segunda-feira, outubro 05, 2026

A Sopa

Antes que perguntem, a resposta é não.

 

Não houve peixes pescados por mim, apesar de um ter sido fisgado e escapado e outro – grande, supomos – fez a linha estourar, na pescaria em que estive semana passada. Certamente o comentário a ser feito por quem convive comigo é “não sabia que eras pescador”. Pois é.

 

Não sou. Ou não era, ao menos.

 

Depois de muito tempo e uma pandemia, finalmente consegui – por questões logísticas – participar do grupo de pesca que incluiu alguns dos parceiros de hospital, em especial dos que almoçamos juntos ao menos três vezes por semana no restaurante aqui ao lado do hospital. Vinham insistindo que eu fosse junto há bastante tempo e, lá em 2019, havia me programado e iniciado a pagar a pescaria que seria em agosto ou setembro de 2020, mas aí houve o COVID e ficou em suspenso. Esse ano, tudo se encaixou e pude, finalmente, ir.

 

Saímos na terça-feira à noite de ônibus leito e fomos até Esquina, Argentina, às margens do rio Paraná para três dias de pescaria, que acabaram sendo dois porque no sábado choveu (muito) e decidimos – minha dupla de barco e eu – ficar no hotel. Valeu muito, como já disse.

 

Ao final das contas, e sinceramente não racionalizando por não ter pegado nada, pescar – no fundo - era o de menos. O importante era – tema recorrente em meus escritos – a turma, o grupo, o fazer parte, o pertencimento. A convivência no ônibus, as refeições juntos, as histórias, os risos, os vinhos (que nem tomo tanto assim). Os assados (churrasco, outro tema recorrente meu). Também os momentos de silêncio e reflexão no barco, o ruído da água, a quase meditação. As memórias de infância, quando velejávamos e pescávamos e eu era o mais novo junto com meu pai e seus amigos, e lembro das histórias ouvidas à noite em torno da fogueira (‘e aí aproximei meu esqueleto do cadáver dela, e ela toda melosa, toda babosa...’).

 

Voltando ao presente, o companheiro de quarto de barco e de quarto, que foi meu professor, quase com idade para ser meu pai, dividiu comigo esses silêncios, mas também conversamos sobre o passar do tempo, religião, morte, e o que se leva da vida, que são esses momentos, a convivência.

 

Estórias para contar.

 

Até.