quarta-feira, abril 13, 2005

Escrever

Muitas vezes, escrever uma crônica diária (ou mesmo semanal) é tão difícil quanto um parto a fórceps. Senta-se em frente ao computador de olho na tela branca, esperando a inspiração aparecer, sempre cogitando escrever sobre a falta de inspiração, maneira fácil de enrolar o leitor, como parece que estou fazendo agora. Parece, mas não estou. Por mais que vocês concluam que eu estou fazendo, vocês estão enganados. (Viu como é fácil? Enchi um parágrafo inteiro).

Mas eu queria falar de sensibilidade, de estar aberto ao mundo ao redor, captar as histórias que estão por aí, etéreas, esperando para serem contadas. O mesmo fenômeno ocorre com a música. Penso que nas vezes em que não surge assunto é porque não estamos sensíveis ao que nos cerca, ao mundo. Por outro lado, é porque estamos conectados com a “Grande História do Mundo”, da qual todas pequenas (ou grandes) histórias são parte, que algumas vezes a história “se atira” na nossa frente.

Como no caso do homem com a tatuagem entre parênteses. Estava saindo de uma lancheria (restaurante, se preferirem) quando passou por mim uma pessoa que tinha ideogramas chineses tatuados no braço direito. Entre parênteses! Aquilo me intrigou profundamente. O que significava aquilo? Uma seita, um culto, uma mensagem ou uma indecisão? Algo como “O Senhor é meu pastor. Ou não.” Talvez significasse “Eu amo Rosa, mas sem exageros”. Ou “Este lado para cima”. “Produto japonês, mas fabricado em São Sebastião da Boa-Vontade”. Quem pode saber...

Os parênteses são um recurso da gramática que eu admiro com sinceridade, porque eles são a mensagem subliminar, são o pensamento oculto, muitas vezes a ironia. O poder de usar os parênteses não devia ser outorgado a qualquer um. Aliás, acho que só deveriam ter o direito de usá-los pessoas treinadas para tal tarefa, cujas qualificações teriam sido testadas e certificadas previamente. Todo texto com parênteses bem utilizados poderia vir com um selo de autenticidade e certificação de origem.

Para aqueles que os usassem de maneira leviana seriam aplicadas multas. Casos reincidentes seriam punidos com afastamento do convívio social, pelos menos em bibliotecas. Na verdade, acho que deveriam ser punidos também os assassinos de vírgulas, dos negligentes com acentos e outros criminosos da Língua Portuguesa.

(Publicado n'A Sopa em 2004, antes do blog)

2 comentários:

Ana disse...

Concordo. Por isso mesmo o meu blog e mais diario do que tudo e,tambem, o que se passa no meu mundo, uma forma de liberar minha tagarelice! Mas ate eu as vezes fico sem saber do que falar e encho linguica so pra nao desanimar e sumir por mais de 1 dia inteiro! Quando voce chega em Toronto?! Beijo!

Allan Robert P. J. disse...

Não tenho grandes problemas em escrever. Talvez os teria se escrevesse coisas sérias, mas não é o meu caso. Concordo quanto aos parênteses: onde devo assinar?
Qauanto às tatuagens com ideogramas chineses, aqui na Itália é moda: escreve-se o próprio nome ...em chinês! Um pequeno detalhe que os tatuados desconhecem é que não existe a tradução de nomes ocidentais para o chinês. Na realidade, a tatuagem é uma montagem de sons que se assemelham ao nome do desavisado, pois, como você disse, são "ideogramas" e não letras.
Ciao