sexta-feira, novembro 26, 2004

Crônicas de UTI - Parte 2

Recordando: na madrugada de 12 de agosto de 1990, após uma noite de festa com amigos, eu vinha de carona com um colega de faculdade e acho que nós dois pegamos no sono. Como ele estava dirigindo, as conseqüências foram ruins. Batemos com o carro em outro que estava estacionado, bem do meu lado. Resultado, traumatismo craniano em mim e treze dias em coma na UTI do hospital da PUC. Agora, em frente.

Desde que entrei na faculdade de medicina, e tive contato com o ambiente hospitalar, um das situações que mais me causava mal estar era assistir às enfermeiras passarem sondas nos pacientes. A pior delas, na minha curta experiência de estudante que acompanhava as aulas práticas de cuidados gerais com pacientes, era a sonda nasogástrica, que entrava pelo nariz e ia até o estômago. Tinha uma variante, mais fina, que ia até logo após o estômago, no duodeno, que servia para alimentar os pacientes.

Por isso, logo após acordar e me inteirar de onde eu estava (sim, era um hospital e, não, não era o Ernesto Dornelles) e ainda sem saber bem o que tinha acontecido, veio a primeira boa notícia: eu estava em uma UTI e não tinha nenhuma sonda em mim. Eu respirava com tranqüilidade, urinava em um recipiente chamado de ‘papagaio’ e – apesar de ficar com os pés para fora da cama – parecia inteiro. Internado na UTI do Hospital da PUC, o que teria acontecido? A única sensação que eu tinha era a de ter dormido muito, ainda sem saber que o muito significam 13 dias inteiros, do dia 12 ao dia 25 de agosto de 1990. Esperava um café na cama ou algo assim. Aliás, onde estava a minha mãe?

Ao acordar daquilo que – ficaria sabendo mais tarde – havia sido um período de treze dias em coma, as primeiras pessoas que eu vi era conhecidas: Alexandre Magno e Luciano Ery, colegas da faculdade de medicina. Estavam em um sábado de manhã no hospital, em um estágio na traumatologia, e resolveram ir dar uma “olhada” no colega na UTI. Por coincidência, me viram acordar. Acho que isso deveria ser por voltas das 10h30min da manhã, e ainda tive de esperar até à 13h para o horário da visita. Estava bem sonolento ainda, lembro de pouca coisa dessas 2h30 até começarem a entrar pessoas para me ver acordado, novamente. Não sabia, mas havia uma vigília na sala de espera da UTI, no terceiro andar do Hospital São Lucas, que tinha iniciado no dia do acidente e tinha sido permanente nestes longos (principalmente para quem não estava dormindo, como eu) dias em que se perguntavam se eu iria acordar e, se acordasse, como eu estaria. Mas isso é história para outra crônica. Voltemos ao sábado, 25 de agosto de 1990, logo após sair do coma.

A hora da visita foi uma festa, até porque o Luciano e o Magno já haviam contado a todos que eu acordara. Na meia hora regulamentar do horário de visitas, entraram para me ver talvez uma dezena de pessoas conhecidas, entre os meus pais, irmão, tios, e amigos. Como tinham pouco tempo, falavam pouco e rápido e tinham que sair para o próximo poder entrar. Todos sorridentes e felizes de me verem novamente acordado.

Eu estava de volta ao jogo, mas a recuperação de verdade recém iria iniciar.

2 comentários:

Anônimo disse...

Pois é, velho ! Que barra ! Eu já tinha ouvido essa história várias vezes, mas assim, escrita, fica mais dramática ! Bom, ainda bem que "podes"nos contar essa história e , entre perdas e ganhos, permanece entre nós !
Fuja da luz Tadday !!!!!!!!!
Um grande abraço do amigo Jéferson

Marcia disse...

Caramba Marcello, também nunca tinha lido o relato de alguem que esteve em coma, super emocionante...

Que bom você poder estar aqui contando esses "causos" né?

Abraços