domingo, janeiro 09, 2022

A Sopa

Tento ser leve, na vida.

 

Nem sempre consigo, confesso. 

 

A busca da simplicidade, do viver bem, da não ausência de ambições, mas o estar confortável com o caminho percorrido e disposto a seguir em frente, entre humilde e resoluto, absorvendo cada passo na estrada e tendo a capacidade, a vontade e o tempo de apreciar o que está à volta, a paisagem.

 

Importante também são as companhias de jornada.

 

Digo ser leve no sentido de não irradiar energia negativa e aprender a não absorver as que são emanadas ao meu redor. Precisar de menos, no sentido material, e de mais, em termos de relacionamentos. Como disse uma vez, tudo na vida são relacionamentos, o tempo todo. 

 

Aprender a nos relacionarmos com as pessoas, com o mundo em geral, é a chave de tudo. E lembro da música do Nei Lisboa, que é (mais um) tipo de mantra para mim:

 

Me ofereceram Buda, Krishna, Cristo
Um coração, um ombro, a mão
Um visto pro Japão
Não que eu achasse graça
Mas me lembrava
Aquelas calças divididas
A lingerie por cima
Ainda por cima aquelas pernas
Tantas ideias, tantas braçadas
Tantos amassos, tanta tesão
Não que eu me desse conta
Enquanto havia
Mas na memória
As contas da história brilham na luz
E nessas horas
Não tem mais hora
É sempre meio-dia

Seria um lindo domingo
Um grande desfile
O último show
Se houvesse um tele transporte
Se fosse arte nas mãos de deus

Porém o céu parece estúdio
Nem o silêncio não diz nada
Mesmo essas frases vão pro lixo
São como lenços de papel
Ainda por cima aquelas pernas
Algumas coisas serão eternas
Que bela ideia acreditar
Que o mundo te aprendeu

  

Eu gosto especialmente da ideia de que o mundo pode nos aprender, assim como o aprendemos e apreendemos. A letra da música é poesia pura, magistral, encantadora e inspiradora.

 

Dá vontade de sair por aí e viver.

Até.   

sábado, janeiro 08, 2022

Sábado (e perfeição)




Nunca foi tão atual, lamentavelmente....


Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião


Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos

Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã


Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade

E comemorar a nossa solidão


Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação

Vamos celebrar o horror
De tudo isso com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção


Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão

Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que vem é perfeição 


Ah, pois é. Bom sábado a todos.


Até.

 


quinta-feira, janeiro 06, 2022

Sobre o dizer e o escrever

Registrar pensamentos.

 

Tenho que começar a anotar, ou gravar, as ideias que tenho para textos e crônicas para cá. Durante o dia, por aí, envolto em atividades diversas, muitas vezes tenho insights, eventualmente epifanias, que penso que serão perfeitas para uma Sopa de domingo, mas depois acabo esquecendo, não conseguindo lembrá-las quando sento para escrever.

 

Acontece direto.

 

Aconteceu hoje.

 

Caminhava no longo corredor do Centro Clínico da PUCRS, indo ou voltando do hospital, passando também pelo túnel que liga um com o outro, o Centro Clínico e o Hospital São Lucas, que chamamos (chamo) de túnel de extremos meteorológicos (é congelante do inverno e senegalês no verão), quando tive um pensamento que concluí na hora que merecia uma crônica sobre, que ia escrever sobre. Andei por metros empolgado com a ideia e a possibilidade de escrever sobre ela, de escrevê-la.

 

Esqueci, claro.

 

E não consigo lembrar.

 

Pode ter a ver com uma colega pneumologista que é parte agora da diretoria da Sociedade de Pneumologia, da qual continuo diretor, agora financeiro, já tenho passado por quase todos os cargos possíveis desde 2008 quando passei a fazer parte e que sou atualmente o diretor há mais tempo na diretoria, sem nunca esquecer que quando assumi a presidência eu era “a nova geração”. Mas eu falava dessa colega que disse que estava feliz em voltar a fazer parte do grupo e respondi que era muito bom tê-la de volta, e pensei que gosto realmente de pessoas, dos amigos, claro, de conviver com eles, de conversar, de contar histórias, de celebrar.

 

Talvez fosse isso que eu quisesse escrever.

 

Confesso, envergonhado, que não lembro.

 

Não importa, no final das contas, pois dizer o que eu acabo de dizer é o que eu precisava dizer. 

 

Até.   

quarta-feira, janeiro 05, 2022

Crônicas de uma Pandemia, a Volta

Pois é.

 

Não, as Crônicas de uma Pandemia não estão de volta, assim como a pandemia não está de volta porque não havia terminado. E, sim, vou falar um pouco da COVID-19, mesmo que eu não mais quisesse fazê-lo.

 

Falando aqui de perto do meu umbigo, estamos vendo que os casos de Síndrome Respiratória Aguda aumentaram muito na última semana e pouco, fruto da variante ômicron e da cepa H3N2 do vírus influenza, somados aos festejos de final de ano. A boa notícia é que estão cancelando as festividades de carnaval, que só ocorreriam no início de março, mas é o mais prudente a fazer.

 

Dizia eu que os casos aumentaram (até a Marina, tendo tido COVID e vacinada com duas doses, teve sintomas na semana do Natal, mas os testes para COVID e influenza foram negativos) o que evidentemente motivou a maior necessidade de nos cuidarmos, distanciamento, evitar aglomerações em locais fechados, máscaras, aquilo tudo o que temos falado ao longo do tempo. A quem não vacinou, que se vacine.

 

Sobre isso, criou-se no Brasil uma polêmica estéril sobre a vacinação das crianças de 5-11 anos. O governo central, esse poço de estupidez e ignorância, vem jogando contra a vacinação das crianças desde o início, o que – sim – já é motivo de chamá-los de criminosos, mas não é essa minha função. De um governo negacionista, espera-se tudo.

 

O que me espanta e frustra e decepciona e irrita é ver colegas médicos, a quem tenho grande respeito, entrando na onde de questionar a validade de vacinar ou não esse grupo etário. É mais ou menos a mesma sensação que tive – após dizer que eu havia sido voluntário do estudo da Coronavac – ao ouvir que ‘eu não faria essa vacina, vou feita muito rápido...’. E isso em 2020! Se fosse em 1950, eu entenderia e até apoiaria...

 

Agora ocorre o mesmo com a vacina infantil.

 

A vacina da Pfizer para crianças está aprovada para uso nesta faixa etária nos Estados Unidos (FDA), na União Europeia (EMA) e também no Brasil. Os estudos com crianças foram avaliados, e mais de 3 milhões de crianças já receberam ao menos uma dose nos Estados Unidos, com pouquíssimos eventos adversos, todos leves. E nem falo dos riscos da COVID em crianças que, sim, são menores que em adultos, mas não são inexistentes. Na balança do risco x benefício, que é o que fazemos todos os dias em medicina, sempre pró-vacina.

 

Se colegas competentes estão em dúvida quanto ao assunto, quando – em minha opinião pessoal, sabendo que não sou dono da verdade – não deveria haver nenhuma, só podemos concluir uma coisa...

 

Os anti-vaxxers, se não estão ganhando a guerra, estão fazendo muito estrago. 

 

Até. 

segunda-feira, janeiro 03, 2022

Consistência

Começou o ano de trabalho.

 

Devagar, confesso, mas janeiro será assim até as férias do início de fevereiro. Lembro que, tradicionalmente, os meses de verão são (para mim, para mim) mais tranquilos, leves. Pode ser pelo caráter sazonal da minha especialidade, fato esse que foi pervertido no último verão pela pandemia.

 

De qualquer forma, a sensação de início lento é boa porque permite que possa por em curso algumas das metas a que me propus para  ano que recém iniciou. Porque – sim – eu proveito o ritual da virada de ano para  um tipo de recomeço, mesmo sabendo que a troca de ano é uma convenção social, que o primeiro de janeiro é igual ao trinta e um de dezembro.

 

E começo com o objetivo dos últimos anos: consistência.

 

É o que tenho buscado. Ser consistente naquilo que faço.

 

Atividade física, alimentação (mesmo que o último mês e meio tenha sido “meio selvagem”), sono, estudos, trabalho. É incluir as atividades a que me propus fazer entrarem na rotina diária. Como fiz com a atividade física.

 

Há alguns meses, quando chegava na academia um dia de manhã, no estacionamento onde deixo o carro, uma das donas perguntou como eu conseguia ir todos os dias, de segunda a sexta-feira, treinar. Disse que era simples, era só não pensar. Tornar aquilo algo mecânico, automático, parte do dia, como escovar os dentes ou tomar banho.

 

Demorei muito tempo para conseguir fazer isso com a atividade física (sei que não é fácil e nem simples). Foi difícil encontrar a academia ideal para mim, que certamente é diferente de outras pessoas. Depois disso, foi só não pensar: acordar, me arrumar e ir. De segunda a sexta. E, nos finais de semana, a bicicleta (bike, para os modernos). Acordo normalmente antes da sete horas, tomo café, me arrumo e saio. Sozinho, com fone de ouvido tocando podcasts, ou com parceria, que torna o pedal mais leve.


O fato de que consigo ser consistente e disciplinado com a atividade física mostra que posso ser também em outros aspectos da vida, o que é mais um grande benefício do processo.

 

Melhora a autoestima e dificulta que a síndrome do impostor apareça com frequência maior...

 

Até.   

domingo, janeiro 02, 2022

A Sopa

Começou 2022.

 

Durante muitos anos, e até ano passado, sempre nos dias ao redor dessa transição entre o ano que terminava e o que iniciava, eu fazia a retrospectiva do ano anterior e projetava o ano seguinte. Era uma forma de para e refletir sobre o que havia vivido, com quem havia vivido e convivido, e de certa forma planejar aquilo que eu queria para o novo ano.

 

Quero, contudo, falar ainda algo de 2020.

 

Bem pouco, ou quase nada, admito, mas preciso retornar ao ano em que conhecemos o SARS-COV2 apenas para lembrar do principal acontecimento daquele ano, e que – não – não foi o vírus. Foi algo muito mais local, mais caseiro, da cozinha especificamente. Isso, o grande acontecimento da vida (minha, minha) em 2020 foi na cozinha.

 

Compramos uma air fryer

 

Após um mais ou menos longo período de negação e preconceito, decidimos adquirir uma fritadeira elétrica, dessas que não usam óleo, que “fritam” o alimento baseado num fluxo de ar quente gerado pela máquina e que circula em alta velocidade, dando o crocante característico nos alimentos. Foi um revolução aqui em casa.

 

Tardiamente descobrimos a utilidade desse aparelho, e passamos a utilizá-lo para esquentar ou preparar alimentos com um boa frequência. De certa forma, mudou nossas vidas para melhor.

 

O ano de 2021, como sabemos, foi desafiador.

 

O acontecimento mais significante de 2021 não foi, diferente de 2020, um eletrodoméstico. A vida, sabemos, é muito maior que isso. Apesar disso, e talvez ainda por efeito da pandemia (do tempo em que passamos em casa), o principal “acontecimento” do ano que recém terminou, também foi relacionado à cozinha.

 

O matambrito.

 

Sim, é óbvio que o matambrito não foi inventado e/ou descoberto em 2021. E também que não o conhecemos esse ano. Dã.

 

Acontece que essa iguaria (não vou me desculpar com vegetarianos e muito menos com veganos por isso) era uma maravilha que comíamos quando íamos em parrillas, sempre como entrada. Não era algo que fazíamos em casa, e confesso que nunca havia visto em supermercado (também é verdade que não procurara).

 

Até que em um churrasco de uma confraria que participo e que havia sido recém criada, um dos integrantes levou e preparou um matambrito, que – claro – ficou ótimo. E deu a dica.

 

A partir daí, fiz diversas vezes em casa, mesmo sem churrasqueira ou parrilla, na chapa mesmo. Fica pronto rapidamente e é uma delícia. Um achado.

 

Seria, sim, o que de melhor aconteceu no ano que acaba de terminar, se não fossem as vacinas, a família  e alguns reencontros que começaram a ocorrer. Vamos torcer que continue melhorando e que tenhamos infinitas possibilidades de encontros, churrascos e matambritos em 2022.

 

Até.

sábado, janeiro 01, 2022

New Year's Day

                  Um Ótimo 2022 para todos nós.

                   Que seja um grande ano, com muitos encontros e poucos vírus...

                    (ou que ao menos esteja controlado, e continuemos nos cuidando)

                    Até.