sexta-feira, janeiro 09, 2026

Uma Janela Para o Passado

Sextas-feiras, logo cedo, ainda antes das oito horas da manhã, costumo ter uma visão do meu passado. Acontece quando chego no estacionamento da Santa Casa, sétimo ou oitavo andar.

 

Para ser mais exato, o final dos anos oitenta, na escola técnica de comércio da UFRGS. Atrás da Faculdade de Economia. Centro de Porto Alegre. Anos de formação de identidade, de encontro de turma, e de quando se inicia a necessidade da sensação de pertencimento, necessidade essa que vai me acompanhar ao longo dos anos como parte de quem sou. ‘E quem sou?’, posso me perguntar.

 

Um botador de pilha.

 

Essa autodefinição surgiu ainda no século passado, quando percebi que eu era alguém que gostava de reunir pessoas, organizar, promover, participar de encontros, principalmente entre amigos. Era o cara das turmas, dos churrascos, das longas conversas noite dentro, de quando só éramos vencidos pelo sono, e ‘O mundo é do novo / E o novo dos antigos / O mundo é quem sobrar no fim da noite / Dos amigos’*.

 

Ainda sou esse Marcelo?

 

Sim e não.

 

O tempo passa, mudamos, assim como tudo muda, porque ‘O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando’**.

 

Até.

 

* Produção Urgente, Nei Lisboa, álbum Cena Beatnick, 2001

** Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.