domingo, setembro 13, 2020

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia – Cento e Oitenta e Três Dias)

Amenidades. Ou não.


Falo daqui da minha bolha, como sempre.

 

E não é assim para todos? Tudo aquilo que vivemos, como vemos o mundo, nossa perspectiva de mundo, tudo isso mesmo, não é a visão de dentro da bolha? Vivemos em nossas bolhas de segurança, e a partir daí que emitimos nossas opiniões que ninguém pediu.

 

Assim são as redes sociais: pessoas julgando o mundo, o seu mundo, a partir de sua bolha. Gritando suas verdades, suas respostas a perguntas que em realidade ninguém fez. E eu?

 

Eu procuro não gritar, e – no máximo – convido as pessoas a virem aqui e quem sabe pensarmos juntos. Só entra quem quer, evito jogar minhas opiniões na cara dos outros. Penso que isso me exime um pouco da culpa, não estou obrigando a ninguém a vir aqui. Eu convido, e todos serão bem recebidos.

 

 Mas falava da minha bolha.

 

Procuro, ao máximo, exercer o que chamam de empatia, tentar me colocar no lugar dos outros para quem sabe entender o quê e o porquê de fazerem o que fazem e pensarem o que pensam. Olhar a realidade sob diferentes perspectivas. É um trabalho diário, árduo, que deve ser feito.

 

#

 

Hoje foi dia de treino de bicicleta pela manhã, que amanheceu nublada e úmida. Foram 25km, no único dia dos últimos dois finais de semana que pude sair, pela chuva. No somatório da semana, contudo, meta atingida. 

 

Enquanto andava, ouvia um podcast sobre Anarcocapitalismo. Em meio a um episódio que era uma entrevista, o entrevistador falou que já era velho, afinal já tinha quarenta anos. 

 

Quarenta anos!

 

O que dizer?

 

# 

 

Para não dizer que não falei de flores (e vírus).

 

Essa ideia de só voltarem as aulas quando houver vacina disponível é, além de pensamento mágico, de uma ingenuidade tocante. Daqueles momentos em que temos de sorrir, e dar tapinhas nas costas de quem falou e apenas murmurar “Pronto, pronto...”. E mais infantil ainda é a proposição de que só se retorne às atividades quando não houver risco nenhum. 

 

Um dos efeitos conhecido do isolamento social, da quarentena, é um certo de grau de prejuízo das funções cognitivas. Aqueles que defendem a manutenção das crianças em casa, mesmo com os gigantes prejuízos que todas as crianças terão, em maior ou menor grau, só pode estar com seu julgamento prejudicado. É o medo vencendo a razão.

 

#

 

Todos estamos cansados. Todos.

 

Mas temos que seguir com a vida, com os cuidados que o momento requer, sim, mas seguir com a vida.

 

E olhar para fora da bolha ajuda a entender o que se passa com os outros, em outras situações de vida.

 

Até.

sábado, setembro 12, 2020

Sábado (e quando vai voltar o sol?)

       Uma tarde de sol, há muito tempo... 

      Victoria/BC, Canada

      Maio/2013    

quinta-feira, setembro 10, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Cento e Oitenta Dias

Cento e oitenta dias de distanciamento social e pânico.


Que loucura. 


Ninguém, em seus mais loucos delírios, poderia imaginar que estaríamos há seis meses vivendo essa situação maluca de estarmos ainda com a vida meio em suspense devido ao coronavírus. Vivemos uma ficção.

 

Uma distopia.

 

Distopia, lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia. Essa é a melhor definição de 2020. Que vai acabar logo ali, afinal agosto acabou. Logo, o ano está acabando.

 

Esperamos que 2021, com ou sem vacina, seja melhor.

 

Com menos histeria.


Que saiamos de 1918 e cheguemos sãos e salvos ao século 21.


E que as crianças voltem às aulas bem antes disso.


Até.

 

 

quarta-feira, setembro 09, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Cento e Setenta e Nove Dias

Eu sou a favor da volta às aulas.

 

Mas entendo perfeitamente o resultado de uma pesquisa divulgada há poucos dias e que informa que cerca de 80% dos pais só quer voltar às aulas quando houver uma vacina disponível. Se eu baseasse minhas opiniões no que eu leio/ouço/vejo nos meios de comunicação ou mídias sociais, eu ainda estaria dentro de casa, vestindo um escafandro, com medo embaixo da cama. Porque é exatamente isso o que estão nos levando a pensar/fazer, de que – ao abrirmos a porta de casa – seremos atingidos por uma quantidade gigante de vírus que estão por aí e vamos morrer na hora.

 

Essa é, também, uma pandemia de desinformação.

 

Ou, para ser moderno, fake news. 

 

Até já falei isso em algum momento, nesses últimos seis meses (!) de pandemia aqui no Sul do Mundo. Essa é a primeira pandemia que temos informações (e desinformações) em tempo real. Para o bem, e para o mal. Quase ninguém sabe nada, e quase todos acham que sabem tudo (como é típico das redes sociais).

 

Sobre as aulas, sobre as crianças.

 

O que temos de dados sobre crianças e coronavírus?

 

Estudo publicado recentemente sobre casos que internaram no Reino Unido na pandemia. Entre janeiro e julho de 2020, em 260 hospitais da Inglaterra, Escócia e País de Gales, houve cerca de sessenta e nove mil e quinhentas internações hospitalares. Destes, em 138 hospitais foram internadas 651 pacientes com menos de 19 anos com diagnóstico confirmado de coronavírus (0,9% do total). Dos que internaram (651) e temos que lembrar que quem interna por princípio é um caso moderado a grave, 6 morreram (0,009% se calculei certo) de todos que internaram. Mais, todos os que infelizmente morreram tinham doenças (comorbidades) graves.

 

Também por isso sou favorável que as crianças voltam às aulas.


Não é necessário (imagino) falar do prejuízo que elas estão tendo pela falta de convivência com colegas, pela socialização. Pela ansiedade, por estarem “presas em casa”.

 

Saindo da bolha dos que realmente podem ficar em casa e ter aulas online, quantas crianças estão ficando em “creches” clandestinas, sem os menores cuidados sanitários, porque seus pais precisam trabalhar para sobreviver, vemos o quão importante é esse retorno. Sem falar na hipocrisia dos que não querem que seus filhos vão para a escola mas levam aos shoppings, praias, pracinhas, etc. Nada contra que os levem, mas vamos ser coerentes.

 

Vamos nos informar nas fontes adequadas. 

 

E os professores, você pode perguntar. Aqueles de grupo de risco, devem permanecer trabalhando de casa, sem dúvida nenhum. Assim como em todas as outras atividades, proteger grupos de risco. Os outros, com cuidados e protocolos, devem voltar, em minha opinião (e sou mais um dando “palpite”, eu sei).


Existem riscos? Sempre. Nossa função é reduzi-los o máximo que conseguirmos. E seguir a vida.

 

Mas educação não parece prioridade. Restaurantes, comércio e atividades de lazer devem estar a frente da educação? Todos têm seu pleito justo, mas não devemos deixar desinformação e política prejudicar – mais uma vez – o futuro de nossas crianças.

 

O que, em suma, é o futuro do país. 


Até.

domingo, setembro 06, 2020

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia – Cento e Setenta e Seis Dias)

Uma oportunidade perdida.


Já falei sobre o assunto anteriormente, mas sob outro enfoque. À época, escrevi sobre o Presidente, que havia perdido a chance histórica de ser o líder que conduziu o país durante a famosa pandemia de 2020, de ser quem uniu o país contra o inimigo comum, o coronavírus, mas que ele havia encolhido de tamanho durante essa crise.

 

Desde lá, ele falou menos, e – se não é o grande estadista que poderia ter sido – ao menos o seu governo vem trabalhando razoavelmente bem nesse período, com todas as dificuldades impostas pelo politizado STF e pela oposição do quanto pior melhor, e só não vê isso quem tem o olhar enviesado pelo rancor contra o governo. Até porque são os governos locais, estados e municípios, que têm a palavra final na hora de definir protocolos, restrições e fechamentos.

 

Mas não é de governos que quero falar.

 

Quem vem perdendo ainda mais durante a pandemia não é o Bolsonaro, apesar do que muitos podem pensar. Nem mesmo a esquerda, por mais que tente sabotar o país em prol de recuperar o poder perdido nas últimas eleições, “golpe” (no sentido de luta de boxe) ainda não assimilado. Também não são os empreendedores, os autônomos, ou os trabalhadores de empresas privadas. O grande perdedor é outro.

 

A grande mídia.

 

A oportunidade rara de recuperar sua credibilidade surgiu no início da pandemia, quando teve a chance de veicular informações baseadas em fatos, análises isentas e fazer prestação de serviços. Poderia sair da crise sendo respeitada como fora outrora. Lucraria muito com isso. Era a chance de ouro. 

 

Mas foi desperdiçada, com exceções, claro.

 

A oposição sistemática e quase irracional ao governo federal foi determinante para isso. Distorcer informações sempre com um viés contrário, a politização de temas médicos (que todos fizeram, lamentavelmente), tudo serviu para afundar muito mais a reputação de determinados grupos de comunicação e de jornalistas. Jornalistas comentando e jornais publicando estudos científicos conforme esses estudos reforçassem suas teses e ignorando aqueles que as contrariassem foi apenas um dos “vexames” que testemunhamos nos últimos meses. O mais recente foi sobre a declaração do Presidente de que “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”.

 

Foi um escândalo. “Especialistas” chamaram o Presidente de militante anti-vacina, dizendo que ele prestou um desserviço, que isso pode prejudicar a adesão à vacinação, etc. Uma nova crise estava criada.

 

Gostem ou não, ele estava certo ao afirmar isso.

 

Eu sou totalmente favorável às vacinas. Aliás, eu indico vacinas todos os dias no consultório, para gripe (influenza) e para a pneumonia. É parte do meu trabalho. Acho criminosos os pais que não vacinam seus filhos, inclusive. E até fui candidato voluntário (apesar de não selecionado) ao estudo com a vacina para o coronavírus. Em outras palavras, sou um entusiasta das vacinas.

 

Porém, “só” o que posso fazer é exatamente isso: apoiar, recomendar, indicar as vacinas. Para os meus pacientes, para os meus familiares. Mas não posso obrigá-los, forçá-los. Tenho que, isso sim, orientar informar, justificar. Convencê-los de que fazer a vacina – seja ela qual for – traz mais benefícios do que riscos.

 

E só.

 

Se vão fazer ou não, é uma decisão de cada um. Enquanto estivermos lúcidos e com nossa capacidade de decisão preservada, temos o direito de decidir o que queremos fazer ou não. Os riscos que nos dispomos a correr, baseados nas informações que temos. Por isso a importância da informação correta.

 

Aí leio em um jornal local que as pessoas que optarem por não se vacinarem (um erro, na minha opinião) deveriam assinar um termo dizendo que abrem mão de serem atendidas em UTI caso adoeçam. Seria uma forma de arcar com a responsabilidade de sua decisão. 

 

Sério isso?

 

Vamos olhar de outra forma, com outro exemplo. O mesmo poderia valer para quem fuma, então? Aqueles que optam por fumar devem abrir mão do atendimento caso adoeçam (lembrando que cinquenta por cento – metade – daqueles que fumam vão morrer por uma doença causada pelo cigarro, enquanto aqueles que fazem formas graves são uma parcela bem menor dos casos de COVID-19)? Vamos determinar a cessação compulsória do tabagismo (por mais que a ideia me agrade, de novo, tudo o que posso fazer é recomendar, orientar e informar)?  

 

Nada é tão simples, tão rasteiro.

 

Mas para criar crises com o governo central, vale tudo.

 
Até.

sábado, setembro 05, 2020

Sábado (e chove no Sul do Mundo)

 

      

     Lembrança de um verão pré-pandemia...

     Bom sábado a todos.

     Até.


quarta-feira, setembro 02, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Cento e Setenta e Um Dias

Uma falácia.

 

Antes, contudo, uma pergunta.

 

Fracassamos, como país, no enfrentamento da pandemia de coronavírus, como vários “pensadores”, intelectuais, jornalistas e palpiteiros não se cansam de afirmar, e a culpar o governo por isso? O Brasil está passando vergonha perante o mundo? Se formos ser honestos e tivermos um mínimo de imparcialidade em nossa análise, nossa resposta só pode ser uma.

 

Não.

 

Não é verdade que somos uma vergonha perante o mundo, que fracassamos retumbantemente no assunto. Isso é uma ideia que querem nos passar pessoas com vieses políticos, com interesses outros além de informar, outros que por ignorância ou má intenção distorcem números em prol de sua narrativa, e – claro – aqueles em que o instinto do medo é maior que a racionalidade. Para esses últimos, é importante informá-los para – na medida do possível – tranquilizá-los aos menos um pouco. Para os mal-intencionados e deturpadores dos fatos, bom, esses devemos ignorar.

 

Não estou dizendo aqui, que fique bem claro, que tudo está uma maravilha, evidentemente, nem que não existem problemas e dificuldades. Que somos perfeitos, que o governo só tem acertos. É claro que há problemas, principalmente de comunicação, mas esse não é o foco no momento.

 

Mas não estamos no fundo do poço.

 

Vamos detalhar um pouco do que quero dizer.

 

Morreram no Brasil mais de cento e vinte mil pessoas cujas mortes foram atribuídas à COVID-19. É certo que nem todas essas mortes foram devido ao coronavírus, muitas foram por outras causas em pacientes que estavam com o coronavírus. Muitas delas iriam ocorrer de qualquer maneira esse ano por outras causas. Mas isso não é importante agora. Qualquer morte evitável é sempre uma tragédia. E cento e vinte mil mortes são cento e vinte mil tragédias, nem todas evitáveis.

 

Mas usar o número total de mortes para atestar a incompetência do governo central, culpar o presidente atual por essas mortes é, além de incorreto, desonesto. Usar o número total é uma forma de aumentar o impacto que a informação causa em quem a recebe para reforçar o argumento negativo. De novo, qualquer morte é uma tragédia, mas temos que olhar a mortalidade em relação à população, para aí sim comparar com outros lugares. E a melhor (e mais correta) forma de fazer isso é comparar a mortalidade por milhão de habitantes. 

 

E aí é quando os números mudam de aspecto.

 

Quando falamos em mortalidade por milhão, outros países que já passaram pelo pior da pandemia – porque começou antes nesses locais – tiveram índices muito piores que o Brasil. Bélgica, Estados Unidos, Espanha, Itália, Reino Unido, Suécia, Chile e Peru, entre outros, apresentaram em algum momento uma taxa bem maior que o Brasil jamais teve. Mas isso ninguém fala, claro, porque contraria a narrativa. Não estou dizendo que as coisas estão muito bem no Brasil, mas temos que ter o cuidado de olhar as informações de maneira mais atenta. 

 

Não só isso, outras situações relacionadas e não relacionadas à pandemia nos são passadas com vieses (com distorções), e é nosso papel recebê-las com atenção, analisá-las com cautela, para não embarcarmos no expresso do fim do mundo.

 

Outra hora falo mais sobre isso.


Até