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quarta-feira, janeiro 26, 2022

Em 2022??

 Ainda a pandemia. 

Os últimos dias, de aumento de casos de COVID decorrentes da variante do momento, a Ômicron, tem – evidentemente – levando a um proporcional aumento da procura por consultas médicas, boa parte online. Muitos casos, invariavelmente leves sabemos que por causa da vacina. Os únicos casos graves de verdade são de pacientes que inexplicavelmente não se vacinaram.

 E esses evoluem como se ainda estivéssemos em 2021, com insuficiência respiratória, ventilação mecânica, etc. E a distinção tem sido bem clara: em sua esmagadora maioria, os vacinados tem casos leves. Um exemplo ocorreu aqui em casa. A Marina teve COVID pela segunda vez há poucos dias. Obstrução nasal, garganta “arranhando”, e só. Sem febre. Decidimos testar, porque – atualmente – quem tem sintomas respiratórios, de vias aéreas superiores, deve se testar, e ela estava positiva.

Isolamento, e só.

 

Ao completar 5 dias de início dos sintomas, como estava totalmente assintomática, testamos novamente: negativo. Pode sair do isolamento, mas manteve os cuidados (máscara quando na presença de outras pessoas, por exemplo) até completar 10 dias. Essa evolução benigna foi possível pela proteção oferecida pela vacina, sem dúvidas.

 

Corta para ontem.

 

Uma paciente antiga (e quase amiga) perguntou se eu poderia – depois de eu ter saído do consultório – atender a sobrinha dela, que estava com COVID e consultara com uma médica, mas que não confiara e queria ser atendida por outro médico, e me indicara. Claro que eu poderia atendê-la. Assim que cheguei em casa, fiz a consulta on-line.

 

Um caso leve, poucos sintomas, apenas esclareci dúvidas e orientei tratamento sintomático. Durante a consulta, ela me contou que a colega médica pneumologista que a havia atendido havia conversado pouco e rapidamente prescrito o chamado “Kit-Covid”, com hidroxicloroquina e ivermectina, além de zinco e vitamina D. A paciente diz ter ficado horrorizada e que não tomaria, por isso quis uma segunda opinião (que acabou sendo a minha, no caso). Disse a ela que – se estivéssemos em maio de 2020 – eu até entenderia a prescrição, pois ainda estávamos aprendendo, mas não agora, em janeiro de 2022. Mas isso não foi o pior que me aconteceu ontem.

 

Pela manhã, atendendo no consultório, uma paciente me revelou – enquanto conversávamos sobre as vacinas, e eu dizia sinceramente não entender quem não se vacina - que uma pneumologista, colega conhecida e que frequenta algumas das mesmas reuniões científicas que eu, e que a havia atendido anteriormente, não se vacinara (!) e dizia que não iria se vacinar porque “essas vacinas foram feitas muito rapidamente” (!). Fiquei sem saber o que dizer. Apenas sorri, dei de ombros, e segui a consulta, como se não tivesse ouvido tamanha bobagem vinda de uma pessoa que supostamente deveria estar ajudando as pessoas.

 

Não falei nada porque não tenho mais paciência com essa gente.

 

Até.

quarta-feira, janeiro 05, 2022

Crônicas de uma Pandemia, a Volta

Pois é.

 

Não, as Crônicas de uma Pandemia não estão de volta, assim como a pandemia não está de volta porque não havia terminado. E, sim, vou falar um pouco da COVID-19, mesmo que eu não mais quisesse fazê-lo.

 

Falando aqui de perto do meu umbigo, estamos vendo que os casos de Síndrome Respiratória Aguda aumentaram muito na última semana e pouco, fruto da variante ômicron e da cepa H3N2 do vírus influenza, somados aos festejos de final de ano. A boa notícia é que estão cancelando as festividades de carnaval, que só ocorreriam no início de março, mas é o mais prudente a fazer.

 

Dizia eu que os casos aumentaram (até a Marina, tendo tido COVID e vacinada com duas doses, teve sintomas na semana do Natal, mas os testes para COVID e influenza foram negativos) o que evidentemente motivou a maior necessidade de nos cuidarmos, distanciamento, evitar aglomerações em locais fechados, máscaras, aquilo tudo o que temos falado ao longo do tempo. A quem não vacinou, que se vacine.

 

Sobre isso, criou-se no Brasil uma polêmica estéril sobre a vacinação das crianças de 5-11 anos. O governo central, esse poço de estupidez e ignorância, vem jogando contra a vacinação das crianças desde o início, o que – sim – já é motivo de chamá-los de criminosos, mas não é essa minha função. De um governo negacionista, espera-se tudo.

 

O que me espanta e frustra e decepciona e irrita é ver colegas médicos, a quem tenho grande respeito, entrando na onde de questionar a validade de vacinar ou não esse grupo etário. É mais ou menos a mesma sensação que tive – após dizer que eu havia sido voluntário do estudo da Coronavac – ao ouvir que ‘eu não faria essa vacina, vou feita muito rápido...’. E isso em 2020! Se fosse em 1950, eu entenderia e até apoiaria...

 

Agora ocorre o mesmo com a vacina infantil.

 

A vacina da Pfizer para crianças está aprovada para uso nesta faixa etária nos Estados Unidos (FDA), na União Europeia (EMA) e também no Brasil. Os estudos com crianças foram avaliados, e mais de 3 milhões de crianças já receberam ao menos uma dose nos Estados Unidos, com pouquíssimos eventos adversos, todos leves. E nem falo dos riscos da COVID em crianças que, sim, são menores que em adultos, mas não são inexistentes. Na balança do risco x benefício, que é o que fazemos todos os dias em medicina, sempre pró-vacina.

 

Se colegas competentes estão em dúvida quanto ao assunto, quando – em minha opinião pessoal, sabendo que não sou dono da verdade – não deveria haver nenhuma, só podemos concluir uma coisa...

 

Os anti-vaxxers, se não estão ganhando a guerra, estão fazendo muito estrago. 

 

Até. 

domingo, novembro 28, 2021

A Sopa

A pandemia não acabou, eu sei. 


Por outro lado, a redução dos casos, das internações e das mortes agora vistas aqui no Sul do Mundo, quando o verão se aproxima, conscientemente ignorando o recrudescimento da mesma que ocorre na Europa (além da incerteza com relação à nova variante), e contando com a vacinação maciça das pessoas por aqui, tudo isso faz prever um verão mais leve, e mais social. Ninguém aguenta mais viver afastado das pessoas.

 

Apesar de não podermos baixar totalmente a guarda ainda, com relação ao uso de máscaras – principalmente em locais fechados – e às aglomerações (fujamos delas), já podemos retomar em parte nossas vidas sociais. E temos (tenho) feito.

 

Reencontrar pessoas que há muito não encontramos tem sido momentos de extrema felicidade. E essas semanas que antecedem o final do ano, que normalmente são de reuniões sociais, têm sido mais ocupadas que o habitual. Churrascos – muitos e com diferentes grupos de amigos – e outras celebrações têm mantido a agenda cheia e as manhãs mais difíceis de sair da cama...

 

A semana que termina hoje foi de reencontro e despedida, no mesmo evento. O nosso grupo de churrasco, que começou para assistirmos as finais da Libertadores da América de futebol, lá por 2013, e que não se reunia desde o início da pandemia, fez o churrasco de despedida de um dos participantes que vai se mudar para os Estados Unidos por – ao menos – um ano. A parrilla trabalhou muito, e foi uma noite regada a vinhos bons e muitas risadas.   

 

E tem outros marcados com outros amigos, e mais aqueles que nem conseguimos marcar ainda, os encontros familiares, e até um campeonato de futebol com churrasco. Com cuidados e vacinados, retomamos a vida. Tudo volta, todos voltaremos. O inverno do coronavírus foi mais longo que desejávamos, mas a primavera vem chegando (devemos cuidar para não haver uma recaída).

 

Lembrei disso no almoço de quinta-feira quando – pela primeira vez desde o início de março do ano passado – o grupo esteve praticamente completo, e de novo contamos histórias e rimos, como fazíamos antes de tudo começar. 

 

A vida em grupo é muito mais leve, definitivamente.

 

Até.

 

domingo, junho 20, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Nonagésimo Quinto Dia)

 

Sobre as comparações.

 

Se existe, na vida, uma certeza qualquer além da morte, é que sempre haverá alguém melhor e alguém pior que a gente. Simples assim, e é a forma que lidamos com isso que vai determinar muito de como vamos encarar a vida.

 

Como em tudo, há várias interpretações para isso.

 

Podemos focar naqueles que estão acima de nós, em termos financeiros, profissionais, de fama ou sucesso. O colega, o conhecido ou o amigo com maior salário, melhor carro ou casa, mais bens materiais, maior status social, vida aparentemente perfeita. A comparação pode servir de estímulo para que sigamos em busca de mais, de crescer, de obter mais. Aí, tudo bem. Mas pode ser que – ao olhar a grama aparentemente mais verde do vizinho – nos torne rancorosos, amargos, com a sensação de sermos injustiçados, a velha história do “por que não eu?”.

 

É uma forma de ver ruim, claro, e que faz mal a quem sente isso. A inveja é uma merda, diz o ditado popular. A energia negativa nos empurra para baixo. Nos torna, como já falei, amargos e negativos.

 

Porque ao mesmo tempo em sabemos que existem muitos que estão em “melhor” (e coloco entre aspas porque o conceito de melhor é bem individual, depende de cada um e suas prioridades) situação que nós, existem muitos, mas muitos mesmo, que estão em situação mais difícil que nós. Independente do que estamos analisando, saúde, dinheiro, ou qualquer outro critério, sempre haverá alguém cujos problemas são maiores que os nossos. Só isso já deveria ser motivo para iniciarmos todos os dias com energia renovada por termos o que temos, por estarmos vivos e em condições de seguir em frente.

 

Sob certa forma, é o que tenho tentado fazer nos últimos tempos, e que se acentuou durante a pandemia: se há um problema que inicialmente parece muito grande, procuro lembrar que poderia ser bem pior, ou não ter solução, e que esses – os sem solução – são raros na vida. Respiro fundo, olho em volta, e tento seguir em frente, porque – no fundo – não são tão horríveis assim.

 

É uma forma, também, de lidar com a ansiedade.

 

Saber que existem situações que não dependem de mim, que vão acontecer independente da minha vontade e que não serão alteradas quaisquer que sejam meus esforços, dá uma certa tranquilidade e a possibilidade de focar naquelas situações e problemas que – sim – dependem de mim. Aprender a diferenciá-las, isso sim, um trabalho diário.

 

Outra forma de lidar com a vida e as comparações é – e isso é ainda mais difícil – procurar não comparar. Somos todos diferentes, começamos de locais diferentes e temos necessidades e objetivos diferentes. Lembrar que o que é importante para mim provavelmente não é o mesmo que é importante para outros facilita esse exercício. Todos temos dificuldades, problemas e desafios na vida. Assim como, por mais parecidos que sejam, os caminhos que percorremos são diferentes. Comparar diferentes é injusto, conosco e com os outros.

 

Lembrar disso todos os dias é mais um desafio.

 

Até

terça-feira, junho 15, 2021

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Nonagésimo Dia)

 

Mais uma Sopa no meio da semana.

 

Sobre o passado.

 

Eu não vivo no passado, quero deixar isso bem claro. Alguém que me conheceu antes poderá até dizer que já vivi – por um período, quem sabe – de lembranças, ou de querer reviver um passado que não volta mais. 

 

Não vou brigar por isso.

 

Se já aconteceu outrora, certamente não mais acontece. Sei bem o lugar do passado, sei bem que a história anda para frente, e que nada do que foi será do jeito que já foi um dia, que tudo passa e tudo sempre passará. E que a vida vem em ondas, como um mar, neste indo e vindo infinito, como cantou Lulu Santos.

 

Tudo o que temos é o agora, o presente.

 

O que passou não existe mais, e o que virá é apenas uma expectativa, um talvez. Viver no presente, no agora, esse o grande desafio. Alguém disse, ou escreveu, que ansiedade é excesso de futuro. Não sei se é bem assim, mas faz um certo sentido. Passado e futuro são criações da nossa mente, nada aconteceu exatamente como “lembramos”, e a memória é uma versão – muitas vezes – romantizada do que aconteceu. O futuro, por outro lado, não será como imaginamos hoje, porque seremos diferentes lá na frente.

 

Em resumo, o que importa é viver dia de hoje, todos sabemos.

 

O que não quer dizer que o que passou não tem importância. Foi o que nos moldou, foi o que nos tornou o que somos hoje. E, muito mais importante, quero falar das pessoas que nos tornaram quem e como somos hoje. 

 

Tenho um profundo respeito pelas pessoas do meu passado. Foram elas que – em grande parte – influenciaram quem me tornei hoje. Reencontrá-las sempre é uma experiência potencialmente enriquecedora. Saber como e onde estão, que caminhos seguiram, com quem tem andado pela vida, descobrir se ainda existem as conexões que nos uniram no passado, todas são possibilidades que me encantam. Não é querer reviver o que passou.

 

É a possiblidade de caminhar juntos mais uma vez.

 

Ou não.

 

Até.

domingo, junho 06, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Octagésimo Terceiro Dia)

 

Domingo.

 

Choveu ontem à noite, agora o tempo é nublado, mas em breve a chuva retornará. Hoje decidi não pedalar. O dia será de descanso muscular, sem nenhuma atividade física, o que – confesso – causa uma certa angústia.

 

Desde que coloquei de verdade e novamente a atividade física como uma das minhas prioridades de vida, tenho aumentado sua frequência e intensidade progressivamente. Voluntariamente, claro, porque gosto e por sentir necessidade. Faz bem para mim.

 

Começou com pedalar – no mínimo - duas vezes por semana, o que era bom, mas dependia da meteorologia, o que muitas vezes me limitava, aqui no Sul do Mundo. Cerca de seis meses de procura, após começar a pedalar, encontrei uma academia que fechou com o meu estilo, onde as pessoas te conhecem pelo nome e o atendimento é normalmente quase como se fosse personal

 

Comecei indo três vezes na semana, e pedalando – quando possível – sábado e domingo. Ao longo do tempo, aumentei para quatro vezes (folgava às sextas-feiras). Veio a pandemia, as academias fecharam, e disciplinadamente fiz exercícios em casa por um longo período, até que elas reabrissem. Como era com horário marcado, recebi a dica de marcar todos os dias – segunda à sexta – e, caso não pudesse ir, poderia desmarcar. Acabei indo cinco vezes por semana, além dos finais de semana de pedal, com as distâncias aumentando com o treinamento e a bicicleta nova (que já tem um ano e meio).

 

Sete dias por semana de atividade física, sem estresse, sem ser uma obrigação, sem ser um peso, sem comparações com ninguém. Apenas tentando me superar. 

 

Esse o maior desafio: me superar a cada dia, semana, e a cada mês.

 

Tenho conseguido, e tornou-se tão natural que sinto falta quando não faço. Como hoje, com o tempo instável, e ameaça de chuva a qualquer momento. Como disse, será um dia de descanso muscular. E sei que essa Sopa é uma forma de justificar (racionalizar) esse dia de folga... Não precisava justificar, eu sei...

 

Amanhã, contudo, antes da sete da manhã, frio ou calor, com ou sem chuva, estarei de volta me exercitando. Porque é bom.

 

Eu gosto e é parte de quem sou.

 

Até.

terça-feira, junho 01, 2021

A Sopa (no meio da semana?!)

(Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Septuagésimo Oitavo Dia)

 

Domingo que passou, não teve Sopa.

 

Não tem acontecido, isso de falhar um final de semana com a Sopa, mas não é uma novidade. Por mais que eu tenha me proposto e conseguido até aqui escrever e publicar um texto novo todas as semanas, sabia que nem sempre eu iria conseguir. Porque, às vezes, a vida se impõe.

 

Como aconteceu no final de semana.

 

Não consegui. Na verdade, nem tentei escrever. Curti o final de semana com a família, como devem ser e tem sido os finais de semana, ainda mais intensamente durante a pandemia. A ausência das viagens de trabalho, de reuniões e congressos, a “estada forçada” em casa, decorrentes do isolamento e distanciamento sociais, proporcionou uma muito bem recebida e desejada maior convivência do núcleo familiar, aqui em casa a Marina, a Jacque e eu, apesar de lamentar a falta que a família (além da casa) faz.

 

Ficamos em casa, começamos a preparar o quarto da Marina para a reforma que vamos fazer nas próximas semanas, e no domingo à tarde ficamos assistindo um filme juntos. Tudo simples, aparentemente banal, mas muito importante.

 

Estar juntos, o que conta.

 

Que continuemos assim, mesmo quando acabar a pandemia.

 

Porque, sim, vai acabar, mais cedo ou mais tarde.

 

Enquanto isso, deixo um pensamento, uma ideia que ouvi por estes dias:

 

“Devemos ser prudentes, mas não ter medo”.

  

Até.

segunda-feira, maio 17, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Sexagésimo Terceiro Dia)

 

Foi um bom final de semana.

 

Por isso essa Sopa, que usualmente é dominical, está saindo quentinha (como o clima manda) apenas hoje, segunda-feira. Porque foi um fim de semana de noites com jeito de inverno e pudemos ficar em casa, e aproveitar juntos, a Marina, a Jacque e eu. 

 

A semana começara desafiadora.

 

Em pleno início de noite de segunda-feira, enquanto eu aguardava na fila do caixa no supermercado, logo atrás de uma aluna minha que passava suas compras do dia, imagino, e que no final da compra incluiu uma pacote de maços de cigarro, sem olhar para trás onde eu estava, talvez por vergonha, talvez porque eu não tenha nada a ver com o que ela faz ou não fora do ambiente acadêmico, no que tem total razão, enquanto eu aguardava a minha vez, tranquilo, ensimesmado pensando na vida, fui interrompido por um discurso forte que não ouvi bem até a senhora que estava atrás de mim, do alto dos seus aproximados mais de setenta ou menos, afirmou peremptoriamente:

 

“Eu não vou me vacinar”.

 

Discretamente, olhei em sua direção.

 

Usava a máscara com o nariz para fora, e concordava com o cidadão da fila ao lado, que discursava sobre a pandemia e dizia que se ficasse doente ficaria em casa, porque no hospital “vão te matar”, e que o presidente tinha razão. Pensei por um instante em responder a ela, ou a ele, dizer que estavam errados, mas de que ia adiantar?

 

Há situações na vida em que simplesmente não vale à pena se incomodar, e – nessas horas – o silencia é a melhor opção. Se depois de um ano as pessoas ainda pensam assim, bom, não vai ser um estranho numa fila do supermercado que vai convencê-las do contrário.

 

Uma semana depois, hoje pela manhã, atendi uma paciente antiga, que trabalha numa instituição que atende pessoas em risco social, na linha de frente, assistente social, que veio me pedir um atestado para fazer a vacina. Não tinha nenhuma situação médica que justificasse a sua inclusão no grupo prioritário, por mais que eu tenha certeza de que ela deveria ser vacinada o quanto antes. Por outro lado, não poderia eu atestar uma condição inexistente. Ela disse que entendia a situação, mas foi triste vê-la com os olhos cheios de lágrimas.

 

Mas eu falava do final de semana.

 

Foi quieto, calmo.

 

Sábado à noite cozinhei, a sopa que minha avó fazia, e cuja receita minha mãe me ensinou. Preparei enquanto ouvíamos música e conversávamos na cozinha. Depois, ficamos assistindo vídeos de música no You Tube, a Marina a Jacque e eu. Domingo, em casa novamente. Como se lá fora o mundo estivesse em silêncio, e nada pudesse nos perturbar.

 

Por mais domingos assim, mas sem pandemia.

 

Até.

domingo, maio 02, 2021

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Quadragésimo Oitavo Dia)

 

O isolamento.

 

O isolamento social, situação mais intensa – digamos assim – que o distanciamento, tem as mais variadas consequências em todos nós, queiramos ou não. E, como tudo na vida, existe o lado ruim e o lado bom.

 

Citei primeiro o ruim porque é o que primeiro nos vem à mente quando pensamos no último ano e quase dois meses de pandemia. Afastados de nossos familiares, amigos, sem as mesmas possibilidades de socialização de antes, sofremos porque somos seres sociais. Precisamos do convívio com outras pessoas, da troca de experiências, da conversa, do afeto. Se nós, adultos, já sentimos a ausência dos relacionamentos sociais, são as crianças as maiores prejudicadas com tudo isso.

 

A nossa formação como seres humanos não prescinde de socialização. Crescemos (intelectual e emocionalmente) no contato, na convivência. Por isso, também, que sou favorável ao retorno das aulas presenciais.

 

Mas não é essa discussão que quero fazer.

 

Quero falar de um ponto positivo desse período de pouco convívio social. Entre todas as dificuldades que enfrentamos, todas as privações decorrentes da pandemia, em meio a tudo isso, esse período pode servir também para uma reafirmação de nossa individualidade. O último ano nos privou dos grupos sociais e, com isso, também nos afastou de algumas ditas “pressões sociais”, que muitas vezes – mesmo que inconscientemente – são impostas a nós pelos grupos de convivência.

 

Os grupos servem, durante boa parte de nossas vidas, se não durante toda ela, como locais de reconhecimento, de pertencimento, onde nos vemos espelhados em outras pessoas e cujas normas – mesmo que não verbais – estabelecem padrões a serem seguidos para a aceitação por ele. Códigos de condutas. É assim e sempre foi assim. Para ser aceito no grupo, segue-se um padrão.

 

Isso é mais forte nos momentos de formação de nossa personalidade e identidade, início da vida social, e é muito forte na adolescência, por exemplo. São as turmas, ou tribos. Todos vestidos iguais, os – na minha época de escola – surfistas, os intelectuais, os darks, etc. O All Star preto que usávamos. Fazer parte de um todo para expressar individualidade.

 

Isso persiste durante a vida, com cobranças mais ou menos explícitas (“jeans aqui não!”). É normal, sempre foi assim.

 

E aí vem a pandemia.

 

Somos obrigados a ficar em casa (ou, no meu caso, de casa para o consultório) durante todo o ano, isolados e trabalhando em home office, não podendo encontrar as pessoas e, dessa forma, ficamos também longe das imposições de grupos sociais. Sob certo aspecto, ficamos(fiquei) mais independentes. Longe das pressões sociais, podemos ser mais nós mesmos.

 

Mais selvagens, menos robôs.

 

É um ponto de vista.

 

Até.

segunda-feira, abril 26, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Quadragésimo Segundo Dia)

 

Pois é.

 

Às vezes, e isso tem sido mais frequente nos últimos tempos, parece que só o que fazemos é nos queixar da vida. Como se nada estivesse bem, ou funcionando, o que não é verdade.

 

Mas, e sei que venho falando nisso mais do que gostaria, mesmo que tentemos fugir das notícias ruins, e não falo de negação, mas sim de uma forma de preservação, o mundo não nos deixa em paz. Não estou dizendo que quero viver num mundo cor-de-rosa, onde tudo é tranquilo e a vida vai bem, o sol é alto e a brisa que vem do mar não nos deixa ficar com muito calor, enquanto o som das ondas chegando na praia embalam o sono na rede após o almoço. De forma alguma.

 

Só continuo tentando fugir da energia negativa, o que é diferente de fugir da realidade, que fique bem claro. Há coisas que não preciso ver e pessoas as quais não devo ouvir ou ler. Por preservação, pela sanidade mental.

 

Há dois meses praticamente não acesso as redes sociais, Facebook e Twitter em especial. Vejo eventuais notificações que recebo, nada mais. Não fico ali por longos períodos acompanhando a timelime dos outros e o que fazem ou pensam, principalmente o que pensam. Não me diz respeito.

 

Pensei que seria mais difícil, confesso.

 

Já não lia comentários, apenas ampliei o quanto ignoro das mesmas.

 

Por princípio, quem perde tempo comentando publicações de redes sociais ou mesmo de portais de notícias de forma agressiva é um idiota ou um covarde, na maioria das vezes os dois. Não merecem que sejam lidos, muito menos receber destaque. O esquecimento é o que receberão, enquanto ficam falando sozinhos e gritando para ninguém ouvir.

 

Meu humor melhorará, tenho certeza disso.


Até.

domingo, abril 18, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Trigésimo Quarto Dia)

 

Domingo.

 

Espero o almoço chegar por tele entrega, pois resolvemos não cozinhar hoje e ainda auxiliamos os estabelecimentos locais que ainda sofrem muito pela pandemia e as restrições causadas por ela. Aliás, continuo com a convicção que a culpa do aumento dos casos não tem relação com o funcionamento do comércio ou de restaurantes. Esses, virtualmente todos, seguem rígidos protocolos de segurança.

 

Assim como me sinto mal ao ler/ouvir que a culpa é do “povo”.

 

O “povo”, como dizem, em sua maioria, está respeitando e seguindo as orientações das autoridades sanitárias. Claro que isso é “na medida do possível”. Nem todos podemos ficar em casa, em home office, apenas fazendo compras online. A pandemia, para muitos, e me incluo entre esses muitos, não existe em termos de poder ficar em casa e está tudo bem, estamos nos protegendo, fazendo a nossa parte. Temos que ir à luta atrás do nosso ganha pão, cada um no seu quadrado, com sua ocupação.

 

Mas dizia que não é legal culpar essa entidade, “o povo”, pela evolução da pandemia do Brasil. Como eu disse, a esmagadora maioria está fazendo tudo certo dentro de suas possibilidades.

 

O problema é que existem os idiotas.

 

Idiotas, estúpidos, sem noção. Que fazem festa de aniversário para cem pessoas em um lugar fechado em plena bandeira preta no RS. Assim como são imbecis os cem convidados que vão ao dito aniversário, como ocorrido aqui em Porto Alegre na semana passada. E isso não tem relação com classe social, afinal a estupidez não tem fronteiras e nem distinção de classe. É democrática.

 

Irrita a todos, os que podem ficar em casa se cuidando e os que são obrigados a sair de casa, mas que se cuidam e cuidam de outros. Mostra uma falta de sensibilidade e humanidade grandes. E mostra – não canso de dizer – estupidez, idiotia.

 

Estamos há mais de ano vivendo esse mundo diferente, estamos cansados, sentimos falta de encontros e abraços, e esses gestos de poucos atrapalham e tem o potencial de alongar essa espera pela vida que queremos de volta.

 

Até.

domingo, abril 11, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Vigésimo Sétimo Dia)

 

Essa semana que termina hoje ou terminou ontem, dependendo de como se considera o início de cada semana, na segunda-feira dia cinco de abril, para ser mais específico, completei quarenta e nove anos de idade. Foi o segundo aniversário que passei durante a pandemia de COVID-19. Ano passado me referi ao dia como “o aniversário do ano da peste”, acreditando que agora, 2021, já teríamos terminado com isso.

 

Na verdade, imaginei que os aniversários do final de 2020 seriam comemorados presencialmente, já livres da pandemia. Estava redonda e miseravelmente enganado. Assim como outras previsões que fiz com relação à duração da pandemia. Todas erradas.

 

Paciência.

 

Dizia eu, então, que fiz quarenta e nove anos essa semana que termina ou já terminou, o que obviamente quer dizer que entrei no quinquagésimo ano de vida, que completarei no nem tão próximo cinco de abril de dois mil e vinte dois. O que quer dizer isso?

 

Nada, além de que o tempo passa.

 

Para todos nós. 

 

Vamos, desta forma, acumulando estórias para contar. Experiências e memórias, que devem ser compartilhadas, vividas – em sua maioria – em grupo, em nossos grupos sociais, família, amigos, colegas de trabalho. Entre as crueldades da pandemia, a impossibilidade da vida social, de encontros, festas e reuniões, é uma das que mais afeta a todos nós.

 

E não é diminuir a gravidade da situação.

 

Devemos continuar – vacinados ou não, recuperados ou não – com todos os cuidados e precauções para minimizar os riscos. Distanciamento social, máscaras, lavagem de mãos, ambientes arejados, evitar aglomerações, todas essas medidas devem ser tomadas diuturnamente, enquanto a vacinação avança. Em algum momento num futuro não distante, tudo isso vai melhorar, tenho certeza.

 

Temos, acima e apesar de tudo, até em homenagem à memória dos mortos pela e durante a pandemia, de seguir em frente a vida. Por mais cruel que isso possa parecer para alguém (apesar de eu não achar essa afirmação cruel), a vida sempre segue seu curso inexorável, e – como diz a música – não temos tempo a perder. Com cuidado, claro, temos que viver.

 

O que me lembra outra música, ‘Sapatos em Copacabana’, do Vitor Ramil, e o significado que ela teve e ainda tem para mim, e que pode explicar em parte a minha relação com a passagem do tempo. 

 

“Sei que não tenho idade

Sei que não tenho nome

Só minha juventude

O que não é nada mal”

 

Ouço essa música desde quase o lançamento do disco ‘Tango’, em 1987. Esse disco, que ouvi aos 15 ou 16 anos, é um dos que marcaram minha vida, e de certa maneira definiram muito do que eu viria a ouvir e – porque não – pensar a partir daí. Tem músicas que são verdadeiros hinos (para mim, para mim) e que ainda hoje são parte da minha trilha sonora pessoal.

 

São apenas oito músicas nesse trabalho, e ‘Sapatos em Copacabana’ é a primeira do lado A, a abertura do disco, música forte, densa, com o refrão escrito logo acima, espécie de cartão de visitas do que sou, ou fui. Não precisava muito mais que minha juventude. O lado A termina com ‘Joquim’, versão da clássica Joey, do Bob Dylan, contando uma história de alguém que não se encaixava com o que “a sociedade” esperava dele, um outsider, e que sofreu as consequências do modo de viver libertário. Em meio às dificuldades impostas pelo “sistema”, um período especialmente difícil e que termina com:

 

“No final de longa crise depressiva

Ele raspou completamente a cabeça

E voltou à velha forma

Com a força triplicada

Por tudo, tudo o que passou

Louco, Joquim louco

O louco do chapéu azul

Todos falavam e todos sabiam

Que o cara não se entregava”

 

Também eu, confesso, eu um momento de tentativa de virada em meio a uma decepção amorosa quase pós-adolescência, raspei a cabeça como forma de recomeço. Fez diferença, isso de raspar a cabeça? Para mim, sim, pela simbologia.

 

O lado B do disco começa com ‘Passageiro’, e termina com a (para mim, para mim) clássica ‘Loucos de Cara’, definitivamente um hino para a vida inteira, que ainda hoje – aos quarenta e nove anos de idade – volta e meia serve de orientação para o jeito que devo encarar a vida e suas tramas. A mensagem é que – não importa o que houver – fica na tua, seja quem és. A estrofe final da letra, resume tudo.

 

Se um dia qualquer
Tudo pulsar num imenso vazio
Coisas saindo do nada
Indo pro nada

Se mais nada existir
Mesmo o que sempre chamamos real
E isso pra ti for tão claro
Que nem percebas

Se um dia qualquer
Ter lucidez for o mesmo que andar
E não notares que andas
O tempo inteiro
É sinal que valeu
Pega carona no carro que vem
Se ele não vem, não importa
Fica na tua”

 

Voltando a ‘Sapatos em Copacabana’ e aos meus quarenta e nove anos de idade.

 

Já tenho (alguma) idade e (talvez) nome.

 

Minha juventude, então, por onde anda?

 

Ela continua viva, dentro de mim, de onde olho o presente, que é meu tempo, e sempre será. Sigo em frente, ciente que o meu tempo é agora e com profundo respeito pelo que passou e por quem andou comigo nesse tempo, mesmo que agora já não ande mais.

 

Assim é a vida.

 

Assim seguimos.

 

Até. 

domingo, abril 04, 2021

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Vigésimo Dia)


Um estádio de futebol.

 

Há quase dez anos abandonado, o Estádio Olímpico, estádio do Grêmio Porto-Alegrense durante muitos anos até a transferência do time para a Arena OAS, no bairro Humaitá, é parte da memória afetiva da cidade. E minha também, mesmo sendo eu colorado.

 


A primeira lembrança que tenho do estádio, de estar no estádio, é de vinte e quatro de julho de 1985, à noite, para assistir à semifinal do campeonato brasileiro daquele ano entre Brasil de Pelotas e Bangu, torcendo para o time gaúcho, claro. Não lembro como e nem com que fui assistir a esse jogo, mas não importa mais.

 

A lembrança pessoal seguinte, é de dezembro de 1987, naquele que foi o primeiro show em estádio em Porto Alegre: fui assistir ao show do Sting (sessenta mil pessoas junto) no gramado, com chuva antes de começar e ao final do mesmo ficar sem saber como voltar e encontrar um amigo do meu pai (e pai de uma amiga minha) que me deu carona para casa. Parece que a abertura foi com o Capital Inicial, segundo pesquisei. Não lembro se realmente foi, mas não importa mais.

 

Passaram-se alguns anos, estamos no final dos anos noventa, e voltei ao estádio do rival futebolístico para um jogo de futebol. Um GRENAL, numa noite de meio de semana. Fui sozinho, de carro. Estacionei na lomba do cemitério (o estádio fica/ficava ao lado de uma colina onde estão boa parte dos cemitérios de Porto Alegre, os mortos assistindo os jogos do time de azul do bairro Azenha) e entrei no estádio do adversário, assisti ao jogo na torcida do Inter, absolutamente sem nenhum conhecido, e voltei para casa sem problemas, algo quase impensável nos dias de hoje em que policiais escoltam os torcedores e os estádios são quase de torcida única (abstraindo o fato de que agora – em meio à pandemia – não há torcida nos estádios.

 

Entramos no século vinte e um.

 

Formei-me médico, me casei, morei fora do país e voltei a morar em Porto Alegre. Nunca mais entrei no velho estádio do rival, o que não quer dizer que não tenho mais história com ele.

 

Maio de 2007.

 

Por aqueles dias, o Grêmio participava de uma Libertadores da América, torneio de futebol que consagra o melhor time da América do Sul. Durante as fases decisivas do campeonato, os chamados mata-mata, os times jogam dois jogos entre si, um em cada cidade, para decidir quem passa de fase. Havia jogo do Grêmio na cidade nesse dia em questão, quartas-de-final do campeonato.

 

Coincidiu de no dia do jogo vir a falecer a avó paterna da Jacque, a Nona, como era conhecida, e o velório iniciar no final da tarde para o enterro ocorrer às 21h. E tudo isso ocorrer no cemitério que fica ao lado e acima do estádio, onde ocorreria no mesmo momento o jogo. O que significa que, na capela onde velávamos o corpo da Nona, nos sentíamos dentro do estádio, tamanho era o volume dos gritos e dos cantos.

 

Muito estranho.

 

Mais estranho (e bizarro, por que não?) foi na hora em que o padre estava fazendo as orações tradicionais desse momento. Justamente em meio ao silêncio que era só quebrado pela oração recitada (a porta da capela havia sido fechada), justamente nessa hora, houve o primeiro gol do Grêmio. Foi como se estivéssemos dentro do campo. Gritaria na rua, foguetes. Todos continuamos em silêncio ouvindo o padre, no frio de uma noite em Porto Alegre.

 

Passam-se alguns anos e o Grêmio troca de estádio, abandonando o velho Olímpico, deixando-o entregue aos mendigos, drogados e aos ratos. Enquanto não resolvem pendências financeiras e administrativos, ele vai lentamente se desintegrando em meio ao lixo e escombros e memórias, sob o olhar eterno dos mortos na colina dos cemitérios.

 

Não havia mais pensado nele até ontem, quando infelizmente subi a colina dos cemitérios mais uma vez.


Os tempos de pandemia levam a velórios curtos, com pouca gente, o que pode ser menos doloroso para aqueles que se despedem de um ente querido, imagino eu. Foi assim com o tio e padrinho da Jacque, o tio Vittorio, figura querida e sempre bem humorada que não resistiu, com seus setenta e nove anos recém completos, à COVID-19. Antes de poder tomar a vacina, adoeceu. Internou, foi para a UTI, e não resistiu, infelizmente.

 

Ontem à tarde, foi o velório e a cremação.

 

Durante o velório, saí por um instante da capela. Vi uma porta que dava para um terraço e entrei. Ali, ao sol, vi o velho Olímpico do show do Sting, de um tempo em que a vida recém iniciava, semidestruído.

 

A vida segue, inexorável. 

 

Até.