domingo, setembro 06, 2020

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia – Cento e Setenta e Seis Dias)

Uma oportunidade perdida.


Já falei sobre o assunto anteriormente, mas sob outro enfoque. À época, escrevi sobre o Presidente, que havia perdido a chance histórica de ser o líder que conduziu o país durante a famosa pandemia de 2020, de ser quem uniu o país contra o inimigo comum, o coronavírus, mas que ele havia encolhido de tamanho durante essa crise.

 

Desde lá, ele falou menos, e – se não é o grande estadista que poderia ter sido – ao menos o seu governo vem trabalhando razoavelmente bem nesse período, com todas as dificuldades impostas pelo politizado STF e pela oposição do quanto pior melhor, e só não vê isso quem tem o olhar enviesado pelo rancor contra o governo. Até porque são os governos locais, estados e municípios, que têm a palavra final na hora de definir protocolos, restrições e fechamentos.

 

Mas não é de governos que quero falar.

 

Quem vem perdendo ainda mais durante a pandemia não é o Bolsonaro, apesar do que muitos podem pensar. Nem mesmo a esquerda, por mais que tente sabotar o país em prol de recuperar o poder perdido nas últimas eleições, “golpe” (no sentido de luta de boxe) ainda não assimilado. Também não são os empreendedores, os autônomos, ou os trabalhadores de empresas privadas. O grande perdedor é outro.

 

A grande mídia.

 

A oportunidade rara de recuperar sua credibilidade surgiu no início da pandemia, quando teve a chance de veicular informações baseadas em fatos, análises isentas e fazer prestação de serviços. Poderia sair da crise sendo respeitada como fora outrora. Lucraria muito com isso. Era a chance de ouro. 

 

Mas foi desperdiçada, com exceções, claro.

 

A oposição sistemática e quase irracional ao governo federal foi determinante para isso. Distorcer informações sempre com um viés contrário, a politização de temas médicos (que todos fizeram, lamentavelmente), tudo serviu para afundar muito mais a reputação de determinados grupos de comunicação e de jornalistas. Jornalistas comentando e jornais publicando estudos científicos conforme esses estudos reforçassem suas teses e ignorando aqueles que as contrariassem foi apenas um dos “vexames” que testemunhamos nos últimos meses. O mais recente foi sobre a declaração do Presidente de que “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”.

 

Foi um escândalo. “Especialistas” chamaram o Presidente de militante anti-vacina, dizendo que ele prestou um desserviço, que isso pode prejudicar a adesão à vacinação, etc. Uma nova crise estava criada.

 

Gostem ou não, ele estava certo ao afirmar isso.

 

Eu sou totalmente favorável às vacinas. Aliás, eu indico vacinas todos os dias no consultório, para gripe (influenza) e para a pneumonia. É parte do meu trabalho. Acho criminosos os pais que não vacinam seus filhos, inclusive. E até fui candidato voluntário (apesar de não selecionado) ao estudo com a vacina para o coronavírus. Em outras palavras, sou um entusiasta das vacinas.

 

Porém, “só” o que posso fazer é exatamente isso: apoiar, recomendar, indicar as vacinas. Para os meus pacientes, para os meus familiares. Mas não posso obrigá-los, forçá-los. Tenho que, isso sim, orientar informar, justificar. Convencê-los de que fazer a vacina – seja ela qual for – traz mais benefícios do que riscos.

 

E só.

 

Se vão fazer ou não, é uma decisão de cada um. Enquanto estivermos lúcidos e com nossa capacidade de decisão preservada, temos o direito de decidir o que queremos fazer ou não. Os riscos que nos dispomos a correr, baseados nas informações que temos. Por isso a importância da informação correta.

 

Aí leio em um jornal local que as pessoas que optarem por não se vacinarem (um erro, na minha opinião) deveriam assinar um termo dizendo que abrem mão de serem atendidas em UTI caso adoeçam. Seria uma forma de arcar com a responsabilidade de sua decisão. 

 

Sério isso?

 

Vamos olhar de outra forma, com outro exemplo. O mesmo poderia valer para quem fuma, então? Aqueles que optam por fumar devem abrir mão do atendimento caso adoeçam (lembrando que cinquenta por cento – metade – daqueles que fumam vão morrer por uma doença causada pelo cigarro, enquanto aqueles que fazem formas graves são uma parcela bem menor dos casos de COVID-19)? Vamos determinar a cessação compulsória do tabagismo (por mais que a ideia me agrade, de novo, tudo o que posso fazer é recomendar, orientar e informar)?  

 

Nada é tão simples, tão rasteiro.

 

Mas para criar crises com o governo central, vale tudo.

 
Até.

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