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sexta-feira, novembro 29, 2024

Quase Trinta (e o espelho)

Eu gosto de quem vejo quando olho no espelho. 

Uma premissa que deveria ser básica em todo mundo, gostar de si mesmo, mas que nem sempre acontece, pelas mais variadas razões. Algumas pessoas não gostam de sua aparência, outros não estão felizes com sua vida profissional, enquanto ainda outros tem culpas e arrependimentos que não permitem olharem o espelho e gostarem do que veem.

 

Eu, como disse, gosto.

 

Podemos dizer que aprendi a conviver comigo mesmo. Já sei quais são os meus defeitos, as minhas qualidades, os meus pontos fracos e os pontos fortes, em que sou de confiança. Tenho, como todos, arrependimentos e algumas culpas, mas estou em paz com o passado, sei que posso construir o futuro (e sei que futuro eu quero para mim) e cada vez mais procuro viver o presente. Claro que nunca é tão simples ou fácil, mas é uma batalha diária, e – com o tempo que passa – vamos levando (espero) cada vez melhor.  

 

Tenho feito essas reflexões com mais intensidade nos últimos tempos, porque aproximam-se datas marcantes em minha vida: trinta anos de formado, trinta anos que estou com a Jacque, vinte anos que morei no Canadá e defendi meu doutorado, entre outras. Momentos de parar um pouco e olhar para trás, avaliar a passagem do tempo, e perceber que o caminho tem sido bom.

 

Tem sido.

 

Até.

 

(tudo porque cedo me olhei no espelho e percebi o quão libertador é não precisar pentear o cabelo...)

terça-feira, novembro 05, 2024

Ontem

Vinha eu dirigindo a caminho do consultório, hoje mais cedo, e ouvindo um podcast em inglês, de nome ‘How To’. O episódio em questão, que eu ouvia em uma manhã de sol de terça-feira, era sobre como encarar o medo da morte, de morrer.

 

Diferente de alguns casos comentados no programa, de pessoas que tem sofrimento real relacionado ao medo de morrer e da morte de pessoas próximas, meu problema com o conceito de morrer é – já disse repetidas vezes – que acho um ‘desperdício’, desnecessário...

 

O que acontece é que não consigo imaginar o fim, o ‘não ser’, o nada. Aí chego a quase lamentar a minha falta de certezas com relação ao pós-vida. Gostaria de estar seguro, no sentido de fé, de que quando morrer haverá a chamada vida eterna em um local para onde vão os justos e os corretos. Mas minha relação com a religião, Deus e conceitos teológicos é de não saber.

 

Eu não sei.

 

Gostaria, sinceramente, de acreditar na existência ou na não-existência dessa entidade superior, ou energia, seja como for. Gostaria de saber que vou reencontrar em alguma dimensão diferente aqueles entes queridos que se foram, mas realmente, sinceramente, eu não sei.

 

Talvez eu acredite no Deus de Spinoza, como disse Einstein. Ele não estaria separado do mundo, pelo contrário, seria intimamente e necessariamente ligado a ele, formando apenas uma coisa, uma substância, ou seja, o mundo e Deus são a mesma coisa, já que o mundo é uma produção, e não uma criação.

 

Mas isso é conversa para outro momento.

 

Não em uma terça-feira de manhã de sol.

 

Até.

 

PS – Ontem, na Feira do Livro, foi muito legal. Obrigado a todos!

Abraço. 

quarta-feira, dezembro 06, 2023

A Sopa

Como está sendo o seu dia? E o mês, o ano?

 

Como avaliamos a vida, em geral? É apenas do ponto de vista pessoal, individualmente falando, o microcosmos em que vivemos como referência para sabermos se estamos – ao menos – no caminho certo, ou devemos levar em conta o todo, o mundo, o Universo? Devemos levar em conta a guerra da Ucrânia, a violência no Rio de Janeiro, os ataques terroristas contra Israel? O Universo em expansão, os buracos negros? Prejudica tua avaliação de quão bem está sua vida?

 

E no plano pessoal, falando das adversidades da vida, elas conseguem te abater?

 

Pensei isso esses dias enquanto lidava com as limitações temporárias decorrentes do meu acidente de bicicleta, a fratura do braço e o pós-operatório da cirurgia de colocação da placa fixada por parafusos. Percebi que andava desanimado, meio cabisbaixo, em contraposição ao meu estado de ânimo nos dias precedentes ao acidente. As circunstâncias haviam me colocado para baixo. Fatos que não estavam sob meu controle me chateavam, deprimiam. 

 

Tenho dito por aí que a vida de tempos em tempos tenta nos derrubar, e volta e meia até consegue... Cabe a nós mesmos levantar e continuar caminhando. De novo e sempre, por mais que caiamos.  Eu, por exemplo, caio.

 

Parênteses.

 

Estive pensando nisso, na teoria de que o nosso discurso molda a nossa realidade. Já há algum tempo eu tenho por hábito dizer para as pessoas que sou alguém que cai. Sim, porque tenho um passado de algumas quedas, principalmente em banheiras (e até para fora de algumas delas). Poderia dizer que crio a expectativa de que vou cair e, quando isso, evento na verdade raro, acontece, a minha queda torna-se evento confirmatório definidor de quem ou o quê sou. O que não é verdade.

 

Fecha parênteses.

 

Falava eu, então, da maneira pela qual avaliamos a vida em geral. Que perspectivas utilizamos, se olhamos para o nosso próprio umbigo ou devemos ser mais amplos, olhar para o mundo em geral. Confesso que não tenho uma resposta definitiva para isso, principalmente porque esse tema entra naquele tipo de situação termos controle versus não termos controle sobre o que acontece. A pergunta é: qual o sentido de avaliarmos nossa vida levando em conta o que nos acontece e que é fruto do acaso, se – por ser justamente isso, o acaso – não depende de nós mesmos. Será que não deveríamos avaliar o que nos acontece tendo por base o resultado de nossas ações, as consequências de nossas escolhas?

 

Mais uma vez, não sei.

 

Aqui do Sul do Mundo, onde vivo, procuro avaliar minha vida sob o ponto de vista estritamente pessoal, individual. Olhando para o meu umbigo, me olhando no espelho. Irresponsavelmente, talvez, procuro desconsiderar o mundo exterior nesses momentos de autoavaliação. Estar bem, satisfeito comigo mesmo, não depende do mundo exterior. E não depende, também, apenas do momento atual (que é importante, eu sei).

 

Quando, no final do dia, paro e penso nisso, em como vai a vida, procuro o olhar o todo, o meu todo, a minha história e minha trajetória, não apenas um recorte de momento. Porque o contexto e a trajetória, a jornada, são importantes, ao menos para mim. De onde vim, onde estou e para onde vou.

 

Só depois dessas reflexões é que posso olhar para fora, e ir atrás de mudar o que posso mudar, o que depende de mim, e procurar ter a serenidade de aceitar o que não depende de mim.

 

Até. 

domingo, setembro 17, 2023

A Sopa

Histórias de vida.

 

Um exercício interessante que eventualmente deveríamos fazer é analisar nossa própria vida, nossa trajetória, com uma visão de perspectiva. Olhar de fora, de longe.

 

Uma forma de fazer isso é tentar contar a nossa história de maneira resumida a alguém não a conhece, não a viveu junto conosco. Ordenar os acontecimentos, selecionar o que foi realmente significativo, que é “digno de nota”, nos obriga a tirar os olhos do próximo passo a ser dado, do curto prazo, daquilo que está ao alcance da mão. Olhar para o horizonte, para o oceano, e não apenas a praia em frente. O exercício de criar uma narrativa coerente – mesmo que a vida nem sempre seja ou pareça – conectando acontecimentos, situações e pessoas. 

 

Como eu disse, não é uma situação comum, essa de fazermos isso, fora do consultório de um analista, por exemplo. Principalmente porque quase nunca há tempo, na correria dos dias. E porque em boa parte das vezes as pessoas não querem saber e realmente não tem o tempo necessário para ouvir, não por mal, claro, afinal todos temos com o que nos preocupar, e o que fazer.

 

Tive essa chance, esses dias.

 

Num (relativamente) longo trajeto de carro por uma estrada difícil, após um pneu furado, e com o ridículo estepe que não permite rodar rápido, e sem onde parar para consertá-lo por mais de hora, fomos, um amigo e eu, conversando sobre a vida. Em determinado momento, perguntou-me sobre como havia chegado até aqui, e falava da medicina.

 

Foi quando tive essa oportunidade não comum de contar a minha história, desde antes de escolher a profissão, o processo de escolha, com as dúvidas inerentes, e a caminhada que me trouxe até o presente. Enquanto contava, conectando os fatos, os acontecimentos, contando uma história que – sim – fazia sentido para quem a estava ouvindo e, mais importante, para mim, que estava contando. Não foi, mas poderia ter sido uma experiência de sair do corpo e me olhar de fora.

 

De certa forma, foi isso mesmo: enquanto falava, me ouvia, e o discurso fazia sentido e era coerente. Foi quando tive a sensação, ao me ouvir, que toda minha trajetória – da qual muitas vezes tive dúvidas e questionamentos e inseguranças – houvesse sido deliberadamente planejada (o que não foi, evidentemente), e que eu sempre soubera o que estava fazendo (o que não sabia, claro).

 

Foi uma sensação boa, essa.

 

Também porque agora eu realmente sei por onde ando e para onde quero ir, e tenho dado alguns passos importantes nos últimos tempos. Dos quais estou realmente muito feliz, com a sensação de realização.

 

A sensação de que tudo o que fiz até aqui foi a preparação para o que está vindo. 

 

Até.

 

 

domingo, junho 04, 2023

A Sopa

Música.

 

Há pouco mais de uma semana, vinha eu em um Uber saindo do aeroporto de Congonhas quando recebi uma mensagem de uma amiga perguntando por onde eu andava e se poderia almoçar naquele dia. Respondi que não poderia, pois estava em São Paulo. Perguntou, por curiosidade, o que eu estava fazendo em São Paulo, e respondi que eu estava lá porque no dia seguinte – sábado – eu iria tocar em um festival de música. Foi quando me dei conta da situação, de onde eu estava e o que eu estava dizendo por mensagem (da qual fiz um print, para guardar de recordação).

 

Eu passara toda minha vida esperando por aquele momento...

 

Mas falo disso mais adiante.

 

Alguns dias depois daquela troca de mensagens, na semana que ora termina, vivi (vivemos) duas noites de música e encantamento, mais uma vez. E volto, tema recorrente por aqui, falar de mim, do meu umbigo, metaforicamente falando, claro.

 

Como um selvagem que começa a ter contato com a civilização, com linguagem estabelecida e com um mundo esquematizado, acontece – de tempos em tempos – de eu descobrir que algo que eu sentia, vivenciava ou interpretava de certa forma, e que – por distração ou ingenuidade – eu denominava de determinada maneira, já havia sido definida e explicada anteriormente. Como a Síndrome do Impostor, que antes de eu conhecer por este nome eu chamava de ‘Síndrome do Lutador de Boxe’, pois a sensação que eu tinha (tenho ainda?) às vezes era de que eu era um boxeador encurralado em um corner me defendendo de golpes de um oponente imaginário, enquanto eu estava sozinho no ringue...

 

O mesmo ocorreu com o que agora eu sei que é Nirvana.

 

Nirvana é definido nas religiões indianas como um estado permanente e definitivo de beatitude, felicidade e conhecimento, meta suprema do homem religioso, que seria obtida através de disciplina ascética e meditaçãomas – num sentido geral – é utilizado designar alguém que está em um estado de plenitude e paz interior. Felicidade plena, poderia dizer. Segundo o budismo, nirvana é um estado de libertação de sofrimento, livre do apego aos sentidos e ao material, com a finalidade de buscar a paz interior e a essência da vida.

 

Foi justamente essa sensação, de plenitude e paz interior, ou de felicidade plena, que eu tive em fevereiro do ano passado, no litoral norte do Rio Grande do Sul (que tem uma importância gigante na minha vida), quando assisti ao show de temporada de verão da School of Rock em que a Marina cantou. Foi tamanha a felicidade, a sensação de que o mundo estava certo, a ausência de sofrimento budista, que me empolguei a ponto de querer fazer parte daquilo. Ali foi o início do processo que me fez chegar até esse texto, ainda sob o impacto da última semana.

 

O momento significativo seguinte foi o 31/05 do ano passado, quando tocamos, apenas três meses depois de ter iniciado como aluno, um repertório Beatles no Sgt Peppers, um tradicional pub de Porto Alegre, local onde a Jacque e eu tivemos nosso primeiro encontro, quase trinta anos atrás (o bar é o mesmo, mas numa localização diferente). Foi impactante porque, além de tocar, também assisti à Marina se apresentando. 

 

Foi um longo ano, entre os dias trinta e um de maio de dois mil e vinte e dois e vinte e três. Muita coisa aconteceu, para o bem e para o mal. Em todos os momentos, estivemos, nosso grupo de ensaios de segunda-feira que em fevereiro desse ano passou a ser das terças-feiras, juntos, semanalmente. Ensaios, conversas, estórias e histórias. Churrascos (“nunca recuso um convite para churrasco”), porque churrasco é sempre uma possibilidade.

 

Fizemos show tocando “apenas” Rolling Stones no Opinião, em Porto Alegre, e depois tocamos na praia, naquele que era para ser o maior churrasco do mundo. Lá, uma das músicas quem cantou conosco foi a Marina, o que é algo que não consigo descrever com palavras, ou, melhor, é o que se chama de Nirvana: felicidade plena.

 

Após o show de verão, começamos a preparação do show que faríamos em maio, e que foi esse de trinta e um de maio passado de que falo. Mudou o dia de ensaios, mudou o método, o sistema. A sensação inicial foi de estranhamento, de sair da zona de conforto. E todos sabem como gosto de minha zona de conforto. Mesmo assim, encarei como um desafio e oportunidade de crescimento. Pessoalmente, estou achando interessante. Nem todos concordam, mas é do jogo. A preparação foi, como vinha dizendo, desafiadora. Para mim, em especial, por motivos médicos.

 

Após termos ido de turma assistir ao show dos The Black Crowes em São Paulo (noite memorável, ótimo show, encontros, um morador de rua nos oferecendo dinheiro na madrugada) em que passei mais de oito horas de pé, voltei para Porto Alegre com uma hérnia de disco lombar que piorou muito a ponto de eu ter que ser submetido a uma cirurgia de urgência e ser obrigado a ficar quase vinte dias em casa de repouso, sem fazer esforço. Quando – no hospital ainda – o cirurgião disse que eu deveria ficar sessenta dias sem tocar, respondi que seria impossível porque tínhamos um show para fazer em São Paulo e precisava estar pronto...

 

E estava falando sério.

 

Começou maio, mês que terminaria com o show de temporada, e percebi que estava em um estado de excitação e euforia crescentes com a aproximação do(s) show(s). Reconheci o sentimento enquanto ouvia o repertório que tocaríamos, que tocou incontáveis vezes enquanto dirigia pelos diferentes trajetos que faço diariamente em função de trabalho. Sabia que esse sentimento cresceria exponencialmente até o dia do show. Que o nirvana, que a iluminação, se aproximavam. E que seriam personificados nas figuras dos meus amigos Thiago e Tchê, grandes responsáveis por isso. 

 

Fomos à São Paulo, enfim, para um festival de Master Bands (bandas de adultos) da School of Rock. Fomos juntos, ficamos em uma mesma casa (boa parte do grupo) e nos divertimos muito, objetivo final disso tudo. Voltamos para casa e, dois dias depois, tocaríamos no Sgt. Peppers, alguns pela primeira vez, minha segunda apresentação.

 

Foram dois dias de shows.

 

A primeira noite, terça-feira, foi dia do show do Rock 101 (crianças menores) e do grupo do Performance (do qual a Marina faz parte). Mais uma vez, foi uma apresentação impecável, e a Marina (não sou imparcial, eu sei) foi ainda melhor do que nas outras vezes. Como nas outras apresentações, me emocionei. Felicidade plena, nirvana. Não poderia ser melhor. O que elevou a régua para o dia seguinte, quando nós, os adultos, tocaríamos.


Modestamente, não decepcionamos.

 

Foi mais uma noite mágica, que vivi de maneira diferente da anterior. Se assistir à Marina se apresentar com a sua turma foi de arrepiar, de orgulho, de um tipo de felicidade que não se imagina antes de termos filhos, a noite de quarta-feira foi de celebração da amizade, da música, e – sim – do Tchê Gomes, nosso amigo e mestre, a quem pedimos para tocar com a gente o clássico ‘Não Sei’ de sua autoria, em momento apoteótico. Foi lavar a alma.

 

Teve, ainda, “cereja do bolo”, momento felicidade, orgulho e emoção totais, ter tido a chance de chamar a Marina ao palco para uma participação especial cantando para tocarmos. Poderia ter morrido ali, feliz...

 

Mas era uma noite de celebrar. Celebrar a amizade, como eu disse. Aquela criada nos ensaios, nos churrascos, nas conversas entre as músicas, nos desabafos, nas rodas de violão, na pizza na praia depois do show, nas viagens à São Paulo. Nos papos nos finais de ensaio. Também nas ameaças de churrascos de todas as terças-feiras... Mas celebramos também as amizades que foram lá para nos assistir, nos parceiros de longa data e muitas histórias. 

 

A música proporciona isso, a conexão entre as pessoas. Cria laços, reforça antigas ligações. Sempre e cada vez mais.

 

A música cura, como sabiamente me disse o Tchê.

 

Está certo, está certo.

 

Até.

  

 

  

   

 

  

   

domingo, outubro 02, 2022

A Sopa

 Estive ausente por uns dias desse espaço que me é caro. As razões não importam, nem vou inventar desculpas. Ao menos dessa vez, não.

 

Tenho vivido.

 

Corrido sempre vai ser, como tem sido, a vida como uma sucessão de acontecimentos que vão ocorrendo de maneira frenética enquanto – algumas vezes atônitos – observamos o fluxo da vida passar por nós e nos levar. Somos, sim, muitas vezes arrastados pela onda quando deveríamos na verdade estar surfando.

 

Há muito tempo, num passado realmente já distante, senti-me em um momento de quase lucidez absoluta, em um momento “matrix”, de conseguir enxergar a realidade por trás das aparências, de entender o mundo. Passou, como tudo passa, ou não me preocupei em tentar entender o mundo, e decidido apenas a viver. 

 

Sei lá.

 

À época, eu era alguém cheio de ideias/projetos que eram paralelos a ser médico, enquanto – confesso – minha “carreira” médica meio que “patinava” entre plantões e poucos pacientes no consultório. Quase como planos de fuga, esses projetos, essas ideias alternativas, serviam como válvula de escape para uma realidade que não era exatamente como eu queria, podemos dizer. Se, por um lado, tinha esse poder “terapêutico” de me alienar de uma realidade que era naquele momento, e por razões que não importam, não como eu gostaria, por outro acabavam me impedindo, em tese, de me dedicar, focar, inteiramente à carreira médica.

 

E então houve o momento da virada.

 

Isso aconteceu há mais de vinte anos, ainda antes de completar trinta anos de idade. Foi quando eu decidi que era hora de parar de “palhaçada” e realmente me dedicar ao meu trabalho, à profissão que eu havia escolhido. Por um tempo, eu deveria me “atirar de cabeça” na medicina, talvez como nunca antes, e esperar pelo resultado do esforço. Se não houvesse frutos, bom, partiria para os planos B, C ou qualquer outra letra que surgisse. 

 

E assim foi.   

 

E, no final das contas, deu certo.

 

Fiz o Doutorado, o Pós-doutorado no Canadá, retornei. Profissionalmente, as coisas andaram bem, procurando sempre progredir tentando me comparar apenas comigo, ser melhor do que eu era e não me comparar com ninguém mais, afinal cada um tem sua trajetória singular, única. O que – confesso – nem sempre é fácil.

 

Muitas voltas deu o mundo desde então, inúmeras mudanças ocorreram, pessoas chegaram e pessoas se foram, literal e figuradamente, mudamos, mudei. Cheguei aos cinquenta anos (assunto recorrente por aqui, pelo simbolismo da data e suas reflexões) e – realmente de repente – senti a necessidade / inspiração de repensar o mundo, e de desengavetar antigas ideias e projetos e revisitá-los, dessa vez não como forma de fuga da realidade, mas como complemento, ou adição ao que já faço.

 

O que está sendo muito legal.

 

Até.

domingo, junho 19, 2022

A Sopa

Tenho um primo que é dez anos mais velho que eu.

 

Está fazendo, portanto, sessenta anos em dois mil e vinte e dois. Sessenta. Anos. Meu primo. Que coisa, pensei quando me dei conta disso. É vida, foi o meu segundo pensamento.

 

Não somos próximos, e não há uma razão especial para isso, mas nas raras vezes em que nos encontramos é bem legal. Porém, esse lado da família nunca foi tão próximo assim, por razões que nem sei, e não importam. O que não diminui o afeto. Foram (fomos) natural e lentamente se afastando. Simples assim, acontece. 

 

Mas não era disso que eu queria falar.

 

O momento seguinte à percepção de que meu primo está completando sessenta anos foi de reflexão. Em dez anos, serei eu a completar sessenta anos (ele estará com setenta!). Dez anos, tanto tempo e ao mesmo tempo tão pouco. Onde eu estava e quem eu era há dez anos? Onde estarei e quem serei em dez anos? Aliás, eu estarei ou serei em dez anos?

 

Pensamentos reflexivos de um domingo de quase inverno e temperatura baixa, daquele já falado sol que ilumina, mas pouco aquece. E já estamos chegando ao meio do ano de dois mil e vinte e dois, e a sensação de que o tempo tem passado mais rápido continua, ainda mais por esses dias, em que estamos todos tentando recuperar os encontros e afetos que estiveram afastados durante a fase ruim da pandemia e antes das vacinas.

 

Um dia de cada vez, sem pensar muito no que virá, procurando viver o mais intensamente possível (e esse é um conceito individual) o momento presente, o agora, porque não sabemos como será lá na frente. Sei com quem quero estar, o que já é bem importante, e o resto da história vamos escrevendo à medida em que caminhamos. E temos uma longa jornada pela frente.

 

Tem sido assim.

 

E vai continuar.

 

Até. 

domingo, maio 01, 2022

A Sopa

 Domingo.

Esse final de semana tive de ir ao hospital para ver um paciente que está internado, uma tarefa que não é comum para mim, afinal não costumo ter pacientes internados frequentemente, o que pode mudar a qualquer momento, nunca se sabe. Mas não era disso que queria falar. 

Dia nublado, alguma chuva ainda acontecendo eventualmente, previsão de mais chuva ao longo do dia. O movimento nas ruas é muito baixo, principalmente de carros. E então ocorre um fenômeno estranho: a pessoas respeitam ainda menos as regras de trânsito. Parece que o domingo dá liberdade de não parar no sinal fechado, ou fazer conversões proibidas.

 

E lembro de quando meu pai dizia para ter cuidado – ao dirigir aos domingos – com os “domingueiros”, aqueles que tiravam apenas o carro da garagem aos domingos para passear, e não tinham muita habilidade para dirigir. Tínhamos que ter, nesses dias, o dobro da atenção para evitar acidentes. Não sei se os chamados “domingueiros” ainda existem, mas certamente temos que ter MUITO mais atenção ao dirigir aos domingos (à noite também) porque as ruas parecem “terra sem lei”.

 

O que – de certa forma – é verdade.

 

Como é um dia que normalmente não tem fiscalização de trânsito, as pessoas aproveitam para não respeitar as suas regras. É o “já que não tem ninguém olhando...”. 

 

Pois é...

 

É de Oscar Wilde, até onde consegui apurar (Google, Google) a afirmação que diz que “Ética o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém está olhando chamamos de Caráter”. Diz muito de uma sociedade o fato de as pessoas não respeitarem as regras de convivência quando não há fiscalização por perto.


É estarmos condenados ao subdesenvolvimento.

 

Até.

domingo, abril 10, 2022

A Sopa

Sobre a idade. 

 

Conversávamos, essa semana, alguns colegas de hospital, num momento de pausa para um café na Associação dos Médicos do Hospital São Lucas da PUCRS, sobre as gerações. Mais especificamente sobre como, atualmente, existe uma certa fluidez e trânsito entre as gerações.

 

Dito de forma mais clara, antigamente – quando fomos estudantes de medicina – a diferença entra as gerações, professores e alunos, por exemplo, era mais clara, definida. Os professores eram MUITO mais velhos que nós, ou pareciam ser, e se portavam e se vestiam de maneira diversa aos alunos. Mesmo que a diferença de idade não fosse tão grande assim, havia essa diferença que era bem estabelecida.

 

Hoje, isso mudou, e sou exemplo disso.

 

Aos cinquenta anos recém completos, vivo esse novo momento de fluidez geracional. Sim, sou bem mais velho que alunos e residentes com quem convivo, mas não me sinto tão diferente assim. Já pensei que o problema pudesse ser eu, mas em conversas com colegas percebi que esse fenômeno é bem mais amplo, para um certo alívio meu. Sempre tive a preocupação de não dar a impressão de estar querendo parecer mais novo do que realmente eu era.

 

 O que, para ser bem honesto, é uma bobagem.

 

Lembro, contudo, de um livro que li nos anos 80 chamado a Síndrome de Peter Pan, que deu origem à síndrome de mesmo nome, que se caracterizava por comportamentos infantis e inseguros que impediriam o homem de amadurecer normalmente. Sendo assim, acabaria falhando em diversos assuntos da vida adulta. Seriam como o personagem da história, que não queria crescer nunca.

 

Nada a ver comigo mesmo. Ao contrário, aliás.

 

Lido/lidei bem com o me tornar adulto, casado e pai de família. É um papel com o qual me adaptei bem, modestamente falando... Já são quase vinte e seis anos de casamento, e tudo vai bem. A vida vai bem, na medida do possível.

 

O chegar aos cinquenta anos foi simbólico, e ainda comemoro e comemorarei mais ao longo do ano, muito mais porque gosto de festejar do que qualquer outra coisa. Por outro lado, me fez refletir sobre vários assuntos, sobre a vida. Sobre limites, sobre relações, sobre pessoas. E planos.

 

Projetos.

 

Tenho vários. A vida ainda parece um livro em branco a ser escrito. A estrada ainda está para ser percorrida. Isso pode ser o que me faz sentir ainda jovem. O futuro não está traçado, vai sendo escrito à medida que andamos e as portas vão se abrindo (ou nós as abrimos). Pode ser que antes as pessoas (ou a maioria delas) aos cinquenta anos já tivesse o seu caminho traçado, não sei. Mesmo que minha cervical não tenha a mesma opinião que eu, ainda me sinto bem jovem e disposto...

 

O que não é nada mal...

 

Até.

 

 

quarta-feira, janeiro 19, 2022

Sobre a liberdade

Liberdade. 

 

Sou um defensor ferrenho e intransigente da liberdade individual.

 

Acredito que cada um de nós tem o direito de viver da forma que achar mais adequada. Que tem o direito de decidir o que fazer e com quem fazer o que bem entender de sua vida. E ninguém tem nada com isso. A forma que vives tua vida só diz respeito a ti, e ninguém mais.

 

Por isso que – insisto – a sexualidade, religião, partido político, time de futebol, são questões pessoais e individuais, e não deveria ser passível de discussão se sou isso ou aquilo. Simples assim.

 

E isso vale para a questão da vacinação ou não.

 

Sim, é um direito individual inalienável de cada um a decisão de se vacinar ou não, e – em tese - ninguém pode obrigar a isso. Porém...

 

Liberdade implica em responsabilidade, com arcar com as consequências dos seus atos. É aquele clichê de que a “liberdade de um termina onde começa a liberdade do outro”. Em outras palavras, se coloca em risco outras pessoas, não está legal. Para evitar isso, o colocar em risco as pessoas, existem regras de convivência estabelecidas e que disciplinam a vida em sociedade.

 

Estou falando, podem imaginar, da falsa polêmica criada em torno da participação ou não, da entrada no país ou não, do tenista Novak Djokovic, que foi impedido de jogar o Austrália Open e deportado da Austrália. Digo falsa polêmica porque não existe polêmica, e qualquer tentativa de criar uma é desonestidade intelectual.

 

Sim, ele tem o direito de não se vacinar (por mais estúpido que possa parecer, e é). Mas ele deve arcar com as consequências de sua decisão. Uma delas é que ele não pode entrar na Austrália sem estar vacinado (ou ter uma razão médica para não estar). E, consequentemente, não pode jogar o torneio. Assim como – a princípio – não poderá jogar o Roland Garros, na França, pela mesma razão. É a regra, e que deve ser respeitada.

 

E não adianta chiar.

 

Para entrar nos Estados Unidos, preciso tirar visto. Ponto, é a regra. É a mesma situação. Se tiver que ser vacinado para o COVID para entrar em qualquer país, se eu quiser entrar terei que me vacinar. Simples assim.   

 

Não é um assunto passível de discussão.

 

Até. 

quinta-feira, janeiro 06, 2022

Sobre o dizer e o escrever

Registrar pensamentos.

 

Tenho que começar a anotar, ou gravar, as ideias que tenho para textos e crônicas para cá. Durante o dia, por aí, envolto em atividades diversas, muitas vezes tenho insights, eventualmente epifanias, que penso que serão perfeitas para uma Sopa de domingo, mas depois acabo esquecendo, não conseguindo lembrá-las quando sento para escrever.

 

Acontece direto.

 

Aconteceu hoje.

 

Caminhava no longo corredor do Centro Clínico da PUCRS, indo ou voltando do hospital, passando também pelo túnel que liga um com o outro, o Centro Clínico e o Hospital São Lucas, que chamamos (chamo) de túnel de extremos meteorológicos (é congelante do inverno e senegalês no verão), quando tive um pensamento que concluí na hora que merecia uma crônica sobre, que ia escrever sobre. Andei por metros empolgado com a ideia e a possibilidade de escrever sobre ela, de escrevê-la.

 

Esqueci, claro.

 

E não consigo lembrar.

 

Pode ter a ver com uma colega pneumologista que é parte agora da diretoria da Sociedade de Pneumologia, da qual continuo diretor, agora financeiro, já tenho passado por quase todos os cargos possíveis desde 2008 quando passei a fazer parte e que sou atualmente o diretor há mais tempo na diretoria, sem nunca esquecer que quando assumi a presidência eu era “a nova geração”. Mas eu falava dessa colega que disse que estava feliz em voltar a fazer parte do grupo e respondi que era muito bom tê-la de volta, e pensei que gosto realmente de pessoas, dos amigos, claro, de conviver com eles, de conversar, de contar histórias, de celebrar.

 

Talvez fosse isso que eu quisesse escrever.

 

Confesso, envergonhado, que não lembro.

 

Não importa, no final das contas, pois dizer o que eu acabo de dizer é o que eu precisava dizer. 

 

Até.   

segunda-feira, janeiro 03, 2022

Consistência

Começou o ano de trabalho.

 

Devagar, confesso, mas janeiro será assim até as férias do início de fevereiro. Lembro que, tradicionalmente, os meses de verão são (para mim, para mim) mais tranquilos, leves. Pode ser pelo caráter sazonal da minha especialidade, fato esse que foi pervertido no último verão pela pandemia.

 

De qualquer forma, a sensação de início lento é boa porque permite que possa por em curso algumas das metas a que me propus para  ano que recém iniciou. Porque – sim – eu proveito o ritual da virada de ano para  um tipo de recomeço, mesmo sabendo que a troca de ano é uma convenção social, que o primeiro de janeiro é igual ao trinta e um de dezembro.

 

E começo com o objetivo dos últimos anos: consistência.

 

É o que tenho buscado. Ser consistente naquilo que faço.

 

Atividade física, alimentação (mesmo que o último mês e meio tenha sido “meio selvagem”), sono, estudos, trabalho. É incluir as atividades a que me propus fazer entrarem na rotina diária. Como fiz com a atividade física.

 

Há alguns meses, quando chegava na academia um dia de manhã, no estacionamento onde deixo o carro, uma das donas perguntou como eu conseguia ir todos os dias, de segunda a sexta-feira, treinar. Disse que era simples, era só não pensar. Tornar aquilo algo mecânico, automático, parte do dia, como escovar os dentes ou tomar banho.

 

Demorei muito tempo para conseguir fazer isso com a atividade física (sei que não é fácil e nem simples). Foi difícil encontrar a academia ideal para mim, que certamente é diferente de outras pessoas. Depois disso, foi só não pensar: acordar, me arrumar e ir. De segunda a sexta. E, nos finais de semana, a bicicleta (bike, para os modernos). Acordo normalmente antes da sete horas, tomo café, me arrumo e saio. Sozinho, com fone de ouvido tocando podcasts, ou com parceria, que torna o pedal mais leve.


O fato de que consigo ser consistente e disciplinado com a atividade física mostra que posso ser também em outros aspectos da vida, o que é mais um grande benefício do processo.

 

Melhora a autoestima e dificulta que a síndrome do impostor apareça com frequência maior...

 

Até.   

terça-feira, novembro 30, 2021

De vez em quando

O que teria sido.

 

Impossível não pensar – vez que outra – no que poderia ter sido caso tivesse feito isso ou aquilo, seguido esse ou aquele caminho, agido de maneira diferente em determinada situação. Onde estaria hoje e quem seria eu. 

 

Exercício inútil, mas - às vezes – enquanto dirijo de um lugar a outro da cidade ou mesmo da região metropolitana de Porto Alegre, mesmo sem querer, mesmo que por poucos instantes, me pego pensando nesses possíveis e fictícios cenários. Logo, contudo, volto ao meu foco, que é o hoje, o aqui e o agora.

 

As decisões que tomei, mesmo aquelas tomadas por impulso, ou por intuição, se é que isso existe, me trouxeram – como eu já disso outra vez – até aqui e me fizeram quem eu sou. Não faria diferente, não tomaria caminhos diversos dos que tomei, porque confesso que não gostaria de não estar e não ser que eu sou ou onde estou.

 

Pequenos aperfeiçoamentos, faria, claro, mas sempre com o cuidado de garantir que eu continuaria sendo eu como sou, mas – quem sabe – só um pouco melhor.

 

Modestamente, claro.


Até. 

domingo, outubro 03, 2021

A Sopa

Domingo, 6h55.

 

Abro os olhos e escuto um gato miar atrás de uma porta ao final do corredor, exatamente para onde haviam sido expulsos os gatos algum tempo antes por estarem fazendo barulho perto de onde dormíamos. Confiro a hora. Antes de qualquer outro pensamento, escuto um trovão seguido pelo barulho da chuva que começa a cair e bater nos vidros das janelas.

 

Não vou pedalar, é meu próximo pensamento.

 

O que tornará meu início de manhã de domingo diferente, pois há dois anos e meio que minhas manhãs de sábados e domingos – quando não chove, claro – são dedicadas, em seu período inicial, ou seja, até cerca de dez horas, a praticar atividade física, a pedalar. Começou como meus únicos momentos de prática de exercício na semana para se tornarem o fechamento da semana, após a rotina diária na academia, de segunda a sexta-feira.

 

Dizia eu, então, que a chuva atrapalhou meus planos.

 

Como há muito não fazia, tomei café lendo o jornal de ontem com as notícias de anteontem, com mais tempo que o habitual, e fiz chimarrão antes de me sentar em frente ao computador para escrever essa Sopa semanal. Também como há muito não fazia (escrever no domingo de manhã).

 

Rotinas que mudaram e continuam mudando ao longo do tempo, assim como pessoas que vem e vão, entram e saem de nossas vidas, por diferentes razões. Não podemos ficar presos ao que passou, mensagem importante que tento não esquecer, mas nem sempre é fácil para mim, confesso. Tanto para o lado bom como para o lado ruim.

 

Não deveríamos querer ficar vivendo de ou recriando situações e relações que já não existem, de novo, para o bem e para o mal. Um momento de felicidade que passou será substituído (talvez esse não seja o melhor termo) por outro que virá, e a experiência ruim passou, aprendemos com ela e seguimos em frente (provavelmente cometendo novos erros). Ficar remoendo experiências ruins em nossa mente não ajuda em absolutamente nada (fácil falar, eu que o diga). Mas a vida segue seu curso implacável, independente de nossas vontades. A onda vem, queiramos ou não, então é melhor estar preparado.

 

Aceitar que as coisas mudam com serenidade é uma arte a ser aprendida, com maior ou menor dor. E volto ao velho papo de que existem situações que dependem de nós, essas são as que merecem toda nossa dedicação, e as que não dependem de nós, que não adianta toda nossa preocupação e angústia, vão acontecer independente de nossa vontade. Saber diferenciar umas das outras vale ouro, ou podemos dizer que é uma benção.

 

É a paz que procuramos.

 

Por enquanto, fico aqui com meu chimarrão de domingo de manhã enquanto observo a chuva que não me deixou pedalar.

 

Até.

 

domingo, setembro 12, 2021

A Sopa

 “Eu sou o cara que vai morrer.

 

De um tempo para cá, e não consigo precisar exatamente quando, surgiu em mim a ideia fixa de que – como dito na afirmação anterior – sou o cara que vai morrer. Eu sou assim, cultivo esse meu lado paranoico com certo carinho, e - de tempos em tempos - descubro, ou crio, um pensamento no qual me fixo durante um período. Como a “Inevitável Grande Tragédia”, que nesse momento não vem ao caso. Mas eu falava que sou o candidato a morrer.

 

Explico, explico.

 

Funciona mais ou menos assim, de maneira simplificada: sou sedentário, tenho sobrepeso, estou na meia-idade, trabalhando enlouquecidamente e estressado. Logo, sou o candidato perfeito para um infarto do miocárdio. Verdade pura e cristalina, lógica. Quase, praticamente, inevitável. Poderia dizer que estou numa via de mão única e sem retorno para a doença.

 

Poderia, mas não vou dizer.

 

E não vou fazê-lo porque as coisas não são exatamente assim. 

 

Sim, é verdade que sou sedentário, com sobrepeso, meia-idade, e tal, mas ainda tenho (ao menos a ilusão do) controle sobre minha vida, e posso mudar aquilo que deve ser mudado, que não está bom. A maior conquista dos últimos anos foi esta: controle (ou a tentativa) sobre o que é realmente importante, aquilo que depende da minha vontade/esforço. Com relação àquilo que não controlo, que realmente não tenho domínio sobre, procuro (tento) não me preocupar, me estressar cada vez menos.

 

Difícil, nem sempre consigo, mas vale a tentativa.

 

O que posso mudar, ajustar, estou fazendo aos poucos, como se aparando arestas que precisam ser aparadas. Sintonia fina. Abandonando alguns pesos que carrego/carregava sem necessidade. Cortando amarras que me prendiam e me seguravam.

 

Tudo tem sido cansativo, confesso. A rotina, os projetos, as obrigações profissionais, os desafios que vem por aí. O ano se encaminha para o seu último trimestre e remo já com alguma dificuldade. Os próximos três meses e meio passarão voando e serão intensos. Depois, vou parar – de férias – e descansar mesmo. Quando voltar ao trabalho, em janeiro, já terei eliminado alguns dos fatores de risco que hoje convivem comigo. Dois mil e doze será especial, estou certo.

 

E já penso como comemorar os meus quarenta anos.”

 

Um texto de dez anos atrás, para (minha) reflexão. Muita coisa mudou nesse período, e a caminhada tem sido boa. Penso o mesmo de dois mil e vinte e dois.

 

Até.