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sexta-feira, novembro 15, 2024

Histórias de Consultório (3)

O Fantasma do Moinhos.

 

Uma paciente já de alguns anos, que havia iniciado acompanhamento comigo em uma avaliação preparatória para uma cirurgia bariátrica que nunca aconteceu, e que – por ser portadora de asma - acabou ao longo do tempo se tornando minha paciente e amiga. Como vive sozinha, acaba passando longos períodos do ano morando na França, em Paris. Por já ser bem conhecida minha, muitas vezes faço orientações por mensagens e ligações telefônicas.

 

Ao longo do tempo, desenvolveu um quadro de artrose em ombro (e escrevo isso com o fantasma da dor em meu ombro esquerdo pairando sobre mim) que foi agravando a ponto de ser indicada a colocação de uma prótese, procedimento esse realizado na metade desse ano no Hospital Moinhos de Vento. O procedimento em si ocorreu sem intercorrências, mas o pós-operatório foi complicado por uma queda na oxigenação dela e por dores, atrozes, na versão que ela contou. Por isso, foi medicada com altas doses de morfina e também do canabidiol que utiliza para o seu quadro, diz que ficou muito tempo meio ”fora do ar”. 

 

Devido às complicações clínicas que teve, um médico internista foi chamado para avaliá-la e orientar o tratamento. Em virtude dos horários complicados de quem faz internação, provavelmente por isso esse internista ia vê-la diariamente em horários alternativos, normalmente à noite, quando havia pouco movimento na UTI. 

 

Devido ao efeito das medicações, e pelo fato de estar em uma UTI, a noção de tempo havia sido perdida, e como o médico – ao vê-la – mais ouvia o que ela tinha a dizer do que falava alguma coisa, ela se convenceu que era um fantasma quem a visitava durante às noites do hospital. Criou (criamos, na consulta) uma narrativa que envolvia um antigo médico alemão que havia morrido solitário muitos anos antes e hoje circulava à noite pelos corredores do Moinhos de Vento, o hospital, conversando com os pacientes, buscando e levando conforto a quem precisasse, a quem estivesse se sentindo só, desamparado. 

 

Ficou sinceramente decepcionada quando descobriu a verdade.

 

Eu também fiquei, eu também fiquei.


Até. 

domingo, setembro 11, 2022

A Sopa

Paul Salopek é um jornalista e escritor americano, nascido na Califórnia, que completou 60 anos em 2022. É duas vezes vencedor do Prêmio Pulitzer. Já escreveu para o Chicago TribuneForeign PolicyThe AtlanticNational Geographic Magazine e muitas outras publicações. 

 

Sua carreira como jornalista começou em 1985 quando sua motocicleta estragou em Roswell, Novo México, e ele arranjou um emprego como repórter policial no jornal local para conseguir o dinheiro para consertar sua moto. A partir daí, tornou-se um jornalista respeitado (dois Pulitzers).

 

Nunca tinha ouvido falar nele até há poucos dias, quando por acaso fiquei sabendo do projeto “Out of Eden Walk”, que tem entre seus patrocinadores a National Geographic Magazine. É um projeto de certa forma maluco, mas – talvez também por isso – sensacional: ele está refazendo a rota a migração dos primeiros humanos, a partir da África, onde estão os mais antigos fósseis humanos, passando pelo Oriente Médio, em direção à Ásia e cruzando pelo Estreito de Bering até o Alasca e ao sul da América (indo até Terra do Fogo). Mais de 20.000 milhas, ou 32.000 quilômetros.

 

A pé.

 

Por sete anos.

 

Sete anos que já se transformaram em nove, porque a jornada segue. Durante a caminhada, visitando lugares, encontrando pessoas e contando histórias. Caminhar e contar histórias. Ver o mundo de uma forma diferente. Com tempo, calma. A vida em um ritmo diferente.

 

É um daqueles projetos, uma daquelas histórias que todos deveriam conhecer e acompanhar, por que é espetacular. Além de completamente maluca, o que a torna ainda mais legal. Caminhar da África (a jornada começa em um deserto) através da Ásia até cruzar da Rússia para o Alasca e seguir ao sul até a Terra do Fogo. Maluquice total e, por isso, fantástico. Já são nove anos.

 

Isso faz pensar que – mesmo ideias malucas que eventualmente temos – talvez não sejam tão fora de propósito assim. Muitas vezes são, mas em outras é apenas questão de planejar e colocar em execução.

 

Ah, aqui o link para a história.

 

https://www.nationalgeographic.org/projects/out-of-eden-walk/

 

Até.  

sexta-feira, novembro 30, 2018

Histórias de Aeroporto (3)

Ninguém é infalível.

Mesmo os Viajantes Frequentes experientes são passíveis de erros relacionados às suas viagens. Eu, que começo a ser considerado um Viajante Frequente, previsivelmente sou ainda mais propenso a cometê-los.

Quinta-feira, ontem.

Após ter viajado para Belo Horizonte, onde daria uma aula na quarta à noite, acordei às 4h30 da manhã de quinta-feira porque meu voo para São Paulo, onde daria outra aula, ao meio-dia, sairia às 7h10 e o aeroporto de Confins, como o nome já antecipa, fica nos confins do mundo. Longe. Cerca de uma hora ou mais do centro de BH, me avisaram. 

Tudo tranquilo, estava eu no aeroporto tomando café às 6h10.

Após, dirigi-me para as proximidades do portão de embarque, onde cheguei ainda meio cedo – ao meu ver – para fazer fila para o embarque que começaria às 6h30. Sentei, então, na área de um sushi que fica ao lado do portão e que – obviamente – estava fechada aquela hora. Abri o notebook para aproveitar os poucos minutos que tinha, mas estava sem bateria. Fiquei conferindo o celular, quando aconteceu.

Um viajante frequente.

Rapidamente, antes de eu sequer fazer menção de me movimentar, um cidadão iniciou a fila de embarque das prioridades premium. No mesmo instante, levantei e parti em direção à fila. Mas não fui ágil o suficiente: quando cheguei, já era algo como o oitavo ou nono da fila. Vacilei, pensei, mas o voo das 7h10 de Belo Horizonte para São Paulo é um voo de viajantes frequentes. Mais experientes e/ou ágeis que eu. 

Tudo bem, foi um voo tranquilo.

Desde cedo em São Paulo, fiquei esperando no aeroporto para encontrar a colega com que eu iria dar a aula ao meio-dia. Ela chegaria vinda do Rio de Janeiro cerca de uma hora após a minha chegada. Aproveitei para carregar a bateria do notebook e escrever o relatório sobre a aula da noite anterior.

Chegou e decidimos pegar um Uber e sair, ao invés de ficar no aeroporto fazendo tempo antes de ir para o local da aula conjunta que daríamos. Boa ideia, pois o trânsito de São Paulo estava pior que o normal, e levamos cerca uma hora para chegar no local. Ainda tínhamos cerca de uma hora até o horário marcado. Aproveitamos para alinhar nossa apresentação e fazer um lanche.

Pouco antes do meio-dia, chegamos onde seria a aula, momento em que descobrimos que o horário real era 12h30. Com o “tempo de tolerância”, iniciei a aula às 12h40. Ambos falamos, houve um momento de discussão e perguntas e respostas, e terminamos às 13h40. Tudo bem, fomos direto para o Uber para voltarmos ao aeroporto. Assim que entramos no carro, voltamos a falar – havíamos comentado na ida – em antecipar nossos voos. O dela, das 18h para às 16h, e o meu, veja bem, das 16h para às 14h55.

Foi nesse momento que a história tomou ares de drama.

A previsão de chegada no aeroporto pelo aplicativo era 14h15, momento em que começaria – em tese – o embarque. Como estava sem bagagem despachada, era só chegar e embarcar. Chegaria em cima da hora no aeroporto, mas chegaria em casa uma hora antes do previsto (o que vale ouro para quem passa tempo viajando).

Valia correr o risco.

O carro tentava avançar pelo trânsito de São Paulo, e decidi tentar antecipar o voo pelo aplicativo da companhia aérea. Testei, apareceu a opção do voo que queria como disponível, confirmei a troca, passei para a escolha do assento, havia apenas um assento disponível, pagando por ser conforto. Aceitei, fui marcar... e disse que já havia sido escolhido. E não havia mais nenhum disponível! Nenhum mesmo!

Não conseguia fazer o checkin por não haver assentos disponíveis e não estava mais no meu voo original! Tentei ligar para a companhia aérea e a mensagem era de que devia ir ao balcão no aeroporto.

Sabia que – como chegaria em cima da hora – ir ao balcão da companhia significava não pegar o voo das 14h55, mas aquela altura só queria garantir o voo original. Tensão. Ao mesmo tempo, o trânsito não fluía, e o motorista do Uber, solidário, dava força e tentava chegar logo. O que me restava, nesse momento?

Culpar alguém, claro...

Olhei para a Gabriela, colega com quem dividia o Uber, e disse:

- A culpa é tua!

- Minha? Eu não fiz nada!

- Claro que fez, quem começou com a ideia de antecipar voos?

- Mas era o meu voo, das 18h para às 16h!

- Não importa, alguém tem que ser culpado caso eu perca o meu voo...

Nisso o motorista do Uber explodiu rindo.

Todos rimos... rir é o melhor nesses momentos...
Ao nos aproximar de Congonhas, combinamos que eu desceria e não a esperaria para poder correr até o balcão e tentar salvar o meu voo original. Assim foi. Saí do Uber e saí em desabalada carreira pelo aeroporto até a loja da Gol. Fila enorme.

Cheguei no balcão, me desculpei com quem estava sendo atendido, e pedi informação de como proceder. Tinha que ir até o checkin, para tentar – veja bem – tentar me recolocar no voo original. Fui até o checkin, mesmo procedimento, envergonhado por atrapalhar o atendimento em ocorrência, e expliquei o caso. Disse que voo estava fechado. Estou sem bagagem, argumentei com cara de cachorro carente.

Perguntou para o supervisor.

Que disse sim!

Me deu o cartão de embarque, saída de emergência meio, e disse para eu correr, porque era embarque imediato. Nova corrida, inspeção de segurança, painel de voos dizendo “Embarque próximo”. Havia conseguido!

Caminhei até o portão – o mais distante da entrada do embarque – e ainda não havia iniciado. Fila das prioridades, penúltimo lugar da fila, mas – muito mais importante que isso – chegando em casa mais cedo. Embarcado, até o último momento com o assento do corredor vago.

Estavam quase fechando as portas quando entrou o último passageiro que, ao chegar olhou para mim e disse “estava pensando que ia ficar vago, não? Lamento, mas vai alguém ao teu lado ”.

Olhei para ele e disse que se ele soubesse da minha história, saberia que eu iria sentado no chão, no fundo, de tão feliz por estar indo à aquela hora. E contei a minha história. E éramos os três, na mesma fila, janela, meio e corredor, passageiros que haviam antecipado seu voo e quase não conseguido embarcar.

Ainda antes de colocar o celular no modo avião ainda tive tempo de enviar uma mensagem para a Gabriela, só para agradecer pela ideia de antecipar o voo...

Somos gratos, também, nós os viajantes frequentes.

Até.  

terça-feira, novembro 27, 2018

Histórias de Aeroporto (2)

Os viajantes frequentes são como uma tribo.

Uma irmandade.

Estou ainda aprendendo, mas já reconheço algumas características que indicam que a pessoa que está a sua frente ou atrás de você na fila de embarque é um(a) viajante frequente. 

Antes de mais nada, a fila em que a pessoa está.

O viajante frequente está normalmente na fila da prioridade. Caso seja menor de 60 anos (o que dá direito a ser “prioridade por lei”), estará na fila de prioridade premium (por status no programa de milhagem da companhia aérea ou porque adquiriu o chamado assento conforto, mais à frente e com – em tese – mais espaço para as pernas, e que dá direito ao embarque prioritário). Sabe, principalmente, que – nos dias de hoje – em tempos de bagagem despachada paga e maior peso permitido para a bagagem de mão, embarcar primeiro é importantíssimo. Só dessa forma garante que a sua mala será acomodada no compartimento sobre o seu assento.

Quem – por qualquer razão – deixa para embarcar na última hora, quase que invariavelmente terá que despachar sua bagagem de mão ou colocá-la “onde encontrar espaço”, o que muitas vezes significa estar sentado no assento 3, por exemplo, e deixar a mala no 18. Ao final da viagem, terá que se deslocar contra a corrente para o fundo da aeronave para “resgatar” sua mala. Inconveniente.

Isso porque o viajante frequente quer desembarcar o mais rápido possível assim que o avião chega ao seu destino. Mal a aeronave para, já está em pé, pronto para desembarcar. Até porque muito em breve estará embarcado novamente a caminho de um novo destino.

Outra característica aparente dos viajantes frequentes é que apenas interagem entre si quando há algo errado com o voo. Atraso, por exemplo. Sempre é motivo para contar sua(s) história(s).

Quinta-feira passada, a caminho de Salvador – onde daria aula na sexta-feira pela manhã antes de iniciar a volta que atrasaria e tudo o mais que contei sobre voos turbulentos e arremetidas - estava na fila de embarque quando percebi que o voo ia atrasar. Bem à minha frente, uma viajante frequente (iniciou a fila das prioridades antes de mim) ou uma viajante paranóica, o que – em termos práticos – dá no mesmo...

A notícia do atraso do voo a deixa inquieta, percebo. Estou calmo porque meu tempo de conexão é suficiente para suportar um atraso não muito longo. Ela diz que está preocupada porque o tempo de conexão dela é curto. Inicio uma conversa:

- Vai para onde?

- Recife, para voltar amanhã – diz ela.

- Estou indo para Salvador, também para voltar amanhã – comento – e te entendo, há duas semanas fui até Belém/PA para uma aula e fiquei lá apenas 9h, pegando um voo de volta às 2h da manhã...

- Já eu – diz ela – fui para a Austrália no início do mês...

Respiro fundo. Penso na vida.

Passam-se segundos nesse ínterim.

- Ganhou, admito derrota.

Não dá para competir com um viajante frequente.

Até. 

segunda-feira, novembro 26, 2018

Histórias de Aeroporto

Pensamento mágico.

Nunca tive medo de andar de avião.

Nunca mesmo.

Sério.

Não tive medo quando, há quase vinte anos, voltávamos de viagem à Europa, a primeira dos Perdidos na Espace, quando fizemos um voo Paris - Frankfurt que atrasou pelo mau tempo e, quando partiu, nós sentados nas últimas fileiras, sacudiu tanto que houve ansiedade e choro, mas talvez porque alguém precisasse ficar calmo, apenas segurei a mão de Jacque e a tranquilizei, dizendo que tudo ficaria bem. Ficou. Também não fiquei nervoso quando saindo de Porto Alegre, em meio a uma tempestade de verão, sacudiu tanto que fiquei tonto e nauseado. "Mareado", mas ainda assim sem medo.

O que não quer dizer que nunca tenha criado minhas superstições quando voo.

A mais famosa delas (para mim, para mim) é a que diz que o avião não vai cair e tiver alguém conhecido a bordo. Seja lá quem for. Por exemplo, estava indo uma dia para o Rio de Janeiro e embarcou o Dr. José Camargo, cirurgião torácico e escritor. Pronto, na hora pensei, esse avião não cai de jeito nenhum. Superstição, pensamento mágico, eu sei, mas divertido.

Como nos últimos dois anos passei a viajar com certa frequência, o que me faz cliente frequente de companhia aérea e também desenvolver certas manias e rotinas ao chegar em aeroportos. O embarque prioritário, o assento que prefiro, etc. E também uma tranquilidade absoluta ao voar. Leituras, música, jogos no tablet, tudo para passar o tempo. E histórias de aeroporto e voos, evidentemente.

Ano passado, uma sequencia de atrasos, conexões perdidas, estadas em hotéis por isso, tornaram-me conhecido por pé frio. Nada demais, eu apenas conto as histórias, e o fato de morar no extremo sul do país, com mais conexões, tornam a probabilidade de problemas maiores. Como quando voltava de São Paulo numa noite de agosto de 2017.

Vinha lendo um livro interessante, fones de ouvido com cancelamento de ruído, sentado (contra minha vontade) no assento da janela. Observei Porto Alegre chegando, voltei à leitura e - quando percebi - estávamos alto de novo e o piloto informou que havíamos arremetido e estávamos a caminho de Florianópolis de onde tentaríamos voltar mais tarde. Eu não havia visto nada.

Sexta-feira da semana passada.

Após dar uma aula pela manhã, em Salvador, fui para o aeroporto para o voo que sairia às 13h50 e chegaria em Porto Alegre às 19h55, com conexão em Congonhas. No horário previsto para o embarque, era o primeiro da fila da prioridade (assentos premium). Passou o tempo. Nada. Mudou o portão.

Nada.

Por questões logísticas (seja lá o que isso seja), o voo atrasou DUAS horas para sair de Salvador. Saí de lá sabendo que havia perdido minha conexão, mas com a informação de que no voo seguinte, duas horas mais tarde, havia assentos disponíveis. Voo relativamente tranquilo. Chegamos em Congonhas, desembarque remoto, ônibus. Balcão de atendimento de conexões. Vários na fila na minha frente.

A fila avança rápido e, ao falar com a atendente, e olhando monitor com ela, vejo que fui realocado para um voo de sábado de manhã. Iria dormir em São Paulo, paciência... Chegam outros passageiros, ela pergunta se somos todos do mesmo voo (éramos) e orienta que desembarquemos e nos dirijamos ao balcão de checkin para sermos direcionados. Todos vão em direção a saída. Eu não, fico para trás.

Quando todos saem, volto a conversar com a atendente. Explico que preciso muito chegar em casa ainda na sexta-feira, pergunto se ela não pode me ajudar, e tal. Pergunta se eu não estava com o grupo. Digo que estávamos no mesmo voo, mas não juntos.

Consegue me colocar no voo que sairia em meia hora para Porto Alegre. Sucesso!

Corro até o portão de embarque, todos na fila para embarcar. Tudo corre bem.

O voo, contudo, atrasa para sair (trafego aéreo, etc).

Alguma turbulência, leio e ouço música.

Ao nos aproximar de Porto Alegre, o tempo não é bom. Relâmpagos iluminam o céu escuro. Chove forte.

Vejo Porto Alegre se aproximando na janela (estou no assento do corredor), fecho o olhos cansados do longo dia, e de repente escuto a força do motor aumentar muito. "Arremeteu, vamos para Florianópolis", penso já resignado. Mas não, circulamos em meio à chuva, reparo na tensão de outros passageiros.

Lembro que não era para eu estar nesse voo, e em histórias de pessoas que não conseguiram embarcar e depois o avião caiu. Não posso deixar de sorrir pensando na ironia caso aconteça algo, mas apenas por um fração de segundo.

Lembro que no voo, comigo, está o amigo e colega pneumologista-pediátrico Paulo Pitrez.

Fecho os olhos novamente, tudo está em paz.

Pousamos em segurança.

Até.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Filme de terror

Ainda sobre "A Tempestade" do final de janeiro.

É assim que vou lembrar e me referir a ela, a partir de agora.  Com respeito e letras maiúsculas, porque tenho certeza de que não houve outra igual em Porto Alegre, ao menos no tempo que alguém possa ter feito registro. Pois é.

Como falei anteriormente, boa parte da cidade ficou sem luz entre a sexta-feira à noite e - em alguns lugares, como aqui perto e casa - até a terça-feira. Alimento perecíveis estragaram, prejuízos, etc. Quase tudo já se falou sobre o que aconteceu, eu sei. Mas nem todos viveram o que eu vivi, no sábado à noite.

O filme de terror.

Tínhamos, a Jacque e eu, sido convidados para um casamento que ocorreria no sábado à noite, menos de vinte e quatro horas após A Tempestade. Sem luz em casa, fomos tomar banho e nos preparar para o evento na casa da minha mãe, na zona sul, onde dormiria a Marina e de onde sairíamos no domingo de manhã para nosso curto período de férias. Assim o fizemos, voltamos de carro até em casa, de onde saímos de táxi para a igreja e onde dormiríamos.

A igreja com luz devido a gerador, da mesmo forma que o restaurante onde ocorreu a festa. Que estava muito boa. Mesmo. Como viajaríamos no dia seguinte pela manhã, por volta da 1h da manhã decidimos voltar para casa. Por sorte, um casal de amigos que também ia embora nos ofereceu carona.

Circulando por ruas desertas e escuras, sem nenhum tipo de iluminação, nem a lua a iluminar os caminhos, chegamos em frente ao prédio onde moramos. Descemos rapidamente, o porteiro - no escuro, sem lanterna - abriu o portão e entramos. Ao trancar o portão a chave, um grito de "Socorro, alguém me ajude!" irrompeu na noite, vindo de perto, mas impossível de saber de onde.

Havia desespero na voz de quem pedia socorro.

O que fazer naquele momento?

Sair para a rua para procurar na escuridão total a origem da voz, para tentar ajudar, sob o risco de me tornar vítima também? E se fosse uma emboscada, um golpe? E se fosse genuíno o grito e  eu deixasse de auxiliar alguém em perigo?

Com a sensação de impotência, decidi entrar e torcer que tudo se resolvesse para quem pedia socorro. Não poderia correr o risco de tentar ser herói e acabar me envolvendo em algo potencialmente pior para mim. Minha integridade e de minha família em primeiro lugar. Apenas com a luz do celular a iluminar nosso caminho, iniciamos a subida em direção ao sétimo andar, onde moramos. Não sei bem em que andar, mas de repente caímos em um filme de terror.

Do nada, aparecem duas mulheres na escada do edifício, mãe e filha, essa última com um corte abaixo do olho e o rosto ensanguentado. A mãe segurava a filha - que tentava se desvencilhar - pelo braço e pedia que a ajudássemos (era a mesma voz que ouvíramos antes) a não deixar que ela saísse. Dizia que a filha e o filho haviam bebido demais e estavam brigando, e agora a filha queria ir para a rua. A filha dizia que só iria até o térreo para ficar um pouco longe do irmão, que seria esquizofrênico e que sempre brigava com ela, e ela não "aguentava mais".

Parecia mais tranquila que a mãe, mais coerente.

Mais uma vez, não havia nada que pudéssemos fazer. Enquanto elas resolviam as coisas entre elas, subimos o que restava até em casa.

Deitei para dormir, mas logo levantei e fui conferir se a porta estava bem trancada.

Olhei pela janela, escuridão total, nenhum movimento na rua, silêncio total.

Tive a certeza que, a qualquer momento, iriam bater na porta e tentar invadir.

Apocalipse zumbi, só podia ser isso.

Filme de terror, filme de terror.

Até.

quinta-feira, julho 16, 2015

Histórias Aleatórias

 Macondo, às vezes, é ali em casa.

Uma antiga ideia, de que a literatura está em todo o lado, com o que etérea, esperando que a reconheçamos e decidamos escrevê-la, tem sido recorrente nos últimos dias. Talvez porque eu esteja mais sensível ao mundo, voltando a conviver com o ofício e tentando recuperar o hábito de escrever. Ou não. Sei lá. Não importa.

O fato é que lembrei do final de Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marquez, que termina de forma sensacional, tanto é que não esqueço, mesmo fazendo mais de vinte anos que li, ainda no início dos anos noventa. Termina dizendo “que as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra”. Nos trechos finais do livro, ainda escreve sobre Aureliano Buendia: “... Não porque estivesse paralisado pelo horror, mas porque naquele instante prodigioso revelaram-se as chaves definitivas de Melquíades e viu a epígrafe dos pergaminhos perfeitamente ordenada no tempo e no espaço dos homens: O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas...”.

Formigas. Pois é.

Lembrei do livro ontem enquanto esperava ser chamado para atendimento numa assistência da Apple aqui em Porto Alegre. Quando o número da senha que eu tinha foi anunciado, fui até o atendente e, quando ele perguntou qual era o motivo da visita ao local, comentei – entre constrangido e divertido – “formigas saem da minha Apple TV...”. Ele me olhou, incrédulo, e eu entreguei a ele o aparelho da Apple, de onde ainda saiam algumas daquelas formigas diminutas, clarinhas, que parecem pequenas aranhas. Como assim?, perguntou.

Respondi a ele que – não tenho a menor ideia de como nem por quê – ocorrera uma infestação desses pequenos animais justamente junto ao DVD e ao aparelho da Apple. Isso que eu moro no sétimo andar! Eliminei-as da cozinha, foram se vingar na sala...

Foi conversar com os técnicos e após alguns minutos voltou com o veredito: não há o que fazer. “Nada?”, perguntei eu. Não... nada, respondeu.  Não tem como abrir o aparelho. As formigas devem ter feito um ninho dentro... Talvez com aqueles venenos em fumaça... O aparelho funciona? Sim, respondi. Então é isso.

Voltei para casa entre frustrado e conformado.

Ao chegar, as formigas ainda saíam da minha Apple TV. Peguei um jornal, estendi no chão da área de serviço do apartamento, depositei o aparelho ali e – com um spray de inseticida – dei um banho de veneno nele. Horas depois, testei: continuava funcionando (mas não sei até quando será assim). Poucos cadáveres de formiga eventualmente ainda aparecem em sua volta, mas estou em vigília quase permanente para o aparecimento de novas.

Ou que elas ataquem em outro local da casa.

Até.