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quarta-feira, janeiro 05, 2022

Crônicas de uma Pandemia, a Volta

Pois é.

 

Não, as Crônicas de uma Pandemia não estão de volta, assim como a pandemia não está de volta porque não havia terminado. E, sim, vou falar um pouco da COVID-19, mesmo que eu não mais quisesse fazê-lo.

 

Falando aqui de perto do meu umbigo, estamos vendo que os casos de Síndrome Respiratória Aguda aumentaram muito na última semana e pouco, fruto da variante ômicron e da cepa H3N2 do vírus influenza, somados aos festejos de final de ano. A boa notícia é que estão cancelando as festividades de carnaval, que só ocorreriam no início de março, mas é o mais prudente a fazer.

 

Dizia eu que os casos aumentaram (até a Marina, tendo tido COVID e vacinada com duas doses, teve sintomas na semana do Natal, mas os testes para COVID e influenza foram negativos) o que evidentemente motivou a maior necessidade de nos cuidarmos, distanciamento, evitar aglomerações em locais fechados, máscaras, aquilo tudo o que temos falado ao longo do tempo. A quem não vacinou, que se vacine.

 

Sobre isso, criou-se no Brasil uma polêmica estéril sobre a vacinação das crianças de 5-11 anos. O governo central, esse poço de estupidez e ignorância, vem jogando contra a vacinação das crianças desde o início, o que – sim – já é motivo de chamá-los de criminosos, mas não é essa minha função. De um governo negacionista, espera-se tudo.

 

O que me espanta e frustra e decepciona e irrita é ver colegas médicos, a quem tenho grande respeito, entrando na onde de questionar a validade de vacinar ou não esse grupo etário. É mais ou menos a mesma sensação que tive – após dizer que eu havia sido voluntário do estudo da Coronavac – ao ouvir que ‘eu não faria essa vacina, vou feita muito rápido...’. E isso em 2020! Se fosse em 1950, eu entenderia e até apoiaria...

 

Agora ocorre o mesmo com a vacina infantil.

 

A vacina da Pfizer para crianças está aprovada para uso nesta faixa etária nos Estados Unidos (FDA), na União Europeia (EMA) e também no Brasil. Os estudos com crianças foram avaliados, e mais de 3 milhões de crianças já receberam ao menos uma dose nos Estados Unidos, com pouquíssimos eventos adversos, todos leves. E nem falo dos riscos da COVID em crianças que, sim, são menores que em adultos, mas não são inexistentes. Na balança do risco x benefício, que é o que fazemos todos os dias em medicina, sempre pró-vacina.

 

Se colegas competentes estão em dúvida quanto ao assunto, quando – em minha opinião pessoal, sabendo que não sou dono da verdade – não deveria haver nenhuma, só podemos concluir uma coisa...

 

Os anti-vaxxers, se não estão ganhando a guerra, estão fazendo muito estrago. 

 

Até. 

terça-feira, agosto 03, 2021

Diário da COVID, 3º dia

 (na verdade, o 6º desde o início dos sintomas)

 

Ontem, antes de dormir, verifiquei a minha temperatura, que havia estado normal ao longo do dia. Marcava 37,5ºC. Febrícula, ainda não febre. Ou iria ficar nisso ou subir. Decidi tomar um antitérmico e ir dormir. Acordei no meio da noite com a camiseta do pijama molhada de suor. Levantei-me, troquei de roupa e voltei a dormir. Apesar do incidente, foi uma noite boa.

 

Hoje acordei melhor disposto, talvez pelo efeito de ter dormida na minha cama, afinal fazia uma semana que dormia no quarto da Marina enquanto elas estavam em isolamento. De qualquer forma, sentia-me, sem nem mesmo a dor de cabeça que vinha sentindo nos últimos dias. Tomei café, me ajeitei e fui para o hospital.

 

Sim, hospital.

 

Como voluntário do estudo de uma das vacinas aprovadas no Brasil, a Coronavac, que havia feito há cerca de onze meses e meio, o pessoal da pesquisa me chamou para uma consulta de avaliação por eu estar sintomático. Tudo tranquilo, sinais vitais dentro do normal, praticamente assintomático, mas – aos auscultar meu tórax – notaram uma alteração no meu pulmão direito. Pronto: vamos nós para a emergência COVID, de onde eu fui para a tomografia computadorizada.

 

O exame mostrou aquilo que se ouvia no meu tórax: comprometimento pelo COVID, apesar de assimétrico, principalmente em base pulmonar direita, uma extensão em torno de 10%, ou seja, leve. Por ser sexto dia de sintomas, e pelas características da imagem, iniciei com antibiótico ainda de manhã.

 

Agora à tarde, em meu isolamento em casa, de bobeira mesmo, fui verificar minha saturação de oxigênio: coloquei no dedo, ficou em 95%, normal, mas abaixo do que usualmente está. Troquei o dedo: 89%(!!). Esquentei a mão um pouco, e fui novamente: 99%.

 

Era só o que faltava...

 

Até.    

segunda-feira, agosto 02, 2021

Diário da COVID, 2º dia

Chegou em mim.

 

Demorou, concordo, mas era de se imaginar que – em algum momento – aconteceria. Sim, estou com COVID-19. Desde a semana passada eu já estava em quarentena, em casa, porque as meninas haviam tido testes positivos. Como eu não tinha nada, era apenas contato, fiquei em quarentena enquanto elas estavam isoladas.

 

Fiquei no quarto da Marina, recém reformado, com cama e colchões novos, enquanto elas ficaram no quarto da Jacque e meu. Distanciamento, isolamento. Elas com sintomas muito leves, eu assintomático. Se bem que...

 

Quarta-feira à noite da semana passada, senti mais frio que o usual, mesmo sabendo que era uma das noites mais frias do inverno, afinal de contas eu estava apenas indoor. Dormi de forma estranha, confesso, e quando acordei na quinta-feira, com o corpo meio dolorido, e mesmo que achando era de dormir em um colchão diferente, marquei a data dizendo que – se ou quando confirmasse que eu havia pego COVID – esse seria o primeiro dia de sintomas. 

 

Ao longo dos dias, desde lá, eu melhorava, e – exceto por uma dor de cabeça que surgia uma vez por dia (e que eu associava à cervical, colchão diferente, etc) e alguma tosse seca eventual, estava muito bem. O plano era aproveitar a segunda-feira de manhã para novo teste, para me liberar de volta para a rotina. Tudo tranquilo.

 

Porém...

 

Ontem, após o almoço, sentei em frente à televisão e dormi sentado, como se eu tivesse sido atingido por um caminhão, sensação essa que melhorou ao comer um doce de lanche da tarde. À noite, sensação de frio, mas sem calafrios. Antes de dormir, apenas por descargo de consciência, medi a temperatura: 38,5ºC. Aí não tinha jeito, não tinha outro diagnóstico...

 

Dormi mal, em parte por insônia, em parte por agitação. Enquanto tentava dormir, me virando de um lado para outro na cama, entra uma mensagem em meu relógio, por volta das 0h30 da noite. “Leitos em UTI por COVID tem sua menor lotação desde fevereiro”. Um alívio, aquela hora. Ou não.

 

Hoje cedo o teste positivou rapidamente.

 

De volta para casa, agora em isolamento.

 

Seguimos.

 

Até.    

terça-feira, julho 06, 2021

A Sopa

Final de semana.

 

Eu sei que estamos numa terça, ou quarta-feira, não importa o dia da semana em que estou publicando essa crônica, mas quero falar um pouco sobre o final de semana. Sobre como se tornaram melhores os finais de semana novamente.

 

Sim, novamente.

 

Porque uma das consequências da pandemia e do distanciamento social decorrente dela foi que, em primeiro lugar, os dias ficaram mais ou menos iguais durante grande parte do ano passado, como se vivêssemos – e sei que já falei isso – o clássico filme ‘O Feitiço do Tempo’ (Groundhog Day, 1993), condenados a reviver o mesmo dia eternamente. Não havia muita diferença entre quarta-feira e sábado, ou terça, o que era um crime, porque o melhor momento da semana, como todos sabem (ou deveriam saber) é o sábado de manhã, de sol. 

 

Tergiverso, eu sei.

 

Outra razão para que os finais de semana tivessem perdido a graça foi que as socializações foram interrompidas. Estivemos distantes (com razão) fisicamente de familiares e amigos desde o início da pandemia, com raríssimos encontros cheios de cuidados e sem aglomerações. E isso – ainda – não voltou a normal, claro.

 

Como médico, e pneumologista em especial, desde o último trimestre do ano passado, tenho trabalhado intensamente, atendendo inicial e preponderantemente pacientes com e pós-COVID-19, online e presencialmente, e depois pacientes pneumológicos em geral, que retornaram aos consultórios porque suas condições não desapareceram pelo coronavírus. O trabalho tem sido grande e gratificante. Nunca fui tão médico quanto agora, tenho a impressão.

 

Mas falava dos finais de semana.

 

Como não há possibilidade de trabalho remoto, de home office, a rotina de trabalho voltou, e acrescida de novas atribuições surgidas durante o ano passado. A semana de trabalho tem sido cheia novamente, e a chegada dos finais de semana tem representado realmente uma parada e momentos de descanso. E têm sido leves, agradáveis.  

 

Como sempre devem ser.

 

Até. 

domingo, junho 20, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Nonagésimo Quinto Dia)

 

Sobre as comparações.

 

Se existe, na vida, uma certeza qualquer além da morte, é que sempre haverá alguém melhor e alguém pior que a gente. Simples assim, e é a forma que lidamos com isso que vai determinar muito de como vamos encarar a vida.

 

Como em tudo, há várias interpretações para isso.

 

Podemos focar naqueles que estão acima de nós, em termos financeiros, profissionais, de fama ou sucesso. O colega, o conhecido ou o amigo com maior salário, melhor carro ou casa, mais bens materiais, maior status social, vida aparentemente perfeita. A comparação pode servir de estímulo para que sigamos em busca de mais, de crescer, de obter mais. Aí, tudo bem. Mas pode ser que – ao olhar a grama aparentemente mais verde do vizinho – nos torne rancorosos, amargos, com a sensação de sermos injustiçados, a velha história do “por que não eu?”.

 

É uma forma de ver ruim, claro, e que faz mal a quem sente isso. A inveja é uma merda, diz o ditado popular. A energia negativa nos empurra para baixo. Nos torna, como já falei, amargos e negativos.

 

Porque ao mesmo tempo em sabemos que existem muitos que estão em “melhor” (e coloco entre aspas porque o conceito de melhor é bem individual, depende de cada um e suas prioridades) situação que nós, existem muitos, mas muitos mesmo, que estão em situação mais difícil que nós. Independente do que estamos analisando, saúde, dinheiro, ou qualquer outro critério, sempre haverá alguém cujos problemas são maiores que os nossos. Só isso já deveria ser motivo para iniciarmos todos os dias com energia renovada por termos o que temos, por estarmos vivos e em condições de seguir em frente.

 

Sob certa forma, é o que tenho tentado fazer nos últimos tempos, e que se acentuou durante a pandemia: se há um problema que inicialmente parece muito grande, procuro lembrar que poderia ser bem pior, ou não ter solução, e que esses – os sem solução – são raros na vida. Respiro fundo, olho em volta, e tento seguir em frente, porque – no fundo – não são tão horríveis assim.

 

É uma forma, também, de lidar com a ansiedade.

 

Saber que existem situações que não dependem de mim, que vão acontecer independente da minha vontade e que não serão alteradas quaisquer que sejam meus esforços, dá uma certa tranquilidade e a possibilidade de focar naquelas situações e problemas que – sim – dependem de mim. Aprender a diferenciá-las, isso sim, um trabalho diário.

 

Outra forma de lidar com a vida e as comparações é – e isso é ainda mais difícil – procurar não comparar. Somos todos diferentes, começamos de locais diferentes e temos necessidades e objetivos diferentes. Lembrar que o que é importante para mim provavelmente não é o mesmo que é importante para outros facilita esse exercício. Todos temos dificuldades, problemas e desafios na vida. Assim como, por mais parecidos que sejam, os caminhos que percorremos são diferentes. Comparar diferentes é injusto, conosco e com os outros.

 

Lembrar disso todos os dias é mais um desafio.

 

Até

terça-feira, junho 15, 2021

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Nonagésimo Dia)

 

Mais uma Sopa no meio da semana.

 

Sobre o passado.

 

Eu não vivo no passado, quero deixar isso bem claro. Alguém que me conheceu antes poderá até dizer que já vivi – por um período, quem sabe – de lembranças, ou de querer reviver um passado que não volta mais. 

 

Não vou brigar por isso.

 

Se já aconteceu outrora, certamente não mais acontece. Sei bem o lugar do passado, sei bem que a história anda para frente, e que nada do que foi será do jeito que já foi um dia, que tudo passa e tudo sempre passará. E que a vida vem em ondas, como um mar, neste indo e vindo infinito, como cantou Lulu Santos.

 

Tudo o que temos é o agora, o presente.

 

O que passou não existe mais, e o que virá é apenas uma expectativa, um talvez. Viver no presente, no agora, esse o grande desafio. Alguém disse, ou escreveu, que ansiedade é excesso de futuro. Não sei se é bem assim, mas faz um certo sentido. Passado e futuro são criações da nossa mente, nada aconteceu exatamente como “lembramos”, e a memória é uma versão – muitas vezes – romantizada do que aconteceu. O futuro, por outro lado, não será como imaginamos hoje, porque seremos diferentes lá na frente.

 

Em resumo, o que importa é viver dia de hoje, todos sabemos.

 

O que não quer dizer que o que passou não tem importância. Foi o que nos moldou, foi o que nos tornou o que somos hoje. E, muito mais importante, quero falar das pessoas que nos tornaram quem e como somos hoje. 

 

Tenho um profundo respeito pelas pessoas do meu passado. Foram elas que – em grande parte – influenciaram quem me tornei hoje. Reencontrá-las sempre é uma experiência potencialmente enriquecedora. Saber como e onde estão, que caminhos seguiram, com quem tem andado pela vida, descobrir se ainda existem as conexões que nos uniram no passado, todas são possibilidades que me encantam. Não é querer reviver o que passou.

 

É a possiblidade de caminhar juntos mais uma vez.

 

Ou não.

 

Até.

domingo, junho 06, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Octagésimo Terceiro Dia)

 

Domingo.

 

Choveu ontem à noite, agora o tempo é nublado, mas em breve a chuva retornará. Hoje decidi não pedalar. O dia será de descanso muscular, sem nenhuma atividade física, o que – confesso – causa uma certa angústia.

 

Desde que coloquei de verdade e novamente a atividade física como uma das minhas prioridades de vida, tenho aumentado sua frequência e intensidade progressivamente. Voluntariamente, claro, porque gosto e por sentir necessidade. Faz bem para mim.

 

Começou com pedalar – no mínimo - duas vezes por semana, o que era bom, mas dependia da meteorologia, o que muitas vezes me limitava, aqui no Sul do Mundo. Cerca de seis meses de procura, após começar a pedalar, encontrei uma academia que fechou com o meu estilo, onde as pessoas te conhecem pelo nome e o atendimento é normalmente quase como se fosse personal

 

Comecei indo três vezes na semana, e pedalando – quando possível – sábado e domingo. Ao longo do tempo, aumentei para quatro vezes (folgava às sextas-feiras). Veio a pandemia, as academias fecharam, e disciplinadamente fiz exercícios em casa por um longo período, até que elas reabrissem. Como era com horário marcado, recebi a dica de marcar todos os dias – segunda à sexta – e, caso não pudesse ir, poderia desmarcar. Acabei indo cinco vezes por semana, além dos finais de semana de pedal, com as distâncias aumentando com o treinamento e a bicicleta nova (que já tem um ano e meio).

 

Sete dias por semana de atividade física, sem estresse, sem ser uma obrigação, sem ser um peso, sem comparações com ninguém. Apenas tentando me superar. 

 

Esse o maior desafio: me superar a cada dia, semana, e a cada mês.

 

Tenho conseguido, e tornou-se tão natural que sinto falta quando não faço. Como hoje, com o tempo instável, e ameaça de chuva a qualquer momento. Como disse, será um dia de descanso muscular. E sei que essa Sopa é uma forma de justificar (racionalizar) esse dia de folga... Não precisava justificar, eu sei...

 

Amanhã, contudo, antes da sete da manhã, frio ou calor, com ou sem chuva, estarei de volta me exercitando. Porque é bom.

 

Eu gosto e é parte de quem sou.

 

Até.

terça-feira, junho 01, 2021

A Sopa (no meio da semana?!)

(Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Septuagésimo Oitavo Dia)

 

Domingo que passou, não teve Sopa.

 

Não tem acontecido, isso de falhar um final de semana com a Sopa, mas não é uma novidade. Por mais que eu tenha me proposto e conseguido até aqui escrever e publicar um texto novo todas as semanas, sabia que nem sempre eu iria conseguir. Porque, às vezes, a vida se impõe.

 

Como aconteceu no final de semana.

 

Não consegui. Na verdade, nem tentei escrever. Curti o final de semana com a família, como devem ser e tem sido os finais de semana, ainda mais intensamente durante a pandemia. A ausência das viagens de trabalho, de reuniões e congressos, a “estada forçada” em casa, decorrentes do isolamento e distanciamento sociais, proporcionou uma muito bem recebida e desejada maior convivência do núcleo familiar, aqui em casa a Marina, a Jacque e eu, apesar de lamentar a falta que a família (além da casa) faz.

 

Ficamos em casa, começamos a preparar o quarto da Marina para a reforma que vamos fazer nas próximas semanas, e no domingo à tarde ficamos assistindo um filme juntos. Tudo simples, aparentemente banal, mas muito importante.

 

Estar juntos, o que conta.

 

Que continuemos assim, mesmo quando acabar a pandemia.

 

Porque, sim, vai acabar, mais cedo ou mais tarde.

 

Enquanto isso, deixo um pensamento, uma ideia que ouvi por estes dias:

 

“Devemos ser prudentes, mas não ter medo”.

  

Até.

domingo, maio 23, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Sexagésimo Nono Dia)

 

Sobre música, e o Rio de Janeiro.

 

Há uns poucos meses, uma tendência se tornou uma realidade aqui em casa: temos assistido cada vez menos televisão. E não falo apenas da tevê aberta, que já abandonamos há bem mais tempo. A tevê por assinatura, com sua dezena de canais, também perdeu a graça, pelo visto.

 

Temos assistido séries em streaming, e vídeos diversos no You Tube, quando sentamos juntos para assistir algo. Mais recentemente, vídeos de música, dos mais variados. Listas de músicas mais tocadas entre os anos 1950 e 2020, musicais, vídeos de músicos de rua, tudo tem sido visto.

 

Corta para o final de semana, quando falava com meu irmão e minha sobrinha Olívia, que moram em NY. Entre a conversa, ela quis cantar (também toca piano, mas não vem ao caso). E cantou ‘Águas de Março’, do Tom Jobim. E sabia a letra de cabeça, toda. Fiquei impressionado e feliz. E me fez assistir a vídeos do Tom Jobim, da Elis Regina, do Luiz Melodia entre outros. Mas, acima do todos, do Tom Jobim.

 

Fiquei feliz também por lembrar de uma coletânea de músicas do Tom Jobim, que tínhamos em CD quando eu ainda morava com meus pais (há mais de vinte e cinco anos), e me fez lembrar da minha relação com o Rio de Janeiro. Vem de longo tempo.

 

A primeira vez que estive no Rio foi com sete anos de idade, final dos anos setenta, em viagem com meus pais e meu irmão. Saímos de carro de Porto Alegre, e fomos parando em algumas praias no caminho até lá, onde ficamos em Copacabana. Lembro de visitarmos o Cristo, o Pão de Açúcar, entre outros pontos turísticos. Ficamos poucos dias, mas foi bem legal. Depois dessa, fiquei muito tempo sem ir ao Rio de Janeiro.

 

Quando calhou de ir novamente, fui para um congresso médico, quando eu iria fazer minha prova de especialista em Pneumologia, e tive de ficar por uma semana inteira no Congresso para fazer a prova no final deste, e fiquei num hotel meia boca no Arpoador. E, claro, choveu quase todos os dias...

 

Lembro de fazer de ônibus o trajeto entre o Arpoador e o Hotel Glória, onde ocorria o congresso, e atentar para os nomes das ruas, e associar a letras de músicas, de todas as músicas que referenciavam o Rio de Janeiro que eu conhecia. Era circular por lá lembrando de músicas, de diferentes estilos e autores.

 

Anos depois, trabalhei em uma empresa situada no Rio de Janeiro, mais especificamente em Jacarepaguá. A maior parte do tempo o trabalho era viajando ou em home office (antes mesmo da pandemia). Mas, evidentemente, tive que ir diversas vezes à cidade. Só que não era – para mim, para mim – exatamente ir ao Rio de Janeiro como eu sempre pensei o Rio de Janeiro: a zonal sul (Copacabana, Ipanema, etc.). Não, chegava no Galeão, pegava um Uber que ia pela Linha Amarela, e ia direto trabalhar. E me hospedava ali perto mesmo ou na Barra. Poucas vezes passei pela zona sul, o que sempre me tirou a sensação de estar no Rio de Janeiro (minha visão de turista, de alguém não local).

 

A última vez que fui para lá, em dezembro de 2018, para checkup médico (estava gordo e estressado...) e uma reunião, fiquei três dias em um hotel em frente ao mar, na Barra. Minha despedida foi um caipirinha no terraço do hotel, olhando o mar...

 

Mas fugi do assunto.

 

Falava de música, do Tom Jobim, e do Rio de Janeiro.

 

Nunca vou esquecer da primeira vez que cheguei (e saí de lá) de avião, à noite, o processo de aproximação da cidade iluminada e com tempo claro, e me pegar cantando o ‘Samba do Avião’. Era uma conexão para um voo para os Estados Unidos, e era a minha primeira viagem de avião. A cidade cada vez mais próxima, e a música sem sair da minha cabeça...

 

Minha alma canta,
Vejo o Rio de Janeiro,
Estou morrendo de saudade.
Rio, teu mar, praias sem fim,
Rio, você foi feito pra mim.
Cristo Redentor 

Braços abertos sobre a Guanabara.
Este samba é só porque, Rio, eu gosto de você,
A morena vai sambar, Seu corpo todo balançar.
Rio de sol, de céu, de mar,
Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão
Este samba é só porque,
Rio, eu gosto de você,
A morena vai sambar,
Seu corpo todo balançar.
Aperte o cinto, vamos chegar,
Água brilhando, olha a pista chegando,
E vamos nós.
Aterrar


Um tempo em que ainda viajávamos...

 

Em breve, em breve. 


Até.

 

segunda-feira, maio 17, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Sexagésimo Terceiro Dia)

 

Foi um bom final de semana.

 

Por isso essa Sopa, que usualmente é dominical, está saindo quentinha (como o clima manda) apenas hoje, segunda-feira. Porque foi um fim de semana de noites com jeito de inverno e pudemos ficar em casa, e aproveitar juntos, a Marina, a Jacque e eu. 

 

A semana começara desafiadora.

 

Em pleno início de noite de segunda-feira, enquanto eu aguardava na fila do caixa no supermercado, logo atrás de uma aluna minha que passava suas compras do dia, imagino, e que no final da compra incluiu uma pacote de maços de cigarro, sem olhar para trás onde eu estava, talvez por vergonha, talvez porque eu não tenha nada a ver com o que ela faz ou não fora do ambiente acadêmico, no que tem total razão, enquanto eu aguardava a minha vez, tranquilo, ensimesmado pensando na vida, fui interrompido por um discurso forte que não ouvi bem até a senhora que estava atrás de mim, do alto dos seus aproximados mais de setenta ou menos, afirmou peremptoriamente:

 

“Eu não vou me vacinar”.

 

Discretamente, olhei em sua direção.

 

Usava a máscara com o nariz para fora, e concordava com o cidadão da fila ao lado, que discursava sobre a pandemia e dizia que se ficasse doente ficaria em casa, porque no hospital “vão te matar”, e que o presidente tinha razão. Pensei por um instante em responder a ela, ou a ele, dizer que estavam errados, mas de que ia adiantar?

 

Há situações na vida em que simplesmente não vale à pena se incomodar, e – nessas horas – o silencia é a melhor opção. Se depois de um ano as pessoas ainda pensam assim, bom, não vai ser um estranho numa fila do supermercado que vai convencê-las do contrário.

 

Uma semana depois, hoje pela manhã, atendi uma paciente antiga, que trabalha numa instituição que atende pessoas em risco social, na linha de frente, assistente social, que veio me pedir um atestado para fazer a vacina. Não tinha nenhuma situação médica que justificasse a sua inclusão no grupo prioritário, por mais que eu tenha certeza de que ela deveria ser vacinada o quanto antes. Por outro lado, não poderia eu atestar uma condição inexistente. Ela disse que entendia a situação, mas foi triste vê-la com os olhos cheios de lágrimas.

 

Mas eu falava do final de semana.

 

Foi quieto, calmo.

 

Sábado à noite cozinhei, a sopa que minha avó fazia, e cuja receita minha mãe me ensinou. Preparei enquanto ouvíamos música e conversávamos na cozinha. Depois, ficamos assistindo vídeos de música no You Tube, a Marina a Jacque e eu. Domingo, em casa novamente. Como se lá fora o mundo estivesse em silêncio, e nada pudesse nos perturbar.

 

Por mais domingos assim, mas sem pandemia.

 

Até.

domingo, maio 09, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Quinquagésimo Quinto Dia)

 

Uma Sopa de muitos anos atrás, atualizada.

 

O aniversário do meu pai (80 anos hoje!), em nove de maio, volta e meia cai junto com o ‘Dias das Mães’, como foi há vinte e um anos atrás.

 

Corria o ano de 1999, início do segundo mandato do FHC, poucos meses após a desvalorização do real perante o dólar – que foi de cerca de R$ 1,20 para algo em torno de R$ 2,00 (!) – justamente “momentos” antes da primeira viagem dos Perdidos na Espace para a Europa. A mudança cambial aconteceu justamente quando nos preparávamos para viajar, o que gerou estresse e discussões intermináveis a respeito de alternativas.


O dólar acabou baixando para patamares mais adequados para a época, e foi num dia 09 de maio, aniversário do meu pai e Dia das Mães, que embarcamos de Porto Alegre rumo à Guarulhos e depois à Bruxelas, nossa porta de entrada no velho mundo. Foi a minha primeira viagem à Europa.


Até ali, a minha experiência internacional – iniciada nas minhas primeiras férias como médico-residente, em maio de 1995 – resumia-se a uma ida aos Estados Unidos (Flórida, parques da Disney, Nova York, Filadélfia, Atlantic City e Washington) e duas idas à Buenos Aires, sendo que a primeira como lua-de-mel.


Como já contei diversas vezes, fomos em grupo: a Jacque e eu, a Karina e o Paulo (cunhados) mais a Roberta (minha afilhada, de dois anos e meio) e o Caio e a Aline (grandes amigos). Alugamos uma van, a Renault Espace (daí o nome, Perdidos na Espace) e quase cinco mil quilômetros em aproximadamente vinte e poucos dias, por Bélgica, Holanda, Alemanha, Suiça e França.


Pois é, vinte e um anos passaram, e penso o quanto o mundo mudou neste tempo (e que agora estamos há mais de ano em plena pandemia, sem nem poder planejar viagens enquanto seguimos lutando por nossa sobrevivência...). O quanto nossas vidas mudaram, que caminhos tomamos, por onde andamos hoje. 

 

Não houve reunião do grupo para marcar a data (por óbvias razões), como em outras vezes, mas também porque já não somos um grupo e qualquer reunião que se fizesse estaria incompleta. Porque alguns seguimos rumos diferentes que nos afastaram, afinal a vida faz dessas.


Paciência...

Penso em quem eu era há vinte e um anos. Olho para trás. Olho os caminhos que percorri e fico tranquilo. Tem sido bom. A vida tem sido boa. Ainda não cheguei até onde quero ir (será?), até porque vou descobrindo por onde devo ir enquanto ando. Falta muito para chegar?

Não importa. O que importa – mesmo – é o caminho.


E quem anda contigo.

 

Até.

domingo, maio 02, 2021

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Quadragésimo Oitavo Dia)

 

O isolamento.

 

O isolamento social, situação mais intensa – digamos assim – que o distanciamento, tem as mais variadas consequências em todos nós, queiramos ou não. E, como tudo na vida, existe o lado ruim e o lado bom.

 

Citei primeiro o ruim porque é o que primeiro nos vem à mente quando pensamos no último ano e quase dois meses de pandemia. Afastados de nossos familiares, amigos, sem as mesmas possibilidades de socialização de antes, sofremos porque somos seres sociais. Precisamos do convívio com outras pessoas, da troca de experiências, da conversa, do afeto. Se nós, adultos, já sentimos a ausência dos relacionamentos sociais, são as crianças as maiores prejudicadas com tudo isso.

 

A nossa formação como seres humanos não prescinde de socialização. Crescemos (intelectual e emocionalmente) no contato, na convivência. Por isso, também, que sou favorável ao retorno das aulas presenciais.

 

Mas não é essa discussão que quero fazer.

 

Quero falar de um ponto positivo desse período de pouco convívio social. Entre todas as dificuldades que enfrentamos, todas as privações decorrentes da pandemia, em meio a tudo isso, esse período pode servir também para uma reafirmação de nossa individualidade. O último ano nos privou dos grupos sociais e, com isso, também nos afastou de algumas ditas “pressões sociais”, que muitas vezes – mesmo que inconscientemente – são impostas a nós pelos grupos de convivência.

 

Os grupos servem, durante boa parte de nossas vidas, se não durante toda ela, como locais de reconhecimento, de pertencimento, onde nos vemos espelhados em outras pessoas e cujas normas – mesmo que não verbais – estabelecem padrões a serem seguidos para a aceitação por ele. Códigos de condutas. É assim e sempre foi assim. Para ser aceito no grupo, segue-se um padrão.

 

Isso é mais forte nos momentos de formação de nossa personalidade e identidade, início da vida social, e é muito forte na adolescência, por exemplo. São as turmas, ou tribos. Todos vestidos iguais, os – na minha época de escola – surfistas, os intelectuais, os darks, etc. O All Star preto que usávamos. Fazer parte de um todo para expressar individualidade.

 

Isso persiste durante a vida, com cobranças mais ou menos explícitas (“jeans aqui não!”). É normal, sempre foi assim.

 

E aí vem a pandemia.

 

Somos obrigados a ficar em casa (ou, no meu caso, de casa para o consultório) durante todo o ano, isolados e trabalhando em home office, não podendo encontrar as pessoas e, dessa forma, ficamos também longe das imposições de grupos sociais. Sob certo aspecto, ficamos(fiquei) mais independentes. Longe das pressões sociais, podemos ser mais nós mesmos.

 

Mais selvagens, menos robôs.

 

É um ponto de vista.

 

Até.

segunda-feira, abril 26, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Quadragésimo Segundo Dia)

 

Pois é.

 

Às vezes, e isso tem sido mais frequente nos últimos tempos, parece que só o que fazemos é nos queixar da vida. Como se nada estivesse bem, ou funcionando, o que não é verdade.

 

Mas, e sei que venho falando nisso mais do que gostaria, mesmo que tentemos fugir das notícias ruins, e não falo de negação, mas sim de uma forma de preservação, o mundo não nos deixa em paz. Não estou dizendo que quero viver num mundo cor-de-rosa, onde tudo é tranquilo e a vida vai bem, o sol é alto e a brisa que vem do mar não nos deixa ficar com muito calor, enquanto o som das ondas chegando na praia embalam o sono na rede após o almoço. De forma alguma.

 

Só continuo tentando fugir da energia negativa, o que é diferente de fugir da realidade, que fique bem claro. Há coisas que não preciso ver e pessoas as quais não devo ouvir ou ler. Por preservação, pela sanidade mental.

 

Há dois meses praticamente não acesso as redes sociais, Facebook e Twitter em especial. Vejo eventuais notificações que recebo, nada mais. Não fico ali por longos períodos acompanhando a timelime dos outros e o que fazem ou pensam, principalmente o que pensam. Não me diz respeito.

 

Pensei que seria mais difícil, confesso.

 

Já não lia comentários, apenas ampliei o quanto ignoro das mesmas.

 

Por princípio, quem perde tempo comentando publicações de redes sociais ou mesmo de portais de notícias de forma agressiva é um idiota ou um covarde, na maioria das vezes os dois. Não merecem que sejam lidos, muito menos receber destaque. O esquecimento é o que receberão, enquanto ficam falando sozinhos e gritando para ninguém ouvir.

 

Meu humor melhorará, tenho certeza disso.


Até.

domingo, abril 18, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Trigésimo Quarto Dia)

 

Domingo.

 

Espero o almoço chegar por tele entrega, pois resolvemos não cozinhar hoje e ainda auxiliamos os estabelecimentos locais que ainda sofrem muito pela pandemia e as restrições causadas por ela. Aliás, continuo com a convicção que a culpa do aumento dos casos não tem relação com o funcionamento do comércio ou de restaurantes. Esses, virtualmente todos, seguem rígidos protocolos de segurança.

 

Assim como me sinto mal ao ler/ouvir que a culpa é do “povo”.

 

O “povo”, como dizem, em sua maioria, está respeitando e seguindo as orientações das autoridades sanitárias. Claro que isso é “na medida do possível”. Nem todos podemos ficar em casa, em home office, apenas fazendo compras online. A pandemia, para muitos, e me incluo entre esses muitos, não existe em termos de poder ficar em casa e está tudo bem, estamos nos protegendo, fazendo a nossa parte. Temos que ir à luta atrás do nosso ganha pão, cada um no seu quadrado, com sua ocupação.

 

Mas dizia que não é legal culpar essa entidade, “o povo”, pela evolução da pandemia do Brasil. Como eu disse, a esmagadora maioria está fazendo tudo certo dentro de suas possibilidades.

 

O problema é que existem os idiotas.

 

Idiotas, estúpidos, sem noção. Que fazem festa de aniversário para cem pessoas em um lugar fechado em plena bandeira preta no RS. Assim como são imbecis os cem convidados que vão ao dito aniversário, como ocorrido aqui em Porto Alegre na semana passada. E isso não tem relação com classe social, afinal a estupidez não tem fronteiras e nem distinção de classe. É democrática.

 

Irrita a todos, os que podem ficar em casa se cuidando e os que são obrigados a sair de casa, mas que se cuidam e cuidam de outros. Mostra uma falta de sensibilidade e humanidade grandes. E mostra – não canso de dizer – estupidez, idiotia.

 

Estamos há mais de ano vivendo esse mundo diferente, estamos cansados, sentimos falta de encontros e abraços, e esses gestos de poucos atrapalham e tem o potencial de alongar essa espera pela vida que queremos de volta.

 

Até.