"Entramos em uma fria..."
Abril de 2006.
Crônicas e depoimentos sobre a vida em geral. Antes o exílio; depois, a espera. Agora, o encantamento. A vida, afinal de contas, não é muito mais do que estórias para contar.
"Entramos em uma fria..."
Pois é.
Enquanto passo o carnaval por aí, longe do que chamam de ‘folia’, lembro que já fui bem mais entusiasmado com relação a esse período. Uma fase, que foi divertida e teve seu momento, que – evidentemente – passou.
Mesmo durante esse tempo, os carnavais que tinham minha predileção eram os de um tempo em que não vivi, eram os carnavais do passado, das marchinhas e dos bailes de salão, muito bem representados em uma música que serviu, sim, de estopim para essa nostalgia.
‘Noite dos Mascarados’, do Chico Buarque, lançada em 1967, em dueto com a cantora Jane Moraes.
Noite Dos Mascarados
Quem é você?
Adivinha se gosta de mim
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim
Quem é você?, diga logo
Que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco
Que eu quero me arder no seu fogo
Eu sou ceresteiro, poeta e cantor
O meu tempo inteiro só penso no amor
Eu tenho um pandeiro
Só quero um violão
Eu nado em dinheiro
Não tenho um tostão
Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
Eu, modéstia à parte, nasci para sambar
Eu sou tão menina
Meu tempo passou
Eu sou Colombina
Eu sou Pierrot
Mas é Carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar
Deixa o barco correr
Deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira
E você me quer
O que você pedir, eu lhe dou
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
Até.
Que vai dormir em paz
Depois ressuscitar em nós, em deus, em dois
Vê que não adianta crucificar o boi
Se volta à terra lá do céu
Isso era tudo que queria
A festa, a farra humana, a luta em nome da alegria
Que a santidade não sabia lhe ensinar
Por isso eu creio e não acho feio
Que a fé seja assim
Que até a santa madre, quando tinha sede
Dava tudo que podia
E a Galiléia abençoada, em coro, repetia essa oração
Nossa Senhora é poderosa
Mas nossa raça é manga e rosa
A nossa igreja deita e goza
E onde há fumaça, deixa o pavio queimar
Amém
* Nei Lisboa
Bom feriado a todos.
Até.