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domingo, agosto 08, 2021

A Sopa

Eu tive COVID.

 

Sim, você já deve saber, afinal contei isso aqui neste espaço no início da semana. Já não é uma novidade e nem é (ou foi) um grande problema, afinal já completei o período de isolamento, e segunda-feira volto ao trabalho.

 

Fiquei pensando o que significou, para mim, ter me infectado, adoecido.

 

Lá atrás, no início da pandemia, há um ano e meio, passamos da ideia inicial de que todos se contaminariam em algum momento e tínhamos que “achatar a curva” (de infecções) para não sobrecarregar o sistema de saúde para o “fique em casa”, para que ninguém se infectasse, meta evidentemente irreal. Todos os cuidados que tínhamos e temos que tomar sempre foram para – sim – minimizar as infecções enquanto as vacinas eram desenvolvidas.

 

Elas foram, em tempo recorde, para a suspeita de vários (esquecendo que estamos em 2021, não em 1950). Fui voluntário da pesquisa da Coronavac, do Instituto Butantã, em setembro de 2020 e, quase onze meses depois, acabei tendo COVID. Tranquilo, posso dizer. Sempre soube que a vacina não evitava em 100% a infecção, mas era para evitar casos graves, internações, internações em UTI e, claro, morte. Por isso nunca me preocupei com essa ridícula discussão sobre qual vacina fazer. Vacina boa é vacina feita.

 

De qualquer forma, quando entrei na pesquisa e recebi o que poderia ser a vacina ou placebo, não quis saber qual eu tinha recebido, porque não ia mudar em nada minha vida caso eu soubesse. Os cuidados continuariam os mesmos. Depois que fiquei sabendo que havia sido vacina, de fato nada mudou.

 

Assim que fiquei sabendo que estava com COVID, ainda antes do teste, afinal eu era contato de caso e comecei com febre, mantive-me tranquilo. Alguém pode até dizer que irresponsavelmente calmo, pode ser, mas confesso que em nenhum momento me preocupei de verdade. Por estar me sentindo bem, com poucos sintomas. Era questão de seguir o protocolo e permanecer isolado pelo período recomendado. Se certo ou errado, não faz diferença, cada um reage de forma individual ao que acontece em sua vida.

 

Lembrei disso porque andei lendo relato de conhecidos que estavam passando pela mesma situação que eu, mais ou menos ao mesmo tempo, e que diziam que o diagnóstico foi motivo de muita preocupação por terem visto muitos pacientes, saber de ainda mais outros que haviam sofrido e mesmo morrido de COVID. Entendo a angústia e preocupação, mas – de novo – confesso – que não as tive.

 

Negação, você pode pensar, mecanismo de defesa para seguir em frente em meio a tudo isso. Pode ser, não importa mesmo.

 

Por enquanto, passei bem pelo COVID. Sem loucuras, sem tratamentos malucos, não fiz nada diferente daquilo que recomendo para pacientes. Estou bem.

 

Espero que continue assim.    


Até. 

segunda-feira, julho 12, 2021

A Sopa

 Parei de contar os dias de pandemia.

 

Estamos no segundo ano, e aqui no Sul do Mundo, após o inferno que foi o mês de março de 2021, com o grande pico de infecções e internações, com o quase colapso do sistema de saúde, vivemos agora um momento mais tranquilo. À medida que a vacinação avança, a situação melhora, mesmo que lentamente.

 

Não podemos baixar a guarda, contudo.

 

Todos os cuidados que tínhamos, devem ser mantidos, para que tudo possa terminar o quanto antes. Máscaras, distanciamento, evitar aglomerações, tudo faz parte do que temos que seguir fazendo para que possamos avançar. E seguir as recomendações que são baseadas em evidências científicas, que são embasadas em estudos realizados, e bem realizados.

 

Temos visto, neste cerca de um ano e meio de pandemia, que muitos, por mais preparados que sejam, por mais estudados que sejam, no momento em que estamos frente a um desafio gigante (o que tem sido esse tempo) portam-se como o marinheiro que – ao ver um problema na embarcação -  sai correndo de um lado a outro gritando “vamos morrer, vamos morrer”, quando o que ele deveria fazer era se utilizar de seu conhecimento e de seu treinamento para propor soluções, para ajudar. Já falei disso: entendo a angústia, mas, antes de mais nada, não podemos prejudicar aqueles que buscam nossa ajuda prescrevendo tratamentos sem comprovação, ou – pior – que podem causar mais mal que bem.

 

E tem se visto coisa, posso dizer.

 

De qualquer forma, devemos tentar manter o juízo crítico e o bom senso em meio a dias confusos.

 

De novo, vai passar

 

#

 

Não só isso: parece, em determinados casos, que voltamos no tempo, quando tínhamos pouco conhecimento sobre o mundo. A ciência avançou muito nos últimos anos, e a descoberto/criação de vacinas em tão pouco tempo é uma prova disso. Nunca estivemos tão preparados – por paradoxal que possa parecer – para lidar com uma situação dessas como agora. Por isso a minha convicção de que vamos superar isso em breve. E vem desse fato também a minha surpresa com ter ouvido colegas comentarem – há quase um ano, ao saber que eu havia sido voluntário para o estudo de uma das vacinas – que esperariam “porque a vacina foi criada em muito pouco tempo...”, como se estivéssemos em 1950!

 

Fingi que não ouvi, não valia a pena discutir.

 

Quem sabe procurassem um pajé naquele momento.

 

Vai saber.

 

Até.

terça-feira, julho 06, 2021

A Sopa

Final de semana.

 

Eu sei que estamos numa terça, ou quarta-feira, não importa o dia da semana em que estou publicando essa crônica, mas quero falar um pouco sobre o final de semana. Sobre como se tornaram melhores os finais de semana novamente.

 

Sim, novamente.

 

Porque uma das consequências da pandemia e do distanciamento social decorrente dela foi que, em primeiro lugar, os dias ficaram mais ou menos iguais durante grande parte do ano passado, como se vivêssemos – e sei que já falei isso – o clássico filme ‘O Feitiço do Tempo’ (Groundhog Day, 1993), condenados a reviver o mesmo dia eternamente. Não havia muita diferença entre quarta-feira e sábado, ou terça, o que era um crime, porque o melhor momento da semana, como todos sabem (ou deveriam saber) é o sábado de manhã, de sol. 

 

Tergiverso, eu sei.

 

Outra razão para que os finais de semana tivessem perdido a graça foi que as socializações foram interrompidas. Estivemos distantes (com razão) fisicamente de familiares e amigos desde o início da pandemia, com raríssimos encontros cheios de cuidados e sem aglomerações. E isso – ainda – não voltou a normal, claro.

 

Como médico, e pneumologista em especial, desde o último trimestre do ano passado, tenho trabalhado intensamente, atendendo inicial e preponderantemente pacientes com e pós-COVID-19, online e presencialmente, e depois pacientes pneumológicos em geral, que retornaram aos consultórios porque suas condições não desapareceram pelo coronavírus. O trabalho tem sido grande e gratificante. Nunca fui tão médico quanto agora, tenho a impressão.

 

Mas falava dos finais de semana.

 

Como não há possibilidade de trabalho remoto, de home office, a rotina de trabalho voltou, e acrescida de novas atribuições surgidas durante o ano passado. A semana de trabalho tem sido cheia novamente, e a chegada dos finais de semana tem representado realmente uma parada e momentos de descanso. E têm sido leves, agradáveis.  

 

Como sempre devem ser.

 

Até. 

domingo, maio 23, 2021

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia, Ano Dois, Sexagésimo Nono Dia)

 

Sobre música, e o Rio de Janeiro.

 

Há uns poucos meses, uma tendência se tornou uma realidade aqui em casa: temos assistido cada vez menos televisão. E não falo apenas da tevê aberta, que já abandonamos há bem mais tempo. A tevê por assinatura, com sua dezena de canais, também perdeu a graça, pelo visto.

 

Temos assistido séries em streaming, e vídeos diversos no You Tube, quando sentamos juntos para assistir algo. Mais recentemente, vídeos de música, dos mais variados. Listas de músicas mais tocadas entre os anos 1950 e 2020, musicais, vídeos de músicos de rua, tudo tem sido visto.

 

Corta para o final de semana, quando falava com meu irmão e minha sobrinha Olívia, que moram em NY. Entre a conversa, ela quis cantar (também toca piano, mas não vem ao caso). E cantou ‘Águas de Março’, do Tom Jobim. E sabia a letra de cabeça, toda. Fiquei impressionado e feliz. E me fez assistir a vídeos do Tom Jobim, da Elis Regina, do Luiz Melodia entre outros. Mas, acima do todos, do Tom Jobim.

 

Fiquei feliz também por lembrar de uma coletânea de músicas do Tom Jobim, que tínhamos em CD quando eu ainda morava com meus pais (há mais de vinte e cinco anos), e me fez lembrar da minha relação com o Rio de Janeiro. Vem de longo tempo.

 

A primeira vez que estive no Rio foi com sete anos de idade, final dos anos setenta, em viagem com meus pais e meu irmão. Saímos de carro de Porto Alegre, e fomos parando em algumas praias no caminho até lá, onde ficamos em Copacabana. Lembro de visitarmos o Cristo, o Pão de Açúcar, entre outros pontos turísticos. Ficamos poucos dias, mas foi bem legal. Depois dessa, fiquei muito tempo sem ir ao Rio de Janeiro.

 

Quando calhou de ir novamente, fui para um congresso médico, quando eu iria fazer minha prova de especialista em Pneumologia, e tive de ficar por uma semana inteira no Congresso para fazer a prova no final deste, e fiquei num hotel meia boca no Arpoador. E, claro, choveu quase todos os dias...

 

Lembro de fazer de ônibus o trajeto entre o Arpoador e o Hotel Glória, onde ocorria o congresso, e atentar para os nomes das ruas, e associar a letras de músicas, de todas as músicas que referenciavam o Rio de Janeiro que eu conhecia. Era circular por lá lembrando de músicas, de diferentes estilos e autores.

 

Anos depois, trabalhei em uma empresa situada no Rio de Janeiro, mais especificamente em Jacarepaguá. A maior parte do tempo o trabalho era viajando ou em home office (antes mesmo da pandemia). Mas, evidentemente, tive que ir diversas vezes à cidade. Só que não era – para mim, para mim – exatamente ir ao Rio de Janeiro como eu sempre pensei o Rio de Janeiro: a zonal sul (Copacabana, Ipanema, etc.). Não, chegava no Galeão, pegava um Uber que ia pela Linha Amarela, e ia direto trabalhar. E me hospedava ali perto mesmo ou na Barra. Poucas vezes passei pela zona sul, o que sempre me tirou a sensação de estar no Rio de Janeiro (minha visão de turista, de alguém não local).

 

A última vez que fui para lá, em dezembro de 2018, para checkup médico (estava gordo e estressado...) e uma reunião, fiquei três dias em um hotel em frente ao mar, na Barra. Minha despedida foi um caipirinha no terraço do hotel, olhando o mar...

 

Mas fugi do assunto.

 

Falava de música, do Tom Jobim, e do Rio de Janeiro.

 

Nunca vou esquecer da primeira vez que cheguei (e saí de lá) de avião, à noite, o processo de aproximação da cidade iluminada e com tempo claro, e me pegar cantando o ‘Samba do Avião’. Era uma conexão para um voo para os Estados Unidos, e era a minha primeira viagem de avião. A cidade cada vez mais próxima, e a música sem sair da minha cabeça...

 

Minha alma canta,
Vejo o Rio de Janeiro,
Estou morrendo de saudade.
Rio, teu mar, praias sem fim,
Rio, você foi feito pra mim.
Cristo Redentor 

Braços abertos sobre a Guanabara.
Este samba é só porque, Rio, eu gosto de você,
A morena vai sambar, Seu corpo todo balançar.
Rio de sol, de céu, de mar,
Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão
Este samba é só porque,
Rio, eu gosto de você,
A morena vai sambar,
Seu corpo todo balançar.
Aperte o cinto, vamos chegar,
Água brilhando, olha a pista chegando,
E vamos nós.
Aterrar


Um tempo em que ainda viajávamos...

 

Em breve, em breve. 


Até.

 

segunda-feira, dezembro 14, 2020

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia – Duzentos e Setenta e Cinco Dias)

 

Um texto não muito bem humorado.

 

O ano civil vai para sua última quinzena.

 

De agora até o início de 2021 serão pouco mais de duas semanas, mas parece que dois mil e vinte não terminará assim tão facilmente. Parece querer se arrastar por mais tempo, manter-nos presos a ele o quanto der, tentando de todo jeito se eternizar.

 

Falo da pandemia, claro.

 

Como havia falado, minha expectativa (esperança, agora sei) de que ao terminar dois mil e vinte tivéssemos superado essa fase maluca de distanciamento, de abraços ausentes e proximidades – quando ocorriam – culpadas, provou ser nada mais que isso, esperança. Continuamos sitiados pelo vírus e pelo medo, vítimas de governantes ou em descompasso com a realidade, negando o óbvio, ou pequenos tiranos tentando impor suas medidas irracionais baseadas “em ciência”. Seguimos ao sabor das ondas, nos cuidando do jeito que dá.

 

Quando se estimula que as pessoas denunciem seus pares por se reunirem, quando “premiam” quem se avança sobre a privacidade dos outros, é sinal de que há algo muito errado. O mais impressionante é que ninguém se espanta ou revolta com isso. A liberdade individual (que pressupõe responsabilidade) é cada vez mais um conceito etéreo, fluido, quando – obviamente - não deveria ser.

 

Eu só saio de casa de máscara desde o início da pandemia.

 

Eu trabalho de máscara e face shield.  

 

Eu tomo todo o cuidado possível, para não me contaminar e não contaminar os outros. Mas não estou histérico, nem fico contando isso como vantagem em redes sociais.

 

Estamos em uma prisão. Pelo vírus, pelo politicamente correto, pelo pensamento único que não admite contraditório. Estamos presos em uma narrativa escrita por quem quer nos dominar pelo medo. Uma hora isto tem que acabar.

 

E, por estar nessa prisão maluca, o jeito é viver um dia de cada vez.

 

Até.

domingo, outubro 18, 2020

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia – Duzentos e Dezoito Dias)

 

Perspectiva.

 

Um novo assunto velho.




 

Não consigo olhar o mar, independente de onde eu esteja, sem observar as ondas e pensar que a praia, seja Cidreira/RS ou Waikiki/Hawaii, é apenas uma ínfima porção do todo. Imagino o oceano como um todo, e não tem como não perceber que no fundo, bem no fundo, as praias todas são iguais. São apenas uma pequena borda de algo muito maior. Olhar o mar nos dá a dimensão da nossa insignificância diante do universo. É um chamado para a humildade.

 

Estivemos na praia esse final de semana que ora termina.

 

Lembrei disso ao caminhar na areia, vento soprando forte, sol sem nuvens, temperatura amena. Máscaras. Distanciamento. Fiz churrasco no sábado à noite. Conversas sobre a vida.




 

Descanso.

 

A semana que começa será mais corrida.

 

Seguimos.

 

Até.

 

 

domingo, agosto 09, 2020

A Sopa

Crônicas de uma Pandemia (Cento e Quarenta e Sete Dias)

Sobre o afeto.

Afeto requer proximidade. É tato, contato físico, sorriso, abraço. Mãos dadas. Afeto é estar junto. É vida.

Por isso que quando eu ouço os ditos especialistas falarem do que estão chamando de “novo normal”, da forma de como nos relacionaremos no pós-pandemia, fico incomodado. Parênteses. É impressionante como existem especialistas por aí por esses dias, boa parte deles falando muita coisa sem nenhuma base para isso, mas deixa para lá... Fecha parênteses. 

O que quero dizer é que – na verdade – ninguém sabe realmente como será o pós-pandemia, especialmente como será a essa questão da relação entre as pessoas. Eu, aqui do meu canto, e por ser um otimista sempre, acho que não mudará muita coisa no sentido de como nos relacionaremos. Somos seres afetivos.

Antes de mais nada, somos seres sociais.

E esse é grande parte do problema do isolamento e distanciamento que estamos vivendo desde março aqui no Sul do Mundo, em especial (que é de onde eu falo). Famílias separadas, amigos que ficam distantes pela impossibilidade da proximidade física. Os meios virtuais são ótimos, mas não substituem o toque, o sorriso presencial, o mundo real. 

Trabalhamos bem virtualmente, em regime de home office (quem pode, pelo tipo de trabalho). A vida organizada digitalmente funciona, todos aprendemos. Escritórios parecem que podem se tornar obsoletos, pode-se trabalhar em e para empresas de qualquer parte do mundo. Tudo muito bem.

Mas nada substitui o café do meio do dia, o encontro casual, a mesa de bar, o churrasco com os amigos. As confrarias, as turmas, as amizades. Nada substituiu os jantares de sábado ou os almoços de domingo em família.

Estamos cansados disso tudo, eu sei.

Além do medo do vírus (que é real, que requer cuidados), estamos lidando com o pânico instilado por grupos/pessoas com interesses diversos que querem nos manter aprisionados, e assustados, lidando com governantes que tomam decisões sem base no mundo real, e com toques de tirania. Mas não é de política que falo hoje, é de afeto, de carinho.

Por isso minha convicção de que quando tudo isso passar, e vai passar (a gripe espanhola, que era muito pior, num mundo que tinha muito menos recursos, passou), vamos voltar a estar juntos. Os abraços vão voltar, as parcerias, as confrarias retornarão.

Quero acreditar que não vai demorar muito.

Eu acredito, na verdade.   

Até.

quarta-feira, julho 15, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Cento e Vinte e Dois Dias

O futuro não existe.

E parecemos não querer sair do passado.

Em seu livro ’21 lições para o século 21’, o professor de História e escritor israelense Yuval Noah Harari (autor do campeão de vendas ‘Sapiens: Uma Breve História da Humanidade’) fala sobre os desafios que a humanidade está enfrentando e enfrentará neste século. Entre eles, a questão do trabalho.

Já há algum tempo se diz que a maior parte das crianças de hoje terá uma profissão (ou trabalho) que ainda não foi criada, tão rápida é a evolução da tecnologia (e do mundo) atual. E sabe-se que muitas das profissões, e – importante - muitos dos profissionais de hoje serão substituídos por máquinas, pela inteligência artificial, que melhora a cada dia, e – e breve – poderá substituir e substituirá algumas profissões antes impensáveis de serem executadas por “máquinas”, como por exemplo advocacia e a medicina. Parece maluco, mas não é.

Em determinado trecho deste capítulo, ele escreve “... se a Organização Mundial da Saúde identificar uma nova doença, ou se um laboratório produzir um novo remédio, é quase impossível atualizar todos os médicos do mundo quanto a esses avanços. Em contraste, mesmo que haja 10 bilhões de médicos de IA (inteligência artificial) no mundo – cada um monitorando a saúde de um único ser humano -, ainda poderá se atualizar todos ele numa fração de segundo, e todos serão capazes de dar uns aos outros feedbacks quanto às novas doenças ou remédios”.

Lembrei disso ao pensar no comportamento errático da OMS durante a atual pandemia do coronavírus que ora vivemos. Da politização do assunto, do clima de guerra de torcidas que se instalou quando se fala em tratamento, quarentenas, restrições, lockdowns e outros assuntos relacionados.

Como já falei anteriormente, é como se estivéssemos ainda em 1918, quando poderíamos estar em 2020... 

Fazer o quê?

Por aqui, no Sul do Mundo, a quarta-feira é fria e de sol.

Seguimos em frente, porque retroceder, nunca, render-se jamais.

Até.


domingo, junho 21, 2020

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia – Nonagésimo Oitavo Dia)

Minha bandeira é vermelha.

Por influência da família – avós, tios, e primos, principalmente – me tornei colorado, torcedor do Internacional de Porto Alegre, passando por cima dos meus pais, gremistas, que – de verdade – nunca estiveram muito aí para futebol. Desta forma, a pressão daqueles que se importavam acabou influenciando e sou torcedor. Sócio, até, apesar de já há tempos não frequentar estádios de futebol.

Futebol tem se tornado cada vez mais uma experiência individual. Eu, quieto, em frente à tevê, sozinho. O que provavelmente me torna o pior tipo de torcedor que existe: não “toco flauta” nos outros para que não encham o saco. Não dou essa intimidade a quase ninguém, e tenho uma relação respeitosa com amigos torcedores de outros times.

Mas não é disso que quero falar.

Minha bandeira já foi vermelha.

Jovem estudante, querendo mudar o mundo, acreditei na utopia de um mundo melhor e mais justo apregoada pelo PT no início dos anos 90. Quando do impeachment do presidente Collor de Mello, acompanhei a sessão da Câmara dos Deputados, em que foi aprovado, direto do Largo Glênio Peres, em pleno Centro de Porto Alegre, ao lado da Prefeitura, com uma multidão que comemorou a decisão histórica e que acabou virando um comício da campanha de Tarso Genro para a prefeitura, eleição que ocorreria semanas depois e que ele venceu e que a comemoração foi com um show no auditório Araújo Vianna em que o músico Vitor Ramil disse que “nada melhor que tocar Beatles para celebrar” e tocou Golden Slumbers ao piano. Desde então, sempre penso em ouvir Beatles quando quero celebrar algo. A música que escolhi para tocar na minha formatura, dois anos depois, foi – justamente – dos Beatles, Penny Lane, que tocaram  numa versão instrumental como se fosse o Ray Connif, mas essa é outra história... Votei no PT, admito, até a eleição de 2002, quando o meu voto ajudou a eleger o (hoje) condenado Lula presidente.  

O mensalão, a partir de 2005, que acompanhei atento do Canadá, foi o momento da revelação: essa minha bandeira não seria mais vermelha. Transitei, no espectro político, da esquerda festiva em direção centro e progressivamente em direção à direita. Cada vez mais acreditando na liberdade individual. Mas isso é outro assunto.

Minha bandeira jamais será vermelha.

Era o canto das pessoas em manifestações a favor do impeachment da ex-presidente Dilma, e depois durante a campanha eleitoral, cantando contra o PT e favor de qualquer um que não fosse das esquerdas. Estive em uma dessas, e esse canto sempre me incomodava, eu enquanto colorado... Mas é verdade. O que o PT e seus aliados representam é algo totalmente contrário ao que eu penso hoje em dia.

A bandeira agora é vermelha.

Para não dizer que não falei de flores.

Porto Alegre entrou ontem, segundo o modelo de distanciamento controlado do governo do Estado, em bandeira vermelha, o que significa alto risco de contaminação. Após três meses de pandemia no Brasil, desde que começaram as medidas de distanciamento, todo aquela conversa de achatar a curva para que o sistema de saúde não colapsasse, todo esse tempo disponível para que houvesse preparação para que isso não acontecesse, e chegamos aqui com a bandeira vermelha. Incompetência administrativa na gestão, em âmbito local e regional, me parece. Como escrevo isso ainda no calor dos acontecimentos, não quero ser definitivo. Não quero ser injusto, apesar de achar que tinha como ser feito diferente.

As medidas agora serão aumentar as restrições, e todos sofreremos com isso, talvez ainda mais do que antes, pois muitos investiram em estrutura para trabalhar com protocolos de saúde e segurança e agora terão que fechar novamente. Difícil.

Mas se tiver que ser assim, que seja. Paciência. Só não devemos esquecer os nomes de quem conduziu o processo para, lá no final, podermos julgar o que foi feito de certo e de errado.

Teremos que passar por mais isso, e passaremos, com certeza.

Força.

Até.

domingo, junho 14, 2020

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia – Nonagésimo Primeiro Dia)

Eu tenho usado tênis.

Durante muito tempo da minha vida, mesmo após formado médico e durante a residência médica, eu quase nunca usava sapatos. O meu dia-a-dia era usando tênis e calça jeans. 

Informal, como o meu jeito de ser.

Nunca fui uma pessoa formal, e meu modo de vestir refletia essa característica. Podemos dizer que estava em harmonia com quem eu era. Mas não era (é) exatamente o que se espera de um médico, diziam. Um médico deveria ser formal, aparentar sobriedade, o que se refletiria em sensação de segurança para os pacientes e colegas. Vestir-se para impor respeito.

Naquela época, mais de vinte anos atrás, havia uma querida funcionária do laboratório de função pulmonar do Hospital da PUCRS que dizia, assim que eu comecei a namorar a Jacque, que ela era responsável por eu melhorar em termos de vestuário, porque até ali eu me vestia “como um sem terra”... Ríamos disso, e rimos até hoje ao lembrar.

Não foi só a Jacque que foi responsável pela “melhora” de como eu me vestia, a necessidade de “parecer médico” foi outra razão, e usar sapatos ao invés de tênis foi apenas uma das mudanças. Tinha períodos em que me vestia de forma mais formal, e eventualmente até gravata usava. Durava um tempo, e depois voltava a um guarda-roupa menos formal. Sempre de sapatos, contudo.

Tênis, não mais.

Nem durante o fellow em Toronto, o traje mais formal durou muito tempo. Excetuando-se eventos realmente formais, normalmente era camisa e sapatos (mais ou menos sociais, variava um pouco). Não deixei de ser quem eu era, e o modo de vestir continuava refletindo o meu jeito de ser.

Eventos sociais formais pedem trajes formais, e continuo respeitando essa regra. Como durante os quatro anos como Presidente da Sociedade de Pneumologia do RS, nos Congressos e eventos. Durante o período em que trabalhei na indústria farmacêutica, por outro lado, logo antes de começarmos uma transmissão ao vivo de uma discussão sobre um congresso internacional que havíamos participado, recebi um recado no ouvido de que “calça jeans, nunca mais...”. Entendi e respeitei a orientação, porque tinha que me adaptar às regras do local em que trabalhava, e nunca tive problemas com isso.    

Após, no ano passado, ter sido encerrada minha relação trabalhista com a indústria (como já falei antes, um movimento que planejava fazer, apenas não no momento em que ocorreu, que acabou sendo muito bom, mas não importa mais) eu decidi permanecer por um tempo como profissional liberal, num período “sabático”, em que ficaria apenas atendendo o consultório, sem outras atividades. Sem chefe, sem regulamentos e normas a seguir.

O que não mudou a forma como eu me vestia. 

Mantive o meu “estilo” (para o bem e para o mal...).

Até que veio o coronavírus.

Quase não consigo mais ouvir ou falar desse assunto, como imagino que esteja sendo assim com todos vocês, estimados leitores. Não assisto noticiários na televisão, não entro em lives (exceto as de trabalho), não “dou corda" para alarmistas. Sigo cuidados como evitar aglomerações em locais fechados, manter distanciamento social, lavagem de mãos, uso de máscara em ambientes fechados (e por gentileza na rua).

Reconheço o privilégio que tenho por ter um teto, alimentação e uma reserva financeira que serve para nos manter por aqui mesmo sem emprego fixo e com o movimento de pacientes no consultório tendo diminuído mais de 80% mesmo nunca tendo deixado de estar disponível para atender. Mas, apesar de tudo, existem alguns pontos positivos em meio à pandemia. Ficar mais tempo em casa, depois de um período em que viajava toda semana, por exemplo, é muito bom. Estamos em casa levando bem, e fico tranquilo em saber que nossos pais, mães (da Jacque e meus) e demais familiares também estão física e emocionalmente segurando as pontas.

Mas – acima de tudo – tenho usado tênis.

Inicialmente, nos primeiros dias de isolamento, em que ia no consultório para atender um ou dois pacientes, e quando ainda não sabíamos muito bem o que estava acontecendo em termos de riscos de contaminação, decidi ir trabalhar de tênis, tênis esses que não entrariam mais dentro de casa (ficariam na área de serviço, onde seriam higienizados e tal). Fui usando, e acabei gostando. De novo.

E, lembrando de quando parei de usar tênis porque não “era adequado para um médico”, me dei conta da bobagem que era ou é isso. Não sei bem. Talvez naquela época fosse importante, mas hoje não é mais. É aquele papo de que “não preciso mais provar nada a ninguém”.

Se vou continuar usando apenas tênis?

Certamente não. Vou usar o que eu quiser.

Não é importante.

Até.

domingo, maio 31, 2020

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia – Septuagésimo Sétimo Dia)

Uma Sopa antiga, dos primeiros meses em que estava em Toronto, em 2004, mas com uma reflexão (para mim, para mim) que vale para esse período de incertezas e inseguranças.

O tempo passa e a vida continua mesmo eu não estando perto. 

Óbvia constatação, e verdadeira. 

Houve um tempo, contudo, em que não tínhamos essa certeza toda. Lembro de uma carta que o Radica me escreveu há muitos anos que falava sobre isso. Sobre aquela impressão de que tudo era um grande teatro armado para nós e, mesmo que às vezes olhássemos para trás subitamente, na tentativa de surpreender e vermos por trás do palco, os atores esperando para entrar em cena, nunca éramos rápidos o bastante, e tudo estava lá, todos estavam prontos. Também nunca consegui flagrar a armação, por mais que tenha tentado.

Pois é.
 
A vida continua, então, longe do nosso olhar, da nossa atenção. Agora, por estes dias, tenho a impressão de que ocorre o inverso: o tempo, os fatos, acontecem mais e mais rapidamente agora que estou longe. Que talvez a minha presença fosse importante para dar cadência, segurar o passo, puxar os arreios para o mundo não sair em desabalada carreira lomba abaixo.

Impressões, apenas. 

De qualquer forma, muita coisa tem acontecido. Boas e ruins. Casais que se encontram, outros que se separam, casamentos, nascimentos, pessoas queridas que se vão, outras que estão a caminho. A vida segue seu curso, independente de qualquer coisa. 

Antes de eu ir, a certeza de que eu voltaria diferente de quando parti, o que é inevitável que aconteça. Mas uma obviedade que não tinha passado pela minha cabeça: tudo vai estar diferente de quando fui embora. Exceto as pessoas fundamentais. A essas sou ligado por algo imutável. A essência. E essa não muda nunca. 

E assim seguimos em meio à pandemia...

Até.

quarta-feira, abril 22, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Trigésimo Oitavo Dia

A quarentena nos proporciona oportunidades.

Ficar a maior parte do tempo em casa tem sido interessante. Arrumações em armários e gavetas, doações de roupas, algum grau de desapego, estudo, e até escrever aqui, como vocês devem ter notado...

E assistir um pouco de televisão.

Além, é claro, de filmes e séries na Netflix e Amazon Prime Video, por exemplo. Muitas opções de grande qualidade disponíveis, o que é uma grande vantagem com relação ao tempo em que eu era estudante. Só que isso foi no milênio passado, não conta...

Mas falava de televisão, não de serviços de streaming

Aqui em casa praticamente não assistimos televisão aberta. Record, Rede TV, SBT, Band e Globo não são opções, apenas quando zapeando por entre os canais. A televisão por assinatura, por outro lado, parece um mar infinito de programas ruins. Descobri esses dias que existe um canal para cães, a (óbvio nome) DOG TV. Isso, para cães. Não para donos de cães, mas especificamente para os cães. Loucura. 

Eu, por exemplo, gosto dos programas sobre o Alasca e sobre montanhas.

Isolados no Alasca, Buying Alaska, Minha Casa nas Montanhas, Sobreviventes no Gelo, e variações sobre o tema. Além, é claro, dos programas de sobrevivência, tipo Desafio em Dose Dupla, e até Largados e Pelados. Sou um sobrevivente, no sofá de casa tomando chá... 

E ainda não era disso que eu queria falar quando iniciei essa conversa com você, caro leitor. Queria, de verdade, falar de filmes que passam nos canais da televisão por assinatura.

E de tubarões.

Ontem à tarde, feriado de Tiradentes, após ter terminado as tarefas de casa nestes dias de distanciamento social, liguei a televisão no exato momento em que estava iniciando no canal SYFY o primeiro filme da série “Sharknado”, título que é uma fusão das palavras ‘shark’ (tubarão) e tornado. Isso mesmo, um tornado de tubarões. A premissa do filme é a seguinte: forma-se um grande furacão no Oceano Pacífico que resulta em vários tornados que levam junto tubarões que acabam caindo na cidade de Los Angeles.

Não só isso, os tubarões caem do céu na cidade, e ao cair – mesmo durante a queda – eles atacam as pessoas. 

Pode-se pensar que o filme foi um fracasso. 

Sim? Pensam? Pensam?

Estão enganados.

O filme foi um tremendo sucesso de público, e teve continuações. A série teve ao todo seis filmes (!). Virou cult, por ser ruim. O último episódio, o sexto filme, lançado em 2018, envolve viagem no tempo. Pois é...

Vimos, a Jacque e eu, o filme ontem.

É daqueles classificados (classificação pessoal) como ‘não força’. Premissa maluca, roteiro inverossímil, efeitos visuais fracos. Engraçado por ruim. O problema é o final, que não vou contar. Passa de todos os limites.

Acho que vou assistir os outros.

Que a quarentena acabe logo, por favor...

Até.

segunda-feira, abril 13, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Vigésimo Nono Dia

Eu pequei.

Minha culpa, minha máxima culpa.

Confesso a vocês, contrito, um pecado cometido no final de semana que passou, no sábado, para ser mais preciso. À tarde. Por uma hora inteira.

Saí de casa.

Sozinho.

Para andar de bicicleta.

Durante cerca de uma hora, de roupa adequada, capacete, óculos e máscara facial, pedalei vinte e um quilômetros pelas ruas de Porto Alegre, parte pela orla, que estranhamente estava com o trânsito bloqueado para carros como normalmente fica, mas não deveria durante o período em que pouco devemos sair de casa. Não era o único (o que não diminui a gravidade do pecado). Diversas pessoas fazendo o mesmo, sozinhas ou no máximo em duplas. O menor movimento de carros tornou mais seguro trajeto que fiz.

O vento esteve contra boa parte do trajeto, em que minha preocupação maior variava entre os efeitos de um mês sem pedalar na força das pernas e me manter afastado de outros praticantes de exercício. Sempre usando a máscara facial, e ouvindo música, claro. A playlist chamada ‘Quarentena’, do Spotify

Foi estressante, confesso.

O pensamento recorrente era de que eu estava desrespeitando as regras de distanciamento social (apesar de estar sozinho, sem conversar com ninguém, procurando não me aproximar de ninguém) e de ficar em casa. Mesmo que o próprio Ministro da Saúde tenha dito que não teria problema. E se alguém me visse? Pior, se eu fosse fotografado e – na segunda-feira, hoje – eu aparecesse na capa do jornal com a manchete ‘Pneumologista não respeita a quarentena’. Paranoia, eu sei, mas vai saber...

Tinha me planejado me exercitar dessa forma no sábado e no domingo.

Desisti.

Não vale o estresse, e a hora é de ser solidário. Vou ficar em casa, para proteção de todos (exceto para ir ao consultório e ao mercado, comprar gêneros alimentícios).

De novo, aceitem minhas desculpas.

Até.