Crônicas e depoimentos sobre a vida em geral.
Antes o exílio; depois, a espera. Agora, o encantamento.
A vida, afinal de contas, não é muito mais do que estórias para contar.
O propósito era resolver os (imaginava) pequenos entraves burocráticos no dia da chegada e aproveitar o final de semana para procurar um apartamento para morar. Tudo planejado, nada funcionou como o esperado.
Após fazer o checkin no hostel onde eu ficaria hospedado durante a primeira semana no Canadá, na verdade um dormitório da U of T que era usado como albergue nas férias de verão, deixei minha "mudança" no quarto e fui para o hospital procurar o meu orientador e mentor da minha ida ao Canadá, Noé Zamel, gaúcho radicado em Toronto há quase (na epóca) quarenta anos. Fui direto ao Mont Sinai Hospital e - depois de perguntar a algumas pessoas - o encontrei.
Foi extremamente receptivo, me abraçou disse que após um longa espera (outra história) finalmente eu chegara, e disse que me levaria ao meu cicerone nos primeiros dias no Canadá, outro fellow, de nome Carlos, colombiano. Atravessamos a University Avenue para ir até o Toronto General Hospital, onde ficava o Respiratory Research Lab (onde eu trabalharia) para eu conhecê-lo e poder dar início ao desembaraço das coisas burocráticas. Chegando lá, a notícia. Ele estava de folga, em viagem, e só voltava na segunda-feira: eu não poderia fazer nada antes de depois do final de semana.
O Zamel disse que tudo bem, segunda-feira faríamos o que deveria ser feito.
(antes disso, nada)
Todo o meu plano fora por água abaixo. Às 10h da manhã do dia da chegada me despedi dele e fiquei sem nada a fazer por todo o final de semana.
Fui, no sábado, conhecer um pouco da cidade onde moraria pelos próximos dois anos.
Exatamente em 20 de agosto de 2004, há uma década, chegava em Toronto para ficar por um período que poderia ser de até três anos, e que acabou sendo de dois. O início não foi simples, longe de todos (já escrevi sobre isso, a sensação de estar sem referências, sozinho, como se invisível).
Mas foi uma fase muito proveitosa, como experiência de vida e - claro - profissionalmente.
Foi o grande impulso profissional.
Fiz amigos que são para sempre, vi que poderia viver em qualquer lugar do mundo, mas gosto de onde estão minhas raízes.
Foi muito bom e importante, e mudou o rumo de muitas coisas.
Ao fundo, a CN Tower. Foto tirada do quarto do New College Residence, onde fiquei durante a primeira semana da minha temporada canadense. O dia 22/08/2004 caiu num domingo, e foi o dia em que visitei a The Canadian National Exhibition, a The EX.
Eu podia não saber o que estava fazendo, mas estava certo.
Explico.
Em 30 de junho de 2006, deixei Toronto - onde morava desde a metade de 2004 - de volta para o Brasil. Antes de embarcar, um momento de estresse no checkin da Air Canada: além de embarcar todas as minhas coisas (e obviamente pagar excesso de bagagem por isso), eu estava levando comigo o meu velho violão de guerra (que havia sido da minha mãe e eu havia "confiscado" quando comecei a brincar de tocar). Como havia trazido comigo como bagagem de mão, era óbvio que ele iria voltar comigo da mesma maneira.
Mas não era essa a idéia do funcionário da Air Canada que me atendia.
Segundo o cidadão, eu deveria despachar como bagagem e pagar por isso (mais excesso ainda). Argumentei que sob hipótese nenhuma eu despacharia o meu violão. Então que eu o deixasse no Canadá, porque não poderia ir comigo, contra-argumentava o funcionário. Claramente não estávamos nos entendendo. O problema não era o idioma, afinal eu já dominava bem o inglês depois do tempo que morava lá. Devia ser alguma outra coisa. Enquanto isso, o debate continuava:
- O senhor não pode embarcar com ele.
- A Air Canada permitiu que eu trouxesse como bagagem de mão, e vai permitir que eu o leve de volta.
- Não é permitido.
- Não me interessa, o problema é de vocês.
E por aí foi até que "joguei sujo":
- Faz o seguinte: chama o teu superior.
Funcionou, afinal de contas. O supervisor disse que, como não estava levando o violão num daqueles estojos rígidos, eu poderia levá-lo comigo. Terminou tudo bem.
Mesma sorte não teve o músico (de verdade) Dave Carrol, que numa viagem de Halifax com conexão em Chicago teve seu instrumento quebrado. Solicitou reembolso pelo conserto, o que foi negado pela United Airlines. Então escreveu uma música sobre o episódio.
TORONTO - No inicio nao oficial do verao no Canada, o Victoria Day, primeiro feriadao apos o inverno, a temperatura hoje cedo era de quatro graus centigrados.
E depois nao querem que o pessoal pense que no Canada eh sempre inverno...