Crônicas e depoimentos sobre a vida em geral. Antes o exílio; depois, a espera. Agora, o encantamento. A vida, afinal de contas, não é muito mais do que estórias para contar.
sábado, dezembro 14, 2024
sexta-feira, dezembro 13, 2024
Em Frente ao Espelho é Sexta-feira
Digo que não sou melhor do que ninguém, mas é mentira.
Sou, sim, melhor que muita gente em algumas coisas, assim como sou MUITO pior que muitos em outras. Todos somos assim, temos nossas características próprias, qualidades de que nos orgulhamos e fraquezas que nos envergonham. É da vida.
Aliás, à medida que o tempo passa, tenho menos vergonha das minhas fraquezas, fico menos incomodado com aquilo que não sei ou não consigo. São parte do que eu sou, e abraçar minhas limitações é parte do autoconhecimento. Não que eu me orgulhe delas, mas são o ponto de partida para eu melhorar. Ou não.
Existem, sim, atividades, tarefas, para as quais, por mais que eu queria dominar, nunca vou conseguir, por mais que eu tente. E está tudo certo. Reconhecer que vou fracassar miseravelmente em algumas tentativas é ter a tranquilidade de aceitar as coisas como elas são. Ficar em paz com isso é importante.
Tem, contudo, uma característica que considero possuir e espero que as pessoas sintam o mesmo com relação a mim, porque – sim – acho que me definem.
Sou alguém de confiança.
Procuro ser, na verdade. Alguém que os amigos saibam que podem contar com se precisarem, que estará junto na boa e na ruim, para o que der e vier. Nos churrascos e em meio à tempestade. Tenho alguns amigos que são assim, e sabem que estou aqui, sempre.
Sextou.
Até.
quinta-feira, dezembro 12, 2024
Pertencer e a Ilha
Como parte da montanha-russa de sentimentos que caracterizam cada final de ano, junto com a sempre necessária retrospectiva pessoal que devemos fazer ou, melhor, é saudável que façamos, cada um sabe de si, circulamos entre as celebrações, as saudades, a sensação do dever cumprido, e possíveis frustrações pelo não alcançado e por quem perdemos pelo caminho, literal ou figuradamente. Também os reencontros.
Reforço aqui a importância – para mim, para mim – do sentimento de pertencimento, talvez um dos mais significativos. Saber, sentir-se parte de algo maior que nossa existência individual, de uma equipe, grupo, família, ou comunidade é parte do que faz nossa existência ter sentido.
E é uma das principais lutas minhas internas, aquela entre o ser parte de algo, pertencer, o que é diferente de me encaixar, e o ser uma ilha, um ser isolado no meio de pessoas. Demorei muito a perceber que, apesar de eu ser uma pessoa que precisa fazer parte, de me sentir parte, também preciso ser uma ilha em outros momentos. É o balanço entre os dois momentos que necessita ser ajustado.
Mas falava do sentimento de pertencimento.
É bom e importante cultivar as relações que nos proporcionam essa sensação, que tranquiliza e conforta. Os encontros e churrascos e fotos em elevadores e confrarias e planos reforçam, reafirmam isso, que estamos fazendo as coisas certas, que contamos com os amigos certos.
Até.
quarta-feira, dezembro 11, 2024
O Suficiente
Uma piada interna, e antiga.
Há muitos anos amigos, quase quarenta, temos, o Márcio, o Radica e eu, um dialeto próprio de piadas internas, expressões e comentários que usamos em nossa comunicação. Entre elas, uma expressão comum é a “não sou amigo o suficiente”, usada em variados contextos, como piada, claro. Estava pensando nessa expressão esses dias, quando ouvi (ou li) sobre o conceito dos amigos de oito minutos.
Esse tempo, oito minutos, seria o tempo necessário que alguém com algum problema, alguma inquietação ou ansiedade, precisaria da atenção, do ouvir atento e empático de um amigo, de alguém de confiança, para que se sentisse melhor, mais calmo. Seria o tempo de conversar. E da importância de se ser alguém assim. Pois é, sempre soube que eu queria ser alguém assim. Para ser sincero, eu espero que os meus amigos saibam que eu sou esse amigo para eles.
Isso me fez pensar em como tenho “cuidado” dos meus amigos.
Se tenho estado disponível, se sabem que estou aí para caso precisem de mim. Tenho ligado, feito contato com eles tanto quanto deveria ou, melhor, gostaria? Surgiram novos nos últimos tempos, certamente, mas realmente estou demonstrando o quanto são importantes os amigos de sempre, de uma vida?
Sei que sabem que estou aqui para o que der e vier, assim como sei que eles também estão, como sempre estiveram, como sempre estivemos. Mas será que nós não deveríamos estar mais presentes uns nas vidas dos outros?
Se existia alguma dúvida, que saibam.
Estou aí para o que der e vier.
É só ligar.
Até.
terça-feira, dezembro 10, 2024
Viagem no Tempo
Eu visito estrelas, lendas, profecias...
Assim como acontece com algumas músicas, que nos fazem voltar no tempo, voltar a momentos ou épocas específicas do passado, e sentimos exatamente como estivéssemos ainda lá, também alguns reencontros nos fazem sentir como se o tempo não tivesse passado. Comigo, esse tipo de sensação é bem frequente.
Como quando eu ouço o disco ‘Ideologia’ do Cazuza, e a música ‘Faz Parte do Meu Show’ em especial, que me transporta para julho de 1988, quando teve seu clipe exibido na televisão e estávamos nós, o pessoal do Fundinho, nossa turma do segundo grau da Escola Técnica do Comércio, curso de Operador de Computador, na praia, Tramandaí, em férias de inverno, na Colônia de Férias da UFRGS. Ainda tenho claro em minha memória aqueles dias, e me sinto lá quando ouço a música. Existem outras que remetem ao passado, claro, contam a história da minha vida, e dão conforto.
Assim como rever pessoas com quem convivemos no passado, e que com quem, por circunstâncias da vida, perdemos o contato, perdemos a convivência. É a confirmação do que vivemos, de quem somos, mesmo que exista a noção de que o passado vai mudando conforme nossa memória e conforme a narrativa que vamos criando para nós mesmos.
O encontro com os colegas de faculdade para celebrar a passagem de trinta anos de formatura teve esse ponto, o de recontar, repensar, reviver certas histórias, algumas que nem lembrávamos, e para reafirmar (para mim, para mim) que quero e, na verdade, realmente preciso manter mais próximos alguns amigos que são, sim, fundamentais.
E eles sabem quem são.
Até.
segunda-feira, dezembro 09, 2024
Mais Sobre o Tempo
O tempo, de novo.
Serei virtualmente monotemático nas próximas semanas, alerto a você prezado leitor, mas não me desculpo por esse fato. Peço paciência, afinal de contas ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar.
Não é verdade. Não vejo novelas...
Dizia que minha (quase) fixação pelo tema ‘passagem do tempo’ está exacerbada nas últimas semanas devido aos diversos marcos temporais desses últimos tempos, os números ‘redondos’ (vinte, trinta anos) de alguns eventos seminais em minha vida. Já falei deles, desde os vinte anos que marcam minha ida para o Canadá e o doutoramento em medicina, os trinta anos de formatura em medicina, e, a partir de janeiro, os marcos de trinta anos de minha relação com a Jacque (nos conhecemos em um dois de janeiro de 1995, e estamos juntos desde oito de março desse mesmo ano).
Na última sexta-feira, foi o encontro dos formandos de medicina da PUCRS de 1994, em um churrasco repleto de histórias e lembranças. Alguns colegas eu não encontrava desde aquele 17 de dezembro de 1994, outros vejo com frequência. Foi muito bom e emotivo. Qualquer incompatibilidade daquela época ficou muito no passado, e os bons momentos passados são o que valem ser lembrados.
Alguns encontros foram especiais, pois comprovaram a ausência de hiatos na amizade, mesmo que não tenha havido a frequência na convivência que seria normalmente desejada e que a rotina dos dias não permite. Os laços e o afeto mútuo se mantêm, a dinâmica é a mesma. Até planos surgem.
É como andar de bicicleta, mas sem o risco de quedas...
Até.
domingo, dezembro 08, 2024
A Sopa
Sou médico há 30 anos.
Existe um peso embutido nessa afirmação, que dá um certo tipo de credibilidade, do tipo ‘respeite meus cabelos brancos’, no sentido de possuir experiência, de ter vivido muito. Como se fosse uma promoção por tempo de serviço, o que – de certa forma – realmente é. Mais que tudo, são muitas histórias vividas.
Essa marca, trinta anos desde que nos formamos, os colegas da Associação da Turma Médica de 1994 da Faculdade (hoje Escola) de Medicina da PUCRS, além da comemoração entre nós, os formandos daquele ano, me faz também olhar para trás e refletir sobre a passagem do tempo. De onde viemos e quem éramos para onde estamos e quem somos.
Trinta anos é uma vida inteira, mas parece – olhando retrospectivamente – que passou muito rápido.
O quanto o mundo, e a vida em especial, mudou desde aquele 17 de dezembro de 1994, de calor intenso, cerimônia de mais de três horas em que meu pai me entregou o meu diploma, e ele suava de calor, e o pai de uma colega que era irmã de uma ex-namorada minha me abraçou no palco quando passou por mim e a minha namorada à época que estava na plateia não entendeu, e depois teve a festa lá em casa e depois o baile e o café da manhã em um hotel, e antes de dormir, exausto, ainda discuti com a namorada não lembro por que razão, mas passamos a virada do ano juntos, na praia, e deixei ela em casa no dia primeiro de janeiro já como ex-namorados, e ainda faríamos uma tentativa de volta justamente no carnaval, e na primeira noite sonhei com a Jacque, que era colega de hospital, e pensei que nunca teria chance com ela, mas a tentativa de retorno não deu certo, e no dia seguinte à conversa definitiva em que ela disse que não queria mais tentar eu fiz plantão em uma UTI e, ao sair do plantão, fomos todos, residentes de clínica do Hospital da PUCRS jantar na casa de um dos colegas e lá, sentado ao lado da Jacque, perguntei porque brincava comigo dizendo, quando o meu pai ligava para hospital para falar comigo e ela atendia, que o ‘sogrão’ estava ligando, e ela disse que não era brincadeira, e saímos e ficamos juntos e namoramos por um mês em segredo até revelarmos a todos, e um ano e meio depois casamos, a Marina nasceu depois de doze anos, e estamos juntos, felizes, até hoje.
Como em um piscar de olhos, boa parte da vida passou.
Mudei, mudamos.
Ainda há muito o que fazer e percorrer.
Desejos e planos, secretos ou não.
Seguimos, altivos.
Até.
