quinta-feira, junho 20, 2024

Be curious, not judgmental.

Um esforço que tenho feito ao longo do tempo é o de tentar me importar cada vez menos com o que os outros pensam de mim. Confesso que não é fácil, mas deveria ser, não? E não vale apenas para mim, deveria ser algo geral.

 

Gosto muito da expressão “Walk a mile in my shoes”, que é derivada da expressão completa ‘Before you judge a man, walk a mile in his shoes’. Ou seja, antes de julgar (e criticar) alguém é importante entender o contexto. Sempre há uma estória por trás da estória que está por trás da estória e assim por diante. Há de se ter empatia. É o que procuro desenvolver na vida. 

 

Be curious, not judgmental. 

 

(citação retirada da ótima série Ted Lasso, que sugiro a todos assistirem)

 

Até.

quarta-feira, junho 19, 2024

Curiosidade

Os papeis que representamos na vida. 

Todos nós, invariavelmente, ao longo da vida, temos, vivemos e representamos diferentes papeis, somos diferentes personagens nos diferentes ambientes em que navegamos. Mesmo que sejamos (ou tentemos ser) os mesmos em todos os momentos, o que muda é qual o aspecto de quem somos está em evidência nesses diferentes ambientes em que circulamos.

 

Me interessa saber, quase como curiosidade científica, como as pessoas me veem enquanto “represento” esses diferentes papeis.

 

E você, já pensou nisso?


Até.

terça-feira, junho 18, 2024

Terça-feira

Recorrentemente, penso que seria útil ter alguns dias em que eu não tivesse nenhum compromisso externo e pudesse ficar em casa, entre minhas coisas, para organizá-las. A tendência dos dias corridos é acumular papéis e cartões, artigos e livros a serem lidos, que vão ficando e se avolumando, e são deixados para um futuro incerto. E, de tempos em tempos, começo uma limpeza que nunca se completa porque os afazeres da rotina não permitem, ou porque me deixo levar por atividades não produtivas não relacionadas, ou mesmo por lembranças despertadas pelo que encontro entre esses guardados... 

 

E lembro, então, da música que diz:

 

“Eu hoje joguei tanta coisa fora

Eu vi o meu passado passar por mim

Cartas e fotografia, gente que foi embora

A casa fica bem melhor assim”

 

Lá fora, o sol não aparece porque não é uma manhã de sábado.


Até. 

segunda-feira, junho 17, 2024

Memória Afetiva

Será que ando à flor da pele?

Não, beijos de novela não me fazem chorar.

Por outro lado, provavelmente seja pela passagem do tempo, ou porque talvez eu viva dias em que as coisas da vida, os pequenos aspectos da rotina, ou mesmo as banalidades do mundo, estejam me emocionando, mas percebi que já há algum tempo ir a lugares, ou mesmo fazer caminhos que antes eu frequentava ou percorria rotineiramente e não faço mais, tem causado episódios de – posso dizer – genuína alegria. É como reencontrar velhos amigos (o que também me causa esse efeito, obviamente).

 

Há alguns meses, fui à formatura do meu sobrinho e afilhado não oficial Gabriel no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS. Além do momento feliz de vê-lo nesse momento de conquista e celebração, circular por ali me fez reviver a última vez em que lembrava ter estado ali, quando da minha formatura no Curso Técnico de Operador de Computador, que depois passou e se chamar Processamento de Dados, pela Escola Técnica de Comércio da UFRGS, em dezembro de 1988. Lembrei de show que assisti ali, de detalhes dessa época, e ainda antes, ao circular pelo Campus Central, a sala Qorpo Santo, a PROUNI (acha que era esse o nome) onde fazíamos as identificações de alunos da UFRGS para podermos frequentar a Colônia de Férias da UFRGS em Tramandaí, onde fomos algumas vezes fora de temporada, com ela vazia, e as histórias passadas por lá. Assim como o efeito de algumas músicas, chamadas transportadoras porque despertam memória e nos fazem ‘voltar no tempo’, a ida ao Campus da UFGRS me trouxe muitas memórias. 

 

E esse efeito tem acontecido também quando circulo de carro por Porto Alegre, por caminhos, como falei, que já não estão na minha rotina. É uma sensação reconfortante, de familiaridade, sei lá.

 

Sem falar com relação às pessoas, mas é assunto para outro dia.

domingo, junho 16, 2024

A Sopa

Tudo isso (4).

 

A maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, quiçá do Brasil, ocorrera enquanto estávamos, a Jacque e eu, fora do país, em uma convenção nos Estados Unidos. Com o aeroporto de Porto Alegre fechado por tempo indeterminado, nosso voo de volta cancelado, conseguimos nos reorganizar e voltar o Brasil e chegar via aérea até o ponto mais próximo de casa, Florianópolis, onde dormimos uma noite antes de pegar o carro alugado com o qual conseguimos chegar em casa.

 

A entrada em Porto Alegre, no final do dia de 09/05, foi pela zona norte da cidade, a partir da vizinha Alvorada. O caminho foi pelas avenidas Baltazar de Oliveira Garcia, Assis Brasil, Plínio Brasil Milano, Vinte e Quatro de Outubro, até a Ramiro Barcelos, Gonçalo de Carvalho até em casa. Por todo o trajeto, o que chamava a atenção era a ausência de sinais das inundações, por estarmos em áreas que eram ou altas e ou longe (mas não muito) de onde a água chegara. 

 

O alívio de chegar em casa e encontrar a Marina e minha mãe bem. Ainda com água em horários determinados devido ao racionamento estabelecido no prédio no início da situação, assim que saíram as notícias de que as bombas de captação de água haviam ficado fora de ação. Descarregamos o carro, minha mãe se despediu de nós e voltou para casa, onde tinha água e luz. Nós, sem ter como tomar banho em casa, iniciamos uma sequência que seria de doze (!) dias tomando banho na casa de familiares (mãe, sogros, cunhada). Um mínimo inconveniente perto do que milhares haviam sofrido.

 

Ainda antes de encerrar o dia, sabendo que a devolução do carro seria complicada, pois teria que entregá-lo em Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre, naquele momento pela única saída de Porto Alegre. Isso porque as lojas da locadora na cidade ou estavam alagadas ou não tinham funcionários. Mais do que isso, teria que voltar de lá após devolver o carro. Missão quase impossível. Transporte público não estava funcionando, minha opção era o Uber, ou que alguém me ajudasse, dando carona.

 

Eu tinha certeza de que se eu pedisse para alguns amigos em especial, eles me ajudariam sem nenhum problema, na parceria, assim como se me pedissem eu faria o mesmo por eles. E que realmente eu poderia pedir, porque nossa amizade é para tal. Mas não me senti confortável para isso, o que não quer dizer que não pedi ajuda: enviei mensagem em um grupo de WhatsApp pedindo sugestões de como retornar à Porto Alegre após a entrega do carro, ou se achavam que minha única opção era mesmo o Uber. Imaginava que alguém poderia se oferecer para ajudar. Eu estava certo, e quem se ofereceu foi um dos que eu tinha certeza de que faria (valeu, Robert!).

 

Sexta-feira de manhã, dez de maio de dois mil e vinte e quatro.

 

Fui até a casa dele, e às 7h30 saímos em comboio em direção ao local de devolução do carro. O tempo estimado no momento da saída era de duas horas até o destino, que normalmente levaria trinta minutos.  Um tempo excessivo para um trajeto tão curto, mas era uma situação excepcional.

 

Mal sabia eu o quê me (nos) esperava.

 

O trajeto que deveria ser percorrido sairia de Porto Alegre pelas avenidas Assis Brasil e Baltazar de Oliveira Garcia, e então atravessando a cidade de Alvorada, acessando a ERS-118, e aí até Gravataí. Trânsito intenso, percorremos relativamente bem a saída de Porto Alegre e a maior parte do trecho por Alvorada, até quando faltavam cerca de dois quilômetros para o acesso à rodovia ERS-118. Foi nesse momento em que tudo parou. E começou a chover.

 

Ali, a não mais que dez quilômetros do nosso destino, ficamos parados no engarrafamento. Não, era mais que um simples engarrafamento. Era um cenário de filme catástrofe, o trânsito parado e ao mesmo tempo com viaturas policiais, ambulâncias, bombeiros, carros de resgate com barcos a reboque, todos passando por nós, indo e vindo, enquanto assistíamos aquela cena embretados, sem pode nos movimentar.  E sem sinal de celular, apenas o rádio do carro com notícias da tragédia que se abatia sobre o estado.

 

E assim ficamos, parados.

 

Foram (quase) inacreditáveis QUATRO horas até chegar ao destino e devolver o carro antes de começar o retorno à Porto Alegre. Quatro horas entre sairmos e chegarmos na agência da Localiza em Gravataí. E eu todo o tempo lamentando ter colocado o meu amigo naquela fria. Ao chegar e descermos do carro, disse ao Robert que lamentava a roubada em que eu o havia metido, no que me respondeu que sabia que seria assim, e que eu não conseguiria voltar, e por isso se ofereceu para ajudar.

 

Coisa de irmão.

 

É bom contar com os amigos!

 

Até. 

sábado, junho 15, 2024

Sábado (e Eu, escritor)

Autografando 'A Sopa no Exílio', o livro
 

E o blog virou livro depois de 20 anos
Que momento, que momento.

Bom sábado a todos.

Até.

domingo, junho 09, 2024

A Sopa

Tudo isso (3). 


Chegamos em Miami terça-feira à tarde, cerca de 16 horas antes do voo que nos levaria até Guarulhos e depois Florianópolis, de onde sairíamos na quinta-feira de manhã em um carro alugado rumo ao sul, rumo à Porto Alegre, que vivia situação de calamidade pública devido às inundações decorrentes de uma série de circunstâncias que – como em um acidente aéreo – ocorreram simultaneamente ou em sequência para que o desastre ocorresse. Chuvas MUITO acima da média, elevações dos rios que desaguam no Guaíba, falta de manutenção dos sistemas de prevenção às enchentes ao longo de muitos anos, falhas nas bombas de drenagem pelas cidades, entre outros.

 

Nós, a salvo disso, em outro hemisfério, acompanhávamos angustiados os acontecimentos, com a sensação de impotência de quem está longe dos familiares, das pessoas e dos lugares que nos são caros e que estariam sendo afetados. Uma irracional, mas inevitável, culpa.

 

Retornamos o carro na locadora e voltamos caminhando para o hotel, que ficava realmente ao lado do aeroporto, em Miami. A viagem havia acabado, agora só esperávamos a hora de iniciar a volta. Pedimos uma pizza no quarto mesmo, que comemos com um vinho enquanto arrumávamos nossas coisas e acompanhávamos as notícias pela televisão.

 

O voo Miami – São Paulo, que saiu às 11h da quarta-feira, estava com muitos lugares vagos, e conseguimos ficar em assentos de saída de emergência. Vou diurno tranquilo. Pousamos em GRU com pouco mais de duas horas de tempo de conexão, que deveria ser tempo suficiente, mas não seria tão simples como esperado.

 

Primeiro, o desembarque - remoto, maldição! – demorou bem mais tempo do que o previsto. Segundo, as malas nos atrasaram um pouco mais, aumentando a angústia. Antes, ainda, enquanto estávamos embarcados no ônibus que nos levaria até o desembarque, uma senhora de idade indefinida (para mim, para mim), puxou assunto e, quando soube que iríamos para Florianópolis, pediu para ficar junto conosco para “não se perder”. Tudo certo.

 

Seguimos juntos no desembarque, a esperamos retirar sua bagagem e fomos passar pela alfândega. Nesses trajetos, conversando com a Jacque, ele havia contado que era “terapeuta”, mas não diplomada, que era “sensitiva” e que viajava o mundo para atender pacientes. Eu apenas ouvia a conversa, sem participar. Já com nossas malas, ao passar pelo funcionário da alfândega, fez algum comentário que não ouvi, mas ele na hora pediu para ela passar para a revista de malas e perguntou se estávamos juntos. Ela disse que sim, no que eu disse que NÃO, o que não adiantou, fomos, a Jacque e eu, encaminhados para uma nova fila, para a revista, junto a ela.

 

A minha preocupação não era a revista, era o tempo, que passava rápido e se aproximava a hora do embarque para Florianópolis. Pior foi que, esperado que nossas malas passassem pelo raio-x, a “terapeuta” comentou que estava trazendo de volta ao Brasil vinte e dois mil dólares (!) e chegou a sugerir que a Jacque carregasse parte desse dinheiro (!!). Claro que não aceitamos...

 

Foi corrido, mas conseguimos chegar em tempo e embarcar para Florianópolis. Voo tranquilo, chegamos perto da meia-noite em nosso destino. Ainda tentei retirar o carro reservado naquela hora mesmo, mas não foi possível: teria que voltar de manhã ao aeroporto para buscá-lo. De Uber, fomos até o hotel no centro, onde dormimos.

 

Na manhã seguinte, após o café da manhã, voltei para o aeroporto onde retirei o carro. De volta até o hotel, por volta das 9h30 saímos de Florianópolis rumo ao Rio Grande do Sul. A primeira parada foi em um supermercado para comprar água para levar para casa e para quem precisasse.

 

Ainda pararíamos, no trajeto de volta, para comprar cobertores, travesseiros e outros itens para doar aos abrigos montados pelo RS. Com a sensação de atraso, começávamos na prática a ajudar pelo menos um pouco quem estava em necessidade. Entramos no RS com o carro carregado de donativos.

 

Conseguimos chegar em casa no final da quinta-feira, 09/05, dia que era aniversário do meu pai, que nasceu justamente durante a famosa enchente de 1941, e que não viveu – para o bem e para o mal – para ver Porto Alegre novamente embaixo d’água...

Tudo terminado?

 

Ainda não. Teria que devolver o carro alugado em Gravataí, pois as agências da locadora em Porto Alegre estavam sem funcionar, na manhã seguinte.

 

Começava outra epopeia.

 

Até.