não ter voz?

 

Existem pessoas, fora da minha bolha, com as quais eu não concordo, cujas opiniões são diametralmente opostas às minhas. E está tudo bem. É o direito delas terem sua opinião e é meu direito discordar, se for o caso. Não é direito de ninguém, contudo, querer silenciar a voz do outro.

 

Volto, então, à questão da liberdade de expressão.

 

Considero direito fundamental. Como já falei, é direito de cada um ter e expressar sua opinião, e o limite disso é a lei. Se eu estimulo, faço apologia, cometo ou defendo um crime, devo arcar com as consequências disso, na forma da lei. E quem deve julgar e condenar ou não, é a justiça. 

 

Se eu não concordo com o que alguém diz em rede social, se me sinto ofendido ou agredido, a melhor forma de lidar com isso, na minha opinião, é ignorar, não ler, não ouvir. Se outros quiserem dar audiência, problema deles. Eu não vou fazer isso. Se alguém é idiota e propaga, divulga e se orgulha disso, problema é dele, não meu. Eu não vou ler, ou ouvir.

 

Não dar palco para quem eu considero idiota é a (minha) melhor forma de lidar com isso.


Até. 

quinta-feira, maio 22, 2025

Recorte

Você não me conhece por me ler.

 

Sim, eu falo de mim, contos histórias e estórias minhas, compartilho minhas ansiedades, angústias, momentos bons, emocionantes, de felicidade, até algumas conquistas pessoais, mas isso não quer dizer que eu compartilhe tudo e muito menos que eu seja aquilo que eu escrevo.

 

Também sou, claro, mas não apenas. E o fato de alguém me ler significa apenas que ela acaba sabendo de uma pequena parte da minha vida, um recorte, que eu optei por compartilhar. Não mais que isso. Você pode me ler diariamente e, portanto, saber de fatos que eu contei em alguma crônica, mas lamento dizer que você não me conhece. Se isso não é suficiente para você (não imagino porque não seria), paciência. 

 

Redes sociais não são a vida.

 

Nunca perco essa verdade do meu horizonte.

 

A vida de verdade, a vida real, ela ocorre fora do virtual. Ocorre presencialmente, no dia a dia, na conversa, no olho no olho. Nos cafés, nos churrascos. 

 

Se você, prezado leitor, acha que realmente me conhece e imagina que entende o que se passa comigo a partir dos meus escritos, que são – sim – pessoais, apesar de serem apenas uma fração do que me acontece, do que vivo e do que penso, lamento informar, mas você está enganado.

 

Eu sou o da vida real, que é a que importa.

 

Até.

sexta-feira, fevereiro 14, 2025

Eu Quero Ser Cancelado

Talvez esse não seja um assunto inédito por aqui.

 

Tem um vídeo no You Tube, de um show da School of Rock Benjamin POA, de outubro de 2023, em que o grupo do Performance, programa da escola para adolescentes até dezoito anos, com a Marina como vocalista, toca Johnny B. Goode, e que tem mais de vinte mil visualizações. Para um canal com cerca de duzentos e poucos assinantes, é um feito.

 

Não só isso.

 

Junto ao vídeo, há uma série de comentários, praticamente todos elogiosos. A exceção são um ou dois comentários feitos em russo, e que com a ajuda do Google Translator descobrimos que são negativos, de haters. A reação da Marina ao descobrir isso? Achou bem legal. Se tens haters, concluo eu, é porque tens relevância.

 

E aí desvio o assunto para uma característica do uso da Internet e das redes sociais, que é o anonimato. Certamente, quase a totalidade daqueles que fazem comentários negativos, muitas vezes destrutivos, jamais o faria pessoalmente. Destilam seu ódio e sua insatisfação como se estivessem sozinhos no mundo ou como se não houvesse consequências para aquilo que dizem. E o grave é não saberem que aquilo que está escrito tem um peso muito maior do que aquilo que é dito.

 

Aprendi há um bom tempo a ter MUITO cuidado com que eu escrevo quando em comunicação com alguém, seja por e-mail (como faziam os maias e os astecas) ou por aplicativos de mensagens. Aquilo que eu escrevo e envio para alguém não está mais sob meu controle. A pessoa ou as pessoas, que recebem a mensagem, podem entender algo diferente do que escrevi, interpretar errado, dar um sentido totalmente diferente daquilo que era originalmente a intenção. E isso não depende de quem e nem da intenção que tinha quem escreveu. A leitura rápida e corrida muitas e muitas vezes leva a intepretações equivocadas.

 

Da mesma forma que não entendo quem perde o seu precioso tempo comentando notícias, vídeos de opinião ou não, pessoas que “invadem” perfis de pessoas para criticarem a vida alheia. Muitas vezes apenas para agredir gratuitamente.

 

Ou que patrulham a vida alheia, e – com o argumento de serem politicamente corretos, e de respeitarem a todos – acabam sendo tiranos, querendo impor sua verdade e mesmo seu dialeto a todos, sob a ameaça de cancelamento...

 

No fundo, eu entendo, sim.

 

São pessoas que usam desses subterfúgios para escapar – ao menos por instantes – de suas vidas sem sentido, vazias, medíocres. É a atualização do mundo moderno para quem vai ao estádio de futebol não para assistir ao jogo, mas para apenas vociferar contra tudo e todos, até para jogadores que nem em campo estão (história real).

 

Tristes vidas, tristes vidas.


Até. 

sexta-feira, agosto 02, 2024

Diário da Abstinência

Dormi bem a noite que passou.

 

As anteriores haviam sido conturbadas, com alguns despertares mais longos e uma certa dificuldade de retomar o sono após. Em uma das noites, cogitei tomar um indutor de sono por volta das três da manhã, mas desisti. A sensação de que não dormira pelo tempo suficiente persistiu nas primeiras noites da semana.

 

Não acredito que a alteração do sono tenha relação com a minha diminuição de tempo de telas e redes sociais, mas não posso negar a associação temporal. Não é síndrome de abstinência, mas – como em qualquer tipo de dependência – esses são dias de esforço e uma maior autoconsciência. Algumas situações que era regulares, feitas ‘no automático’ agora requerem minha atenção.

 

Lembro então o período logo após a cirurgia de coluna que fiz, devido a uma hérnia de disco lombar. A cirurgia foi meio de urgência porque acordei um domingo com perda de força na perna esquerda, após uma crise de dor insuportável que havia tido na madrugada. Ao acordar já com a dor controlada, percebi que caminhava com dificuldade. A cirurgia foi dois dias depois, e foi como tirar a dor com a mão.

 

Após a cirurgia, mas decorrente da compressão nervosa resultante do período em que a hérnia esteve evoluindo, quando voltei a caminhar depois do período de repouso, notei que o movimento natural, automático, de andar, já não o era com relação à perna esquerda. Eu tinha que pensar e conscientemente movimentar. Se com a perna direita era natural, com a esquerda era pensado. Durou um tempo, até que percebi que eu não pensava em caminhar, eu caminhava.

 

Algo semelhante tem acontecido nesses primeiros dias de “abstinência” ao celular e redes sociais (lembrando: apenas reduzi o tempo passado em redes sociais, não estou e nem quero estar 100% offline, ao menos não agora). Existem diversas situações em que automaticamente vou pegar o celular e tenho que pensar, e recuar na intenção. 

 

Se eu fosse tabagista, eu diria que esses são os gatilhos não nicotínicos, aqueles relacionados a atividades que – mesmo inconscientemente – associa-se ao, no caso dos fumantes, fumar. No meu caso, ao ato de pegar o celular e olhá-lo, seja para conferir as redes sociais ou jogar um jogo qualquer que roubasse / prendesse minha atenção ou que me proporcionasse liberação rápida de dopamina.

 

Concluo, nesse momento, em uma reviravolta do que vinha pensando e escrevendo, que – sim – a minha alteração de sono das noites anteriores provavelmente tenha sido por síndrome de abstinência à dopamina. Eu sou (era) um abusador de redes/mídias sociais. Por mais que achasse não, parece mesmo que sou (era). 

 

O reconhecimento do problema é o primeiro passo para a cura.

 

Seguimos.

 

Até.