Mostrando postagens com marcador Pandemia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pandemia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, janeiro 26, 2022

Em 2022??

 Ainda a pandemia. 

Os últimos dias, de aumento de casos de COVID decorrentes da variante do momento, a Ômicron, tem – evidentemente – levando a um proporcional aumento da procura por consultas médicas, boa parte online. Muitos casos, invariavelmente leves sabemos que por causa da vacina. Os únicos casos graves de verdade são de pacientes que inexplicavelmente não se vacinaram.

 E esses evoluem como se ainda estivéssemos em 2021, com insuficiência respiratória, ventilação mecânica, etc. E a distinção tem sido bem clara: em sua esmagadora maioria, os vacinados tem casos leves. Um exemplo ocorreu aqui em casa. A Marina teve COVID pela segunda vez há poucos dias. Obstrução nasal, garganta “arranhando”, e só. Sem febre. Decidimos testar, porque – atualmente – quem tem sintomas respiratórios, de vias aéreas superiores, deve se testar, e ela estava positiva.

Isolamento, e só.

 

Ao completar 5 dias de início dos sintomas, como estava totalmente assintomática, testamos novamente: negativo. Pode sair do isolamento, mas manteve os cuidados (máscara quando na presença de outras pessoas, por exemplo) até completar 10 dias. Essa evolução benigna foi possível pela proteção oferecida pela vacina, sem dúvidas.

 

Corta para ontem.

 

Uma paciente antiga (e quase amiga) perguntou se eu poderia – depois de eu ter saído do consultório – atender a sobrinha dela, que estava com COVID e consultara com uma médica, mas que não confiara e queria ser atendida por outro médico, e me indicara. Claro que eu poderia atendê-la. Assim que cheguei em casa, fiz a consulta on-line.

 

Um caso leve, poucos sintomas, apenas esclareci dúvidas e orientei tratamento sintomático. Durante a consulta, ela me contou que a colega médica pneumologista que a havia atendido havia conversado pouco e rapidamente prescrito o chamado “Kit-Covid”, com hidroxicloroquina e ivermectina, além de zinco e vitamina D. A paciente diz ter ficado horrorizada e que não tomaria, por isso quis uma segunda opinião (que acabou sendo a minha, no caso). Disse a ela que – se estivéssemos em maio de 2020 – eu até entenderia a prescrição, pois ainda estávamos aprendendo, mas não agora, em janeiro de 2022. Mas isso não foi o pior que me aconteceu ontem.

 

Pela manhã, atendendo no consultório, uma paciente me revelou – enquanto conversávamos sobre as vacinas, e eu dizia sinceramente não entender quem não se vacina - que uma pneumologista, colega conhecida e que frequenta algumas das mesmas reuniões científicas que eu, e que a havia atendido anteriormente, não se vacinara (!) e dizia que não iria se vacinar porque “essas vacinas foram feitas muito rapidamente” (!). Fiquei sem saber o que dizer. Apenas sorri, dei de ombros, e segui a consulta, como se não tivesse ouvido tamanha bobagem vinda de uma pessoa que supostamente deveria estar ajudando as pessoas.

 

Não falei nada porque não tenho mais paciência com essa gente.

 

Até.

quarta-feira, janeiro 05, 2022

Crônicas de uma Pandemia, a Volta

Pois é.

 

Não, as Crônicas de uma Pandemia não estão de volta, assim como a pandemia não está de volta porque não havia terminado. E, sim, vou falar um pouco da COVID-19, mesmo que eu não mais quisesse fazê-lo.

 

Falando aqui de perto do meu umbigo, estamos vendo que os casos de Síndrome Respiratória Aguda aumentaram muito na última semana e pouco, fruto da variante ômicron e da cepa H3N2 do vírus influenza, somados aos festejos de final de ano. A boa notícia é que estão cancelando as festividades de carnaval, que só ocorreriam no início de março, mas é o mais prudente a fazer.

 

Dizia eu que os casos aumentaram (até a Marina, tendo tido COVID e vacinada com duas doses, teve sintomas na semana do Natal, mas os testes para COVID e influenza foram negativos) o que evidentemente motivou a maior necessidade de nos cuidarmos, distanciamento, evitar aglomerações em locais fechados, máscaras, aquilo tudo o que temos falado ao longo do tempo. A quem não vacinou, que se vacine.

 

Sobre isso, criou-se no Brasil uma polêmica estéril sobre a vacinação das crianças de 5-11 anos. O governo central, esse poço de estupidez e ignorância, vem jogando contra a vacinação das crianças desde o início, o que – sim – já é motivo de chamá-los de criminosos, mas não é essa minha função. De um governo negacionista, espera-se tudo.

 

O que me espanta e frustra e decepciona e irrita é ver colegas médicos, a quem tenho grande respeito, entrando na onde de questionar a validade de vacinar ou não esse grupo etário. É mais ou menos a mesma sensação que tive – após dizer que eu havia sido voluntário do estudo da Coronavac – ao ouvir que ‘eu não faria essa vacina, vou feita muito rápido...’. E isso em 2020! Se fosse em 1950, eu entenderia e até apoiaria...

 

Agora ocorre o mesmo com a vacina infantil.

 

A vacina da Pfizer para crianças está aprovada para uso nesta faixa etária nos Estados Unidos (FDA), na União Europeia (EMA) e também no Brasil. Os estudos com crianças foram avaliados, e mais de 3 milhões de crianças já receberam ao menos uma dose nos Estados Unidos, com pouquíssimos eventos adversos, todos leves. E nem falo dos riscos da COVID em crianças que, sim, são menores que em adultos, mas não são inexistentes. Na balança do risco x benefício, que é o que fazemos todos os dias em medicina, sempre pró-vacina.

 

Se colegas competentes estão em dúvida quanto ao assunto, quando – em minha opinião pessoal, sabendo que não sou dono da verdade – não deveria haver nenhuma, só podemos concluir uma coisa...

 

Os anti-vaxxers, se não estão ganhando a guerra, estão fazendo muito estrago. 

 

Até. 

domingo, novembro 28, 2021

A Sopa

A pandemia não acabou, eu sei. 


Por outro lado, a redução dos casos, das internações e das mortes agora vistas aqui no Sul do Mundo, quando o verão se aproxima, conscientemente ignorando o recrudescimento da mesma que ocorre na Europa (além da incerteza com relação à nova variante), e contando com a vacinação maciça das pessoas por aqui, tudo isso faz prever um verão mais leve, e mais social. Ninguém aguenta mais viver afastado das pessoas.

 

Apesar de não podermos baixar totalmente a guarda ainda, com relação ao uso de máscaras – principalmente em locais fechados – e às aglomerações (fujamos delas), já podemos retomar em parte nossas vidas sociais. E temos (tenho) feito.

 

Reencontrar pessoas que há muito não encontramos tem sido momentos de extrema felicidade. E essas semanas que antecedem o final do ano, que normalmente são de reuniões sociais, têm sido mais ocupadas que o habitual. Churrascos – muitos e com diferentes grupos de amigos – e outras celebrações têm mantido a agenda cheia e as manhãs mais difíceis de sair da cama...

 

A semana que termina hoje foi de reencontro e despedida, no mesmo evento. O nosso grupo de churrasco, que começou para assistirmos as finais da Libertadores da América de futebol, lá por 2013, e que não se reunia desde o início da pandemia, fez o churrasco de despedida de um dos participantes que vai se mudar para os Estados Unidos por – ao menos – um ano. A parrilla trabalhou muito, e foi uma noite regada a vinhos bons e muitas risadas.   

 

E tem outros marcados com outros amigos, e mais aqueles que nem conseguimos marcar ainda, os encontros familiares, e até um campeonato de futebol com churrasco. Com cuidados e vacinados, retomamos a vida. Tudo volta, todos voltaremos. O inverno do coronavírus foi mais longo que desejávamos, mas a primavera vem chegando (devemos cuidar para não haver uma recaída).

 

Lembrei disso no almoço de quinta-feira quando – pela primeira vez desde o início de março do ano passado – o grupo esteve praticamente completo, e de novo contamos histórias e rimos, como fazíamos antes de tudo começar. 

 

A vida em grupo é muito mais leve, definitivamente.

 

Até.

 

domingo, agosto 08, 2021

A Sopa

Eu tive COVID.

 

Sim, você já deve saber, afinal contei isso aqui neste espaço no início da semana. Já não é uma novidade e nem é (ou foi) um grande problema, afinal já completei o período de isolamento, e segunda-feira volto ao trabalho.

 

Fiquei pensando o que significou, para mim, ter me infectado, adoecido.

 

Lá atrás, no início da pandemia, há um ano e meio, passamos da ideia inicial de que todos se contaminariam em algum momento e tínhamos que “achatar a curva” (de infecções) para não sobrecarregar o sistema de saúde para o “fique em casa”, para que ninguém se infectasse, meta evidentemente irreal. Todos os cuidados que tínhamos e temos que tomar sempre foram para – sim – minimizar as infecções enquanto as vacinas eram desenvolvidas.

 

Elas foram, em tempo recorde, para a suspeita de vários (esquecendo que estamos em 2021, não em 1950). Fui voluntário da pesquisa da Coronavac, do Instituto Butantã, em setembro de 2020 e, quase onze meses depois, acabei tendo COVID. Tranquilo, posso dizer. Sempre soube que a vacina não evitava em 100% a infecção, mas era para evitar casos graves, internações, internações em UTI e, claro, morte. Por isso nunca me preocupei com essa ridícula discussão sobre qual vacina fazer. Vacina boa é vacina feita.

 

De qualquer forma, quando entrei na pesquisa e recebi o que poderia ser a vacina ou placebo, não quis saber qual eu tinha recebido, porque não ia mudar em nada minha vida caso eu soubesse. Os cuidados continuariam os mesmos. Depois que fiquei sabendo que havia sido vacina, de fato nada mudou.

 

Assim que fiquei sabendo que estava com COVID, ainda antes do teste, afinal eu era contato de caso e comecei com febre, mantive-me tranquilo. Alguém pode até dizer que irresponsavelmente calmo, pode ser, mas confesso que em nenhum momento me preocupei de verdade. Por estar me sentindo bem, com poucos sintomas. Era questão de seguir o protocolo e permanecer isolado pelo período recomendado. Se certo ou errado, não faz diferença, cada um reage de forma individual ao que acontece em sua vida.

 

Lembrei disso porque andei lendo relato de conhecidos que estavam passando pela mesma situação que eu, mais ou menos ao mesmo tempo, e que diziam que o diagnóstico foi motivo de muita preocupação por terem visto muitos pacientes, saber de ainda mais outros que haviam sofrido e mesmo morrido de COVID. Entendo a angústia e preocupação, mas – de novo – confesso – que não as tive.

 

Negação, você pode pensar, mecanismo de defesa para seguir em frente em meio a tudo isso. Pode ser, não importa mesmo.

 

Por enquanto, passei bem pelo COVID. Sem loucuras, sem tratamentos malucos, não fiz nada diferente daquilo que recomendo para pacientes. Estou bem.

 

Espero que continue assim.    


Até. 

sexta-feira, julho 30, 2021

A Sopa

COVID.

 

Papo chato, esse, depois de quase um ano e meio, mas ainda indispensável, assim como todas as medidas e cuidados. Mesmo com tudo, todos os cuidados e a vacina, é possível se infectar e adoecer, sabemos disso.

 

Ninguém nunca disse que a vacina vai evitar em 100% as infecções, apesar de muitos por aí, numa prova de analfabetismo imunológico, pensarem isso. A vacina reduz, sim, a chance de infecção, mas – muito mais importante – reduz a gravidade da doença caso aconteça, reduzindo internações, internações em UTI e – claro – mortalidade. E assim seguimos.

 

Estou em casa essa semana, em quarentena.

 

Isso porque as meninas, justo no dia em que iriam viajar para São Paulo para uns dias de férias, tiveram um teste positivo. A Jacque vinha há alguns dias com um quadro de IVAS, nada demais, mas quando – no dia da viagem de manhã – a Marina acordou com um pouco de dor de cabeça e febrícula, decidiram fazer o teste. Bingo: as duas estão em isolamento. Eu, por outro lado, mesmo assintomático, fiz o teste: negativo.

 

Por ser contato de casos, após conversar com o Dr. Fabiano Ramos, infectologista, investigador principal da pesquisa da Coronavac no Rio Grande do Sul, da qual fui voluntário em setembro passado, para ter certeza do que fazer, vim para casa fazer quarentena. Estamos todos em casa, dormindo em quartos separados e, quando no mesmo ambiente, distantes uns dos outros e usando máscaras. No início da semana que vem, faço novo teste.

 

Como estamos?

 

Muito bem. Elas praticamente assintomáticas e eu assintomático, apenas meio “dolorido” de ficar muito tempo sentado e/ou deitado. Ontem ainda atendi uns pacientes online, hoje participei de uma reunião virtual. Havia pensado em aproveitar para estudar mais, organizar as coisas por aqui, mas...

 

Não estou muito afim.


Mais uns dias e tudo volta ao normal.

 

Até.

  

segunda-feira, julho 12, 2021

A Sopa

 Parei de contar os dias de pandemia.

 

Estamos no segundo ano, e aqui no Sul do Mundo, após o inferno que foi o mês de março de 2021, com o grande pico de infecções e internações, com o quase colapso do sistema de saúde, vivemos agora um momento mais tranquilo. À medida que a vacinação avança, a situação melhora, mesmo que lentamente.

 

Não podemos baixar a guarda, contudo.

 

Todos os cuidados que tínhamos, devem ser mantidos, para que tudo possa terminar o quanto antes. Máscaras, distanciamento, evitar aglomerações, tudo faz parte do que temos que seguir fazendo para que possamos avançar. E seguir as recomendações que são baseadas em evidências científicas, que são embasadas em estudos realizados, e bem realizados.

 

Temos visto, neste cerca de um ano e meio de pandemia, que muitos, por mais preparados que sejam, por mais estudados que sejam, no momento em que estamos frente a um desafio gigante (o que tem sido esse tempo) portam-se como o marinheiro que – ao ver um problema na embarcação -  sai correndo de um lado a outro gritando “vamos morrer, vamos morrer”, quando o que ele deveria fazer era se utilizar de seu conhecimento e de seu treinamento para propor soluções, para ajudar. Já falei disso: entendo a angústia, mas, antes de mais nada, não podemos prejudicar aqueles que buscam nossa ajuda prescrevendo tratamentos sem comprovação, ou – pior – que podem causar mais mal que bem.

 

E tem se visto coisa, posso dizer.

 

De qualquer forma, devemos tentar manter o juízo crítico e o bom senso em meio a dias confusos.

 

De novo, vai passar

 

#

 

Não só isso: parece, em determinados casos, que voltamos no tempo, quando tínhamos pouco conhecimento sobre o mundo. A ciência avançou muito nos últimos anos, e a descoberto/criação de vacinas em tão pouco tempo é uma prova disso. Nunca estivemos tão preparados – por paradoxal que possa parecer – para lidar com uma situação dessas como agora. Por isso a minha convicção de que vamos superar isso em breve. E vem desse fato também a minha surpresa com ter ouvido colegas comentarem – há quase um ano, ao saber que eu havia sido voluntário para o estudo de uma das vacinas – que esperariam “porque a vacina foi criada em muito pouco tempo...”, como se estivéssemos em 1950!

 

Fingi que não ouvi, não valia a pena discutir.

 

Quem sabe procurassem um pajé naquele momento.

 

Vai saber.

 

Até.

terça-feira, julho 06, 2021

A Sopa

Final de semana.

 

Eu sei que estamos numa terça, ou quarta-feira, não importa o dia da semana em que estou publicando essa crônica, mas quero falar um pouco sobre o final de semana. Sobre como se tornaram melhores os finais de semana novamente.

 

Sim, novamente.

 

Porque uma das consequências da pandemia e do distanciamento social decorrente dela foi que, em primeiro lugar, os dias ficaram mais ou menos iguais durante grande parte do ano passado, como se vivêssemos – e sei que já falei isso – o clássico filme ‘O Feitiço do Tempo’ (Groundhog Day, 1993), condenados a reviver o mesmo dia eternamente. Não havia muita diferença entre quarta-feira e sábado, ou terça, o que era um crime, porque o melhor momento da semana, como todos sabem (ou deveriam saber) é o sábado de manhã, de sol. 

 

Tergiverso, eu sei.

 

Outra razão para que os finais de semana tivessem perdido a graça foi que as socializações foram interrompidas. Estivemos distantes (com razão) fisicamente de familiares e amigos desde o início da pandemia, com raríssimos encontros cheios de cuidados e sem aglomerações. E isso – ainda – não voltou a normal, claro.

 

Como médico, e pneumologista em especial, desde o último trimestre do ano passado, tenho trabalhado intensamente, atendendo inicial e preponderantemente pacientes com e pós-COVID-19, online e presencialmente, e depois pacientes pneumológicos em geral, que retornaram aos consultórios porque suas condições não desapareceram pelo coronavírus. O trabalho tem sido grande e gratificante. Nunca fui tão médico quanto agora, tenho a impressão.

 

Mas falava dos finais de semana.

 

Como não há possibilidade de trabalho remoto, de home office, a rotina de trabalho voltou, e acrescida de novas atribuições surgidas durante o ano passado. A semana de trabalho tem sido cheia novamente, e a chegada dos finais de semana tem representado realmente uma parada e momentos de descanso. E têm sido leves, agradáveis.  

 

Como sempre devem ser.

 

Até. 

domingo, junho 20, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Nonagésimo Quinto Dia)

 

Sobre as comparações.

 

Se existe, na vida, uma certeza qualquer além da morte, é que sempre haverá alguém melhor e alguém pior que a gente. Simples assim, e é a forma que lidamos com isso que vai determinar muito de como vamos encarar a vida.

 

Como em tudo, há várias interpretações para isso.

 

Podemos focar naqueles que estão acima de nós, em termos financeiros, profissionais, de fama ou sucesso. O colega, o conhecido ou o amigo com maior salário, melhor carro ou casa, mais bens materiais, maior status social, vida aparentemente perfeita. A comparação pode servir de estímulo para que sigamos em busca de mais, de crescer, de obter mais. Aí, tudo bem. Mas pode ser que – ao olhar a grama aparentemente mais verde do vizinho – nos torne rancorosos, amargos, com a sensação de sermos injustiçados, a velha história do “por que não eu?”.

 

É uma forma de ver ruim, claro, e que faz mal a quem sente isso. A inveja é uma merda, diz o ditado popular. A energia negativa nos empurra para baixo. Nos torna, como já falei, amargos e negativos.

 

Porque ao mesmo tempo em sabemos que existem muitos que estão em “melhor” (e coloco entre aspas porque o conceito de melhor é bem individual, depende de cada um e suas prioridades) situação que nós, existem muitos, mas muitos mesmo, que estão em situação mais difícil que nós. Independente do que estamos analisando, saúde, dinheiro, ou qualquer outro critério, sempre haverá alguém cujos problemas são maiores que os nossos. Só isso já deveria ser motivo para iniciarmos todos os dias com energia renovada por termos o que temos, por estarmos vivos e em condições de seguir em frente.

 

Sob certa forma, é o que tenho tentado fazer nos últimos tempos, e que se acentuou durante a pandemia: se há um problema que inicialmente parece muito grande, procuro lembrar que poderia ser bem pior, ou não ter solução, e que esses – os sem solução – são raros na vida. Respiro fundo, olho em volta, e tento seguir em frente, porque – no fundo – não são tão horríveis assim.

 

É uma forma, também, de lidar com a ansiedade.

 

Saber que existem situações que não dependem de mim, que vão acontecer independente da minha vontade e que não serão alteradas quaisquer que sejam meus esforços, dá uma certa tranquilidade e a possibilidade de focar naquelas situações e problemas que – sim – dependem de mim. Aprender a diferenciá-las, isso sim, um trabalho diário.

 

Outra forma de lidar com a vida e as comparações é – e isso é ainda mais difícil – procurar não comparar. Somos todos diferentes, começamos de locais diferentes e temos necessidades e objetivos diferentes. Lembrar que o que é importante para mim provavelmente não é o mesmo que é importante para outros facilita esse exercício. Todos temos dificuldades, problemas e desafios na vida. Assim como, por mais parecidos que sejam, os caminhos que percorremos são diferentes. Comparar diferentes é injusto, conosco e com os outros.

 

Lembrar disso todos os dias é mais um desafio.

 

Até

terça-feira, junho 15, 2021

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Nonagésimo Dia)

 

Mais uma Sopa no meio da semana.

 

Sobre o passado.

 

Eu não vivo no passado, quero deixar isso bem claro. Alguém que me conheceu antes poderá até dizer que já vivi – por um período, quem sabe – de lembranças, ou de querer reviver um passado que não volta mais. 

 

Não vou brigar por isso.

 

Se já aconteceu outrora, certamente não mais acontece. Sei bem o lugar do passado, sei bem que a história anda para frente, e que nada do que foi será do jeito que já foi um dia, que tudo passa e tudo sempre passará. E que a vida vem em ondas, como um mar, neste indo e vindo infinito, como cantou Lulu Santos.

 

Tudo o que temos é o agora, o presente.

 

O que passou não existe mais, e o que virá é apenas uma expectativa, um talvez. Viver no presente, no agora, esse o grande desafio. Alguém disse, ou escreveu, que ansiedade é excesso de futuro. Não sei se é bem assim, mas faz um certo sentido. Passado e futuro são criações da nossa mente, nada aconteceu exatamente como “lembramos”, e a memória é uma versão – muitas vezes – romantizada do que aconteceu. O futuro, por outro lado, não será como imaginamos hoje, porque seremos diferentes lá na frente.

 

Em resumo, o que importa é viver dia de hoje, todos sabemos.

 

O que não quer dizer que o que passou não tem importância. Foi o que nos moldou, foi o que nos tornou o que somos hoje. E, muito mais importante, quero falar das pessoas que nos tornaram quem e como somos hoje. 

 

Tenho um profundo respeito pelas pessoas do meu passado. Foram elas que – em grande parte – influenciaram quem me tornei hoje. Reencontrá-las sempre é uma experiência potencialmente enriquecedora. Saber como e onde estão, que caminhos seguiram, com quem tem andado pela vida, descobrir se ainda existem as conexões que nos uniram no passado, todas são possibilidades que me encantam. Não é querer reviver o que passou.

 

É a possiblidade de caminhar juntos mais uma vez.

 

Ou não.

 

Até.

domingo, junho 06, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Octagésimo Terceiro Dia)

 

Domingo.

 

Choveu ontem à noite, agora o tempo é nublado, mas em breve a chuva retornará. Hoje decidi não pedalar. O dia será de descanso muscular, sem nenhuma atividade física, o que – confesso – causa uma certa angústia.

 

Desde que coloquei de verdade e novamente a atividade física como uma das minhas prioridades de vida, tenho aumentado sua frequência e intensidade progressivamente. Voluntariamente, claro, porque gosto e por sentir necessidade. Faz bem para mim.

 

Começou com pedalar – no mínimo - duas vezes por semana, o que era bom, mas dependia da meteorologia, o que muitas vezes me limitava, aqui no Sul do Mundo. Cerca de seis meses de procura, após começar a pedalar, encontrei uma academia que fechou com o meu estilo, onde as pessoas te conhecem pelo nome e o atendimento é normalmente quase como se fosse personal

 

Comecei indo três vezes na semana, e pedalando – quando possível – sábado e domingo. Ao longo do tempo, aumentei para quatro vezes (folgava às sextas-feiras). Veio a pandemia, as academias fecharam, e disciplinadamente fiz exercícios em casa por um longo período, até que elas reabrissem. Como era com horário marcado, recebi a dica de marcar todos os dias – segunda à sexta – e, caso não pudesse ir, poderia desmarcar. Acabei indo cinco vezes por semana, além dos finais de semana de pedal, com as distâncias aumentando com o treinamento e a bicicleta nova (que já tem um ano e meio).

 

Sete dias por semana de atividade física, sem estresse, sem ser uma obrigação, sem ser um peso, sem comparações com ninguém. Apenas tentando me superar. 

 

Esse o maior desafio: me superar a cada dia, semana, e a cada mês.

 

Tenho conseguido, e tornou-se tão natural que sinto falta quando não faço. Como hoje, com o tempo instável, e ameaça de chuva a qualquer momento. Como disse, será um dia de descanso muscular. E sei que essa Sopa é uma forma de justificar (racionalizar) esse dia de folga... Não precisava justificar, eu sei...

 

Amanhã, contudo, antes da sete da manhã, frio ou calor, com ou sem chuva, estarei de volta me exercitando. Porque é bom.

 

Eu gosto e é parte de quem sou.

 

Até.

terça-feira, junho 01, 2021

A Sopa (no meio da semana?!)

(Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Septuagésimo Oitavo Dia)

 

Domingo que passou, não teve Sopa.

 

Não tem acontecido, isso de falhar um final de semana com a Sopa, mas não é uma novidade. Por mais que eu tenha me proposto e conseguido até aqui escrever e publicar um texto novo todas as semanas, sabia que nem sempre eu iria conseguir. Porque, às vezes, a vida se impõe.

 

Como aconteceu no final de semana.

 

Não consegui. Na verdade, nem tentei escrever. Curti o final de semana com a família, como devem ser e tem sido os finais de semana, ainda mais intensamente durante a pandemia. A ausência das viagens de trabalho, de reuniões e congressos, a “estada forçada” em casa, decorrentes do isolamento e distanciamento sociais, proporcionou uma muito bem recebida e desejada maior convivência do núcleo familiar, aqui em casa a Marina, a Jacque e eu, apesar de lamentar a falta que a família (além da casa) faz.

 

Ficamos em casa, começamos a preparar o quarto da Marina para a reforma que vamos fazer nas próximas semanas, e no domingo à tarde ficamos assistindo um filme juntos. Tudo simples, aparentemente banal, mas muito importante.

 

Estar juntos, o que conta.

 

Que continuemos assim, mesmo quando acabar a pandemia.

 

Porque, sim, vai acabar, mais cedo ou mais tarde.

 

Enquanto isso, deixo um pensamento, uma ideia que ouvi por estes dias:

 

“Devemos ser prudentes, mas não ter medo”.

  

Até.

domingo, maio 23, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Sexagésimo Nono Dia)

 

Sobre música, e o Rio de Janeiro.

 

Há uns poucos meses, uma tendência se tornou uma realidade aqui em casa: temos assistido cada vez menos televisão. E não falo apenas da tevê aberta, que já abandonamos há bem mais tempo. A tevê por assinatura, com sua dezena de canais, também perdeu a graça, pelo visto.

 

Temos assistido séries em streaming, e vídeos diversos no You Tube, quando sentamos juntos para assistir algo. Mais recentemente, vídeos de música, dos mais variados. Listas de músicas mais tocadas entre os anos 1950 e 2020, musicais, vídeos de músicos de rua, tudo tem sido visto.

 

Corta para o final de semana, quando falava com meu irmão e minha sobrinha Olívia, que moram em NY. Entre a conversa, ela quis cantar (também toca piano, mas não vem ao caso). E cantou ‘Águas de Março’, do Tom Jobim. E sabia a letra de cabeça, toda. Fiquei impressionado e feliz. E me fez assistir a vídeos do Tom Jobim, da Elis Regina, do Luiz Melodia entre outros. Mas, acima do todos, do Tom Jobim.

 

Fiquei feliz também por lembrar de uma coletânea de músicas do Tom Jobim, que tínhamos em CD quando eu ainda morava com meus pais (há mais de vinte e cinco anos), e me fez lembrar da minha relação com o Rio de Janeiro. Vem de longo tempo.

 

A primeira vez que estive no Rio foi com sete anos de idade, final dos anos setenta, em viagem com meus pais e meu irmão. Saímos de carro de Porto Alegre, e fomos parando em algumas praias no caminho até lá, onde ficamos em Copacabana. Lembro de visitarmos o Cristo, o Pão de Açúcar, entre outros pontos turísticos. Ficamos poucos dias, mas foi bem legal. Depois dessa, fiquei muito tempo sem ir ao Rio de Janeiro.

 

Quando calhou de ir novamente, fui para um congresso médico, quando eu iria fazer minha prova de especialista em Pneumologia, e tive de ficar por uma semana inteira no Congresso para fazer a prova no final deste, e fiquei num hotel meia boca no Arpoador. E, claro, choveu quase todos os dias...

 

Lembro de fazer de ônibus o trajeto entre o Arpoador e o Hotel Glória, onde ocorria o congresso, e atentar para os nomes das ruas, e associar a letras de músicas, de todas as músicas que referenciavam o Rio de Janeiro que eu conhecia. Era circular por lá lembrando de músicas, de diferentes estilos e autores.

 

Anos depois, trabalhei em uma empresa situada no Rio de Janeiro, mais especificamente em Jacarepaguá. A maior parte do tempo o trabalho era viajando ou em home office (antes mesmo da pandemia). Mas, evidentemente, tive que ir diversas vezes à cidade. Só que não era – para mim, para mim – exatamente ir ao Rio de Janeiro como eu sempre pensei o Rio de Janeiro: a zonal sul (Copacabana, Ipanema, etc.). Não, chegava no Galeão, pegava um Uber que ia pela Linha Amarela, e ia direto trabalhar. E me hospedava ali perto mesmo ou na Barra. Poucas vezes passei pela zona sul, o que sempre me tirou a sensação de estar no Rio de Janeiro (minha visão de turista, de alguém não local).

 

A última vez que fui para lá, em dezembro de 2018, para checkup médico (estava gordo e estressado...) e uma reunião, fiquei três dias em um hotel em frente ao mar, na Barra. Minha despedida foi um caipirinha no terraço do hotel, olhando o mar...

 

Mas fugi do assunto.

 

Falava de música, do Tom Jobim, e do Rio de Janeiro.

 

Nunca vou esquecer da primeira vez que cheguei (e saí de lá) de avião, à noite, o processo de aproximação da cidade iluminada e com tempo claro, e me pegar cantando o ‘Samba do Avião’. Era uma conexão para um voo para os Estados Unidos, e era a minha primeira viagem de avião. A cidade cada vez mais próxima, e a música sem sair da minha cabeça...

 

Minha alma canta,
Vejo o Rio de Janeiro,
Estou morrendo de saudade.
Rio, teu mar, praias sem fim,
Rio, você foi feito pra mim.
Cristo Redentor 

Braços abertos sobre a Guanabara.
Este samba é só porque, Rio, eu gosto de você,
A morena vai sambar, Seu corpo todo balançar.
Rio de sol, de céu, de mar,
Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão
Este samba é só porque,
Rio, eu gosto de você,
A morena vai sambar,
Seu corpo todo balançar.
Aperte o cinto, vamos chegar,
Água brilhando, olha a pista chegando,
E vamos nós.
Aterrar


Um tempo em que ainda viajávamos...

 

Em breve, em breve. 


Até.

 

domingo, maio 09, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Quinquagésimo Quinto Dia)

 

Uma Sopa de muitos anos atrás, atualizada.

 

O aniversário do meu pai (80 anos hoje!), em nove de maio, volta e meia cai junto com o ‘Dias das Mães’, como foi há vinte e um anos atrás.

 

Corria o ano de 1999, início do segundo mandato do FHC, poucos meses após a desvalorização do real perante o dólar – que foi de cerca de R$ 1,20 para algo em torno de R$ 2,00 (!) – justamente “momentos” antes da primeira viagem dos Perdidos na Espace para a Europa. A mudança cambial aconteceu justamente quando nos preparávamos para viajar, o que gerou estresse e discussões intermináveis a respeito de alternativas.


O dólar acabou baixando para patamares mais adequados para a época, e foi num dia 09 de maio, aniversário do meu pai e Dia das Mães, que embarcamos de Porto Alegre rumo à Guarulhos e depois à Bruxelas, nossa porta de entrada no velho mundo. Foi a minha primeira viagem à Europa.


Até ali, a minha experiência internacional – iniciada nas minhas primeiras férias como médico-residente, em maio de 1995 – resumia-se a uma ida aos Estados Unidos (Flórida, parques da Disney, Nova York, Filadélfia, Atlantic City e Washington) e duas idas à Buenos Aires, sendo que a primeira como lua-de-mel.


Como já contei diversas vezes, fomos em grupo: a Jacque e eu, a Karina e o Paulo (cunhados) mais a Roberta (minha afilhada, de dois anos e meio) e o Caio e a Aline (grandes amigos). Alugamos uma van, a Renault Espace (daí o nome, Perdidos na Espace) e quase cinco mil quilômetros em aproximadamente vinte e poucos dias, por Bélgica, Holanda, Alemanha, Suiça e França.


Pois é, vinte e um anos passaram, e penso o quanto o mundo mudou neste tempo (e que agora estamos há mais de ano em plena pandemia, sem nem poder planejar viagens enquanto seguimos lutando por nossa sobrevivência...). O quanto nossas vidas mudaram, que caminhos tomamos, por onde andamos hoje. 

 

Não houve reunião do grupo para marcar a data (por óbvias razões), como em outras vezes, mas também porque já não somos um grupo e qualquer reunião que se fizesse estaria incompleta. Porque alguns seguimos rumos diferentes que nos afastaram, afinal a vida faz dessas.


Paciência...

Penso em quem eu era há vinte e um anos. Olho para trás. Olho os caminhos que percorri e fico tranquilo. Tem sido bom. A vida tem sido boa. Ainda não cheguei até onde quero ir (será?), até porque vou descobrindo por onde devo ir enquanto ando. Falta muito para chegar?

Não importa. O que importa – mesmo – é o caminho.


E quem anda contigo.

 

Até.

domingo, maio 02, 2021

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Quadragésimo Oitavo Dia)

 

O isolamento.

 

O isolamento social, situação mais intensa – digamos assim – que o distanciamento, tem as mais variadas consequências em todos nós, queiramos ou não. E, como tudo na vida, existe o lado ruim e o lado bom.

 

Citei primeiro o ruim porque é o que primeiro nos vem à mente quando pensamos no último ano e quase dois meses de pandemia. Afastados de nossos familiares, amigos, sem as mesmas possibilidades de socialização de antes, sofremos porque somos seres sociais. Precisamos do convívio com outras pessoas, da troca de experiências, da conversa, do afeto. Se nós, adultos, já sentimos a ausência dos relacionamentos sociais, são as crianças as maiores prejudicadas com tudo isso.

 

A nossa formação como seres humanos não prescinde de socialização. Crescemos (intelectual e emocionalmente) no contato, na convivência. Por isso, também, que sou favorável ao retorno das aulas presenciais.

 

Mas não é essa discussão que quero fazer.

 

Quero falar de um ponto positivo desse período de pouco convívio social. Entre todas as dificuldades que enfrentamos, todas as privações decorrentes da pandemia, em meio a tudo isso, esse período pode servir também para uma reafirmação de nossa individualidade. O último ano nos privou dos grupos sociais e, com isso, também nos afastou de algumas ditas “pressões sociais”, que muitas vezes – mesmo que inconscientemente – são impostas a nós pelos grupos de convivência.

 

Os grupos servem, durante boa parte de nossas vidas, se não durante toda ela, como locais de reconhecimento, de pertencimento, onde nos vemos espelhados em outras pessoas e cujas normas – mesmo que não verbais – estabelecem padrões a serem seguidos para a aceitação por ele. Códigos de condutas. É assim e sempre foi assim. Para ser aceito no grupo, segue-se um padrão.

 

Isso é mais forte nos momentos de formação de nossa personalidade e identidade, início da vida social, e é muito forte na adolescência, por exemplo. São as turmas, ou tribos. Todos vestidos iguais, os – na minha época de escola – surfistas, os intelectuais, os darks, etc. O All Star preto que usávamos. Fazer parte de um todo para expressar individualidade.

 

Isso persiste durante a vida, com cobranças mais ou menos explícitas (“jeans aqui não!”). É normal, sempre foi assim.

 

E aí vem a pandemia.

 

Somos obrigados a ficar em casa (ou, no meu caso, de casa para o consultório) durante todo o ano, isolados e trabalhando em home office, não podendo encontrar as pessoas e, dessa forma, ficamos também longe das imposições de grupos sociais. Sob certo aspecto, ficamos(fiquei) mais independentes. Longe das pressões sociais, podemos ser mais nós mesmos.

 

Mais selvagens, menos robôs.

 

É um ponto de vista.

 

Até.