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terça-feira, novembro 22, 2022

A Sopa (Uma História com Moral)

(As Ruínas de Gênova uma vez Delimitados os Mais Altos Valores da Bolsa em Conseqüência do Aumento do Consumo de Drogas em Nova Iorque)


Florípede era uma mulher tímida. Seus pais haviam escolhido este nome porque rimava com velocípede. Apesar de tímida era linda. Seus dotes eram magníficos. Poderia ter todos os homens que quisesse, mas era solitária, tinha solitária. Era rica e poderosa. 

Marcelo Igor, irmão de Igor Marcelo, era completamente diferente de Florípede. Era exaltado. Seus pais havia escolhido este nome porque era bastante parecido com o do seu irmão, ao contrário. Era exaltado e feio. Dotes (dotes?) grotescos. Poderia querer todas as mulheres do mundo, mas elas o ignoravam. 

Um dia, se encontraram quase sem querer. Não foi por obra do acaso, tinha mesmo que acontecer. Conversaram muito mesmo para tentar se conhecer. Marcelo Igor achou que ela era a mulher de sua vida. Ela achou o contrário. Se despediram e nunca mais se viram. 

Moral: Não adianta gostar de quem não gosta da gente.
(um texto de mais de 30 anos, feito em parceria com um amigo da época)

domingo, fevereiro 07, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia – Trezentos e Trinta Dias)

 

Um outro texto antigo, porque estamos de férias, que terminam hoje à noite. Novamente do tempo do exílio, quinze anos atrás. Um texto de ficção. Ou não. 

 

Confissão

 

Eu larguei a música. Duas vezes.

 

O que faço, hoje em dia, tocando com amigos e fazendo o meu "blein-blein" por aí, na verdade é uma forma de não perder contato totalmente com essa parte da minha vida, que sempre será importante. Quando digo que larguei a música, me refiro ao show business. Desse, podem crer, quero distância.

 

Mas nem sempre foi assim.

 

Há mais ou menos uns dezessete anos atrás, fui convidado para fazer parte de um grupo jovem - não posso revelar o nome por questões contratuais - que fez muito sucesso nas paradas musicais, e atraiu a atenção de muita gente. Tivemos muitos fãs. É possível que algumas dessas fãs ainda tenham posters da banda em seu quarto. Podem até ser minhas leitoras, sem nunca ter se dado conta que sou eu naquele poster na parede.

 

A trajetória da banda foi a de muitos outros grupos adolescentes. Assinamos contrato com uma grande gravadora, gravamos um disco. Vários shows, fãs histéricas, sutiãs e calcinhas jogadas ao palco, uma loucura. Foi aí que começaram os problemas: primeiro, queriam definir as roupas que usaríamos, nossos cortes de cabelo, o que diríamos em entrevistas. No início, não vi problemas, até que resolveram que teríamos de mudar nosso repertório, nosso estilo. Chamaram compositores para preparar nosso disco seguinte, no qual não teríamos nenhuma ingerência. Só o que teríamos que fazer era cantar. E sorrir. E fazer algumas dublagens em shows de auditório.

 

Não era certo daquele jeito, argumentei. Disseram que tínhamos que fazer o nosso público feliz. ‘Nhé’, pensei, vamos ver.

 

Até que num show, percebi que aquilo tudo não era pela nossa música. Até porque as histéricas fãs não ouviam o que estávamos tocando e cantando. Elas só gritavam, choravam, desesperadas. Tudo isso pela nossa simples presença próximo a elas. Aquilo era o bastante.


No final do show, fomos para um hotel. Durante a madrugada, enquanto todos dormiam, deixei o hotel e o show business. O sol nascia, e caminhei em silencio deixando para trás aquela vida que não era para mim. Tudo o que eu queria era uma casa no campo, onde pudesse compor muitos rocks rurais.

 

Não bastava ser apenas mais um rostinho bonito.


Até.

terça-feira, janeiro 24, 2012

Histórias de Verão (um texto antigo)

Verão.

Litoral norte do Rio Grande do Sul. Manhã de sol, brisa amena e água clara, de temperatura agradável. Milhares de pessoas na praia, tomando sol, deitadas ou caminhando. Nós (o Paulo e eu) estamos parados observando as crianças, filhos e sobrinhos, que brincam com as ondas. Correm de um lado a outro sob nossos olhares atentos e vigilantes. Vez e outra um ou outro grita instruções sobre onde devem ficar e para onde não devem ir. No meio disto, conversamos:

- Mudou o ano, hora de mudanças.

- É isso aí.

- Temos que definir quem vamos ser daqui para frente.

- A-hã.

- Estive pensando, e só temos duas opções de mudança.

- Que são...

- Surfistas ou metrossexuais.

- Desenvolva esse pensamento.

- Podemos virar surfistas. Compramos um pranchão, um carro de surfista e... Qual o carro dos surfistas?

- Parati?

- Não, parati não. Isso era nos anos oitenta. Agora deve ser outro.

- Não tenho nem idéia, para mim era ainda parati.

- Deixa para lá. Compramos um pranchão, e vamos pegar onda. Aliás, nem precisa pegar onda, basta ter atitude.

- Mas com esse marzinho de hoje, dá para chegar fácil no outside. Subir na prancha, bom, são outros quinhentos. Mas tem uma coisa...

- O quê?

- Assim, usando sunga, estamos mais para metrossexuais.

- Tem razão, acho que estamos mais para metrossexuais. Mas o que metrossexuais bebem na beira da praia? Qual o drink dos metrossexuais? Não pode ser cerveja...

- Claro que não, e nem caipirinha, que não são bebidas adequadas. Champanhe?

- Não, é coisa de metido à besta. Os metrossexuais são assim, simples mas não simplórios.

- Despojados.

- Isso aí.

- Sabem cozinhar...

- Nós sabemos.

- Curtem ficar em casa, receber a turma, preparam jantares legais, criam um clima legal na casa, com velas...

- Epa.

- O quê?

- Vela não.

- É, vela é coisa de veado.

- Parece que a linha que separa a metrossexualidade da homossexualidade é muito tênue.

- Qual é o preço da parati e da prancha mesmo?

quarta-feira, janeiro 04, 2012

O Dia em Que o Caetano me Ligou


Fernando chegou ao Platão, o café onde semanalmente se reunia a autointitulada “Confraria do Nada”, encontro da turma do tempo do colégio, passavam vinte minutos da meia noite. O atraso, normalmente punido com o pagamento de três rodadas de chopes para os confrades tinha plena justificativa, pensava. “Caetano me ligou”, disse, a frase abafada pelas vaias dos outros quatro integrantes da turma. Sérgio, o mais velho, também conhecido por Diabo, retrucou: “Conta outra”. Eduardo, Lipe e Tony, os demais integrantes da confraria, ainda ameaçando o infrator com as sanções regulamentares para casos de atraso, silenciaram para ouvir a história do estranho dia de Fernando.

Tudo começara naquele mesmo dia, pela manhã. Mal tinha acordado, e recebeu um telefonema da Bela, sua ex-namorada e eterno amor platônico, dizendo que precisava conversar urgentemente com ele. Ela que, nos últimos dois anos – desde que haviam rompido o namoro de três - estava namorando Eliseu, na confraria conhecido por Pastel.  Perguntou se ela estava com algum problema. Belíssima, assim ele a chamava, disse que “mais ou menos”, mas que não podia explicar mais por telefone, e convidou-o para almoçar. “No mesmo lugar de sempre” sugeriu, sugestão prontamente aceita por Fernando.

O local, o restaurante Famiglia, era uma cantina administrada pelo Vittorio, um italiano que dizia ter vindo para o Brasil porque representaria uma ameaça à Europa ocidental se permanecesse por lá, sem nunca dizer o por quê. Fernando chegou um pouco antes, pediu guaraná zero, uma heresia, segundo o Vittorio, que ignorava o pedido e trazia um cálice de vinho por conta da casa, para que o ragazzo aprendesse a beber enquanto ele fosse vivo para ensiná-lo. A Bela chegou um pouco depois e, quando viu o cálice de vinho na mesa, reclamou que ele ia virar um bêbado, e ela não queria vê-lo na sarjeta. Não adiantou tentar explicar o que tinha acontecido, ela não lhe deu ouvidos, como sempre acontece com as conversas de casais. Para encerrar a discussão, disse “Quer saber? O fígado é meu e eu faço o que eu quiser, pior és tu que namora um pastel”. Mais uma vez – como sempre acontecia quando discutiam – ela ficou contrariada e não quis mais falar nada. “E daí, o que há de especial nisso?”, retrucou o Tony, o mais impaciente do grupo que, por essa razão tinha o apelido de Comecru. “Calma, agora é que vai começar”. Voltando ao almoço com a Bela, após alguns minutos de silêncio, ela revelou o motivo do encontro urgente: precisava de um favor, que só ele poderia fazer.

Contou-lhe a história. Ela tinha quase certeza de que o Eliseu (o Pastel) estava tendo um caso com outra (“Eu avisei, eu avisei!”), mesmo tendo proposto casamento a ela. O favor: que ele fosse a determinado restaurante, numa determinada hora, para dar um flagrante. Com fotos do momento e tudo. “E aceitaste?”, quiseram saber os amigos. “Em princípio não”, falou, mas depois confessou que aceitara para ver o Pastel ser desmascarado. “Algo como vingança, por ele sempre ter estado rondando à volta, como urubu, enquanto eu a Belíssima namorávamos. É a minha vez de ser urubu, de estar à espreita”. “Mas ela não vai voltar pra ti, sabes disso”, ponderou o Diabo. “Sei e nem quero, mas queria ter o gostinho de ver o rival tombar”, completou Fernando, revelando um lado pouco louvável do caráter humano.

No horário marcado, Fernando entrou no restaurante indicado, e não encontrou o Eliseu nem sua suposta amante. Na única mesa ocupada, estavam três loiras e um vaso com três tulipas vermelhas. Caminhou até elas, pediu permissão e sentou na cadeira vazia. “Já contei o dia em que Caetano me ligou?”, perguntou, fazendo levantar duas das três integrantes da mesa. “Pra mim também”, se espantou a terceira integrante. A partir de então haviam conversado até decidirem ir morar juntos. Fernando estava passando no Platão só para comunicar que estava se licenciando da confraria por tempo indeterminado, pois estava indo passar o verão em Ubatuba, numa cabana de frente para o mar.

Após a saída de Fernando, que foi correndo para o carro em que a loira o estava esperando para a viagem, todos integrantes da mesa permaneceram em silêncio por um longo tempo, até que o Lipe encerrou o assunto:

- Poxa, pra mim ele nunca ligou...