quarta-feira, setembro 30, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Duzentos Dias

 Duzentos dias.

 

Inacreditáveis duzentos dias de pandemia aqui no Sul do Mundo. Erros (muitos) e acertos (alguns) ocorreram desde então, na forma com que se lidou com a situação. Ainda tenho a ideia de que nos comportamos, como um todo, população e governantes, como se ainda estivéssemos em 1918 e fosse a gripe espanhola nos aterrorizando. Falando em aterrorizar, já está descrita a mais nova fobia, a coronafobia. 

 

Sério.

 

Sabemos que, durante pandemias, o medo, a ansiedade e as preocupações são consequências psicológicas importantes. Não seria diferente agora, e já temos estudos descrevendo a coronafobia, o medo de ter COVID-19. A definição de coronafobia é “an excessive triggered response of fear of contracting the virus causing COVID-19, leading to accompanied excessive concern over physiological symptoms, significant stress about personal and occupational loss, increased reassurance and safety seeking behaviors, and avoidance of public places and situations, causing marked impairment in daily life functioning. The triggers involve situations or people involving probability of virus contraction, such as, meeting people, leaving house, travelling, reading the updates or news, falling ill or going for work outside”. 

 

Temos visto por aí, em maior ou menor gravidade, muitos casos de coronafobia. Informação séria, sem vieses ideológicos, pode ser parte do tratamento. Para alguns, é tudo o que é necessário.

 

E mesmo que tenhamos receios reais (e mesmo diversos imaginários) temos que seguir a vida, com as precauções de sempre. Lembrar sempre, também, que o vírus não é o único risco a que estamos potencialmente expostos.

 

Hoje de manhã, fui cortar o cabelo e aparar a barba. Numa barbearia, como faço desde que passei a cultivar a barba. Pequena distância de casa, vou andando. Chove na manhã quente de Porto Alegre. Chego no horário marcado, sou o primeiro cliente da manhã.

 

Cabelo cortado, passamos à barba.

 

Decido baixá-la bem, máquina um, porque facilita com relação à máscara que uso para trabalhar. Além disso, a ideia é deixá-la maior no inverno. Começa com a máquina (rasuradora em espanhol, informação irrelevante no momento) e, para os “ajustes precisos”, a navalha. É colocada uma toalha quente no rosto para amaciar a pele e, a seguir, com os olhos cobertos também por uma toalha (não quente dessa vez) é o momento de terminar o serviço em detalhes. 

 

É nesse momento que penso, de olhos fechados, uma toalha sobre meus olhos, que esse é o melhor momento para quem quisesse me assassinar. Uma navalha, meu pescoço ali, exposto, disponível. Seria muito simples. Uma simples passada da navalha com uma pressão maior, sobre a minha carótida, eu sentiria a dor aguda do corte, um líquido quente e viscoso escorrendo pelo meu pescoço por poucos segundos antes de perder a consciência, e minha cabeça pender para o lado, já sem vida.

 

Seria rápido, quase indolor.

 

Baixariam as cortinas do local para retirar o meu corpo da cadeira e limpar o sangue que estaria espalhado pelo local, aquele odor ocre de sangue coagulado. Numa sala no fundo do local (administrado pela máfia, numa liberdade criativa minha) meu corpo seria esquartejado e meu restos levados embora, apagando qualquer vestígio de que eu estivera algum dia.

 

Eu simplesmente desapareceria do mundo.

 

Seria procurado. Família e amigos fariam vigílias, correntes em redes sociais e colariam cartazes em postes. Tudo em vão. Com o tempo, eu seria a história do cara que saiu de casa para cortar o cabelo e nunca mais voltou.

 

Duzentos dias de pandemia.

 

Está na hora de acabar...

 

Até.

segunda-feira, setembro 28, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Cento e Noventa e Oito Dias

 Política.

 

Começou ontem, no Brasil, a campanha para as eleições desse ano, para Prefeitos e vereadores. Normalmente, o primeiro turno ocorreria no próximo final de semana, mas – devido ao ano atípico – será dia quinze de novembro. Portanto, nos próximos quarenta e poucos dias podem surgir por aqui, em meio aos meus escritos sobre a pandemia, um que outro texto sobre o assunto.

 

Vou falar do local, mas tentando ser mais amplo em minhas reflexões.

 

Hoje de manhã ocorreu o primeiro debate com os candidatos à Prefeitura de Porto Alegre. Treze ao todo. Foi transmitido pelo rádio e mostrado em redes sociais. De maneira inédita e não convencional (o coronavírus tem sido responsável por vários eventos não convencionais) o debate foi no formato drive-in.

 

Os candidatos estavam em seus carros estacionados no estacionamento da Rádio Gaúcha (ou da RBS, não tenho certeza), em Porto Alegre, com o mediador circulando por entre os carros, e dali puderam debater. Sem aglomerações e com distanciamento. Quando começou o debate, eu estava praticando atividade física (segundas e sextas-feiras faço logo de manhã) e ouvindo pelo celular.

 

Primeira pergunta, para uma candidata de esquerda, é sobre as melhorias a serem feitas em determinado bairro de Porto Alegre. A resposta, que começa chamando o Presidente da República de bandido e o atual Prefeito (ali presente, candidato à reeleição) de “proto-fascista”, não responde o que foi perguntado, apenas ataca pessoas. A segunda, para um candidato de extrema esquerda, é sobre o projeto para a cidade. A resposta, começa com um “não temos um plano para a cidade, mas sim para o país e o mundo, que é a revolução socialista e a implantação do comunismo”. 

 

Foi quando eu larguei de mão. Não preciso ouvir bobagens nesse nível.

 

É um grande teatro, todos sabemos. Esse primeiro debate serve – dizem – não para definirmos em quem votar, mas sim em quem não votar. Pode ser mesmo.


Mas eu sei em que eu não vou votar.

 

Qualquer candidato por partido que tenha comunismo no nome. Quem defende comunismo defende um fracasso completo e a morte de milhares de pessoas, assassinadas ou de fome. Partidos que sejam – desde o seu nome – uma falácia, com socialismo e liberdade, que nunca estão juntas. Quem defende regimes criminosos, como da Venezuela ou Cuba. Quem defende criminosos condenados, quem defende corruptos. Qualquer partido vinculado ao Foro de São Paulo.

 

Quem se diz a favor da tolerância, se investe de moralmente superior, mas chama qualquer um que pense diferente de “gado” e o agride, às vezes fisicamente. Quem escreve ‘amigxs’, ou amig@s” ao invés de amigos. 

 

Muitos em quem não votar.

 

Em quem votar?

 

Não sei, e nem é minha ideia ou intenção abrir o voto, ao menos por enquanto (se é que vai acontecer). Tem tempo para estudar, me informar melhor.

 

Mas saber o que não queremos para nossa cidade, estudo e país já é um bom começo.

 

Até.

domingo, setembro 27, 2020

A Sopa

 (Crônicas de uma Pandemia – Cento e Noventa e Sete Dias)

Confissões.


Por incrível que pareça para você, fiel leitor, nem todo mundo gosta de mim. Não sou uma unanimidade. Sério.

 

Verdade.

 

Entendo seu espanto, contudo. Como alguém pode não gostar de mim, um cara bem-humorado, simpático e modesto?


Falando sério, agora.

 

Acontece que, durante algum tempo, quando era mais novo e achava que precisava provar muita coisa para muita gente, eu realmente quis que todo mundo gostasse de mim. Foi duro descobrir que isso é impossível, por diversas razões. Desde as relacionadas a quem sou e aquilo quero para minha vida, até aquelas relacionadas às circunstâncias da vida e às outras pessoas. Nada é nada anormal que pessoas entrem e saiam de nossas vidas.

É um processo de seleção, isso o que vamos fazendo durante a vida. Encontramos pessoas, as conhecemos, nos conhecemos melhor por interagirmos com elas, nos reconhecemos nelas. Nem todos estão na mesma sintonia que nós, ou não estão no mesmo barco, seja lá o que isso quer dizer.

 

Procuramos aqueles que são parecidos conosco, com quem nos identificamos. E isso é muito mais marcado quando somos bem jovens, quando estamos formando nossa identidade social, digamos assim, que nada mais é que a forma com que o mundo nos vê e com a qual nos apresentamos.

Para reafirmar nossa própria identidade, procuramos aqueles que se identifiquem com quem somos, ou achamos que somos. É a fase das turmas, dos grupos, todos iguais, músicas iguais, roupas iguais. Lembro do All Star preto, que marcou uma fase. Tudo isso é importante e até fundamental para nos tornarmos adultos, para crescermos.

Chega um momento, porém, que aqui aquilo que somos não muda mais, ao menos não em essência. E chega o dia que percebemos que não podemos (e na verdade não queremos) agradar a todos, fazer todos gostarem de nós. Como toda revelação, que pode ser uma epifania ou não, não é tão simples, e por mais que alguém diga que foi tranquilo, nunca é. Tem gente que nunca consegue, e passa a vida se preocupando com o que os outros vão pensar. E tomando atitudes em virtude do que os outros vão pensar.


Muitas vezes, para chamar a atenção – pois precisam disso, de plateia, circo – criam polêmicas, agridem, tentar chocar os outros e, se e quando conseguem, ficam em estado de êxtase com as reações a suas provocações. Como muitos dos que escrevem em redes sociais. Criam polêmicas, acirrados debates, dão respostas agressivas quando, no fundo, são apenas crianças pedindo atenção. Eu não dou corda a esses provocadores. Não dou bola, que escrevam o que quiserem. Se eu não gostar, ou ficar ofendido, não leio mais, e tenho o poder de exclui-los de minhas relações, de bloqueá-los.


Outro problema que é íntimo desse é que tem muita gente que se leva muito a sério. Que se acha mais ou melhor que outros e saí por aí gritando isso. Vale para as redes e para a vida real. Esses, estão destinados ao esquecimento.


Eu não me levo tão a sério assim. Escrevo porque gosto e porque sinto necessidade de fazê-lo. O que escrevo é de minha única responsabilidade, e arco com as consequências do que digo e faço. Não preciso provar nada para ninguém, mas devo confessar que – de vez em quando - não consigo não pensar que ser quem eu sou e estar onde estou é uma forma de vingança contra alguns por aí que – além de não gostarem de mim – ainda tentaram puxa o meu tapete.


E não conseguiram. 


Até.

 

(um texto de quinze anos atrás, extremamente atual...)

sábado, setembro 26, 2020

quinta-feira, setembro 24, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Cento e Noventa e Quatro Dias

Vocês ainda lembram?

 

De como era lá em março, quando tudo isso começou?

 

Não falo da vida normal, do dia-a-dia, que alguns insistem em afirmar que não voltará a ser como antes, como – aliás – nunca é. Nada será como antes, amanhã, já diz a música. Nunca é e nem nunca somos, e volto às águas do rio de Heráclito, que nunca são cruzadas duas vezes, porque não são as mesmas águas e não somos os mesmos.

 

Estou falando, isso sim, do início da pandemia, quando – apavorados pelo não conhecimento do que acontecia – entramos em uma quarentena (in)voluntária para diminuir a disseminação do vírus, para que o sistema de saúde se preparasse para a sobrecarga de pacientes. Achatar a curva, esse o objetivo combinado.

 

E a achatamos.

 

Mas o que significava achatar a curva, afinal de contas?

 

Que o ritmo de infecção fosse reduzido a ponto de o número de casos graves não ultrapassasse a capacidade de atendimento, principalmente em termos de leitos de UTI e respiradores. Reforço bem esse ponto: reduzir o ritmo de infecção. Em nenhum momento se falou em evitar que as pessoas se infectassem em algum momento. Queríamos proteger aqueles em risco de formas graves. Nunca foi impedir o vírus de circular.

 

Até porque isso é impossível. 

 

Virus gonna virus, diz a expressão. Ou seja, o vírus vai circular, independente do que fizermos. O certo a ser feito é minimizar os seus efeitos na medida do possível, principalmente protegendo aqueles que são mais vulneráveis a ele. Idosos, portadores de doenças crônicas, obesos. Distanciamento social, evitar aglomerações em locais fechados, uso de máscaras, lavagem de mãos, álcool gel.

 

O problema é que em algum momento a narrativa (sempre a narrativa) mudou completamente. De achatamento da curva (velocidade menor na taxa de infecção e, consequentemente, de casos graves e mortes) passou-se a – mesmo que indiretamente, subliminarmente – pensar em ninguém se infectar. Desse pensamento para a ideia mágica de que as coisas só devem voltar a um certo normal com uma possível vacina foi um pequeno passo. Irracional, mas dentro de uma certa lógica.

 

E então misturaram no meio do caminho a política, e as coisas “pioraram”.

 

A cobertura negativa, alarmista e irresponsável às raias de ser criminosa de determinada parte da imprensa tem levado o grande público ao medo exagerado, com consequências bem ruins. E quem ousasse questionar qualquer um dos novos dogmas estabelecidos (“fique em casa”, “até agosto morrerão um milhão de brasileiros”, “a economia a gente vê depois”) era chamado de egoísta, genocida e terraplanista. A Suécia? “Experimento”, diziam. Berravam por aí que suas condutas eram “ciência”, como se fossem os donos da verdade. Nunca foram.

 

E nunca admitirão isso.

 

Em ciência devemos ser, antes de tudo, humildes. Nunca esquecer que, se enxergamos longe, é porque estamos sobre os ombros de gigantes. Os que vieram e estudaram antes do nós, que criaram hipóteses, as testaram, erraram, fizeram ajustes, novos estudos até chegaram a conclusões que serão verdadeiras até novos conhecimentos surgirem que substituem os atuais. Sempre foi assim. Sempre será.

 

Aqui no sul do mundo, onde o vírus chegou bem depois, parece que já passamos pelo pior, e a curva começa de cair. Observemos. Tentando olhar o mundo baseado nos fatos, não na narrativa de fim de mundo.

 

Até. 

terça-feira, setembro 22, 2020

Crônicas de uma Pandemia – Cento e Noventa e Dois Dias

 Primavera.

 

Sexta-feira passada escrevi um texto para publicar aqui. Seria mais um registro do meu Diário da Bolha, um tópico a parte dessas Crônicas de uma Pandemia. Contava um pouco da rotina por esses dias aqui dentro dessa bolha em que vivo. Falava de pessoas próximas, de como estão vivendo esse momento. Não revelava nada perturbador nem íntimo, reconhecia o privilégio que temos por estar vivendo aqui na bolha e – mais ainda – dizia estar ciente do sofrimento de muitos, doentes ou não.

 

Não o publiquei, contudo, e o deixei numa gaveta virtual para ler mais uma vez antes de fazê-lo. Revisar, reescrever talvez. Seria a Sopa de domingo. 

 

Não foi.

 

Outro tema atropelou e se impôs como a crônica dominical. Muito melhor, muito mais leve e mais poético, sob certo prisma. Fiquei feliz.

 

Porque isso muitas vezes acontece: uma história se impõe, nos coloca contra a parede e praticamente nos faz publicá-la sob coerção. A literatura tem dessas, e a música também. Acima de tudo, nesse caso, a Sopa que antecipava a primavera tinha que ser assim, mais leve, que nos fizesse sorrir (e foi assim comigo enquanto a escrevia) e acreditar que o longo inverno da pandemia vai acabar.

 

Sempre gostei a primavera por isso.

 

Recomeço.

 

A vida renascendo, os dias mais claros, as manhãs de sábado de sol (o melhor momento da semana). O verde dos parques mais verde que nunca. As pessoas mais leves, mais sorrisos e mais cores. O ano indo para o fim, já de olho no Natal e no novo ano que virá em pleno verão.

 

Pandemia ou não, tudo começa a melhorar a partir de agora.

 

Eu acredito.

 

Quanto ao texto de sexta, reli e reescrevi. Li mais uma vez, e não fiquei satisfeito. Mostrei para a Jacque (nunca mostro textos a ela antes de publicar), e ela concordou comigo. Coloquei, então, ele de volta em uma gaveta virtual: a dos textos que serão esquecidos.  

 

Não era importante.

 

Até.

domingo, setembro 20, 2020

A Sopa

(Crônicas de uma Pandemia – Cento e Noventa Dias)

 

Há mais de meio ano, a vida está em suspenso.

 

Apesar de sair de casa todos os dias, de ir ao hospital, trabalhar, fazer atividade física, fazer compras no supermercado, mesmo com essas atividades de vida diária ocorrendo quase como antes, sim, a vida permanece em suspenso. Não sabemos como será o próximo dia, riscamos o calendário (mesmo que virtualmente) cada dia que termina, pois é mais um que se foi e menos um até o final dessa prisão.

 

Isso. Estamos presos desde março, e não sabemos até quando.

 

Quando voltaremos a vivermos de forma leve, sem máscaras (reais e imaginárias). Aliás, quantas máscaras caíram nesses dias de pandemia?

 

Deixa para lá.

 

Penso no que estamos perdendo, do que estamos sendo privados. E volto ao princípio da churrasqueira em casa, que tem o seguinte enunciado: Se vou fazer churrasco ou não, não importa. O importante é o poder fazer, caso eu queira. O que isso tem a ver com a pandemia?

 

Existem atividades/situações que eram ou não habituais, semanais, eventuais, circunstanciais ou não, e que tem feito muita falta. Pode-se argumentar que essa sensação é só porque não são possíveis os encontros sociais no momento, e é verdade, e não importa.

 

O almoço de domingo na casa dos meus pais. O almoço de sábado com os meus sogros e a Karina. As idas à Montenegro na casa do Giba. Os almoços e jantares de família aqui em casa. Os churrascos no Tio Vicente. Os Ein Prosit cantados pelos Lehmann. Nova York, no Brooklyn. Os planos de viagem. O churrasco de sexta-feira na Porto Belo com o Xandi, que já não fazíamos há alguns anos por incompatibilidade de horários. A reunião da Turma do Muro. Os encontros com o Radica (que voltou a morar em Porto Alegre depois de quase dez anos) e o Márcio. Os encontros (e os planos de viagem) com o Pedro e a Zeca. As reuniões do Trio Rainbow (Giovana, Sofia e Marina) e os planos de viagem. Os churrascos das famílias da turma da Marina do Bom Conselho. Os Churras da Libertadores que já há tempos não tem nada a ver com a Libertadores. As quartas-feiras de manhã na radiologia do Pavilhão Pereira Filho com o Thiago e a Ana. As tardes de quarta-feira no ambulatório de Fibrose Cística da PUC. Os almoços de quinta-feira no Leco, na mesa redonda reservada para nós. A pescaria na Argentina que teria sido semana passada, que seria a minha primeira com o grupo do almoço e o Magno junto. As antigas noites em que ficávamos aqui em casa conversando e tocando música até madrugada, e o Magno acabava dormindo no sofá na sala que já não existe mais. As Sopas de Ervilhas Anuais do Marcelo. As noites em claro caminhando por Porto Alegre. Os encontros com os colegas da Escola Técnica de Comércio. E com os colegas do primeiro grau. Os pequenos eventos de laboratório em que jantávamos, tomávamos vinho e ríamos muito até às dez horas da noite, quando era hora de voltar. O Passo de Brenner. Rasun di Sopra no Natal. Carnaval em Innsbrück. Uma foto Beatle em Dobbiacco. Neve em Banff e Lake Louise Inn. Utah Beah e Omaha. Os Perdidos na Espace. Os planos de viagem. Mesmo as memórias mais antigas, pessoas e lugares que estão no passado e não voltam mais, como a casa dos meus avós em Montenegro e a iluminação noturna na época do Natal, o silêncio após o almoço e o sol alto dos verões no Imbé, na casa que não existe mais em meu mundo, as manhãs de sábado de sol de verão. A vontade de morar um tempo fora do Brasil. Os planos de viagem.

 

O isolamento e o distanciamento também nos fazem voltar no tempo.

 

Seis meses de reclusão até aqui.

 

Vai acabar. 

 

Até.