segunda-feira, abril 07, 2025

Vintage

Aconteceu no ano passado, em 2024.

 

Comprei um disco de vinil da Graforréia Xilarmônica diretamente do amigo, e parceiro no podcast ‘Qual é o Tom’, Alexandre Birck, baterista da banda, mesmo que com ele fosse mais caro, segundo ele mesmo. Logo após, comprei a versão em vinil do ‘Ramilonga’ do Vitor Ramil. Comprei ambos os discos e guardei cuidadosamente.

 

Porque eu não tinha onde ouvi-los.

 

Há quase trinta anos eu não tinha em casa um aparelho toca-discos, e os meus discos de vinil, que – não sei por qual razão - haviam ficado na casa dos meus pais, eu descobrira que estão em Nova York, “guardados lá para mim”, segundo a versão do meu irmão... Bom, não importa, o fato é que eu não tinha como ouvir os discos de vinil adquiridos no ano passado. 

 

Corta para sexta-feira passada, véspera do meu aniversário.

 

Voltávamos do trabalho, a Jacque e eu. Ao chegar na garagem no subsolo do prédio onde moramos, em frente ao elevador, ele diz que temos que parar no térreo porque precisa pegar o meu presente, que ela e a Marina me entregarão ‘adiantado’. Tudo bem, eu aceito sem problema...

 

Ao abrir a porta do elevador no andar térreo, ela – ao fazer menção de sair para buscar o presente – comenta que ‘ao ver o pacote’ eu descobriria o conteúdo do mesmo. Em uma fração de segundo, uma sucessão de pensamentos se encadeia: “o pacote revelará o conteúdo, não é uma bola, imagino, pode ser um disco de vinil, mas eu não tenho tocador de discos de vinil, espera aí...”. Olho para ela e, antes de ter tempo de ela sair do elevador, eu digo: “é um tocador de discos de vinil, não?”. Ela para, chocada: “Como sabias?”.

 

Eu não sabia.

 

Foi muito legal o presente.

 

E tão ou mais legal foi a reação da Marina, encantada com a ‘tecnologia’ do disco tocando, aquela coisa do braço, a agulha, virar o lado do disco. Mais ainda quando ela entendeu na prática o que significa quando se fala que determinadas músicas são ‘Lado B’...

 

O domingo foi de cozinhar ouvindo discos de vinil tocando no toca-discos, como os astecas e os maias faziam...

 

Baita final de semana.

Até. 

domingo, abril 06, 2025

A Sopa

Tudo bem?

 

Em minhas leituras desses dias, nesse meu reencontro com os livros físicos, com a literatura e com a facilidade – que não substitui o prazer de andar por uma livraria – da compra de livros online, caiu em minhas mãos (comprei e recebi em casa) um livro chamado ‘Sentido da Vida’, do Contardo Calligaris. Ele foi um psicanalista e escritor italiano radicado no Brasil, Doutor em Psicologia Clínica na França, com diversos livros publicados, e que escrevia também uma coluna no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo às quintas-feiras. Morreu em 2021, aos 72 anos.

 

O livro em questão é uma obra póstuma dele, publicada em 2023 e vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura em 2024. São três textos breves sobre a obrigação da felicidade, o “morrer bem”, e o sentido da vida. É um livro curto, mas denso, que faz pensar. Li em praticamente uma tarde e noite, e resolvi reler na sequência para ter tempo de refletir sobre os escritos.

 

Claro que sempre que pensamos em Sentido da Vida, não temos como não pensar em Vitor Frankl e o seu livro de mesmo nome, que li ano passado enquanto preparava uma aula ainda inédita sobre DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) e o Sentido da Vida. Como podem ver, esse é um dos meus temas recorrentes de reflexão.

 

Voltando ao livro do Calligaris, um dos textos começa abordando uma questão do dia a dia, e que é quase motivo de piada (para mim) no consultório, que é a saudação corriqueira ‘Tudo bem?’.  Sempre que chamo um paciente, ao cumprimentá-lo, o hábito, o normal, é fazer essa pergunta, “Tudo bem”, no que automaticamente continuo dizendo que não, não está tudo bem, pois se estivesse tudo bem ele não estaria em minha frente para uma consulta médica.

 

De um modo geral, saindo do consultório e indo em direção a outros relacionamentos e outras situações de vida, encontros diversos, em que é o normal nos perguntarmos mutuamente esse mesmo ‘tudo bem’. Como assim, tudo bem? Tudo mesmo? O mundo, a existência, a finitude do ser? Como saber se realmente está tudo bem? E, mais, é claro que é uma pergunta retórica, mais uma saudação do que um interesse pelo outro. E se não estiver tudo bem, vais querer saber o que não está?

 

Por isso, tenho – ao menos no consultório – saudado os pacientes como um simples ‘Como vai?’, ou ‘Como está se sentindo?’, o que restringe à pergunta ao que está mais próximo, mas perto do real, mais perto do que temos controle. Pensando bem, a resposta para quem pergunta se está tudo bem deveria ser ‘Tens tempo para ouvir?’.


Até. 

sábado, abril 05, 2025

sexta-feira, abril 04, 2025

O que quero para mim?

Essa é a pergunta que serve de norte para todas as opções que faço em minha vida diária, é a base para as minhas ações. Tento, mas nem sempre consigo, me manter fiel às minhas metas de vida.

 

Que não são estáticas, pétreas. Ao contrário vão se transformando durante a caminhada, à medida que as situações vão se apresentando para mim. Tenho princípios claros, evidentemente, dos quais não posso e nem quero fugir, e por isso vou me adaptando ao que me acontece com base nesses mesmos princípios. 

 

Sei o que quero fazer e onde quero chegar.

 

Nunca esquecendo que não sou sozinho no mundo, e sempre lembrando que existem pessoas que estão comigo no caminho e que ele, o caminho, e estar com elas, é tão ou mais importante que o destino, que o ponto de chegada.

 

Pensamentos de uma sexta-feira de sol e um pouco de frio.

 

Até.

 

quinta-feira, abril 03, 2025

Nublado, talvez chova

Desacelerar.

 

Um ano antes de iniciar a pandemia, entrei em período que chamei de ‘sabático’ porque, ao invés de múltiplas atividades diárias, me dediquei apenas ao consultório, aos meus pacientes. O final desse período coincidiu com o início da pandemia e toda aquela loucura que foi o mundo por aqueles dias, com distanciamentos, fechamentos, pacientes ‘desaparecendo’ do consultório no começo e depois superlotando consultórios, hospitais e tudo o que (ainda) lembramos bem. Durante a pandemia, além do consultório, acabei voltando ao mundo acadêmico, como professor novamente. 

 

Foi legal.

 

Com o tempo, então, fui novamente e aos poucos assumindo mais e mais funções em termos profissionais, tanto falando em medicina (coordenador de um serviço de pneumologia e de um laboratório de função pulmonar) como empreendedor, agora sócio de uma escola de música. Voltei a escrever, publiquei um livro, fui cocriador e apresentador de um podcast. Voltei a ter uma rotina corrida, com diferentes atividades em diferentes lugares da cidade, muitas vezes no mesmo dia. Não sou mais funcionário, não tenho emprego.

 

E está bem legal. Porém...

 

Talvez esteja chegando a hora de reduzir um pouco o ritmo. Tirar um pouco o pé do acelerador. Simplificar. Retirar do meu ombro algumas tarefas que talvez não façam mais sentido, nas quais não estou conseguindo me dedicar como eu gostaria, e deixar para pessoas que estão atualmente em melhores condições de exercer essas funções do que eu, para que elas possam desenvolver seu potencial e eu possa me dedicar a projetos aos quais eu possa dar uma maior contribuição.

 

Pensando em voz alta em uma manhã plúmbea de outono...


Até. 

quarta-feira, abril 02, 2025

Zamel

Uma história.


Há pouco mais de vinte anos, quando cheguei no Canadá para o meu pós-doutorado, em um sexta-feira de manhã, do aeroporto fui direto para o alojamento da University of Toronto, onde eu ficaria em minha primeira semana até encontrar um apartamento para alugar, e – após deixar minhas malas lá – fui direto para o Mount Sinai Hospital para encontrar o responsável pela minha ida: Dr. Noé Zamel.

 

Gaúcho de Rio Grande, após se formar em Medicina em Porto Alegre havia ido para os Estados Unidos ainda nos anos setenta e depois se radicado no Canadá, em Toronto, onde foi médico, pesquisador e algo como um Embaixador nosso por lá. Fomos inúmeros médicos gaúchos e de outros estados brasileiros que passamos algum tempo em Toronto por sua intermediação. 

 

Logo na minha chegada, ao encontrá-lo pessoalmente pela primeira vez, me abraçou e disse que “finalmente” eu chegara. Foi reconfortante ser bem recebido, e ele sempre me tratou com afeto e consideração. Isso era agosto de 2004.

 

Em abril de 2005, fizemos uma festa de setenta anos para ele, nós que trabalhávamos no Respiratory Research Lab, do Toronto Western Hospital. Em algum momento ele sugeriu que eu ficasse mais do que os dois anos por lá, mas eu tinha que voltar para casa, para o meu mundo.

 

Muitas histórias dele, que faria hoje, dois de abril de dois mil e vinte e cinco, noventa anos. Ele faleceu em outubro de dois mil e vinte. 

 

Foi um grande cara, e uma honra para mim ter podido conviver com ele.

 

Até.

terça-feira, abril 01, 2025

Abril

Sobrevivi a mais um mês de março. 

Me obrigo a falar disso, mesmo sabendo que não existe nenhuma base científica ou racional para esse fato que não é um fato, mas um acaso, uma coincidência, não mais que isso. Falo da lenda (que eu mesmo criei) de que o mês de março é perigoso para minha saúde.

 

Sim, é acaso que por três anos seguidos eu passei por situações de saúde significativas, digamos assim, sempre nesse mês. De dois mil e vinte e um – quando tive uma queda à noite com trauma de crânio sem perda de consciência, mas que evoluiu com uma arritmia que me levou a fazer um estudo eletrofisiológico que foi normal e tudo ficou bem – passando por dois mil e vinte e dois – em que fiz uma hérnia de disco cervical constatada após ter passado quinze dias de férias dirigindo com dores violentíssimas, mas que foi de tratamento conservador – chegando a 2023 - hérnia de disco lombar com cirurgia de urgência por compressão nervosa. Sempre março, parecia maldição.

 

Até que quebrei o encanto.

 

E o braço junto, ao cair de bicicleta em outubro do mesmo ano. Nova cirurgia, colocação de placa no punho direito. Duas cirurgias traumatológicas/ortopédicas no mesmo ano. Sem intercorrências.

 

Apesar de não acreditar em bruxas, passei março do ano passado atento para ver se seria repetida a “maldição”. Não foi e, depois dos cinquenta anos de idade, eu não era (não sou) mais ‘um cara que cai’. Mudei o discurso, mudei a narrativa, mudei a realidade. Quase tão simples quanto parece ao falar.

 

O mesmo aconteceu em outras dimensões da vida. Me aprendi alguém disciplinado, que se dedica ao que se propõe, que ‘dá a cara à tapa’, que – agora e finalmente – não apenas sonha ou deseja ou planeja.

 

Sou (me tornei) alguém que faz.

 

Até.