quinta-feira, março 10, 2005

Surpresas

Acordei antes do despertador tocar.

De cara, venho a lembrança do sonho que acabara de ter. Não sei exatamente como, mas eu estava num hospital, em estado grave. Não, eu estava morto.

Eu me via no leito da UTI, mas sabia que eu tinha morrido. O primeiro pensamento: isso é estar morto? Tenho consciência de estar morto e, além disso, continuo acompanhando o que se passa no mundo dos vivos? I don’t see dead people, I am a dead one?!.

Loucura. Lembrei do Mário Quintana: “Morrer é fácil, o difícil é deixar de viver”. “Então, quando se morre não acaba tudo?”, pensei ainda em sonho. Que coisa.

Depois, a rotina. Café da manhã lendo jornais na web antes de ir para o hospital. Na hora de pegar o streetcar, a surpresa desagradável: tinha alguém sentado no meu lugar. O mesmo senhor que sempre senta no banco da frente do meu, e que desce não muito depois dali. Será que ele também fica todos os dias frustrado porque eu sento no lugar dele?

Dia normal de hospital, porém descobri que tinha uma palestra ao meio-dia num outro hospital (St Micheal’s) e que seria bom eu ir. O problema é que não deu tempo de almoçar antes de ir. No caminho, a dúvida: teria lanche junto com a palestra. Tinha quase certeza que sim, afinal é hábito aqui para os eventos que ocorrem do meio-dia à uma hora da tarde. Chegando lá, pacote completo: lanche, palestra e siesta. Certo, esta última não estava nos planos, mas…

Ao voltar para casa, quando atravessava a rua, ouvi chamarem o meu nome, algo extremamente raro aqui em Toronto. Era a Monique, que me contou que havia encontrado uma loja que vendia erva-mate brasileira. Mostrou e era a Canarias, erva produzida em Lajeado-RS para exportação, a mesma que eu comprara há algumas semanas. O problema: não é moída, então não serve para o chimarrão. Comentei com ela que estava esperando a chegada, via correio, de dois quilos que a Jacque tinha me mandado, mas que só deveria chegar em uns dez dias.

Qual não foi minha supresa, ao chegar em casa, e ver um comunicado do correio para eu ir buscar um pacote que chegara para mim. Nem entrei em casa. Larguei a mochila na entrada e fui ao correio.

Chegou a erva de chimarrão e alguns acepipes para acompanhar. Em homenagem a isso, quebrei uma tradição minha. Não esperei o sábado, e fiz hoje o “Chimarrão com milonga”. Agora, enquanto termino de escrever este pequeno texto, tomo o verdadeiro chimarrão gaúcho e escuto as ramilongas do Vítor.

E como diria João da Cunha Vargas:

“Bebida amarga da raça, que adoça meu coração”



Por Aí

Lembra do quanto amanhecemos
Com a luz acesa
Nos papos mais estranhos
Sonhando de verdade
Salvar a humanidade
Ao redor da mesa

Sábias teses e ilusões sem fim
Ying, Jung, I Ching e outras cabalas
Procurando deus entre as folhagens do jardim

Que tolos fomos nós, que bom que foi assim
Que achamos um lugar pra ter razão
Distantes de quem pensa que o melhor da vida
É uma estrada estreita e feita de cobiça
Que nunca vai passar por aqui

Lembra de longas primaveras
De andar pela cidade
Saudando novas eras
Sonhando com certeza
Salvar a natureza
Ao final da tarde

Cegas crenças, lixo oriental
Ying, Jung, I Ching e outras balelas
Procurando deus entre as macegas do quintal

Seremos sempre assim, sempre que precisar
Seremos sempre quem teve coragem
De errar pelo caminho e de encontrar saída
No céu do labirinto que é pensar a vida
E que sempre vai passar por aí

Auras, carmas, drogas siderais
Ying, Jung, I Ching e outras viagens
Procurando deus entre delírios dos mortais

Seremos sempre assim, sempre que precisar
Seremos sempre quem teve coragem
De errar pelo caminho e de encontrar saída
No céu do labirinto que é pensar a vida
E que sempre vai passar
Sempre vai passar por aí

Um comentário:

Mauricio V. Almeida disse...

Olá Marcelo. Chimarrão nesse friozinho de Toronto, é... Deve ser muito bom. Abraço.