segunda-feira, novembro 06, 2006

A Sopa 06/16

De volta à Porto Alegre.

Quando morei em Toronto, sempre que saía da cidade – por via aérea - por qualquer razão que fosse, a volta sempre era interessante. Especialmente nas vezes em que eu ia do aeroporto para casa de táxi. Já falei disso antes, as conversas com os taxistas sempre valiam à pena, quer por serem de uma cultura diferente (indianos, paquistaneses, etc), quer por serem mais velhos e mais experientes do que eu. Vocês sabem, a maioria dos taxistas também é filósofo.

Pois bem, voltei hoje de Fortaleza, onde estive desde quarta-feira passada para um congresso. Acordei às 2h50 (hora local, sem horário de verão) para o transfer das 3h25 do vôo que saui às 5h25, foi até Brasília (aonde chegou às 9h, horário de verão), esperei das 9 às 10h35 quando saiu sem atrasos o vôo direto até Porto Alegre, onde desembarquei às 13h15. Quase uma epopéia.

O congresso foi bom, o congresso foi bom.

Fiz uma imersão na quinta, sexta e sábado assistindo palestras (sem perder os eventos sociais noturnos, claro), além de alguns contatos profissionais promissores para o meu futuro mais ou menos imediato. Tudo ia bem até a madrugada de sexta para sábado, quando fui dormir após o luau na Praia do Futuro e acordei logo após pegar no sono com uma terrível contratura muscular cervical que não me deixou dormir essa noite, não aliviou com uma sessão de massagem e antiinflamatório no sábado e que me fez sair do hotel na noite de sábado, 23h, atrás de uma farmácia ou ambulatório de ortopedia (o que fosse mais próximo). Era a farmácia, onde comprei um relaxante muscular e um spray tipo “Gelol”. Consegui dormir, acordei ainda todo contraído e com dor no domingo, mas mesmo assim fui à praia. Parecia um robô, mas afinal de contas, robôs também são gente... Hoje, contudo, foi bem, a dor melhorou e a viagem até o sul do Brasil foi tranqüila.

Mas eu falava dos taxistas filósofos.

Saí com minha mala do aeroporto e peguei um táxi. Não conversamos, confesso. Foi um monólogo dele. E muito interessante. Começou com o livro que ele está escrevendo “Um cidadão direito num país torto” e foi para o problema do Brasil: “impunidade”. Discorreu ele sobre o problema da colonização brasileira por Portugal e a religião católica, os males, segundo ele, que impedem nosso desenvolvimento. “Uma colônia sempre é um simulacro da matriz, e se esta é ruim, a colônia será pior”. A religião católica porque condena o dinheiro e, com isso, o desenvolvimento e a conseqüente justiça social.

Citou Descartes, adaptando o famoso dito para a situação brasileira, em que o “Penso, logo existo” se transforma em “Penso, logo sofro”. Lamentou não ter deixado o país para morar na Austrália ou Canadá quando teve chance e, autodidata no idioma inglês, comentou que conversando com um cliente citou Lennon e sua música “Working Class Hero”, de 1971, que no Brasil tornara-se “Working Class Zero”.

Falou mais, falou até da família com quem casara, “de antes da revolução industrial inglesa”. De suas filhas e de que é a vez delas, jovens, porque o seu tempo já passou.

Confesso que saí do táxi tonto e reflexivo.

Até.

Um comentário:

Monique disse...

A viagem de taxi deve ter sido mis longa com todo esse monólogo, credo ....