segunda-feira, março 21, 2022

Perdiditos en Uruguay (31)

A Viagem, décimo primeiro dia.

 

O começo da volta.

 

Após sairmos de Porto Alegre no dia 30 de janeiro ainda sem sabermos como resolveríamos a situação do PCR da Marina, e toda “confusão” gerada antes de entrarmos no Uruguai, passando pela estada em Punta del Diablo com a parrilla e a orelha furada do Gabriel, que acabou nunca sendo preso, banho de mar em Paloma que quase me matou de frio, os dias de Punta del Este com os dois quilômetros mais longos da história, o golpe do milk-shake em Piriápolis, o longo final de semana em Montevideo, uma grata – para mim – surpresa, a viagem para o passado que foi visitar San Jose de Mayo,  Colônia del Sacramento confirmando tudo o que haviam nos dito de bom de lá, e o piquenique em Carmelo, era hora de retornar em direção ao Brasil.  


Quando planejamos a viagem, a ideia era tentar não fazer na volta o mesmo trajeto da ida, só que em direção contrária. Para ser honesto, havíamos – quando das reservas – marcado os lugares até Colônia. A volta seria em três etapas: a primeira, de Colônia até um ponto no meio do caminho para o Brasil; a segunda, deste ponto até São Lourenço do Sul; e a última até Porto Alegre, aonde chegaríamos na sexta-feira, dia onze de fevereiro. Teríamos ainda o final semana para nos reorganizar para a volta ao trabalho na segunda-feira dia 14/02. 

 

Quem acabou escolhendo o ponto de parada após Colônia e antes de São Lourenço foi a Roberta, que pesquisou e encontrou um hotel que seria legal ficar, e então viu a localidade. Reservou o que nos pareceu ser um lugar bem legal, meio isolado, com um céu noturno cheio de estrelas devido à pouca luz de casas e cidades próximas.

 

O céu noturno me fascina, tanto ou até mais que as montanhas, pelas quais tenho uma atração quase irresistível. Algumas de minhas melhores lembranças de viagens são com cenários de montanhas, como nos Alpes ou nas Rochosas Canadenses, por exemplo. O Natal que passamos “na neve”, há mais de vinte anos, foi justamente nos Alpes Italianos. Aliás, durante a nossa viagem ao Uruguai completaram-se vinte anos da viagem que a Jacque e eu fizemos chamada ‘Alpes e Lagos’, como até já contei anteriormente.


Rochosas Canadenses, Banff, 2013
 

Quanto ao céu noturno, a descoberta do conceito/ideia de que estamos olhando para o passado, pois algumas das estrelas que vemos estão há milhares anos-luz daqui e podem nem mais existir, foi daquelas que mudaram minha forma de ver o mundo. Lembro, também, da época em que era bem mais novo, nas noites de verão quando víamos no céu noturno do litoral norte do Rio Grande do Sul milhares de estrelas, e era possível identificar a Via Láctea e sua beleza também me fascinava. Depois perdemos essa possibilidade, ou paramos de olhar para o céu, não sei a certo.

 

Em 2017, quando fizemos uma escapada de cinco dias durante a férias escolares de julho (eu trabalhava numa multinacional, mas aproveitei uma semana calma, e em comum acordo com minha gestora, tirei esses dias de folga) e fomos para Praia Grande, em Santa Catarina, conhecida como a cidade dos cânions devido à proximidade com os cânions na fronteira como Rio Grande do Sul, como o Itaimbezinho. Ficamos numa pousada sensacional, e em uma das noites fomos premiados por um céu límpido, de lua nova, com milhões de estrelas. Ficamos deitados na grama em frente nossa cabana, encantados com a visão – de certa forma – do Universo.  

 

                                

O céu noturno, Praia Grande/SC


O local que a Roberta escolheu foi em Villa Serrana, a cerca de 300km de Colônia del Sacramento. Mesón de las Cañas, o nome do hotel, que exigiu um depósito em dinheiro para confirmação da reserva, pois não trabalha com cartão de crédito. Fizemos o depósito já de dentro do Uruguai, quando estávamos em Punta del Este.

 

Villa Serrana fica no Departamento de Lavalleja, a poucos quilômetros da capital, Minas. Foi fundado em 1971 para ser um ponto turístico, de férias e descanso, entre os vales dos arroios Penitente e Marmarajá e tem cerca de 80 habitantes fixos. Até onde vimos, não há uma cidade (ou não a encontramos...). 

 

                                               

Meson de las Canãs

Ainda em Colônia, após o simpático e saboroso café da manhã, organizamos as coisas, fizemos o checkout, carregamos o carro e, na saída de Colônia, paramos num shopping para comprar lanches para a viagem, que durou cerca de cinco horas, com uma parada para lanche (além das paradas para rodízio de lugares) em San Jose de Mayo, em um posto de gasolina com uma loja de conveniência com ótimas empanadas. Estávamos indo para o final das férias, e o mundo real começava a reaparecer depois de vários dias. Eu, por exemplo, já combinava um churrasco com amigos para a semana seguinte, quando já estaríamos de volta.


A piscina
 

O Mesón de las Cañas foi, de certa forma, como esperávamos: um lugar muito legal encravado no meio do verde, isolado. A área social do hotel, com restaurante, uma grande parrilla ao ar livre, sala de estar com lareira, a área da piscina, tudo muito legal. Com relação ao quarto, pegamos um tipo cabana, com um quarto de casal, sofá-cama na sala, e outras seis camas num mezanino ao qual se acessava por uma escadinha íngreme e tinha, ele próprio, um pé direito baixo (quem dormisse na parte de cima teria que ficar abaixado ou deitado). Achei legal, mas eu ficaria no quarto de casal. O resto do grupo, contudo, não curtiu a ideia, e acabaram todos dormindo na sala embaixo.

 

Excetuando-se a questão do quarto/cabana, o lugar era espetacular. Fomos para a área da piscina, aproveitar um pouco do sol. Eu, por ter sido um dia de estrada, acabei me exercitando na piscina (caminhando dentro) por cerca de 40 minutos, para atingir minhas metas diárias de exercício e movimento.

 

Ao cair do sol, fomos para a área social, onde – antes de jantar ali mesmo – fizemos um happy hour bem divertido. Dali, só mudamos de lugar para as mesas do restaurante e tivemos mais um ótimo jantar, regado a vinho e cerveja e licuado para a Marina.

 

                               

Happy hour


Após jantar, fomos para a rua olhar as estrelas, que não estavam tão visíveis por a luz da lua ofuscava um pouco. Ainda assim, fiz ótimas fotos. Antes de ir dormir, ainda fizemos um “ritual” de despedida ali, na rua, no escuro, mas registrado em vídeo (eu não posso divulgar): cantamos – juntos – e dançamos, em círculo, o hino da viagem: “Ai, ai, ai, roubaram meu fhrüstick”...


                    

 

Eles voltaram para o quarto e eu ainda fiquei um pouco mais fotografando a noite. Voltei e fomos dormir, porque o dia seguinte seria de estrada e terminaríamos no Brasil, mais especificamente em São Lourenço do Sul. Tudo continuava bem.

 

O que eu não sabia era que encontraria o dementador da água na madrugada de Villa Serrana.   

 

Até. 

domingo, março 20, 2022

A Sopa (Los Perdiditos 30)

A Viagem, décimo dia.

 

Colônia del Sacramento.

 

Preciso falar sobre fotografia.

 

Antes de mais nada, fotografia está no sangue da família. Desde a infância, quando lembro de um dos meus tios que fotografava e tinha um laboratório de revelação que ficava na garagem da casa dos meus avós, até o meu irmão, que é fotógrafo e mora nos Estados Unidos, a fotografia sempre – de alguma maneira – esteve meio que por nossa volta.

 

Quando viajamos as primeiras vezes juntos, a Jacque e eu, o que tínhamos era uma dessas máquinas fotográficas Canon analógicas, com filmes – evidentemente – e que usamos por um bom tempo. Voltávamos de cada viagem com um número variável de filmes para revelação e, sim, era como viajar novamente ver as fotos reveladas e fazer o álbum de viagem. Uma vez, deixei o carro aberto (inadvertidamente) num estacionamento na Suiça e, ao perceber o ocorrido, o esquecimento, a minha maior preocupação foi o risco de roubaram a bolsa com todos os filmes a serem revelados. Não roubaram nada, claro, estávamos na Suiça...


A primeira câmera digital que comprei veio da B&H, loja de Nova York. Naquela época comprávamos por telefone e entregavam em casa em poucos dias, o imposto incluído. Era 2002, ainda antes da Amazon e outros companhias do gênero. Era uma Nikon Coolpix 995, uma boa câmera que durou até 2006, quando – morando no Canadá – deixei cair e quebrou, infelizmente. Foi aí que resolvi dar um “salto de qualidade”, digamos assim.

 

                                              

Nikon Coolpix 995


Quando fui comprar uma câmera nova, entre outros quesitos, uma que fizesse “som de máquina fotográfica” ... Que fosse um pouco menos automática (mas não muito menos), que me desse possibilidade de trocar a lente, que fosse – digamos assim – um pouco mais profissional. Quis uma câmera SLR (single lens reflex). Escolhi, com a ajuda do meu irmão, uma semiprofissional, uma Nikon D50. Se por um lado foi um upgrade, por outro tornou um pouco mais “difícil” fazer as fotos, porque a usava em modos não totalmente automáticos. Com o tempo, me adaptei e a levei para várias viagens, tanto que acabou quase se tornando a única câmera que levávamos em viagens. 

 

Após alguns anos, novo upgrade: comprei do meu irmão uma nova DSLR. Como, por razões de trabalho, ele estava vendendo uma de suas câmeras, com pouco uso, comprei dele a que tenho até hoje, uma Nikon D7000. Muito melhor que as anteriores que eu havia tido. Ótima câmera, comprei também mais uma lente (tinha uma 18-55mm e comprei uma 50-200mm) e o tripé. Fiquei muito bem equipado para minhas intenções de fotografia, e carregava tudo nas viagens, claro. Até o surgimento das câmeras de celular de boa qualidade.

 

                                     

Nikon D7000


As câmeras dos celulares melhoraram muito desde que surgiram, e – com o tempo – ganharam características de edição de imagens que as tornaram por vezes muito mais práticas que as antigas. Enquanto com a minha Nikon D7000 eu preciso carregá-la em uma mochila junto com a lente acessória, o tripé junto, o celular vai no bolso, o tempo todo. Além disso, em tempos de redes sociais, a foto do celular vai direto, e a da DSLR eu tenho que baixar as fotos para o computador...

 

Por isso, progressivamente foi se utilizando mais o celular do que a máquina fotográfica digital. Principalmente no dia a dia, pequenos passeios e eventos. Viagens grandes, e importantes, pedem uma máquina maior e -de certa forma – melhor.

 

Essa era uma viagem grande e importante.

 

E, excetuando-se em Montevideo, a utilizei muito. O ponto alto do seu uso foi, justamente em Colônia del Sacramento, como contarei a seguir... 

 

Então.

 

Acordamos e tomamos café na simpática Nova Posada, em uma sala com vista para o quintal, com sol brilhando e temperatura agradável. Mais uma manhã radiante no Uruguai. Nosso plano do dia: visitar Carmelo.

 

Carmelo é uma cidade no Río de la Plata, a oeste do Uruguai, a cerca de 78km de Colônia, mais ou menos uma hora de viagem. É conhecida pelas praias, como a Playa Seré, e – interessante - está rodeada por vinícolas. Como outras cidades do interior do Uruguai, parece parada nos anos cinquenta. A vida parece andar mais lentamente, num ritmo mais tranquilo.  A praça central, a Plaza Independencia, encontra-se a norte e é (mais uma) a típica praça de cidade do interior, com a igreja e a intendência.

 

Estacionamos, visitamos a praça, e então a Roberta pegou o telefone e começou a ligar para tentar agendar um piquenique em uma vinícola. Sabíamos que terça-feira seria difícil, mas valia a tentativa. Ela tentou uma primeira, sem sucesso. Na segunda ligação, foi informada que até poderiam fazer, mas não seria como nos dias normais. Teria menos estrutura, e por isso nos daria um desconto. Agendamos para próximo às 13h, e fomos passear um pouco por Carmelo.

 

                                      

Carmelo


Seguimos caminhando até a Rambla, junto ao Arroyo de las Vacas, de onde se vê a ponte vermelha pela qual entramos na cidade. Só após a volta, estudando sobre Carmelo, que descobri que essa ponte é giratória... Após o passeio pela orla e de volta à praça, seguimos para a vinícola Campotinto.


                                          

 Rambla


A vinícola (e pousada) Campotinto fica a cinco quilômetros do Centro. Em meio aos vinhedos, há um restaurante e a pousada. Chegamos no restaurante (éramos os únicos, naquele momento, em plena terça-feira) e o “pacote” que havíamos contratado constava de duas cestas de piquenique e a toalha. Poderíamos fazer o nosso piquenique onde quiséssemos por ali, e escolhemos ficar na sombra de uma árvore, na grama, ao lado de um parreiral. 

 

Vinícola Campotinto


Uma cesta era composta ppor duas garrafas de vinho, um tinto e um branco, mais águas com e sem gás. A outra era de comida: frutas, pães, queijos e fiambres. Quase um banquete. E isso que era um piquenique “de improviso” ...

 

                                                

Piquenique


Foi literalmente, uma festa.

 

                                     


Ficamos horas ali, sem os sapatos, sentados na grama, aproveitando a comida, o vinho (menos eu, que era o motorista, e a Marina, menor de idade), falando, contando histórias, gravando vídeos que nunca serão mostrados para ninguém, e rindo muito. A Roberta foi ver o galinheiro e conversou com a galinhas, e eu gravei um vídeo falando das uvas, essas de mesa, e (aaaaaaaaiiiiiaaaai!!!), parodiando o clássico vídeo do hoje senador Lasier Martins na festa da Uva de Caxias. E não tinha mais ninguém à volta. Foi bem legal. Poderíamos ficar o dia todo ali, vendo o tempo passar, a grama crescer, os pássaros voarem...

 

                                


Em resumo: foi ótimo, memorável.

 

Retornamos para Colônia em tempo de preparar o mate e ir para assistir o pôr do sol no Rio da Prata. Dessa vez, mais ainda que no dia anterior, o céu estava limpo, sem nuvens, muito claro. Nos posicionamos no melhor ponto que encontramos para vê-lo, e esperamos o momento de testemunhar o espetáculo (dos mais belos que vi) e, claro, fotografá-lo. E foram as melhores fotos de toda a viagem.


                                     

Final do dia


O por-do-sol sem nuvens, com o sol descendo no Rio da Prata e – ao longe – o skyline de Buenos Aires, valeu por toda a viagem. De verdade. Utilizei a minha lente 50-200mm e fiz – sem falasa modéstia – fotos espetaculares. Ficamos um bom tempo ali, entre esperar o momento, fotografá-lo, e ver a noite caindo lentamente.

 

                                  

Pôr do sol




Após, jantamos num restaurante de frente para o Rio da Prata, exatamente ao lado daquele da noite anterior da picada que a Karina havia destestado. Foi bem melhor, admito. Pedi uma caipirinha, que veio com um tom de verde acentuado, por um licor (de menta) provavelmente que foi colocado. O Gabriel disse que haviam “firulado” a caipirinha. O verbo firular, de fazer firulas, enfeitar desnecessariamente. Rimos todos. Tomei sozinho e não dividi...

 

Foi – uma vez mais – um jantar divertido, em que todos estávamos bem-humorados e leves. Voltamos para a pousada para descansar.

 

No dia seguinte começaria a volta.

 

Até. 

sábado, março 19, 2022

Sábado (e o Farol)

 Colônia del Sacramento, Uruguay


                            Bom sábado a todos.
                   
                     Até.

quinta-feira, março 17, 2022

Perdiditos en Uruguay (28)

A Viagem, nono dia.

 

Segunda-feira, manhã. Após o café da manhã e checkout, começamos nossa rota em direção ao ponto mais perto que estaríamos de Buenos Aires em toda nossa viagem, Colônia del Sacramento.

 

É de Colônia que sai o Buquebus, transporte fluvial que liga – através do Rio da Prata – Uruguai e Argentina. Pode-se sair de Montevideo ou de Colônia del Sacramento, e o destino de chegada é o Puerto Madero, em Buenos Aires. A viagem demora cerca de hora e quinze a partir de ou para Colônia.  Até havíamos pensado em fazer esse passeio nessa viagem, mas o custo (ia sair cerca de mil reais por pessoa só de passagem de ida e volta) e o tempo nos fizeram repensar essa ideia, e aproveitar esse valor em outras experiências.

 

Eu gosto de Buenos Aires, devo dizer.

 

Foi lá que a Jacque e eu passamos nossa lua de mel, no já longínquo ano de 1996, e depois acabamos indo novamente em família em 1997. Depois, um longo período sem visitar a cidade que não fosse a trabalho (em 2003, eu acho) até 2006, logo após minha volta do Canadá, quando fomos em dois casais, a Karina e o Paulo (o ex-marido dela e pai da Roberta e do Gabriel) e a Jacque e eu, viagem em que o Paulo ganhou o Trofeu Obelisco de Viagem, até onde lembro pelo humor dele, que já não era o mesmo de outrora... Voltei à Buenos Aires em 2015, para um evento médico, com alguns amigos pneumologistas, e, além de assistir ao evento, acabou sendo quase uma viagem de colégio, de tanto que nos divertimos, tomamos bons vinhos, comemos boas parrillas, e aproveitamos a cidade. 

 

Com o tempo, e os diferentes governos e crises argentinas, ficou cada vez menos atrativo viajar para lá, e as histórias de dificuldades com a polícia rodoviária local sempre me tiraram a vontade de voltar à Argentina. Exceto pela Patagônia, que sempre está em meus planos.

 

Saímos de Montevideo em direção à Colônia, e coloquei uma playlist chamada ‘Rockn’roll’, que havia feito tempos atrás para a Marina conhecer esse tipo de música. Começa com AC/DC, Highway to Hell, e segue nessa pegada. Nossa audição não durou muito: fui obrigado a trocar após protestos gerais...


O trajeto entre Montevideo e Colônia del Sacramento, nosso próximo destino é de 208km, cerca de 2h45. Como de costume no Uruguai, estrada boa e sem grande movimento, mesmo durante a saída da capital. Fizemos a viagem em duas etapas, além das tradicionais paradas horárias para a dança das cadeiras do banco de trás. A parada foi em San Jose de Mayo, mais ou menos na metade do caminho, próximo ao meio-dia, momento em que o comércio começava a fechar suas portas para o almoço.

 

Viajar para o interior do Uruguai é, também, e de certa forma, viajar para o passado. Cinemas de rua, carros antigos, a praça central com a Catedral, a Intendência. Em pleno centro da praça, o monumento que diz “Todos los Orientales Renuncian a La Lucha Armada Y Someten Sus Respectivas Aspiraciones a La Decision Del País Consultado com Arreglo a La Constitucion Y a Sus Leyes”. Chegando à praça, um calçadão com (àquela hora) lojas fechadas. Na esquina, um restaurante com grande letreiro da Pepsi, o que – para mim – lembra mais ainda o passado.


                                         

 Na praça, em San Jose de Mayo


Após passear ao redor da praça, e pelo calçadão das lojas fechadas, paramos no restaurante do letreiro da Pepsi para comprar picolés e usar o banheiro, não nessa ordem. Sentamo-nos um pouco na praça antes de voltarmos para o carro, enquanto comíamos os picolés, ou fizemos isso antes de comprar, já não sei ao certo. De qualquer forma, encerramos a visita e seguimos para Colônia del Sacramento. A segunda etapa da viagem do dia, de San Jose até Colônia, é de cerca de 110km e 1h40. 

 

                                                

San Jose de Mayo


A história de Colônia del Sacramento é antiga, e tem origem na antiga cidade de Colônia do Santíssimo Sacramento, fundada em janeiro de 1689 por Manuel Lobo, então Governador da Capitania Real do Rio de Janeiro, a mando ao Império Português. Foi local disputado, devido a sua localização geográfica, no Rio da Prata e em frente à Buenos Aires, tendo sido território português e espanhol alternadamente, em conflitos que estavam relacionados ao comércio, tráfico de escravos e contrabando. Em 1817, D. João VI incorporou toda a região do Uruguai aos domínios de Portugal no Brasil. Com a Independência do Brasil em 1822, a Colônia passou a integrar os domínios do novo paísaté a Independência da República Oriental do Uruguai, em 1828. A área onde localiza-se a fundação portuguesa faz parte do Centro Histórico, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade.

 

                                               

Farol, Colônia del Sacramento


Chegamos em Colônia e fomos direto para a Nova Posada, simpática pousada a cerca de 700m do Centro Histórico, ótima localização, mas – assim como em Punta del Este – sem estacionamento. Também como na praia anterior, deixei o carro estacionado na rua, atrás da Prefeitura e em frente à pousada. Sem problemas.


                                               

Nova Posada, Colônia del Sacramento


Após o checkin, fomos caminhar a almoçar (lá pelas 15h). Entramos numa parrilla, nos colocaram num salão separado, apenas nós, pedimos o almoço, e esperamos. Esperamos. E esperamos mais um pouco (talvez não tenha sido tanto, mas a fome fez parecer uma eternidade...). Quando veio, a comida era bem boa, mas o destaque foi a Karina, que pediu uma taça de vinho rose e ficou como se tivesse tomado um balde de vinho: contava e ria sozinha das próprias piadas e trocadilhos...

 

                                 

Passeando por Colônia


Após o almoço, fomos conhecer o Centro Histórico, e o seu farol. O dia, de sol com poucas nuvens no horizonte, estava belíssimo. Fizemos a visita, caminhando lentamente, olhando tudo em detalhes e fotografando. Um ótimo passeio, mas que – eu responsabilizo o “passinho shopping center” - me deixou com MUITA dor cervical. Acabei voltando à pousada e fiquei um tempo deitado para ver se aliviava. Não assisti ao pôr do sol com eles, mas à noite os encontrei para jantarmos juntos.

 

                                                 

Pôr do sol

Pedimos uma ‘picada’, uma tábua de petiscos variada.

 

A Karina achou horrível. Eu gostei.

 

Voltamos à pousada, pois no dia seguinte visitaríamos Carmelo, e – quem sabe – uma vinícola.

 

                                               

Final do dia, Colônia


Até. 

quarta-feira, março 16, 2022

Perdiditos en Uruguay (27)

A Viagem, oitavo dia.

 

Quem conhece Porto Alegre sabe que um dos programas do domingo de manhã na cidade é o Brique da Redenção, uma feira realizada junto ao Parque Farroupilha (Redenção), no bairro Bom Fim, onde expositores vendem artesanato, antiguidades, artes plásticas e alimentos. Ocorre desde 1978 (surgiu com o nome de Mercado de Pulgas) e é declarada desde 1983 patrimônio cultural do Rio Grande do Sul.  


Pois bem, reforçando as similaridades entre Porto Alegre e Montevideo, decidimos ir – no domingo de manhã, que havia amanhecido mais uma vez com sol – conhecer a Feira de Tristán Narvaja, que classificamos como um ‘Grande Brique da Redenção’, por sua muito maior extensão. O que não sabíamos, e fomos aprender depois, em mais uma amostra de que viajar aumento a cultura geral de que se dispõe a tal, que o Brique, de Porto Alegre, tem sua criação inspirada justamente pela feira de Montevideo.


                                     

 Meninas na Feira


Estacionamos o carro em uma avenida próxima à Feira (para variar fiquei algo paranoico com relação a isso, mas não deixei transparecer...) e fomos visitá-la. É extensa, com barracas de expositores dos dois lados na rua, e uma multidão (e máscaras, claro) circulando por entre elas. Vende-se de tudo, desde artesanato e obras de arte até produtos de higiene pessoal e artigos que encontraríamos em supermercados. Muitas bancas de livros usados, além de livrarias, como a Babilonia, cafés e restaurantes na rua. 

 

                                      

Feira de Tristán Narvaja


Um clima muito agradável, de vida pulsando, como se nunca tivesse ocorrido uma pandemia, apenas as máscaras nos lembrando disso. O nosso grupo de seis, com diferentes ritmos de caminhada (eu, como sempre, caminhando mais rápido que os outros, e parando para esperá-los de tempos em tempos), visitamos a feira de uma ponta à outra, além de visitar expositores (de livros, especialmente) em ruas transversais. A Roberta atrás de comprar um Galeano no idioma original, e eu olhando livros de ficção, como ‘Economia Marxista’...


                                              

Ficção


Após ela conseguir o que queria, e eu obviamente não comprar nada daquele tipo de literatura, tivemos que parar para os que precisavam usar o banheiro, e optamos por um café / bar / restarante em frente à feira. Localizado em um sobrado antigo, com decoração vintage, o El Imperio foi o escolhido. Dentro, uma escada íngreme nos levou ao terraço onde uma parrilla era acesa e a mesas já estavam quase todas ocupadas. Conseguimos uma e tomamos um café, apenas. Que demorou para vir para a mesa, por sinal. Em problemas, estávamos de férias mesmo... 

 

Saímos dali, caminhamos mais um pouco, e decidimos encontrar um local para – aí sim – almoçar ainda na região da feira. Ficamos no El Reganche, aprazível bar e restaurante. Comida boa, preço justo. Mais uma ótima refeição.


                                             

 El Renganche


Voltamos ao carro e fomos em direção ao Parque Rodó, mas chegamos lá com céu bem nublado e alguma chuva começando. Mesmo assim, passeamos um pouco, circulando um lago. Novamente no carro, fomos tomar um café no Mercado Agrícola. Como chovia, deixamos a Jacque, a Karina e a Marina no Montevideo Shopping e voltamos (os restantes) para o hotel, pois o Gabriel tinha que trabalhar e eu queria descansar. 


                                                    

 Parque Rodó


À noite, nossa janta de despedida de Montevideo foi numa pizzaria, a Don Ciccio, que a Jacque havia ‘descoberto’ no Trip Advisor, como a melhor de Montevideo. Quando chegamos em frente, ainda antes das 19h30, o lugar estava deserto, e houve um momento de hesitação, principalmente do Gabriel, que achou que talvez não fosse boa. Nem pensar, disse eu, vamos aqui. Azar.

 

A dica da Jacque estava certa.

 

Entramos na pizzaria cinco minutos antes da abertura oficial, e foi a melhor pizza que comemos em muito tempo. Gravamos vídeos de todos avaliando a viagem até aquele momento, e nos divertimos mais uma vez.


                                   

 Don Ciccio Pizzaria


No dia seguinte, deixaríamos Montevideo e iríamos para Colônia del Sacramento. Estávamos indo para os últimos dias de viagem...


Até. 

terça-feira, março 15, 2022

Perdiditos en Uruguay (26)

A Viagem, sétimo dia (2).

 

                         

Teatro Solís


O Teatro Solís é um dos símbolos arquitetônicos não só de Montevideo, mas de todo o Uruguai. Foi inaugurado em 1856 com a apresentação de uma ópera de Verdi, e seu nome homenageia o navegante Juan Días de Solís, descobridor do Rio da Prata. Fica ao lado da Plaza Independencia, próximo à Ciudad Vieja. É um teatro tipo italiano, com características típicas dos teatros líricos, com orquestra e quatro anéis conhecidos como Baixo Tertulia, Tertulia alto, Panela e Paraíso. Era um dos nossos objetivos de visita.

 

Não o fizemos, contudo.

 

Estava fechado, e só abriria bem mais tarde naquele dia porqie haveria uma apresentação de teatro. Paciência, ficou para a próxima, que idealmente não deve demorar muito... Da frente do Teatro, decidimos tomar um café no Starbucks que fica a poucos metros dali. Entramos, fizemos nossos pedidos (a Roberta pediu um frapuccino de mate, verde e ruim, sejamos sinceros, não tomou todo). Assim que havia feito os pedidos, enquanto aguardávamos nossos cafés, a Marina percebeu que eles tinham, entre os copos servidos, uma edição especial de copos associados à Taylor Swift, cantora da qual a Marina é muito fã.

 

Enlouqueceu, claro.

 

Começou a prestar a atenção no que as pessoas estavam tomando para ver se deixavam um copo sobre a mesa para que ela pudesse pegar... Ninguém fazia, todos educados a ponto de levar para o lixo reciclável o que era reciclável e no lixo orgânico o que era para tal. Frustração. Opções? Alguém sugeriu pegar um copo usado do lixo, lavá-lo e levar para casa.

 

Essa possibilidade foi considerada, as Arinas até sondaram as lixeiras para ver de qual pegariam, plano esse que foi abortado apenas quando a Roberta foi no balcão e pediu um copo para uma das funcionárias. Conseguiu, e não deixou a mãe e a prima virarem catadoras de lixo. Ao mesmo tempo, a Marina ficou radiante com o presente, fazendo vários vídeos emocionada com o copo.... Vai entender...

 

                               


Dali fomos para o Shopping Punta Carretas, no bairro de mesmo nome, e ao supermercado, onde compramos provisões para um lanche de final de tarde, além de comprarmos cuias, garrafas térmicas e erva-mate para fazermos um mate uruguaio. O supermercado espetacular, daqueles que nos faz ter vontade de morar no Uruguai apenas para ir fazer compras ali...

 

                                    


Voltamos ao hotel, fui à academia fazer esteira, e – após o banho – nos reunimos no nosso quarto para um happy hour com chimarrão (em mini cuia uruguaia) e petiscos. Todos nos reunimos, sentamo-nos nas camas e no chão, e começamos falando de filmes, de música, e a conversa evoluiu para o que foi uma grande sessão de terapia, em que falamos das dinâmicas de nossa relação enquanto grupo, enquanto família.

 

Poderia alguém dizer que foi lavar roupa suja, mas não. Muito antes pelo contrário, para ser honesto. Foi uma conversa franca, tranquila, leve, em que dissemos o que pensávamos e sentíamos em relação aos outros, e aí pareceu – definitivamente na viagem – que ajustamos nossa sintonia para a mesma vibração.

 

Todos saímos mais leves dali, para ainda irmos jantar no Hard Rock Café Montevideo, onde o ambiente também estava alto-astral. 


                                  

 

Chovia na hora em que saímos do Hard Rock, e a música que tocava em minha cabeça, e que serviu de trilha sonora para um stories do Instagram era Duerme Montevideo, do Vitor Ramil.

 

                                 

Duerme, Montevideo



Dentro de um velho carro

O tempo não quer passar
Por mais que eu ande, as ruas em mim
Não mudam de lugar

Plátanos perdem folhas
Cobrindo o chão de luar
Lá onde o pensamento me põe
Querendo se encontrar

Duerme, Montevideo
Sonha que estou em ti
Um sonho que dure uma eternidade

Duerme, Montevideo
Sonha que vivo em ti
Viver é maior que a realidade

Dentro da noite clara
O tempo quer se mostrar
Quer ser o meu avô e o meu pai
Quer ser um rio que é um mar

Casas me reconhecem
A rambla me vê cruzar
Lá onde o pensamento me vai
Querendo se encontrar

Duerme, Montevideo
Sonha que estou em ti
Um sonho que dure uma eternidade

Duerme, Montevideo
Sonha que vivo em ti
Viver é maior que a realidade

Dentro de um oriente
O tempo quer madrugar
Quer ver um sol que há muito se foi
Na luz do que virá

Venha esse novo dia
Venha me esperar
Lá, onde o pensamento estiver
Querendo me encontrar

Duerme, Montevideo
Sonha que estou em ti
Um sonho que dure uma eternidade

Duerme, Montevideo
Sonha que vivo em ti
Viver é maior que a realidade

 

Dormimos bem.

 

Até.