domingo, agosto 15, 2010

A Sopa 10/03

A semana tem tudo para ser vermelha.

Como qualquer pessoa com mínimo interesse em futebol – além de todo o Rio Grande do Sul – sabe, na próxima quarta-feira ocorre o segundo jogo da final da Copa Libertadores da América, mais importante competição sul-americana de futebol, justamente no estádio do Internacional de Porto Alegre, o Beira-Rio. O primeiro jogo, realizado uma semana antes em Guadalajara, México, terminou com vitória colorada sobre o Chivas por dois a um, de virada. Quarta-feira, Porto Alegre – e parte do Rio Grande - vai parar.

Pode ser (assim espero) a segunda conquista deste título pelo Inter. A primeira vez, em dois mil e seis, foi contra o São Paulo, segundo jogo aqui em Porto Alegre, um mês e meio depois de eu ter voltado do Canadá. Consegui ir ao jogo, com a carteira de sócio de um grande amigo que não podia ir por questões de trabalho. Testemunhei a conquista da América pela Inter. Assistiria a conquista do mundo, frente ao Barcelona, pela tevê, de casa. Na hora do gol da vitória, passei mal: hiperventilei, fiquei taquicárdico, pálido, sudorético.

Quatro anos depois, o Inter pode ser bicampeão da América.

Se realmente ocorrer, e no momento as maiores chances são mesmo do Inter, será um duro golpe no coração dos gremistas, que por muitos anos cantavam vantagem primeiro por terem sido campeões da América e do equivalente da época ao campeonato mundial em 1983 e o Inter não. E realmente parecia que nunca seria, ainda mais depois de 1989, quando o Inter perdeu a semifinal para o Olímpia, em casa, nos pênaltis, após ter vencido o primeiro jogo no Paraguai. Quando o Inter foi campeão em 2006, o Grêmio já era bi da América, mas perdera o segundo título mundial para o Ajax da Holanda, no Japão.

Dessa forma, ainda lembravam que eram duas vezes campeões sul-americanos, em 1983 e 1995, e havia a esperança de muitos de que o título do Inter houvesse sido acaso, do tipo “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”. Mas, se quiserem continuar no tema, raios caem mais de uma vez no mesmo lugar. Apenas quatro anos depois da conquista colorada, surge novamente a possibilidade – ainda é apenas possibilidade, nada mais – de o colorado ganhar pela segunda vez a Libertadores. E, pior para o imaginário tricolor, já está certo que vai jogar o Mundial em Abu Dhabi, em dezembro. Seria, aí assim, mortal para os azuis, se o Inter fosse duas vezes campeão do mundo.

Mas como todos sabemos, tudo pode acontecer, e o que é sucesso e vitória hoje pode se tornar fracasso e derrota depois. Esta aí a história que não me deixa mentir.

Torcer é o que nos resta.

Até.

sexta-feira, agosto 13, 2010

Há 20 Anos, Morri (Parte 3)

Depois de treze dias em coma na UTI do Hospital São Lucas da PUCRS, eu havia acordado, num sábado de manhã. Entre a hora da visita da tarde de sábado e domingo, quando recebi alta para o quarto, não posso precisar bem o que aconteceu. Lembro de tentar tomar água (ou suco) de um copo e virar tudo sobre mim.

Saí da UTI no domingo à tarde, para um quarto do oitavo andar, e minha mãe ficou para passar a noite comigo. Tenho uma lembrança muito ruim da janta daquela noite: a dieta era pastosa, vários “creminhos” com cores diversas cuja única diferença era essa, a cor. Foi isso o que tornou a minha primeira noite fora da UTI uma tortura, para mim e para a mãe: FOME.

Depois de dormir mais de dez dias, eu tinha fome, muita fome. Como a janta tinha sido ‘pastosa’, passei toda a noite esperando o amanhecer e, com ele, o café. De tempos em tempos, eu acordava e perguntava: “Já está na hora do café?”. Minha mãe dizia que não e eu me queixava de fome. Mesmo sem autorização médica, me deu maçã para comer, na tentativa de aplacar o meu ímpeto por comida. Foi uma noite bem longa.

Quando finalmente amanheceu e trouxeram o café, foi uma visão do paraíso. No afã de comer logo, enquanto a mãe tentava preparar um pão com manteiga para eu comer, eu comia o que estava à disposição, inclusive a manteiga que ela tinha aberto para passar no pão. Junto com o café, chegou o colega de faculdade Maurício Rieger, trazendo um pedaço da torta de morango que comprara para a comemoração do seu aniversário: comi tudo, rapidamente.

Passado esse episódio inicial, fiquei mais tranqüilo. Foi quando começaram as visitas. Ao contrário de quando estava na UTI, onde só podia entrar uma pessoa por vez, o meu quarto virou uma grande festa. Além das pessoas que vinham de fora me visitar (eram muitas), os meus colegas de faculdade (não todos, óbvio) saíam das poucas aulas que estavam tendo (lembrem-se: a PUC estava em greve desde a tarde anterior ao acidente) e se reuniam no meu quarto. Tornava-se uma balbúrdia só, todos falando ao mesmo tempo, uma gritaria. Eu só olhava, sem dizer quase nada.

O que todos logo notaram foi que, além de falar pouco, eu também não ria. Bem estranho para quem estava acostumado comigo. Não sei explicar o por quê desse fenômeno. Talvez ainda meio sem saber bem o que tinha se passado, a magnitude da coisa, não sei. Não era falta de humor, isso eu sei. Lembro que, na primeira vez que o Márcio e o Radica – amigos desde o segundo grau e até hoje – foram me visitar depois que eu acordei, uma das primeiras coisas que disseram foi que tinham ficado sabendo que depois do acidente, eu ficaria “inútil” da cintura para baixo. Sem nenhum vacilo, respondi que as funções “da cintura para baixo” foram as primeiras que descobri que estavam em ordem. Mesmo assim, não ria muito nestes dias.

Comecei a rir bem depois quando já estava em casa, mas isso é motivo para outra crônica numa outra Sopa. Acabei ficando, depois de ter alta da UTI, mais doze dias no hospital por conta de uma febre que os médicos não sabiam localizar. Coletaram hemoculturas e fui submetido até a uma punção lombar, para coletar líquido cefalorraquidiano, na suspeita até de meningite. Mas era apenas uma amigdalite. Tive alta do hospital no dia seis de setembro de mil novecentos e noventa, véspera do feriado da independência.

Há 20 Anos, Morri (Parte 2)

Recordando: na madrugada de 12 de agosto de 1990, após uma noite de festa com amigos, eu vinha de carona com um colega de faculdade e acho que nós dois pegamos no sono. Como ele estava dirigindo, as conseqüências foram ruins. Batemos com o carro em outro que estava estacionado, bem do meu lado. Resultado, traumatismo craniano em mim e treze dias em coma na UTI do hospital da PUC. Agora, em frente.

Desde que entrei na faculdade de medicina, e tive contato com o ambiente hospitalar, um das situações que mais me causava mal estar era assistir às enfermeiras passarem sondas nos pacientes. A pior delas, na minha curta experiência de estudante que acompanhava as aulas práticas de cuidados gerais com pacientes, era a sonda nasogástrica, que entrava pelo nariz e ia até o estômago. Tinha uma variante, mais fina, que ia até logo após o estômago, no duodeno, que servia para alimentar os pacientes.

Por isso, logo após acordar e me inteirar de onde eu estava (sim, era um hospital e, não, não era o Ernesto Dornelles) e ainda sem saber bem o que tinha acontecido, veio a primeira boa notícia: eu estava em uma UTI e não tinha nenhuma sonda em mim. Eu respirava com tranqüilidade, urinava em um recipiente chamado de ‘papagaio’ e – apesar de ficar com os pés para fora da cama – parecia inteiro. Internado na UTI do Hospital da PUC, o que teria acontecido? A única sensação que eu tinha era a de ter dormido muito, ainda sem saber que o muito significavam 13 dias inteiros, do dia 12 ao dia 25 de agosto de 1990. Esperava um café na cama ou algo assim. Aliás, onde estava a minha mãe?

Ao acordar daquilo que – ficaria sabendo mais tarde – havia sido um período de treze dias em coma, as primeiras pessoas que eu vi era conhecidas: Alexandre Magno e Luciano Ery, colegas da faculdade de medicina. Estavam em um sábado de manhã no hospital, em um estágio na traumatologia, e resolveram ir dar uma “olhada” no colega na UTI. Por coincidência, me viram acordar. Acho que isso deveria ser por voltas das 10h30min da manhã, e ainda tive de esperar até à 13h para o horário da visita. Estava bem sonolento ainda, lembro de pouca coisa dessas 2h30 até começarem a entrar pessoas para me ver acordado, novamente. Não sabia, mas havia uma vigília na sala de espera da UTI, no terceiro andar do Hospital São Lucas, que tinha iniciado no dia do acidente e tinha sido permanente nestes longos (principalmente para quem não estava dormindo, como eu) dias em que se perguntavam se eu iria acordar e, se acordasse, como eu estaria. Mas isso é história para outra crônica. Voltemos ao sábado, 25 de agosto de 1990, logo após sair do coma.

A hora da visita foi uma festa, até porque o Luciano e o Magno já haviam contado a todos que eu acordara. Na meia hora regulamentar do horário de visitas, entraram para me ver talvez uma dezena de pessoas conhecidas, entre os meus pais, irmão, tios, e amigos. Como tinham pouco tempo, falavam pouco e rápido e tinham que sair para o próximo poder entrar. Todos sorridentes e felizes de me verem novamente acordado.

Eu estava de volta ao jogo, mas a recuperação de verdade recém iria iniciar.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Há 20 Anos, Morri

No ano de 1990, o dia 12 de agosto caiu num domingo, dia dos pais.

Pena que meu pai não tem lembranças agradáveis daquele domingo, quando foi acordado por volta das seis horas da manhã com o telefone tocando e a notícia de que seu filho mais velho – eu – com dezoito anos, estava internado no Hospital de Pronto Socorro vítima de um acidente automobilístico. Um péssimo dia dos pais aquele 12 de agosto de 1990.

Tudo começara na noite anterior, quando eu tinha saído de casa para fazer festa com uma turma. O meu colega de faculdade que tinha carro à disposição me pegara em casa e fomos em direção ao bairro Moinhos de Vento onde haveria a festa em questão. Paralelamente a isso, eu sabia que uma parte da minha turma da praia (já citada algumas vezes neste semanário) estaria nesta mesma festa e combinamos de sairmos todos juntos. Chegando ao local, por alguma razão que o tempo já tornou um mistério, decidimos – todos – ir a um bar na Av Vinte e Quatro de Outubro, em Porto Alegre, de nome “Bat-Bat”.

Lá chegando, houve um mal-entendido e acabamos – eu, o colega que havia me dado carona e uma colega e ex-namorada minha – ficando em mesas separadas, e eu junto com a minha turma da praia e os dois sozinhos. Achei estranho eles dois não sentarem junto comigo e o resto do pessoal conhecido, mas como era festa, deixei para lá. Algumas vezes fiz sinal para que eles dois se juntassem a nós, mas preferiram não fazê-lo. Isso durou toda a noite, até a hora de ir embora.

Como eu estava de carona com este meu colega, certamente que eu iria voltar para casa com ele, e também a colega e ex-namorada e dois dos meus companheiros da turma da praia, conforme previamente combinado. Quando fomos sair, notei que o colega dono do carro havia bebido um pouco além do recomendado, e me ofereci para ir dirigindo, proposta recusada pelo dono do carro. Parênteses. Eu também havia bebido, claro, mas infinitamente menos que ele, pois eu não tinha o hábito de beber muito, com exceção de alguns carnavais do bloco Perversa, mas isso é história para outro dia. Fecha parênteses. Nosso roteiro de volta para a zona sul e deixando os caroneiros em casa iniciava pela zona norte, onde morava a nossa colega (e minha ex-namorada). Eu era o último que seria deixado em casa, pois morava na zona sul.

Logo na primeira parte, notamos que o motorista estava com sua percepção alterada pelo álcool, e quando paramos para largar a primeira passageira, decidi que eu iria dirigir de qualquer jeito. Ele desceu do carro para acompanhá-la até em casa e eu assumi o volante. Ele havia levado a chave e disse que ele é quem dirigiria. Então eu resolvi que iria de ônibus. Detalhe: 5h15 da madrugada, tendo que atravessar a cidade de ônibus (que nem haviam começado a circular ainda) ou a pé. Saí caminhando pela rua em direção a uma ponto de ônibus.

Ele veio atrás de carro e se comprometeu a dirigir com cuidado. Aceitei a proposta e seguimos. Largamos o segundo e fomos até a frente da casa do último antes de seguir para a zona sul. Quando o penúltimo a descer desceu, deu a dica: colocar o cinto de segurança (naquela época ainda não era costume nem lei usá-lo). Acho que fiz isso, não lembro bem. O que aconteceu depois, me contaram: na Av Ipiranga, grande avenida que corta Porto Alegre de leste a oeste, provavelmente após pegarmos no sono, ele bateu com o carro num outro estacionado, no lado direito da rua, e justamente no lado em que eu estava dormindo, tranqüilo.

Retirado das ferragens pelos bombeiros, traumatismo crânio-encefálico, coma Glasgow 4 (bem ruim). Internação no HPS com posterior transferência para o Hospital São Lucas da PUCRS, onde eu estudava medicina e trabalho até hoje. Treze dias em coma e quatorze na UTI. No quarto, após sair da UTI, fiquei mais dez dias, com febre e uma maldita amigdalite. Não perdi o semestre na faculdade porque – providencialmente – naquele mesmo sábado, véspera do dia dos pais, os professores da PUCRS tinham entrado em greve, que durou até bem depois de eu voltar a assistir aula, cambaleante e sem firmeza ao andar.

Não lembro muita coisa daqueles dias do coma, apenas a sensação, quando acordei, de que havia dormido mais do que deveria. O engraçado é que eu sabia que estava num hospital, mas achava que era outro e tinha a impressão de que estava num quarto com uma grande janela de vidro que dava para um campo com uma colina ao fundo, um grande gramado verde e dias de sol intenso. Não tive vontade de caminhar por este campo nem seguir em direção à luz nenhuma. Acordei com uma vontade enorme de ver minha mãe.

Em 12 de agosto de 1990, morri.

Como não era minha hora, voltei. Colocar a cabeça em ordem depois disso não foi fácil, levou tempo, mas tudo terminou bem.

Há exatos vinte anos.

Até.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Falta pouco

Chivas 1 x 2 Inter

Em uma semana, um empate basta para o Bi da América.

Nada está ganho ainda, mas agora é só não levar gol que somos campeões.

Até.