Enquanto voltávamos para casa, ontem à noite, quase chegando em Porto Alegre, a chuva constante e a rodovia pouco iluminada, ouvíamos música do rádio. Isso, rádio. Não era Spotify ou Apple Music ou outro streaming de música. Sábado à noite, música no rádio do carro.
Ouvimos uma sequência de versões do tango ‘Por um Cabeza’, de Gardel, que é perfeita para se ouvir com o clima do momento, noite e chuva. Não me canso nunca de enaltecer a beleza do tango, e de outras formas musicais do sul do mundo, como a milonga, por exemplo. A vontade de revisitar Buenos Aires, aumenta muito nesses casos.
Falávamos, enquanto voltávamos para casa, sobre a passagem do tempo, mais uma vez. O nosso tempo, que já é a maior parte de nossas vidas. E de como passou assim, quase sem que o percebêssemos, como se tivéssemos acordado um dia e – do nada – estamos juntos há trinta anos. Trinta anos!
O curioso é que ainda olho no espelho e vejo alguém jovem, e sei que esse conceito é elástico, flexível, e dependente do observador e da comparação com o(s) outro(s), os que estão próximos ou não. Olho no espelho e, confesso, gosto de quem vejo.
O domingo amanheceu em silêncio, chuvoso e lento.
Por una cabeza, todas las locuras
Su boca que besa
Borra la tristeza
Calma la amargura
Por una cabeza
Si ella me olvida
Qué importa perderme
Mil veces la vida
Para qué vivir
Até.