quinta-feira, agosto 07, 2025

Já Fui, Não sou Mais

O Ex.

 

Toda quarta-feira ao meio-dia participo de uma reunião clínica no Pavilhão Pereira Filho da Santa Casa de Porto Alegre. Discutimos casos, esclarecemos dúvidas nossas, e algumas vezes definimos condutas, junto com os fundamentais colegas da radiologia torácica, e também da cirurgia torácica. Frequento essa reunião há quase vinte anos.

 

Atualmente, sempre na primeira reunião do mês, algum de nós fica responsável por revisar algum tema e apresentar ao grupo de colegas, em que também estão presentes médicos residentes em formação. Ontem foi minha vez, e falei sobre o diagnóstico de fibrose cística em adultos. Quando me foi solicitado que falasse sobre esse tema, em um primeiro momento disse que eu não era mais a melhor pessoa para falar, afinal há pouco mais de dois meses abri mão da posição de coordenador do ambulatório de fibrose cística de adultos do Hospital da PUC. Achei que eu não era mais a melhor pessoa para isso.

 

Depois de um pequeno debate, aceitei, e ontem apresentei a reunião. Foi legal, pois gosto do assunto.

 

Quando estava preparando o material para apresentar, logo após o slide de título da aula, onde usualmente se apresentam os potenciais conflitos de interesse com relação à apresentação, pensei em colocar apenas que eu era um Ex.

 

Fui Presidente da Sociedade de Pneumologia do Rio Grande do Sul por dois mandatos, não sou mais. Fui Professor dos Cursos de Medicina na UNISC em Santa Cruz do Sul e da UNISINOS, em São Leopoldo, não sou mais. Fui Coordenador do Serviço de Pneumologia do Hospital Mãe de Deus, não sou mais. Fui Especialista Médico da Indústria Farmacêutica, não sou mais. Não exerço mais diversas funções que exercia anteriormente, e quase sempre a mudança foi por opção minha. Por outro lado, exerço outras que eu não exercia antes.

 

Que bom que cargos não definem quem sou.


Até. 

quarta-feira, agosto 06, 2025

De Quando Saí do Armário

Demorei muito a sair do armário.

 

Por insegurança, por medo da falta de apoio daqueles que deveriam me dar suporte, talvez por preconceito meu, não importa muito a razão. O fato é que eu relutava muito em me assumir, mesmo sabendo desde sempre quem e o que eu era. Até que um dia, quando me senti pronto, assumi para o mundo.

 

Sou um escritor.

 

A literatura, é uma das minhas paixões da vida. Li muito na vida, passei muito tempo sem dedicar tempo a isso, e há cerca de um ano consegui colocar novamente na minha rotina diária a leitura, não só de livros e textos técnicos, mas de literatura mesmo. Estou relendo alguns livros lidos há muitos anos, lendo outros que havia comprado e ficaram parados por tempo demais na pilha dos livros a serem lidos, estou lendo livros novos. Foi também uma forma de me reconectar com quem eu nunca deveria ter perdido contato: o meu eu leitor.

 

Também foi determinante nesse processo de me assumir escritor para o mundo o fato de ter publicado o meu primeiro livro, ano passado, e o segundo esse ano, recentemente. Tipo cartão de visitas, algo como ‘eu não apenas me considero, eu sou, olha só, publiquei’. Falando deste novo livro recém-publicado, ‘Eu Pai, Eu Filho’, tenho recebido alguns retornos bem legais a respeito, o que me deixa bem feliz. De verdade.  

 

Tem mais, contudo.

 

A música.

 

Hoje em dia, me sinto confiante em dizer que sim, eu sou músico. Em formação, mas músico. Aprendiz, mas músico. Humildemente, mas progressivamente mais confiante em dizer que estou aprendendo e me esforçando.

 

A ideia de ir acrescentando valências, habilidades, àquelas que já possuo e possuía, de forma a não estagnar, não ficar parado no tempo, não ficar - como disse Raul Seixas - “sentado no trono de um apartamento com a boca cheia de dentes esperando a morte chegar, porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonoro de um disco voador"...


Até.

terça-feira, agosto 05, 2025

Da Rotina e dos Finais de Semana

Assim como gavetas, e esse é um argumento antigo, de quando cheguei no Canadá há mais de vinte anos, a rotina é parte fundamental da vida. É o que dá sentido aos dias. Por mais diversa que seja, ela nos dá alguma segurança.

 

É o mesmo argumento que uso para viagens e férias.

 

Sempre discordei de quem fica ‘triste’ ao final de uma viagem, por melhor que essa seja, porque o voltar é parte fundamental do ato de viajar. Caso contrário, seríamos nômades, e viajar não seria tão interessante. E é a mesma situação com relação às férias, e os finais de semana: o que os torna especiais também é o fato de serem finitos.

 

Assim como de viagens, de férias e de finais de semana – e os sábados de manhã em especial – eu gosto da rotina que criei para a minha vida. Levou tempo para conseguir, e ela é dinâmica, pode ser ainda ajustada, mas hoje em dia é como eu penso que deveria ser.


Até. 

segunda-feira, agosto 04, 2025

Do meu lado obscuro

Eu convivo com meus demônios.

 

Não sou apenas eu, claro, todos temos um lado obscuro em nós, que está lá, contido pela nossa – digamos – humanidade, mas que tenta sair das profundezas de nosso ser e mostrar-se ao mundo. Nosso dever é controlar, ou impedir isso.

 

Domesticá-los.

 

Os demônios nossos de cada dia podem se manifestar de diferentes formas e em diferentes situações. No trânsito, no estádio de futebol, após algumas doses de bebida alcoólica, na internet. As redes sociais são um caldo de cultura bom para demônios interiores, principalmente pela sensação de impunidade. A civilização surge da sublimação de nossa selvageria, outra forma de chamar o mal que habita em nós.

 

O convívio social, os relacionamentos, são forma de manter nossos demônios em rédea curta. Conviver com pessoas e, mais, sair de nossa bolha, ajuda a nos tornarmos mais tolerantes e, com isso, menos selvagens.

 

Como eu dizia, eu tenho meus demônios pessoais, e eles com certa frequência incomodam. Sinto sua presença, cada vez mais facilmente identifico seu efeito em mim, e procuro neutralizar esse efeito prontamente. Nem sempre consigo com a agilidade e facilidade que eu gostaria, mas continuo trabalhando para isso. 

 

Às vezes, tudo o que preciso é ficar quieto um pouco, respirar fundo, para voltar à razão e ver que nem tudo é tão complicado quanto eles tentam fazer parecer.


Até. 

domingo, agosto 03, 2025

A Sopa

Domingo chuvoso.

 

E chove...Uma goteira, fora,

Como alguém que canta de mágoa

Canta monótona e sonora

 A balada da pingo d’água

 

Chovia quando foste embora

 

Toda vez que chove, toda vez que olho para fora de onde estou e vejo a chuva caindo, inevitavelmente declamo mentalmente o poema acima, de Ribeiro Couto e musicado por Villa-Lobos, que conheci/aprendi – o poema - em 1988, quando estava no terceiro ano do ensino secundário, o atual ensino médio. Há quase quarenta anos.

 

A passagem do tempo, e a memória, continuam a me fascinar. Como, quais critérios inconscientes utilizamos na hora de guardar, às vezes para sempre, na memória determinados episódios, fatos ou sensações. Como selecionamos – ou são selecionados – essas situações, boas ou ruins, que ficarão conosco até o momento em que perdemos de vez nossa memória, nossa identidade? 

 

Não tenho essa resposta, mas imagino que as emoções envolvidas no momento do ocorrido possam ter alguma relação com isso. Felicidade, empolgação, vergonha ou raiva, por exemplo. Situações em que nos sentimos ridículos perante outros podem ficar marcadas e não as esquecermos. Me pergunto se seriam trauma se atrapalhassem nossa vida atual, diferente daquelas situações parecidas de que lembramos de tempos em tempos, mas não estão presentes no nosso dia a dia. Sei lá.

 

Podem, claro, precisar de um tempo, maior ou menor, para se tornarem memória sem interferência no presente, para serem processadas e colocadas em um local em que possam ser lembradas e não produzam nenhum tipo de sensação ruim como quando do acontecimento.

 

Assim é com lugares, pessoas e músicas.

 

Há lugares em que vivemos, e pessoas que passam por nossas vidas que deixam marcas de experiências, boas ou não, por um período bem significativo. Com o tempo, então, não as esquecemos, mas passamos a lembrar delas apenas como fatos passados, não mais associados a algum tipo de emoção. Quanto mais vivemos, mais dessas experiências e vivências temos.

 

Isso é um pouco diferente quando falamos de música.

 

Elas também podem passar, podem também não estar mais no nosso dia a dia, no sentido de – por qualquer razão - não ouvirmos determinadas músicas com frequência, mas sempre que as ouvirmos estarão associadas a uma emoção, e a mesma emoção associada a momentos vividos em que elas serviram de alguma maneira como trilha sonora. Como quando embalaram esses momentos que vivemos.

 

Mais fantástico ainda – e falo do que sinto – é o efeito máquina do tempo que determinadas músicas, ouvidas em determinados momentos, tem de me fazer voltar ao passado, de sentir como se estivesse naquele momento exato em que ela foi significativa, quando imprimiu uma marca indelével em minha memória. Que permanecerá talvez até quando eu não lembre mais quem sou, mas certamente lembrarei de quem fui e o que ouvi.

 

E isso é forte.


Até. 

sábado, agosto 02, 2025

Sábado (e um bonde)

Elétrico 28

Vê, sou eu quem te acena em terra
E todos mais a tua espera
Todo o Brasil quer te ver
Te ver andar da Baixa ao Bairro Alto
Te ver subir de elétrico a Alfama
Aonde se esparrama no horizonte
O amanhecer da tua esquadra

Todo o Brasil quer te ver
De volta


Lembrança de Lisboa, janeiro de 2018.

Bom sábado a todos.

Até.

sexta-feira, agosto 01, 2025

Um Aluno Médio

Ontem, ao autografar para mim o seu mais recente livro, um colega médico que também foi meu professor na faculdade de medicina lembrou e me contou uma história que eu não conhecia e que, claro, me envolvia indiretamente. Contou ele que – há trinta e cinco anos – quando estive internado na UTI dos hospital onde trabalho até hoje, devido ao acidente de trânsito em que estive envolvido aos dezoito anos de idade, no segundo ano do curso de medicina, um outro professor, colega dele já falecido há alguns anos, comentou com ele que ‘o Tadday estava internado’, no que ele respondeu: ‘Quem, o Marcelo?’, e a tréplica foi ‘pessoas de origem europeu a gente chama pelo sobrenome’. 

 

Apesar de a família Tadday ter vindo, sim, da Alemanha no final do século dezenove (até onde sei, apesar não possuir os registros oficiais), ser considerado de origem europeia, ou chamado assim, me soa estranho, até porque nunca foi algo importante para mim. Mas não é essa a questão. Como, no segundo ano do curso de medicina, eu – um aluno médio, comum até – era conhecido pelos professores? Como sabiam quem eu era? O que traz à tona outras questões. 

 

O que as pessoas pensam de nós?

 

Qual o conceito que elas têm a nosso respeito?

 

Muito mais que uma preocupação, ou necessidade de validação externa, essa questão ainda é motivo de curiosidade para mim. Curiosidade mesmo. Saber se as pessoas te veem como tu te vês. Se as pessoas estão entendendo (não que isso seja necessário, mas é bom compartilhar isso com os outros, aqueles que são importante para ti) o teu caminho. 

 

Isso às vezes nos ajuda a nos manter no caminho desejado. E a corrigir rumos se necessário.

 

É aprendizado constante, esse.


Até.