Por incrível que pareça para você, fiel leitor, nem todo mundo gosta de mim. Não sou uma unanimidade. Verdade. Entendo sua estupefação. Como alguém pode não gostar de mim, um cara bem humorado, simpático e modesto?
Mas acontece que, e durante algum tempo, quando era mais novo e achava que precisava provar muita coisa para muita gente, eu realmente quis que todo mundo gostasse de mim. Foi duro descobrir que isso é impossível, por diversas razões. Desde as relacionadas a quem sou e o quê quero para mim, até aquelas relacionadas a circunstâncias da vida e às outras pessoas. Nada é nada anormal que pessoas entrem e saiam de nossas vidas.
É um processo de seleção, o que vamos fazendo durante a vida. Encontramos pessoas, as conhecemos, nos conhecemos melhor por interagirmos com elas, nos reconhecemos nos outros. Nem todos estão na mesma sintonia que nós, ou não estão no mesmo barco, seja lá o que isso quer dizer. Procuramos aqueles que são parecidos conosco, com quemnos identificamos. E isso é muito mais marcado quando somos muito jovens, quando estamos formando nossa identidade social, digamos assim, que é a forma que o mundo nos vê e com a qual nos apresentamos.
Para reafirmar nossa própria identidade, procuramos aqueles que se identifiquem com quem somos, ou achamos que somos. É a fase das turmas, dos grupos, todos iguais, músicas iguais, roupas iguais. Lembro do All Star preto, que marcou uma fase. Tudo isso é importante e até fundamental para nos tornarmos adultos, para crescermos.
Chega um momento, porém, que aqui aquilo que somos não muda mais, ao menos não em essência. E chega o dia que percebemos que não podemos (e na verdade não queremos) agradar a todos, fazer todos gostarem de nós. Como toda revelação, não é tão simples, e por mais que alguém diga que foi tranquilo, nunca é. Tem gente que nunca consegue, e passa a vida se preocupando com o que os outros vão pensar. E tomando atitudes em virtude do que os outros vão pensar.
Muitas vezes, para chamar a atenção – pois precisam disso, platéia, circo – criam polêmicas, agridem, tentar chocar os outros e, se e quando conseguem, ficam em estado de êxtase com as reações a suas provocações. Como muitos dos que escrevem em blogs. Criam polêmicas, acirrados debates, dão respostas agressivas quando, no fundo, são apenas crianças pedindo atenção. Eu não dou corda e esses provocadores. Não dou bola, que escrevam o que quiserem. Se eu não gostar, ou ficar ofendido, não leio mais.
Além disso, outro problema é que tem muita gente que se leva muito a sério. Que acha que – por escrever um blog – é mais ou melhor que outros. E que – além de “serem” especiais – se consideram “guardiões” do bem na internet. Vão de um lado a outro da “blogosfera” policiando o que os outros escrevem e/ou pensam. Falta do que fazer.
Eu não me levo tão a sério assim. Escrevo porque gosto e porque sinto necessidade de fazê-lo. O que escrevo é de minha única responsabilidade, e arco com as consequências do que digo e faço. Não preciso provar nada para ninguém, mas devo confessar que – de vez em quando - não consigo não pensar que ser quem eu sou e estar onde estou é uma forma de vingança contra alguns por aí que – além de não gostarem de mim – ainda tentaram puxa o meu tapete.
E não conseguiram.
(falei, falei, e não disse nada, eu sei…)
Crônicas e depoimentos sobre a vida em geral. Antes o exílio; depois, a espera. Agora, o encantamento. A vida, afinal de contas, não é muito mais do que estórias para contar.
sexta-feira, setembro 30, 2005
quinta-feira, setembro 29, 2005
Também por aqui
Após a “blogagem” coletiva discutindo a questão da descriminalização do aborto, voltemos às questões mais profundas.
Os elevadores.
Já escrevi sobre isso, com certeza há mais de um ano, a estranha relação que nós, humanos, temos com elevadores. Por mais absurdo que pareça, nos portamos como se eles tivessem vida própria. Primeiro, pensei que fosse um comportamento típico nosso, brasileiros. Sei lá, algo de terceiro mundo, vai saber.
Mas estava enganado.
Aqui no Canadá é a mesma coisa, mas eventualmente pior. Sério.
Veja o caso dos elevadores da nova ala leste do Toronto Western Hospital. A New East Wing, em cujo sétimo andar fica o Respiratory Research Lab e cuja a sala 455 é a deste que vos escreve, e que tem um poster da Baía de Guanabara no final de tarde, o tom dourado do crepúsculo dando o tom do quadro, tem quatro elevadores. E eles falam.
Sempre, ao abrir a porta em qualquer andar, por exemplo o sexto, além da seta externa que indica se o “veículo” está indo para cima ou para baixo, há uma mensagem que diz ‘sixth floor’ e o sentido da viagem ‘going up' (ou down). Ou seja, informa qual o andar e se sobe ou desce. Impossível de haver dúvidas: há um bip, há seta acende indicando a direção, a porta abre, o elevador diz o andar e que está indo para cima.
Mas sempre tem alguém que pergunta.
Going up?
Já pensei em mil respostas diferentes para a situação, mas nunca disse nada, afinal sou um cara educado. Só que sempre lembro daquela série da revista Mad, “Respostas Cretinas para Perguntas Imbecis”. Era muito engraçada…
Pois é, os elevadores falam. Isso deve acentuar a crença das pessoas de que eles têm vida própria, auto-determinação. Bobagem. Eu não acredito, ele são apenas máquinas.
De qualquer forma, quando chego no meu andar, ao desembarcar, sempre digo um ‘thank you’. Vai saber…
Até.
Os elevadores.
Já escrevi sobre isso, com certeza há mais de um ano, a estranha relação que nós, humanos, temos com elevadores. Por mais absurdo que pareça, nos portamos como se eles tivessem vida própria. Primeiro, pensei que fosse um comportamento típico nosso, brasileiros. Sei lá, algo de terceiro mundo, vai saber.
Mas estava enganado.
Aqui no Canadá é a mesma coisa, mas eventualmente pior. Sério.
Veja o caso dos elevadores da nova ala leste do Toronto Western Hospital. A New East Wing, em cujo sétimo andar fica o Respiratory Research Lab e cuja a sala 455 é a deste que vos escreve, e que tem um poster da Baía de Guanabara no final de tarde, o tom dourado do crepúsculo dando o tom do quadro, tem quatro elevadores. E eles falam.
Sempre, ao abrir a porta em qualquer andar, por exemplo o sexto, além da seta externa que indica se o “veículo” está indo para cima ou para baixo, há uma mensagem que diz ‘sixth floor’ e o sentido da viagem ‘going up' (ou down). Ou seja, informa qual o andar e se sobe ou desce. Impossível de haver dúvidas: há um bip, há seta acende indicando a direção, a porta abre, o elevador diz o andar e que está indo para cima.
Mas sempre tem alguém que pergunta.
Going up?
Já pensei em mil respostas diferentes para a situação, mas nunca disse nada, afinal sou um cara educado. Só que sempre lembro daquela série da revista Mad, “Respostas Cretinas para Perguntas Imbecis”. Era muito engraçada…
Pois é, os elevadores falam. Isso deve acentuar a crença das pessoas de que eles têm vida própria, auto-determinação. Bobagem. Eu não acredito, ele são apenas máquinas.
De qualquer forma, quando chego no meu andar, ao desembarcar, sempre digo um ‘thank you’. Vai saber…
Até.
quarta-feira, setembro 28, 2005
Aborto
Hoje, 28 de Setembro, é mais um Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe, e os blogueiros do grupo blogleft estão puxando mais um movimento Nós na Rede. Assim como no Sete de Setembro, estou me juntando a eles e escrevendo sobre o assunto.
Aborto é uma questão de foro íntimo da mulher.
Essa é a premissa número um do que penso sobre o assunto. Acho que o Estado, a Igreja ou quem quer que seja jamais deveria interferir no assunto. Nunca, sob hipótese nenhuma. Qualquer outra consideração sobre o assunto é criminosa. Simples assim. Não se pode legislar sobre o corpo da mulher, que é o que querem fazer e fazem aqueles que advogam sobre o assunto, que fazem leis que tornam o aborto crime. É pura hipocrisia.
Que fique claro: não sou a favor do aborto. Defendo intransigentemente a liberdade de escolha da mulher (e de quem mais ela quiser envolver na decisão, porque é ela quem vai passar por todo o processo físico - gravidez ou aborto - e por todo o processo emocional). Tenho certeza que NUNCA é uma decisão fácil, nunca é sem traumas. Ninguém precisa do estado ou de religião para acrescentar mais culpa e mais dificuldades ao assunto.
Esse é um lado.
O outro é de que é hipócrita manter a opção do aborto na ilegalidade porque isso acaba apenas impedindo o acesso de quem não tem como pagar particular e que acabam nessas clínicas sem condições mínimas, nem mesmo de higiene, ou fazendo em casa elas mesmas. E muitas morrem, diariamente, enquanto as que têm dinheiro ficam em clínicas com todo o conforto e segurança. Sejamos claros, aborto é ilegal para quem não pode pagar.
O aborto não pode ser crime.
Até.
terça-feira, setembro 27, 2005
Só capim não dá
Após passar os últimos dias pensando no ponto e em suas implicações na evolução do pensamento ocidental, ao ler o que escrevi sobre o assunto, me dei conta que eu tenho uma batalha maior a enfrentar.
Contra os vegetarianos.
Não, nada contra quem não come carne. Cada um na sua. Sem preconceitos, afinal tem gente que tem peixes, outros são webdesigners (brincadeira, Gean, brincadeira…) e tudo bem, somos amigos. Vegetarianos são gente como todos nós, mas…
Não agüento aqueles que ficam apregoando sua “virtude” e tentando convencer os outros a segui-los em seu desvario. Sim, porque aquele papo de que é “natural” é bobagem. Isso mesmo. E não estou aqui tentando convencer ninguém nada. Como eu disse, cada um na sua. Mas se vem com aquele papo de que é mais saudável e bibibi-bobobó, é melhor se preparar e prestar atenção no que eu vou dizer.
Quem só come capim é vaca.
Certo, fui meio radical (nada pessoal, Radi). Deixa eu explicar uma coisa chamada cadeia alimentar. Preciso mesmo? Acho que não. Mas só para acrescentar: lembra aquele papo de herbívoro, carnívoro? Pois é, o ser humano é omnívoro, come de tudo, precisa de tudo. De proteínas, que vem de produtos animais, que vegetariano estrito não come: leite, ovos, carne de gado, galinha, etc. E quando não ingerem proteínas, ficam doentes.
Então esse papo de que ser vegetariano é melhor em termos de saúde é papo para boi dormir, com o perdão do trocadilho infame.
Quer ser vegetariano, tudo bem, não tenho nada a ver com isso. Pode ser por razões religiosas, princípios morais, gosto pessoal, não me importa. Só não vem dizer que carne faz mal. Isso não, por favor.
E, por ser um hábito anormal, não tenta convencer os outros a aderirem a ele.
Até.
(Normal – conceito estatístico, o mais comum)
Contra os vegetarianos.
Não, nada contra quem não come carne. Cada um na sua. Sem preconceitos, afinal tem gente que tem peixes, outros são webdesigners (brincadeira, Gean, brincadeira…) e tudo bem, somos amigos. Vegetarianos são gente como todos nós, mas…
Não agüento aqueles que ficam apregoando sua “virtude” e tentando convencer os outros a segui-los em seu desvario. Sim, porque aquele papo de que é “natural” é bobagem. Isso mesmo. E não estou aqui tentando convencer ninguém nada. Como eu disse, cada um na sua. Mas se vem com aquele papo de que é mais saudável e bibibi-bobobó, é melhor se preparar e prestar atenção no que eu vou dizer.
Quem só come capim é vaca.
Certo, fui meio radical (nada pessoal, Radi). Deixa eu explicar uma coisa chamada cadeia alimentar. Preciso mesmo? Acho que não. Mas só para acrescentar: lembra aquele papo de herbívoro, carnívoro? Pois é, o ser humano é omnívoro, come de tudo, precisa de tudo. De proteínas, que vem de produtos animais, que vegetariano estrito não come: leite, ovos, carne de gado, galinha, etc. E quando não ingerem proteínas, ficam doentes.
Então esse papo de que ser vegetariano é melhor em termos de saúde é papo para boi dormir, com o perdão do trocadilho infame.
Quer ser vegetariano, tudo bem, não tenho nada a ver com isso. Pode ser por razões religiosas, princípios morais, gosto pessoal, não me importa. Só não vem dizer que carne faz mal. Isso não, por favor.
E, por ser um hábito anormal, não tenta convencer os outros a aderirem a ele.
Até.
(Normal – conceito estatístico, o mais comum)
segunda-feira, setembro 26, 2005
O Ponto
Diante de todas as questões existenciais, das muitas encruzilhadas morais com as quais nos defrontamos, daquelas que inquietam a humanidade desde o princípio dos tempos, de todas, a que elegi como a que mais necessita minha atenção e para a qual vou dedicar os próximos anos da minha vida em pesquisas e reflexões, é a mais intrigante delas.
O que é o ponto?
Sim, porque se você nunca se perguntou isso, caro leitor, você tem passado pela vida em branco. Você não pode saber quem você é ou de onde você veio se nunca se perguntou o que é o ponto. E caso tenha se perguntado, o que eu respeitosamente duvido, não chegou à resposta. Até sente que sabe o que é o ponto, mas não tem como defini-lo.
Porque mal passado, ou bem passado, todos sabemos o que é e como é. Mas o ponto, que alguns chamam também médio, apesar de parecer simplesmente estar entre o mal e o bem passado, não é só isso. O ponto é um conceito pessoal, único. O que é o ponto para mim pode não ser para você.
Até porque não é simples questão de gosto pessoal. A definição de como a carne deve vir assada (cozida) é também uma definição de caráter. É mais fácil permanecer no simplismo preto/branco do bem ou mal passado. Não há filosofia ou virtude nos extremos. O mal passado é uma opção primitiva, selvagem. Talvez fosse mais apropriado comer a carne mal passada com as mãos, parti-la com os dentes e mastigar com a boca aberta; sentados no chão, certamente.
Já o bem passado, por outro lado, simboliza exatamente o oposto, e não como virtude: o excesso de civilização, o distanciamento homem da natureza, um medo irracional de doenças e germes. Ou não. Sei lá.
Bem ou mal passado. Simplório, superficial. O mundo não é assim. É muito mais complexo, e profundo e belo, como encontrar o ponto, aquele momento mágico, a carne em sua forma mais perfeita.
E quem disse que um churrasco não tem poesia?
Até.
O que é o ponto?
Sim, porque se você nunca se perguntou isso, caro leitor, você tem passado pela vida em branco. Você não pode saber quem você é ou de onde você veio se nunca se perguntou o que é o ponto. E caso tenha se perguntado, o que eu respeitosamente duvido, não chegou à resposta. Até sente que sabe o que é o ponto, mas não tem como defini-lo.
Porque mal passado, ou bem passado, todos sabemos o que é e como é. Mas o ponto, que alguns chamam também médio, apesar de parecer simplesmente estar entre o mal e o bem passado, não é só isso. O ponto é um conceito pessoal, único. O que é o ponto para mim pode não ser para você.
Até porque não é simples questão de gosto pessoal. A definição de como a carne deve vir assada (cozida) é também uma definição de caráter. É mais fácil permanecer no simplismo preto/branco do bem ou mal passado. Não há filosofia ou virtude nos extremos. O mal passado é uma opção primitiva, selvagem. Talvez fosse mais apropriado comer a carne mal passada com as mãos, parti-la com os dentes e mastigar com a boca aberta; sentados no chão, certamente.
Já o bem passado, por outro lado, simboliza exatamente o oposto, e não como virtude: o excesso de civilização, o distanciamento homem da natureza, um medo irracional de doenças e germes. Ou não. Sei lá.
Bem ou mal passado. Simplório, superficial. O mundo não é assim. É muito mais complexo, e profundo e belo, como encontrar o ponto, aquele momento mágico, a carne em sua forma mais perfeita.
E quem disse que um churrasco não tem poesia?
Até.
domingo, setembro 25, 2005
A Sopa 05/10
Hoje passei por um amigo na rua. Não me reconheceu.
Deve ser pela barba. Ou os óculos escuros. Talvez o chapéu. Ou a barba, os óculos e o chapéu, juntos. Acho que o fato de eu andar olhando para baixo e me esgueirando entre as sombras também tem a ver com isso. Tudo, na verdade, são sinais do que está acontecendo.
Eu estou me escondendo.
Terça-feira eu fui dormir um “cidadão respeitado que ganhava quatro mil cruzeiros” por mês e amanheci quarta-feira um pária, um escroque, parte do submundo (underground, se preferirem). Noite violenta, vocês devem estar imaginando. Que nada, digo eu, não houve nada de diferente, tudo continua igual no mundo, exceto por mim. Eu sou um fora da lei.
Certo, certo, não é bem assim. Eu não sou, assim, um criminoso. Apenas alguém cujo status legal em solo canadense está como pendente. Não fede nem cheira. Não tenho o meu work permit (e o Social Insurance Number, licença médica, posição na universidade, salário, cartão de crédito, etc) porque o meu venceu e – apesar de ter enviado os papéis para a imigração dentro dos prazos legais – eles ainda nem começaram a processá-los.
Se eu, num delírio kafkaniano, tivesse acordado uma barata na manhã de quarta, pelo menos eu saberia o que fazer: fugir de sapatos e chinelos enquanto aguardaria em segurança a hecatombe nuclear que vai acabar com os humanos, esses inconvenientes. Mas não, acordei exatamente como eu havia ido dormir, física e psicologicamente falando, exceto pelo fato de ser um biltre, um renegado da sociedade, um outsider.
E não posso fazer nada, porque está tudo nas mãos da imigração, provavelmente em cima de uma mesa repleta de outros processos iguais aos meus esperando um funcionário ter a boa vontade de olhá-los e passá-los para a seção seguinte, onde vão parar em cima de uma mesa aguardando por um novo funcionário do setor notar que há um erro que o seu colega cometou e que atrasa mais ainda o andamento de tudo. Esperar, tudo que me resta.
O que muda na minha vida? Exceto os disfarces que tenho que usar para burlar a imigração – ah, me vestir de índio não foi uma boa idéia – muito pouco. Talvez hoje, no almoço dos blogueiros lá no Rio 40 Graus, eu seja posto para fora do restaurante por não ser uma pessoa confiável, não sei. Não dá para confiar em nós, ilegais…
Por outro lado, o pior que pode acontecer – com exceção da horda de blogueiros furiosos que podem querer quebrar minhas pernas – é eu ser deportado. Humm… passagem de graça para o Brasil… bom…
Nada de ruim pode acontecer, afinal de contas…
Deve ser pela barba. Ou os óculos escuros. Talvez o chapéu. Ou a barba, os óculos e o chapéu, juntos. Acho que o fato de eu andar olhando para baixo e me esgueirando entre as sombras também tem a ver com isso. Tudo, na verdade, são sinais do que está acontecendo.
Eu estou me escondendo.
Terça-feira eu fui dormir um “cidadão respeitado que ganhava quatro mil cruzeiros” por mês e amanheci quarta-feira um pária, um escroque, parte do submundo (underground, se preferirem). Noite violenta, vocês devem estar imaginando. Que nada, digo eu, não houve nada de diferente, tudo continua igual no mundo, exceto por mim. Eu sou um fora da lei.
Certo, certo, não é bem assim. Eu não sou, assim, um criminoso. Apenas alguém cujo status legal em solo canadense está como pendente. Não fede nem cheira. Não tenho o meu work permit (e o Social Insurance Number, licença médica, posição na universidade, salário, cartão de crédito, etc) porque o meu venceu e – apesar de ter enviado os papéis para a imigração dentro dos prazos legais – eles ainda nem começaram a processá-los.
Se eu, num delírio kafkaniano, tivesse acordado uma barata na manhã de quarta, pelo menos eu saberia o que fazer: fugir de sapatos e chinelos enquanto aguardaria em segurança a hecatombe nuclear que vai acabar com os humanos, esses inconvenientes. Mas não, acordei exatamente como eu havia ido dormir, física e psicologicamente falando, exceto pelo fato de ser um biltre, um renegado da sociedade, um outsider.
E não posso fazer nada, porque está tudo nas mãos da imigração, provavelmente em cima de uma mesa repleta de outros processos iguais aos meus esperando um funcionário ter a boa vontade de olhá-los e passá-los para a seção seguinte, onde vão parar em cima de uma mesa aguardando por um novo funcionário do setor notar que há um erro que o seu colega cometou e que atrasa mais ainda o andamento de tudo. Esperar, tudo que me resta.
O que muda na minha vida? Exceto os disfarces que tenho que usar para burlar a imigração – ah, me vestir de índio não foi uma boa idéia – muito pouco. Talvez hoje, no almoço dos blogueiros lá no Rio 40 Graus, eu seja posto para fora do restaurante por não ser uma pessoa confiável, não sei. Não dá para confiar em nós, ilegais…
Por outro lado, o pior que pode acontecer – com exceção da horda de blogueiros furiosos que podem querer quebrar minhas pernas – é eu ser deportado. Humm… passagem de graça para o Brasil… bom…
Nada de ruim pode acontecer, afinal de contas…
sábado, setembro 24, 2005
Outro
Sábado.
Termina mais uma semana e chega o inevitável sábado. Amanheceu com sol, temperatura de 11ºC – o verão começa a se distanciar na memória – depois nublou e agora o sol brilha novamente lá fora.
Quando faltavam seis meses para reencontrar a Jacque, havia a resignição de que nada adiantava sofrer, a ansiedade não tinha motivo de ser, afinal seis meses de ansiedade iam resultar no máximo na minha cabeça explodindo, eu dentro de um bonde, sangue e partes do meu cérebro espirradas nas pessoas, aquelas faces de horror perante o meu corpo sem cabeça fazendo movimentos aleatórios, apenas reflexos medulares. Ia ser manchete no jornal das onze, podem estar certos. De qualquer forma, não tinha razão, ou sentido, ficar ansioso. Agora é diferente.
Faltam duas semanas, e o tempo se arrasta.
Não é só isso o que se passa por aqui por esses dias, mas prometi que não falaria (amanhã, amanhã).
Falando em amanhã, nada como um pequena pilha posta no momento adequado: tem almoço dos Blogueiros e Simpatizantes no restaurante Rio 40 Graus, na St Clair West. Dia de comer picanha com arroz e feijão. Não falei isso antes, mas tenho restrições ao feijão que fazem aqui em Toronto. Nada pessoal, na verdade, mas acho que colocam um pouco de alho a mais do que o meu paladar prefere. Azar, é feijão.
Amanhã, 1pm.
Bom sábado a todos.
Termina mais uma semana e chega o inevitável sábado. Amanheceu com sol, temperatura de 11ºC – o verão começa a se distanciar na memória – depois nublou e agora o sol brilha novamente lá fora.
Quando faltavam seis meses para reencontrar a Jacque, havia a resignição de que nada adiantava sofrer, a ansiedade não tinha motivo de ser, afinal seis meses de ansiedade iam resultar no máximo na minha cabeça explodindo, eu dentro de um bonde, sangue e partes do meu cérebro espirradas nas pessoas, aquelas faces de horror perante o meu corpo sem cabeça fazendo movimentos aleatórios, apenas reflexos medulares. Ia ser manchete no jornal das onze, podem estar certos. De qualquer forma, não tinha razão, ou sentido, ficar ansioso. Agora é diferente.
Faltam duas semanas, e o tempo se arrasta.
Não é só isso o que se passa por aqui por esses dias, mas prometi que não falaria (amanhã, amanhã).
Falando em amanhã, nada como um pequena pilha posta no momento adequado: tem almoço dos Blogueiros e Simpatizantes no restaurante Rio 40 Graus, na St Clair West. Dia de comer picanha com arroz e feijão. Não falei isso antes, mas tenho restrições ao feijão que fazem aqui em Toronto. Nada pessoal, na verdade, mas acho que colocam um pouco de alho a mais do que o meu paladar prefere. Azar, é feijão.
Amanhã, 1pm.
Bom sábado a todos.
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