domingo, abril 26, 2020

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia – Quadragésimo Segundo Dia)

Aos sábados, aqui n’A Sopa no Exílio, tradicionalmente publico uma foto aleatória. Usualmente fotos que eu tirei, de lugares ou histórias passadas. 

Ontem, não publiquei.

Por quê?

Não encontrei uma foto que me inspirasse. Simples assim.

Nada a ver com nada.

Para quem pensou que eu fosse falar do Bolsonaro, do Sérgio Moro ou do coronavírus, digo que não estou com vontade. Nenhuma. O que eu penso sobre o que aconteceu em Brasília entre quinta e sexta-feira? Mesmo sem vontade, respondo para você, solitário leitor.

Acabou o governo Bolsonaro. Perdeu o trem da história, como dizem.

Todos sempre soubemos que ele era (é) um cara limitado, mas que teve a competência de canalizar e personificar o oposto do que o partido aquele que não digo o nome representava e que levou o Brasil à maior crise de sua história. Além de ser o representante da insatisfação com “tudo isso aí”, após ganhar a eleição soube cercar-se de nomes técnicos e competentes para, como se diz, tocar o barco.

O seu governo vinha indo bem, com melhora nos indicadores econômicos, medidas sendo tomadas, mesmo que o chefe do estado criasse polêmicas desnecessárias (além daquelas falsas criadas pela imprensa). Parecia planejado: ele chamava a atenção, os holofotes, para si, e quem tinha de trabalhar conseguia trabalhar sem ninguém incomodar. Lamentavelmente, não era.

Foi quando veio a pandemia do coronavírus.

Esse é um daqueles momentos-chave na História, aquela com agá maiúsculo. É uma situação sem precedentes em gerações. E é justamente nesses momentos em que surgem os grandes líderes, que comandam nações durante a travessia por tempos nebulosos.

Bolsonaro poderia sair disso como um Churchill.  

O que estamos vendo, contudo, é o presidente encolher, ficar menor e insignificante a cada dia, a cada polêmica que cria. Tornando-se irrelevante.

Infelizmente.

Nunca é bom um Presidente, alguém que deve liderar o país, tornar-se pequeno para o cargo que ocupa. 

Perdemos todos.  

Até.

PS – ainda acho que seria pior com aquele outro, que nem lembramos o nome...

sexta-feira, abril 24, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Quadragésimo Dia

Quarenta dias de isolamento/distanciamento.

Mais ou menos isso. Um dia a mais, um dia a menos, não importa. A minha contagem pessoal da pandemia completa hoje quarenta dias.

Quarenta. Dias.

Segundo a Bíblia, o número quarenta é um sinal de arrependimento, indica um tempo de expectativa ou o tempo de Deus. Várias das histórias bíblicas estão associadas ao número quarenta.

Deus fez chover por quarenta dias e quarenta noites nos dias de Noé, e comeram apenas peixe enquanto estavam arca, razão pela qual os católicos historicamente abriram mão de carne vermelha durante a Quaresma. Moisés passou quarenta dias de jejum no Monte Sinai. O povo de Israel levou quarenta anos viajando para a Terra Prometida (mesmo que o Google Maps mostre que esse trajeto possa ser feito em bem menos tempo...). Elias passou quarenta dias e quarenta noites caminhando para o Monte Horeb. Jonas profetizou quarenta dias de julgamento para que Nínive se arrependesse. Jesus Cristo jejuou durante quarenta dias no deserto e foi tentado pelo demônio. Jesus esteve fisicamente morto por cerca de quarenta horas antes de ressuscitar.

Quarenta é um número significativo.

Como é possível perceber, quarenta dias são tempo suficiente para expiar pecados, para mostrar resiliência, para nos purificarmos. Chegamos, então, ao quadragésimo dia deste estranho e meio que surreal período de confinamento e distanciamento social. O que significa isso?

Nada.

Mesmo que surjam no horizonte alguns sinais de afrouxamento das medidas restritivas que vivemos, ainda não podemos antecipar quando estaremos reunidos com nossas famílias e amigos. Quando voltarão os churrascos e os encontros. Isso é o que frustra muita gente, a incerteza de quando isso acabará. 

Vamos vivendo, então, um dia após o outro, sem poder fazer grande planos para o futuro. Como alcoolistas em abstinência, focados apenas no hoje. Faço o melhor que posso hoje, e amanhã farei o melhor que puder. E assim seguimos.

O coronavírus está sendo, além de tudo, uma lição de humildade. 

Até.

quarta-feira, abril 22, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Trigésimo Oitavo Dia

A quarentena nos proporciona oportunidades.

Ficar a maior parte do tempo em casa tem sido interessante. Arrumações em armários e gavetas, doações de roupas, algum grau de desapego, estudo, e até escrever aqui, como vocês devem ter notado...

E assistir um pouco de televisão.

Além, é claro, de filmes e séries na Netflix e Amazon Prime Video, por exemplo. Muitas opções de grande qualidade disponíveis, o que é uma grande vantagem com relação ao tempo em que eu era estudante. Só que isso foi no milênio passado, não conta...

Mas falava de televisão, não de serviços de streaming. 

Aqui em casa praticamente não assistimos televisão aberta. Record, Rede TV, SBT, Band e Globo não são opções, apenas quando zapeando por entre os canais. A televisão por assinatura, por outro lado, parece um mar infinito de programas ruins. Descobri esses dias que existe um canal para cães, a (óbvio nome) DOG TV. Isso, para cães. Não para donos de cães, mas especificamente para os cães. Loucura. 

Eu, por exemplo, gosto dos programas sobre o Alasca e sobre montanhas.

Isolados no Alasca, Buying Alaska, Minha Casa nas Montanhas, Sobreviventes no Gelo, e variações sobre o tema. Além, é claro, dos programas de sobrevivência, tipo Desafio em Dose Dupla, e até Largados e Pelados. Sou um sobrevivente, no sofá de casa tomando chá... 

E ainda não era disso que eu queria falar quando iniciei essa conversa com você, caro leitor. Queria, de verdade, falar de filmes que passam nos canais da televisão por assinatura.

E de tubarões.

Ontem à tarde, feriado de Tiradentes, após ter terminado as tarefas de casa nestes dias de distanciamento social, liguei a televisão no exato momento em que estava iniciando no canal SYFY o primeiro filme da série “Sharknado”, título que é uma fusão das palavras ‘shark’ (tubarão) e tornado. Isso mesmo, um tornado de tubarões. A premissa do filme é a seguinte: forma-se um grande furacão no Oceano Pacífico que resulta em vários tornados que levam junto tubarões que acabam caindo na cidade de Los Angeles.

Não só isso, os tubarões caem do céu na cidade, e ao cair – mesmo durante a queda – eles atacam as pessoas. 

Pode-se pensar que o filme foi um fracasso. 

Sim? Pensam? Pensam?

Estão enganados.

O filme foi um tremendo sucesso de público, e teve continuações. A série teve ao todo seis filmes (!). Virou cult, por ser ruim. O último episódio, o sexto filme, lançado em 2018, envolve viagem no tempo. Pois é...

Vimos, a Jacque e eu, o filme ontem.

É daqueles classificados (classificação pessoal) como ‘não força’. Premissa maluca, roteiro inverossímil, efeitos visuais fracos. Engraçado por ruim. O problema é o final, que não vou contar. Passa de todos os limites.

Acho que vou assistir os outros.

Que a quarentena acabe logo, por favor...

Até.

domingo, abril 19, 2020

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia – Trigésimo Quinto Dia)

As noites, por esses dias de coronavírus, tem sido boas.

O tempo maior passado em casa, a quase ausência de atividades fora de casa no período da manhã, tem garantido horas adequadas de sono, como há muito não acontecia. Uma boa notícia em meio a tantas incertezas. A melhor qualidade de sono implica em mais e diversos sonhos. Com referencias ao passado e alguma coisa do presente.

Como outro dia que sonhei com a casa da praia, uma vez mais. A casa que foi vendida há algum tempo, mas que esteve presente em nossas vidas por longos anos. Volta e meia sonho com a casa, e sei que foi vendida, mesmo no sonho. Essa última vez, ela estava à venda, e por um preço bem barato. Meus pais, que estavam comigo, tentavam me convencer de que não valia à pena comprá-la de volta, pois estava velha, com cupins e necessitaria de muitos reparos. Não sei como terminou o sonho.

Mas me fez lembrar da casa, do lugar e da turma, a Turma do Muro, como anos depois nos denominamos. Mais do que tudo, lembrei de um tempo que – como todos os que vivemos – não volta mais.

A estação, verão. Litoral norte do Rio Grande do Sul, um balneário que depois virou cidade, Imbé. A rua, uma avenida chamada Rio Grande, que saía da ponte de Tramandaí e seguia, algo curva, em direção ao norte até o final da praia, onde acabavam as casas e havia uma grande área de vegetação rasteira e areia que ia terminar onde novamente começavam as casas, mas aí já estávamos no balneário ao lado, Morada do Sol (ou Presidente, as fronteiras do litoral são sempre imprecisas). Num pequeno trecho desta avenida, entre as também avenidas Santa Rosa e Garibaldi, no terço final da quadra, mais próxima à Garibaldi, ficava a Terra (Turma) do Muro.

Indo pela Av. Rio Grande em sentido ao norte, no lado direito, começava por um campo de futebol e uma casa, o campinho do Pimenta. Era ali que ocorriam os jogos de futebol de final de tarde em que jogavam os mais velhos e que durante anos assistimos até que fomos “promovidos” e passamos a jogar ali também, todos os finais de tarde do verão, de pés descalços. Ao lado da casa do Pimenta, estavam o campo de futebol e a casa do Adriano, com o muro – ponto de encontro da turma e que deu nome ao grupo – em frente. Era ali que nos encontrávamos todos os dias, manhã, tarde e noite, antes de sair e na volta das festas.

A casa do Adriano era uma casa de alvenaria, grande, térrea, com o gramado ao lado. No fundo, um balanço amarelo, destes para duas pessoas. Nos fundos da casa, havia um terreno baldio, onde uma vez cavamos uma cova rasa e enterramos o Vítor para depois assustar o Beto e o Fernando. Ao lado da casa do Adriano estava a do Titico, de nome José Antônio, mas que só era chamado assim por sua mãe quando ele havia feito algo que não devia. Era um chalé de madeira que depois foi revestido de tijolos. 

Em frente às casas do Adriano e do Titico, do outro lado da rua, estava a da Stefania, irmã mais velha dos menores que nós Ramiro (nem tanto) e Estevão. Uma casa de pedra, pintada de branco com portas e janelas escuras, sem muro frontal. Ela não fez parte da turma nos seus primórdios, pois ainda não passava o verão lá, e quando começou a passar suas férias em Imbé levou consigo duas amigas, a Mônica – de passagem fugaz pela turma – e a Juliana. Ao lado da casa da Stefania, finalmente, ficava a casa do Vítor, o mais velho da turma (três meses mais velho que eu) até a entrada do Paulo Marcelo, um mês mais velho que ele. Também deve ter sido um chalé de madeira que foi revestido de tijolos, mas não tenho lembrança de como era anteriormente.

Atravessando a rua novamente, depois da casa do Titico, havia duas casas, a do Marcelo, que morava em Gravataí e era dos mais velhos, mais ou menos cinco anos a mais que os mais velhos da nossa turma, e uma casa azul de madeira que ficava no fundo de um terreno cheio de altos pinheiros. Ao lado desta, em dois terrenos, estava a casa em que o Neni (meu irmão) e eu passávamos os verões, e que ainda aparece volta e meia em sonhos. 

Eram duas casas, a da frente, um chalé verde de madeira com janelas e portas brancas, e a casa dos fundos, de pedra, que havia sido uma garagem e foi aumentada para poder hospedar mais pessoas. A casa dos fundos era composta de uma copa/cozinha/garagem, com churrasqueira, fogão, geladeira, um banheiro (rosa, naquele tempo), uma salinha de estar e um grande quarto que fora dividido em dois. Com essa divisão, havia ficado com um quarto com duas camas e janela e a “solitária”, como chamávamos, um quarto pequeno sem janelas e duas camas, sendo uma de molas. Durante um tempo, dormíamos na casa da frente e depois, maiores, passamos a ficar na casa dos fundos, onde podíamos chegar a qualquer hora da madrugada que não acordaríamos o pai e a mãe.

Separada por um pequeno muro de cerca de 50cm, ficava a casa dos irmãos Beto e Fernando e seu primo Júlio César, o Julinho. Assim como a nossa, que fora do meu avô e foi herdada pelos meus pais, a casa deles era do avô comum. Por serem uma família grande, com vários irmãos e muitos primos, a casa estava sempre cheia. Em frente à casa deles, em diagonal, ficava a casa da Adriana. Ao lado desta, e já na esquina com a Av. Garibaldi, estava a casa das irmãs Claudine e Valerie. 

Este foi o núcleo geográfico inicial da ‘Turma do Muro’, que depois agregou territórios em outras ruas do Imbé, no caso dos irmãos Rafael e Tatiana, da Carla, da Laura, da Milene, do Duda, do Paulo Marcelo, do Tuca, da Ana Amélia – que dizia que ia ser Paquita – da Florence e até em Tramandaí, na casa do Fernandão, sede dos famosos churrascos anuais da Perversa (histórias para um dia desses).

Muitas histórias, muitas lembranças.

De tempos em tempos ainda nos reuníamos, o que agora não é uma opção, só que esses dias de distanciamento social faz bater aquela vontade de estar junto novamente, de lembrar de antigas histórias,  reconectar com nossa própria história, de nos lembrarmos quem fomos e quem somos. 

Até. 

sexta-feira, abril 17, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Trigésimo Terceiro Dia

Sexta-feira.

Não tenho vontade de falar de vírus.

A semana foi pesada, em termos de notícias relacionadas à pandemia. Houve a troca do Ministro da Saúde, o que mobilizou a maior parte das manchetes por esses dias. Difícil.

Eu achava que o Mandetta vinha bem, mas quem se importa com o que penso, não? O novo ministro parece competente como, de novo em minha opinião, era o anterior. Esperemos que tudo dê certo. Ainda estamos na expectativa dos pacientes, que ainda não chegaram.

Mas eu disse que não queria falar de vírus, afinal é sexta-feira.

Que é domingo, como quase todos os dias têm sido.

Mesmo assim, a semana está terminando, e tudo está tranquilo.

Nem sempre é assim, sabemos.

O dia foi em casa, de arrumação de armários. Invadimos o “quarto da bagunça”, e foi possível dar uma boa organizada. Temos uma boa quantidade de doações a serem feitas, roupas entre elas, que levaremos amanhã a quem precisa. À tarde, teve jogo de videogame com a Marina, antes da rotina de atividade física (mínimo de sessenta minutos diários).

Agora há pouco, fizemos hambúrguer.

Sono.

Até.

segunda-feira, abril 13, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Vigésimo Nono Dia

Eu pequei.

Minha culpa, minha máxima culpa.

Confesso a vocês, contrito, um pecado cometido no final de semana que passou, no sábado, para ser mais preciso. À tarde. Por uma hora inteira.

Saí de casa.

Sozinho.

Para andar de bicicleta.

Durante cerca de uma hora, de roupa adequada, capacete, óculos e máscara facial, pedalei vinte e um quilômetros pelas ruas de Porto Alegre, parte pela orla, que estranhamente estava com o trânsito bloqueado para carros como normalmente fica, mas não deveria durante o período em que pouco devemos sair de casa. Não era o único (o que não diminui a gravidade do pecado). Diversas pessoas fazendo o mesmo, sozinhas ou no máximo em duplas. O menor movimento de carros tornou mais seguro trajeto que fiz.

O vento esteve contra boa parte do trajeto, em que minha preocupação maior variava entre os efeitos de um mês sem pedalar na força das pernas e me manter afastado de outros praticantes de exercício. Sempre usando a máscara facial, e ouvindo música, claro. A playlist chamada ‘Quarentena’, do Spotify. 

Foi estressante, confesso.

O pensamento recorrente era de que eu estava desrespeitando as regras de distanciamento social (apesar de estar sozinho, sem conversar com ninguém, procurando não me aproximar de ninguém) e de ficar em casa. Mesmo que o próprio Ministro da Saúde tenha dito que não teria problema. E se alguém me visse? Pior, se eu fosse fotografado e – na segunda-feira, hoje – eu aparecesse na capa do jornal com a manchete ‘Pneumologista não respeita a quarentena’. Paranoia, eu sei, mas vai saber...

Tinha me planejado me exercitar dessa forma no sábado e no domingo.

Desisti.

Não vale o estresse, e a hora é de ser solidário. Vou ficar em casa, para proteção de todos (exceto para ir ao consultório e ao mercado, comprar gêneros alimentícios).

De novo, aceitem minhas desculpas.

Até.