Decisão tomada, posso dizer, não sem sofrimento. Com coerência, contudo.
Quero que fique claro que acho justo que seja cobrado que se cumpra a carga horária de todos os funcionários públicos, mas acho que deveria haver remuneração condizente, o que não ocorre. Como não consigo - teria que abrir mão de outras atividades importantes - cumprir o que está no meu contrato, a única opção honesta - no meu caso, atenção para o negrito - é sair. Fico chateado, mas paciência.
Com relação esse assunto, mantenho a mesma opinião que tinha muito tempo antes de sequer fazer concurso para ser médico do município. Encontrei, nos meus arquivos, carta aberta ao então Prefeito de Porto Alegre, que enviei a um jornal local em 2003, nunca publicada. Diz mais ou menos o seguinte (editei algumas partes por citar nomes e fatos já datados):
23 de Março de 2003.
Excelentíssimo Prefeito de Porto Alegre,
Tomo a liberdade de escrever-lhe esta carta para
fazer uma reflexão, motivado pelos últimos acontecimentos envolvendo a questão
da saúde na nossa amada cidade, principalmente aqueles relacionados ao
tratamento dispensado pelo seu governo aos médicos.
Esclareço desde já que sim, sou médico, e não, não
sou funcionário do município. Esta condição provavelmente não me dá o
distanciamento crítico necessário para analisar os dois lados da questão com
total imparcialidade, mas permite que eu possa lhe alertar e tentar esclarecer
algumas coisas que não vêm sendo ditas para o grande público como deveriam ou
com o destaque que mereceriam.
Todos dizem que a saúde vai mal em Porto Alegre,
assim como no resto do Brasil, e disso não se pode discordar. Mas está mal por
quê? Por que os médicos não querem cumprir o seu horário de trabalho? Ou por
que faltam recursos para investir em saneamento básico, educação (saúde também
é questão de educação) e na própria saúde, remunerando melhor hospitais,
disponibilizando especialistas, exames e,
sim, remunerando melhor os médicos? Apesar de parecer, não é uma questão tão
simples assim.
Não vou entrar no mérito da equiparação salarial
entre os médicos, que – quando da municipalização da saúde – foram colocados
trabalhando juntos, cumprindo o mesmo número de horas e com as mesmas funções, profissionais
recebendo remunerações diferentes por terem sido admitidos pelo estado, união ou
pelo município. Isso nem é preciso de argumentos maiores do que aquele que diz
que, para trabalho igual, igual remuneração. Ponto. Também não vou entrar na
questão das condições de trabalho, segurança, etc, que em alguns locais é
exemplar, mas em outros deixa muito a desejar.
Pergunto,
contudo, qual o custo de se ser médico? Essa é uma pergunta que normalmente não
é feita, mas é interessante pensar no quanto se investe na formação e
manutenção de um médico. Custos em espécie, que podem ser medidos em moeda
corrente, e custos outros, talvez mais importantes e mais difíceis de serem
medidos e avaliado seu retorno. Quanto
custa, pergunto, uma juventude, interrompida na sua metade pela precoce perda
da ilusão da imortalidade?
Todo o jovem, conscientemente ou não, traz consigo a
ilusão da imortalidade, da onipotência. A morte é uma idéia muito distante,
assunto para muito, muito mais tarde. Essa é, junto com a associação entre álcool e direção, uma das causas de
morte por acidentes de trânsito, que ceifam as vidas de parte de nossa
juventude. O jovem estudante de medicina (que é jovem, e que também morre como
muitos outros, no trânsito) conhece a morte de perto desde cedo, na faculdade
de medicina. Mais grave, conhece a morte com sofrimento, o que é um pouco pior.
Começa por aí a perda da juventude, e vai além, com inúmeros finais de semana
estudando para provas, plantões, etc. E continua depois de formado, com as
muitas noites e finais de semana de
plantão, longe da família, os vários empregos algumas vezes até em cidades diferentes.
O custo de manutenção de um médico é alto, porque do
médico é cobrado que ele se mantenha sempre atualizado, estando ciente dos
principais avanços e novidades da sua área, que participe de congressos, de
estudos. Que se dedique aos seus pacientes como se cada um fosse o único, que
esteja sempre disponível e de bom humor, mesmo que ele ligue para o seu médico
às quatro horas da manhã com alguma dúvida. Que compartilhe de suas angústias,
que os ouça e sofra junto. E, na grande maioria das vezes, encontra médicos assim. Mas
tudo isso tem um custo. E alto, em termos gerais, não só financeiros. Entre
tantas razões, essas acima são algumas para justificar porque o trabalho médico
não é um trabalho burocrático, que deva ser cumprido em horário comercial, das
oito ao meio-dia e das duas às seis da tarde, de segunda à sexta-feira. O
médico não pode bater cartão, sair do
hospital ou do posto, ir para casa e esquecer totalmente do trabalho, do
sofrimento das pessoas que passam por ele.
Além disso, nem todo o trabalho médico é igual.
Existem diferentes tipos de atendimento: o consultório, o posto de saúde, o
pronto-atendimento (que pode ser num posto de saúde), o plantão de emergência.
Não se pode tratar tudo como se fosse a mesma coisa. O plantão de emergência e
de pronto-atendimento, locais onde as pessoas vão porque sentem algo agudamente
e necessitam ser vistas por um médico, necessitam de um pronto atendimento, neste locais não pode faltar e nunca faltam
médicos. No consultório do médico, último reduto do tempo em que o médico era
um profissional liberal ou autônomo, o horário é ele quem determina, a partir
de suas condições de tempo para atender, pois ainda é seu próprio patrão.
Quanto aos postos de saúde, com especialistas, onde as consultas são
previamente agendadas, o funcionamento pode e deve ser diferente. Por exemplo, um
especialista que tem doze consultas agendadas e atende todas em tempo menor do
que as horas que deveria cumprir (quatro, por exemplo), por que este médico tem
que ficar, sem fazer nada, no posto, esperando para completar suas horas? É no
mínimo ilógico querer obrigá-lo a isso. Por que não atende mais? Porque, por
determinação da lei, o médico pode e deve atender no máximo quatro pacientes
por hora, para um bom atendimento.
Em pronto-atendimento e emergência, atendemos bem
mais pacientes que isso, sem dúvida, sempre para o bem do bom fluxo do sistema.
Sem fôssemos seguir esta orientação, quanto tempo de demora levaria o
atendimento? É para pensar.
Não digo que os médicos sejam ingênuas vítimas do
sistema e que são explorados, mas também não podemos culpá-los pelo caos
instalado. Existem maus profissionais, aqueles mal-intencionados e outras distorções
de caráter, assim como existem maus empresários, advogados e até maus
políticos. De todos, se espera correção e honestidade. Todos, sem exceção,
podem fazer grande mal a um grande número de pessoas. Excluindo-se os
políticos, todos têm que passar por um longo período de formação específica até
exercerem suas atividades.
(...)
Numa guerra, como sabemos Vossa Excelência e eu, a
primeira vítima é sempre a verdade. É o que parecer estar acontecendo no caso dos problemas com a saúde pública. Por isso, e na mais honesta e boa das intenções, devo lhe fazer um
alerta: não é a política mais adequada a de demonizar os médicos para encobrir
uma série de outros problemas relacionados à saúde.
Obrigado por sua atenção,
Marcelo Tadday Rodrigues
Até.
Um comentário:
Oi Marcelo,
Nossa, realmente os problemas seguem os mesmos de 2003 e comparo com a minha atividade de professora.
Somos culpados pelo péssimo desempenho dos alunos, pela evasão escolar, pelo índice de reprovação,parece que o professor é o vilão de tudo.
Quando será que saúde e educação terão atenção dos governantes???
Abraço,
Judite Martins http://jud-artes.blogspot.com
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