quarta-feira, março 18, 2026

Voltei

Dois mil e vinte e seis começou confuso.

 

Começou devagar, mais devagar do seria esperado para um verão de um pneumologista no Sul do Mundo, ao menos para mim, claro. As tradicionais férias de verão do começo de fevereiro, nossa rotina de muitos anos, não aconteceu, ao mesmo tempo em que a Hermione, nossa gata, adoeceu, foi internada, foi para UTI, e – tristeza – não resistiu. Foram dias difíceis, confesso. 

 

Houve um momento em que tive crises de ansiedade, com muitos pensamentos intrusivos e a sensação de todo peso do mundo em minhas costas. Foram poucos dias assim, de sono agitado e despertares de madrugada com fantasmas me rondando. Respirava fundo para tentar voltar à superfície, sair do pântano, da areia movediça imaginária em que estava.

 

Durou uns três dias.

 

Uma noite, saímos -a Jacque e eu – para jantar e contei a ela o que estava sentindo. Que eu sabia que estava ‘preso’ em uma crise imaginária, que não estava conseguindo sair e que a forma pela qual eu usualmente lidava com isso era conversando, era falando, e ela sabia disso. Sempre fora assim comigo, desde que me conheço, ou desde que fiz terapia, no começo dos anos noventa, depois do meu acidente.

 

Foi como tirar com a mão.

 

Jantamos, conversamos, voltamos para casa caminhando. Dormi melhor, acordei tranquilo. A nuvem que pairava sobre minha cabeça se dissipou. Os fantasmas se foram.

 

Voltei.


Até. 

terça-feira, março 17, 2026

Let it Go and Let Them

Nunca fui de guardar rancores.

 

Sempre tive, contudo, uma memória muito boa, e um mantra: “Perdoar é uma coisa, esquecer é outra. Eu não esqueço nada, nunca”. E vivi muito bem (sob minha própria ótica, com toda parcialidade a meu favor) desse jeito.

 

Fui, também, ao longo do tempo, progressivamente deixando de dar importância ao quê e a quem não justificasse ou não merecesse o meu tempo e o meu afeto. Mesmo com recaídas, com energia gasta de maneira desnecessária com assuntos e pessoas que não são, ou tornaram-se não importantes, fui (venho) melhorando nesse aspecto.

 

É um longo caminho, esse, de abrir mão daquilo e de quem abriu mão de ti, de aprender a deixar para lá, a renunciar e seguir a vida, porque essa não espera por ninguém.

 

Até 

segunda-feira, março 16, 2026

Ir e Voltar

 Viajar é – para mim, para mim – sempre uma forma de me reinventar. Clichê dos clichês, nunca voltamos iguais de uma viagem. Não é exatamente isso a que me refiro, mas sim a intencionalmente ser diferente ao completar uma viagem.

 

Como se sumisse por um tempo e voltasse diferente.

 

Não como Robert Johnson, lá nos primeiros anos do século passado, que era um músico medíocre que implorava para tocar no intervalo de outros shows era vaiado e expulso dos lugares, e que sumiu por um ano e meio e, retornar ao convívio das gentes, havia se tornado um exímio músico, de técnica refinadíssima. Por isso, a lenda de que havia feito um pacto com o diabo. O que aconteceu realmente, segundo contam, é que ele passou esse tempo tendo aulas e praticando, muitas vezes em cemitérios, onde era mais calmo. Morreu envenenado por um marido ciumento aos 27 anos. Havia se tornado ele mesmo uma lenda.

 

Não é desse tipo de mudança que falo, mas até que seria bom passar uns dias fora e voltar um músico virtuoso. Quero dizer que os dias de viagem, mesmo que relativamente poucos e intensos em atividades, servem para – com o distanciamento da vida diária – repensar algumas coisas e planejar o que será colocado em prática na volta, em breve.

 

Até.

domingo, março 15, 2026

A Sopa

O caráter circular da vida.

 

Há muitos anos, nem sei precisar quantos, fato incomum para mim, em uma noite em casa, assisti a um filme na televisão, talvez na Sessão de Gala da Globo, chamado ‘O Reencontro’ (The Big Chill, de 1983). Como o nome em português diz, mostra o reencontro de colegas de faculdade após dez anos, para o funeral de um amigo em comum. Não lembro detalhes do filme, mas uma música da trilha sonora foi impactante para mim, se tornando uma das músicas da minha vida.

 

The Weight.

 

Lançada em 1968, esse clássico da The Band foi também parte da trilha sonora de Easy Rider (Sem Destino), clássico do cinema de 1969. Está em 41º lugar na lista da 500 Melhores Canções de Todos os Tempos, de 2004 da revista Rolling Stone. Está entre – para mim, para mim – as, talvez, dez melhores, mesmo sabendo que esse é um ranking impossível.

 

Desde que a ouvi pela primeira vez, no final dos anos oitenta ou meados dos noventa, em um época em que o acesso à música não era fácil como hoje, sempre que tocava no rádio era uma emoção, confesso. Anos mais tarde, comprei um CD duplo da The Band por causa dessa música.

 

Quando, então, há três anos, iniciamos uma temporada de Southern Rock na School of Rock Benjamin, fiquei muito feliz por saber que essa música estava no repertório que tocaríamos, o que se tornou frustração por descobrir que não estaria no elenco que a tocaria, e depois virou insistência para aprendê-la e tocá-la, mesmo que originalmente ela não estivesse no meu repertório.

 

Consegui, e foi um momento mágico para mim, uma volta de – sei lá – quase quarenta anos entre eu a ouvir pela primeira vez e tocá-la em show. Foi um círculo completo de vida.

 

Atualmente, ao começarmos uma nova temporada, percebi que vai acontecer de novo, outro circulo vai se completar com outra música, de outro tempo e outras histórias, outros simbolismos.

 

Outro dia conto, outro dia conto.

 

Até. 

sábado, março 14, 2026

Sábado (e sobre um show...)

Domingo, 08/03...*


Foi nosso show de temporada.
Foi bonito e estava muito legal.

Bom final de semana a todos.

Até.

* Photo by Ze Carlos de Andrade
 

sexta-feira, março 13, 2026

Uma Dúvida

Falando da vida em geral, aquela do dia a dia, em que estamos em contato com diferentes ambientes e diferentes pessoas, algumas vezes me pergunto sobre onde traçar a linha demarcatória, sobre onde colocar um limite. E falo aqui da fronteira civilizatória (exagero, eu sei).

 

Respeito.

 

Em que momento, ou situações, em que devemos – independente de potenciais consequências – dar um basta, não permitir que sejamos desrespeitados? Claro que esse é um conceito muito pessoal. Somos nós quem definimos esses limites, e cada um tem o seu.

 

Meus limites vêm se tornando cada vez menores, cada vez tolero menos aquilo que considero desrespeitoso. Melhor dizendo, a linha está cada vez mais clara.

 

É só não cruzá-la que tudo fica bem.

 

Até.


OBS – não, isso não é um recado ou indireta a ninguém... 

quinta-feira, março 12, 2026

Eu falo, e Escrevo

Se você não se importa, se está tranquilo com isso, consegue conviver sem maiores problemas, tudo bem. Eu me importo, e – mais – me irrito com o fato.

 

Comunicação.

 

Um dos pilares da vida em sociedade é a comunicação entre as pessoas, a forma com a qual interagimos. É fundamental em todos os aspectos. Dependemos da comunicação para nossa sobrevivência, em todos os níveis. E, para nos comunicarmos bem, precisamos – antes de tudo – estarmos dispostos a isso.

 

A primeira premissa é ouvir o que o teu interlocutor tem a dizer. Deixar o outro falar, e ouvir para entender, para ponderar, e não para responder, para retrucar. Isso é cada vez mais difícil e raro nesses tempos de verdades absolutas, posicionamentos políticos radicais e falsos moralismos. A opinião do outro é tomada como uma agressão a quem ouve, não se tolera o contraditório, o diferente.

 

Não se aceita o pensar, o que é triste e desanimador.

 

Mas não era nem isso o que eu queria falar.

 

O que me irrita mesmo é a escrita ruim.

 

Quem, por desconhecimento (ausência de letramento) ou desleixo, escreve mal. Pontuação, concordâncias nominal ou verbal, acentuação, abreviaturas. Não se respeita mais nada mesmo. A língua falada é diferente da escrita, devemos lembrar sempre. Podem achar que não, mas faz diferença saber escrever. Espero que faça, ou pelo menos deveria fazer.


Até. 

quarta-feira, março 11, 2026

Sobre Ser Feliz

Felicidade.

 

Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro, diz a canção, lançada em 2004 no álbum ‘Paraquedas do Coração’ do Wander Wildner. Um dos, podemos dizer, clássicos do rock gaúcho. Não consigo estar feliz o tempo todo, e talvez realmente não devesse, assim como você.

 

Aliás, ninguém quer isso, por mais que esse seja um ‘objetivo’ do mundo moderno. Assim como ninguém gostaria de viver em um local onde o tempo, no sentido meteorológico, fosse sempre o mesmo, sem variações, sem oscilações. Em um estado permanente de felicidade, a vida perderia a graça.

 

Porque estar feliz não é um condição por isso só, não existe em si mesma. Estava lendo esses dias sobre isso. É a comparação com algo, com um estado anterior próprio, ou uma situação e/ou uma sensação prévia que não era tão boa. É essa variação, de um estado de menos para mais energia, o que dá a sensação que chamamos de felicidade.

 

É a diferença entre um momento que não é como queremos, ou desejamos, com um em que nos sentimos em sintonia com o Universo, em que nos sentimos parte, pertencemos. Uma vida sem essas variações não tem graça, podemos dizer.

 

E é uma forma de também aceitarmos aquilo que acontece conosco e que não temos controle. 

 

Até.

 

terça-feira, março 10, 2026

Entre Temporadas

Domingo foi o show de temporada da School of Rock Benjamin, no Sgt. Peppers. Foi um dia longo e especial, como são todos quando temos shows. Muitas pessoas, correria, encontros, música. É também o que faz valer à pena.

 

Ontem, segunda-feira, ao menos para mim, foi o dia entre temporadas, como diz o título desse texto. Terminou a temporada de Latin Rock, hoje começa a próxima. 

 

Foi um dia, então, basicamente de silêncio. 

 

A rotina normal, mais cansado, não consegui fazer a atividade física regular das segundas-feiras. Paciência, eventualmente acontece. Hoje já me sinto mais em condições...

 

O final do dia de ontem foi – como toda segunda-feira – de dar carona de ida e volta para a Marina, Ana e Theo em seu curso de teatro musical. Ao ir buscá-los, perto das 21h, dirigi ouvindo Tom Jobim ‘Inédito’ uma coletânea de 2007, com algumas das suas principais canções. Noite, pelas ruas de Porto Alegre e, entre outras, ‘Samba do Avião’ e ‘Retrato em Petro e Branco’. 

 

Foi bom, foi bom.

 

Hoje, começa tudo de novo.

 

Até.

segunda-feira, março 09, 2026

Mais Um


 

Começo de semana lento após uma noite de pouco sono.

 

Mais um show de temporada, mais um uma vez no palco, ainda a mesma satisfação e realização. Esses momentos servem para reafirmar a permanência no caminho certo, aquele que escolhi também percorrer.

 

Já escrevi e ainda vou escrever sobre isso.

 

Agora não, porque ainda estou cansado da noite pouco dormida.

 

Até.

domingo, março 08, 2026

A Sopa

Dirijo por Porto Alegre às três horas da manhã, buscando a Marina e uma amiga em festa e – antes de voltar – deixar essa amiga em sua casa. Quase não falo, e torço para que não falem no carro pois, apesar de acordado, não quero ficar acordado a ponto de ter dificuldade de dormir quando voltar para casa.

 

Não funciona.

 

Ao me deitar novamente com a intenção de logo dormir, não consigo. Ausência de sono, apenas.  Sem pensamentos intrusivos, sem ansiedade. Talvez com fome, apesar de estar sem dor de cabeça (já falei isso, sempre que tenho dor de cabeça acho que é fome). Três e pouco da manhã e sem sono. Vou dormir em breve, sei, mas se não fizer nada naquele momento, o meu domingo estará comprometido.

 

Já está, afinal de contas.

 

Está estabelecido que não vou pedalar logo cedo para não correr o risco de estar cansado e me colocar em risco. É o momento em que decido tomar um remédio para induzir o sono. Durmo até por volta das oito horas.

 

Acordo lentamente, e começo o domingo, que será longo.

 

É dia de show. 

 

Sgt. Peppers Pub. Tudo começa às 17h. Mais um show de temporada, o meu décimo primeiro desde 2022, se não engano. É sempre uma experiência memorável, essa de estar no palco, entre amigos, em comunidade. É o espírito que me fez mergulhar de cabeça e me tornar inclusive sócio da School. É o pertencer, o fazer parte.

 

E isso não tem preço.


Até. 

sábado, março 07, 2026

Sábado (e ainda mais estudo)

 

Continua não sendo bossa nova



Amanhã, no Sgt Pepper's.

Vai ser bem legal, mais uma vez.

Bom sábado a todos.

Até.

sexta-feira, março 06, 2026

Quando Nos Tornamos Quem Somos?

Quando foi que você parou de fazer coisas para provar algo aos outros? Ou para parecer ser algo ou alguém? E para ser aceito?

 

Sempre gostei o trecho da música da Legião Urbana que diz “quantas chances desperdicei / quando o que eu mais queria / era provar para todo mundo, que eu não precisava provar nada para ninguém”. É mais ou menos isso: durante um bom tempo em nossas vidas, nosso comportamento é consciente ou inconscientemente moldado para a aceitação do grupo do qual fazemos ou queremos fazer parte. Para que possamos pertencer a algo maior que nós.

 

Até o dia em que decidimos ser ‘apenas’ o que realmente somos. É libertador assim como assustador. É um processo mais ou menos longo, é um caminho que devemos percorrer por nós mesmos, esse do autoconhecimento. 

 

Vale a caminhada.


Até. 

quinta-feira, março 05, 2026

Como dormem?

Tenho por princípio fundamental do meu modo de vida o respeito às pessoas e à lei. Se cada um vivesse dessa mesma forma, tudo seria bem mais tranquilo, mas essa não é uma discussão que eu acho que deve iniciar agora.

 

O que (não) me surpreende, na verdade, é o fato de existirem pessoas por aí que insistem em seguir suas vidas, e falo em termos pessoais e de atividades profissionais, à margem da lei, sem estarem em dia com as obrigações mínimas necessárias para isso. Grandes devedores, de impostos ou não, por exemplo, que – consciente e voluntariamente - deixam de honrar seus compromissos.

 

Pessoas que dirigem sob efeito de álcool. Ou que tratam de maneira indelicada pessoas que as servem.

 

Isso é a ausência de superego? Ou desvio de caráter? Como conseguem dormir?

 

Não sou ingênuo a ponto de ficar realmente surpreso com isso, com esse tipo de comportamento. Só acho que esses têm de ser expostos em sua hipocrisia. Todos têm de saber quem são para poder evitá-los, manter distância.

 

Até.

quarta-feira, março 04, 2026

Violência

Dizem que a masculinidade está em crise. 

Falem por vocês, eu estou bem tranquilo aqui no meu canto. 


Não incomodo ninguém, e não quero que me incomodem. Observo o que acontece pelo mundo, observo as pessoas. Confesso que algumas vezes me irrito com os exageros de uma lado e outro, quando ninguém está certo.

 

Não acredito que piadas possam ofender as pessoas. Para mim, não faz sentido isso. Se minhas convicções são fortes, não há piada que vá abalar isso. Posso não gostar, é meu direito, mas não posso me ofender e muito menos querer restringir o direito de quem quer que seja de fazê-la.

 

Sou casado há trinta anos (em agosto, em agosto) e pai de menina. Sou ‘minoria’ em casa, e está tudo bem. Aprendo todos os dias com elas. Só melhora.

 

Por isso, por essa minha experiência doméstica, que não entendo, não aceito e não tolero violência contra a mulher. Por isso que os feminicídios são (ainda mais) revoltantes. 

 

E voltamos à masculinidade em crise. A (necessária, óbvia) autonomia feminina, a perda da ‘força masculina’, o fato de o homem não ser mais necessariamente o provedor, a insegurança criada a partir disso, tudo isso leva, ou pode levar, ao que chamam de masculinidade tóxica, em que a violência é uma forma (abjeta) de autoafirmação.

 

O maior loser é o cara que – ao final de um relacionamento – parte para a violência. O ser mais desprezível é o que comete violência contra a mulher.

 

Para esse, não há perdão.


Até.

terça-feira, março 03, 2026

O Que Ouvimos

Estudos científicos evidenciam que nosso gosto musical, apesar de evoluir ao longo dos anos, basicamente é formado com o que ouvimos entre os doze e os vinte e dois anos de idade. São essas músicas que serão nossas preferidas ao longo de toda vida, por algumas interessantes razões.

 

Em primeiro lugar, é uma fase de alta plasticidade do cérebro, ainda em formação, absorve muito, e quando as emoções são intensas. Associamos, então, aquilo que ouvimos a alguns momentos marcantes de nosso desenvolvimento pessoal. Eventos que, nesse período da vida, potencialmente viram grandes histórias. O ouvir música, nessa fase da vida, está associado a uma grande liberação de dopamina, o que ajuda a fixar essas memórias permanentemente. 

 

É o que nos faz lembrar e cantar músicas muito antigas como se ainda as ouvíssemos diariamente, as “desencavamos” do fundo de nosso baú de lembranças, de memórias. Não só isso, e aí falo de mim, de algo que ocorre comigo de maneira muito intensa, que é a nítida sensação de voltar no tempo e estar vivendo o(s) momento(s) em que determinada música esteve presente de forma importante na minha vida. Uma máquina do tempo, que ainda hoje me impressiona e fascina.

 

Também a música como identidade pessoal e como forma de identificação e aceitação em grupos de convívio. Nosso gosto musical também é moldado pelos nossos grupos de convívio, grupos dos quais fazemos parte. Se, por um lado, a música serve para afirmarmos nossa individualidade, ela serve da mesma forma para (nos) reconhecermos (n)os iguais. É uma forma de agregar, aglutinar os semelhantes (em gosto musical, ao menos).

 

O gosto musical, então, desenvolvido nesses anos de formação, é de extrema importância, porque define muitas nossas relações sociais e locais de convívio. Uma música errada ouvida nessa época da vida pode determinar um futuro não promissor. Por isso que – minha opinião - temos que cuidar aquilo que apresentamos a nossos filhos, aquilo que ouvimos em casa.

 

O futuro deles também depende disso.


Até.   

segunda-feira, março 02, 2026

Excessos

Excesso de futuro.

 

Entre as definições de ansiedade, essa é mais uma, e – provavelmente como quase todas – está, de uma forma ou outra, correta. Quando passamos muito tempo preocupados com o que vai acontecer, com a incerteza dos desfechos para o que vivemos agora, deixamos de viver o agora. O sofrimento gerado por um futuro (im)provável nos priva o presente.

 

Da mesma forma, diz-se que o excesso de passado, com o foco em culpas, mágoas e arrependimentos é sinal de depressão. Seria um outra forma de ‘fugir’ ou não conseguir viver o presente. Ambos seriam, então, fugas da realidade com consequências ruins para quem vive essas condições. Penso que se é para fugir da realidade, que ao menos seja divertido...

 

Quem me conhece um pouco (não muito) mais profundamente sabe, afinal aparentemente está ‘na cara’, que em mim o pêndulo tende para o lado do excesso de futuro, ou a preocupação com o mesmo, ansiedade. De tempos em tempos, sou ‘atacado’ por pensamentos intrusivos que, se antes não acontecia, recentemente me fizeram despertar (ainda) mais cedo do que o costume algumas vezes.

 

Aprendi a identificar esses episódios, a natureza irracional deles, e o antídoto a esses momentos. Torno os pensamentos racionais, até os verbalizo para que soem o que são, irreais e sem sentido. Tem funcionado, até o próximo episódio em que tenho que fazer o mesmo trabalho mental para ‘voltar aos eixos’.

 

E assim vamos.

 

Até.

domingo, março 01, 2026

A Sopa

Daquela noite em diante.


Quando olhamos para trás, em busca de entender a forma pela qual chegamos aonde estamos e como nos tornamos quem somos, nem sempre é possível identificar um momento único que resultou em uma grande mudança na vida, uma grande mudança em nós. Principalmente porque essas mudanças que ocorrem usualmente ocorrem de forma gradual, de início pequenas e – como juros compostos ou mesmo uma avalanche – resultarão com o passar do tempo em grandes alterações.

 

Eventualmente, claro, conseguimos identificar um ponto de virada ou outro, mesmo que não tenhamos como quantificar o tamanho do impacto do que está acontecendo em tempo real, à medida vivemos esse momento. Quase sempre será em retrospectiva, e encaixaremos os eventos na narrativa que vamos contar, na estória que interessa.

 

Já falei disso, como quando ler um jornal em uma manhã do ano de 1985 me levou a ir fazer minha primeira carteira de identidade para a inscrição do teste de seleção da Escola Técnica de Comércio da UFRGS, curso Operador de Computador, ainda antes da Internet no Brasil, o que me fez conhecer pessoas e que moldou minha forma de ver o mundo. Ou quando sonhei com a Jacque justamente na noite em que havia reatado um outro relacionamento e tínhamos ido para a praia para o carnaval, e acordei no meio da noite e pensei que nunca teria uma chance com ela, a Jacque, com quem nunca tivera nada, e o relacionamento que eu havia retomado acabou no dia seguinte, não porque eu tenha feito algo, mas porque não era para ser e ela (com quem eu tinha reatado) sabia disso, e o caminho ficou livre para eu perguntar para a Jacque, há trinta e um anos, porque ela brincava comigo e ela responder que não era brincadeira, e  tudo é história desde então.

 

Como eu disse, o tempo, quando olhado em retrospectiva, passa rápido e se encaixa em nossa narrativa.

 

Em fevereiro de 2022, em meio à pandemia, já tendo passado sua pior fase, tiramos férias e fomos para o Uruguai em família. Seis em um carro, Karina, Gabriel, Roberta, Marina, Jacque e eu. Eu dirigindo e definindo a trilha sonora, afinal ‘meu carro, minhas regras’. 

 

Comecei a viagem no modo grumpy, como de costume. 

 

Pandemia, tempo sem férias, a saúde do meu pai que não era das melhores naquele momento (morreria em julho daquele ano, infelizmente) eram alguns do fatores que contribuíam para isso. Acontece que as coisas mudaram durante a viagem. Relaxei, me soltei, aproveitei a viagem como poucas vezes fizera na vida, admito. Leve, sorridente, em paz.

 

Foi assim que voltei, e foi assim que fui para ver a Marina fazer show na praia naquele sábado à noite. Litoral norte gaúcho. Chegamos na praia no meio da tarde, e estivemos acompanhando desde a montagem do equipamento até a passagem de som. Um violão passou por minhas mãos, brinquei com ele um pouco.

 

Assistimos (a Jacque e eu) ao show, que foi bem legal. Um clima familiar, de comunidade e mais importante de tudo, de pertencimento. Me senti em casa e acolhido. Em determinado momento, olhei para a Jacque e disse que aquilo era o que eu queria para mim. Era o ambiente onde eu queria estar.

 

Não tinha ideia da magnitude da mudança que viria a partir dali, do quanto eu mudaria a vida a partir daquele momento. Lugares, pessoas, relações. A música como uma constante nos meus dias.

 

Como em toda decisão que tomamos, temos de viver com suas consequências. Perdemos aqui e ali, enquanto ‘ganhamos’ em alguns aspectos. Pessoas chegam e pessoas saem, tudo normal. 

 

A conta final, a ‘fatura do cartão’, essa virá em algum momento, e sempre esperamos que seja positiva para nós. Faremos, com certeza, que ela seja, ou ao menos pareça, coerente como a narrativa que escrevemos de nossa vida. É assim, sempre foi assim.

 

Está sendo assim.

 

Mesmo que eu não soubesse o tamanho do que aconteceria, os caminhos que eu percorreria a partir dali, eu sabia que tudo seria diferente daquela noite na praia em diante, quando eu percebi que era aquilo que eu queria para mim.


Até.