domingo, março 13, 2005

A Sopa 04/34

Sábado à noite em Toronto.

Após participar virtualmente de um churrasco na casa do Paulo e da Karina em Porto Alegre, com direito a assistir junto com eles a um vídeo do final de semana em que foram ao Vila Ventura, um ecoresort que fica em Viamão, cidade localizada a 17km de Porto Alegre, e depois de ter conversado com o meu irmão (em Nova York) e minha mãe (também em Porto Alegre), desliguei o computador, preparei a minha janta (ontem, hamburgers) e fui ver televisão.

Passando de um canal a outro, descobri, logo em seu início, o filme que veria: Groundhog Day (no Brasil, O Feitiço do Tempo), com o Bill Muray e a Andie MacDowell nos papéis principais. É um filme de 1993, e conta a história de Phil (Bill Muray) um repórter do tempo que é mandado pelo quarto ano consecutivo para cobrir a história da marmota que prevê o tempo. É uma tradição na América do Norte, e a mais famosa delas é ‘Phil’ a marmota de Punxsutawney, Pennsylvania, que no dia 02 de fevereiro sai de sua toca e, caso ela veja sua sombra, serão mais seis semanas de inverno (em 2005, por exemplo, ela viu a sua sombra).

No filme, Phil, o humano, não consegue esconder sua frustração em ter que repetir, ano após ano, a mesma reportagem, e tudo o que ele quer é fazer seu boletim e sair da cidade o mais rápido possível. O que acontece, então, é que a região é atingida por uma tempestade de neve e eles ficam sem ter como deixar a cidade. E aí começa o filme de verdade.

Ao acordar no dia seguinte, estupefato, Phil (o humano, não vou mais falar da marmota a partir de agora) descobre que está de volta ao dia anterior, que ele está vivendo tudo o que passou no dia anterior e só ele se dá conta disso. E percebe-se, então, preso no mesmo dia, que se repete sempre.

Apesar de ser uma comédia, romântica até, um filme leve, ele traz consigo algumas questões bem interessantes relacionadas com – e muito já falei disso e muito ainda vou falar – a passagem do tempo, a possibilidade de se refazer caminhos, repensar a vida, e até mesmo sobre o que significa a rotina nesse contexto.

Logo que descobre que está vivendo sempre o mesmo dia, e que as consequências do que faz no dia não se estendem para o próximo mesmo dia, ele usa isso como uma vantagem, por exemplo, para conquistas amorosas. Aos poucos, contudo, ele passa da fase da sensação de ser Deus (sabe tudo sobre todos e o que vai acontecer) para a de sentir-se condenado a viver o resto da eternidade no mesmo lugar, vendo as mesmas pessoas e fazendo as mesmas coisas todos os dias.

Mas, no final das contas, não é esse mesmo o destino de todos? Não estamos nós, humanos, condenados a isso também? Ou, me corrijo, não optamos nós por viver assim?

A rotina serve para nos dar referências, de certa forma segurança. Mas é ela também que nos “amarra” aos mesmo rituais diários, às mesmas práticas. E, muitas vezes, nos impede de experimentarmos coisas novas. A crença na necessidade de nos sentirmos seguros o tempo todo é o que nos bloqueia o acesso ao novo, ao inusitado.

Vivemos – não todos, a maioria - o mesmo dia por opção, por medo até. Muitas vezes temos a chance de trocarmos de dia (novas e diferentes práticas) mas decidimos ficar por receio de dar um passo em frente. Algumas raras vezes esse passo é rumo ao desconhecido, mas – na maioria delas – é simplesmente por um caminho um pouco diferente daquele que estamos acostumados.

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O ano do galo

by Lucia Stenzel

Tudo começou com o ano do galo e o conselho para os futuros pombinhos para não se casarem no ano novo chinês que se inicia. Foi uma enxurrada de asiáticos nas igrejas para aproveitar os últimos minutos que garantiam a felicidade eterna para aqueles que decidiram juntar os trapos ainda este ano. Casais vestindo branco e fazendo juras de amor eterno do outro lado do mundo, e aqui parece que ninguém deu ouvidos aos avisos orientais.

Lá estou no Zaffari Higienópolis olhando a lista de presentes de duas amigas que se casam no dia 19 de março. E parece que não foram só elas que não olharam as notícias dos jornais e os constantes avisos das péssimas previsões do tal galo, pois a atendente me disse que nunca viu tanto casório reservado na mesma data. Deve ser pelo feriado de Páscoa na semana seguinte, pois as razões que definem um casamento hoje em dia não são as mesmas de antigamente. Não se escolhe a data porque “esta foi aquela que marcou o nosso primeiro beijo”, mas porque “assim a gente emenda a folga com a lua de mel”. Que coisa pouco romântica! Os acordos nupciais hoje não combinam nem um pouco com romantismo de antigamente.

A hora do cafezinho
As razões que levavam os pombinhos para o altar antigamente não são as mesmas de hoje, bem como não são as mesmas desculpas para as escapadelas conjugais que descasam muita gente. Sempre ouvi dizer que motel fica cheio na hora do almoço. Ouvi dizer. Hora em que galos encontram galinhas nos puleiros alheios. Sabia que a rotina era antiga; que as vezes muda de almoço para sobremesa, mas que um dia já foi chamada de “hora do cafezinho”, isso eu não sabia! Compreensivel. Os jovens esposos tinham que almoçar em casa, e como uma jovem prendada e recém casada não dispensava a sobremesa, só restava o cafezinho para o tal sujeito. Tinha que ser rápido. Ou queima a boca ou bebe frio.

Pensa que galos e galinhas são facilmente reconhecidos? Que nada! Coisa difícil é descobrir quem anda tomando muito cafezinho por aí. Mas os solteiros… Estes parecem que andam com uma faixa de identificação na testa denunciando o estado civil. Não faltam conselhos, sugestões, propostas, simpatias e frases imbecis. Outro dia escutei esta: depois dos trinta a mulher já saiu da “faixa do acasalamento”. Faixa do acasalamento? Que conversa de bicho é esta? E mesmo com tanta pulada de cerca o pessoal segue querendo se acasalar.

Desacasalamentos
No dia 19 de março tenho então estes dois casamentos, e enquanto a festa não começa tenho acompanhado quatro “desacasalamentos”. Um deles durou bem pouco, três meses, depois dos longos anos de namoro, que foram quinze. Mas estes anos de namoro a gente não conta, pois só vale mesmo quando o sujeito pisa na igreja e da de cara com a frase que promete fidelidade “na saúde e na doença, na alegria e na tristeza”. Ô frase difícil de se repetir esta. Nem vem dizer que ele se assustou por juntar as escovas de dentes, pois estas já dividiam o mesmo espaço há quinze anos! O que deu no cara a gente não sabe, mas arrumou as malas e se foi. Não aguentou a maldição do galo: pular de puleiro em puleiro.

Na outra história o cara também deu uma de galo: enquanto namorava a minha amiga, enrrolava a outra. Prometia casamento para a namorada e fugia do casamento com a noiva. A noiva de outra cidade, o que garantia a distância da promessa. A namorada da mesma cidade, e bem próxima das juras eternas. E assim o bicho ia de puleiro em puleiro achando que ficaria impune as trocadelas. A namorada descobriu e contou tudo para a noiva bem na hora do cafezinho. Fim deste romance também.

Na terceira história o cara foi a vítima…, coitado. As razões para a minha amiga ter batido a porta na cara dele e sumido para sempre: “ele me fez uma pergunta imbecil”. Vítima de uma frase mal colocada depois de uma noite mal dormida. Assim como o dia se transforma em noite, quem era príncipe virou sapo. Uma frase foi suficiente para terminar com uma paixão avassaladora. Resta o encontro para dividir a última aquisição do casal: uma maquina de lavar roupa suja. Está lá, novinha…, nunca foi usada.

Bom, a quarta história só podia ser minha mesmo. Razão: leio os jornais e não sou louca a ponto de me acasalar no ano do galo!

4 comentários:

Luly :) disse...

Oi, Marcelo!

Adoro esse filme, já assisti 'n' vezes e acho um barato!!

Sobre o post de sexta-feira, também ODEIO quem assassina a língua portuguesa de propósito!!! Acho INSUPORTÁVEL ler qualquer coisa naquela "línguagem"... Tô contigo nesse protesto!!

Bjoca

Luly :)

Ana Celia disse...

Tbem assisti esse filme e adorei!

Bjs,
Ana

Mirella disse...

Oi Marcelo,
Eu odeio rotina, odeio fazer a mesma coisa... por enquanto quero novidade e fujo de qualuqer coisa que me faz parar...
Terei tempo de ficar na rotina, quando os pimpolhos aparecerem...
Mas adorei, o "lição de moral" do filme...
[]s

Deise disse...

Oi Marcelo! Adorei o texto da Lucia Stenzel..Ontem eu estava na casa de uma amiga e ela me disse que se o namorado dela comecasse com: domingo eh dia de futebol, segunda de clube da leitura, terca karate, quarta musculacao, quinta reuniao de negocios, sexta happy hour com o pessoal do escritorio, sabado cervejinha com os amigos...Ela diria que para ela nao tinha problema, que na casa dela tem sexo todo dia, quem esta faz!
Beijos.